Era para ser você
15 Em busca do amor
Notas iniciais
Em algum momento depois de desligar o celular, Meredith e eu escolhemos um filme online para assistir e de repente entramos em uma crise existencial em relação a nossa vida amorosa.
— É errado querer alguém que elogie meu sorriso ao invés do meu traseiro? – perguntei com indignação.
— Não — ela balançou a cabeça enfiando uma colher de sorvete na boca. Porque em algum momento da nossa crise, compramos sorvete. – É completamente aceitável. A quantidade de cantadas machistas e nojentas que escuto no Skulls me faz perder a fé nos homens.
Assenti.
— Até agora o único cara com quem namorei se provou um babaca no final do nosso namoro – murmurei desanimada.
Caio foi o primeiro namorado que tive. Ele na verdade foi meu primeiro tudo. Primeiro beijo, primeiro namorado em seguida, e logo após no meu primeiro ano da faculdade o primeiro com quem dormi. Nós gostávamos um do outro de verdade, mas aparentemente Caio não podia ter uma relação monogâmica e precisou ficar com a minha prima Clara. Reuniões de família que antes já eram ruins se tornaram insuportável.
Meredith olhou para a tela do computador e bufou.
— Lembra-se daquele cara que não queria me deixar trabalho no Skulls porque segundo ele era um antro de perdição? Qual era mesmo o nome dele? Joseph?
Cobri o rosto com as mãos rindo. –Algo como isso. Ele parecia tão normal a distancia. Tão bonito! – lastimei. – E o pior de tudo é que não é o único que tem esse pensamento machista e ultrapassado. ''Mulher minha não trabalha, e muito menos em um antro de perdição como aquele'' – repeti suas palavras rindo e torcendo os olhos. – Pelo amor de Deus vocês se conheceram no Skulls e enquanto você trabalhava. Que mente fechada!
— Nossos pais é que tiveram sorte, não é? Parece tão difícil achar uma relação como a deles. Thor lambendo as patinhas olhava para nós duas de tempo em tempo. Seus grandes olhos redondos brilhavam como se debochando da gente.
— A relação dos meus pais nem de longe foi fácil, mas entendo o que quer dizer. Quando eu era mais nova ansiava viver algo com o que eles têm. Parecia tão belo a forma como enfrentaram tudo e ficaram juntos que mesmo agora me pego fazendo isso.
— Conte novamente como seus pais ficaram juntos. Toda vez que escuto essa história me sinto menos propensa a encontrar caras como Joseph.
Sorri. – Eu também.
Sempre houve um milhão de motivos para que eles não dessem juntos. Para começar meu pai mal falava português. Sua vinda ao Brasil foi por sorte. Uma sorte obtida através de uma mesa de jogo. A passagem que ele ganhou foi para São Paulo onde ele ficou por algum tempo, até tentar trabalho nas fazendas do Sul. Nada tinha sido fácil para ele até então. Suas primeiras lembranças foram às paredes de um orfanato, e apesar da minha insistência ele não me conta muito da sua vida na Inglaterra. Não dessa época pelo menos. E minha mãe... Ela estava de casamento marcado, mas no momento em que pôs os olhos no meu pai seu coração pertenceu a ele. Como desculpa para ficar perto dele, minha mãe o ajudou na língua portuguesa, e esse era o único avanço que o inglês bonito e rústico como ela o chamava secretamente deixava que ela tivesse. Ele era tão bom em guardar seus sentimentos. Com o casamento cada vez mais próximo, ela fez um ultimo apelo. Disse que se ele gostasse dela da mesma forma só precisava dar um sinal. Um sinal era tudo que precisava para o casamento acabar.
—Qual foi o sinal que ele deu?-Meredith exigiu quando fiz uma pausa para comer uma colherada de sorvete.
—Ele a roubou da igreja.
Seu queixo caiu.
— Por que diabos ele esperou tanto tempo?
Nós duas suspiramos. Durante minha infância era extremamente fácil acreditar em príncipes e amor eterno vendo a forma como ambos completavam um ao outro.
Meu sorriso morreu quando lembrei a continuação da história.
—Meus avós nunca viram meu pai como igual por ser negro. Para eles casar com um negro era pior do que fugir do próprio casamento — meus olhos encheram-se de lágrimas de raiva e ressentimento. — Eles imploraram que ela dissesse que meu pai tinha forçado-a a fugir. E quando sua resposta foi não, eles responderam que a partir daquele dia só tinham uma filha.
Meredith ficou em silencio, sua mente trabalhando as novas informações. Essa parte da historia eu nunca havia contado.
—Eles a renegaram... Porque ela escolheu ficar com o homem que amava independente da cor da pele dele? – Meredith indagou com nojo.
Assenti num movimento de cabeça duro. — Levou um grande tempo para eles aceitarem a união dos dois. Um grande tempo. Eu tinha quatro anos quando minha mãe voltou a ver os pais. Sonia estava casada e tinha uma filha. Clara. E bom Deus Sonia é uma verdadeira cadela invejosa. Sempre teve ciúmes de tudo que minha mãe tem. Sei que parece um pouco clichê, mas acontece que é a pura verdade. Você pensaria que depois de conseguir ficar com Caetano – o antigo noivo da minha mãe – ela seria capaz de deixar meus pais em paz- limpei as lágrimas dos meus olhos antes que pudessem ser derramadas e bufei. — Entretanto sua missão de vida é atormenta-los. Até hoje. É por isso que não entendo como conseguiram perdoa-los se até mesmo eu sinto raiva. Sei que se pudessem esconder isso de mim meus pais teriam feito, mas com todos os olhares tortos que meu pai recebia e com a quantidade de vezes que Sonia usava Caetano como um troféu ficou obvio que algo estava errado. E se isso não fosse um indicativo... Perdi a conta de quantos jantares de família foram arruinados por alguém querer lavar a roupa suja. A família da minha mãe sempre teve uma boa estabilidade financeira, mas meus pais sempre se recusaram a pedir ajuda a eles, não só por orgulho, mas porque a única vez em que pediram ajuda foi negada. Eles não quiseram ajudar meu pai quando ele teve câncer. É horrível admitir, mas parte minha ainda acha que eles ficaram aliviados quando acharam que ele podia morrer. Esse é o tipo de gente com o quem compartilho o sangue. Meus pais é que são a minha família Mer. Meus pais e agora você. Eu odeio a forma como o restante da minha família tentou estragar algo tão bonito por puro preconceito. Meus avós tornaram minha mãe uma pária e renegaram meu pai por sua cor — levantei meu braço nu e fitei minha pele negra. — Então renegaram a mim.
— Entendo porque você quer ver apenas a parte bonita da história – Mer murmurou fungando. – Eu faria o mesmo, não é o que merece ser lembrado.
**
Os únicos sons eram o da cidade lá fora, e os ocasionais arranhões de Thor no chão por não estar recebendo atenção. Não era minha intenção cair num silencio desconfortável, mas o bom de ter alguém como Meredith por perto é que isso não importava.
— Depois de ouvir essa história me sinto compelida a ir atrás do cara certo – ela murmurou séria, apesar da diversão nos olhos.
Joguei meu travesseiro nela. – Debochada.
— Quero dizer – continuou ela agarrando o travesseiro — quão difícil deve ser encontrá-lo numa das cidades mais populosas do mundo? Vai ser moleza!
Ergui minha sobrancelha zombando.
— Como você sugere que façamos isso? – raspei o restante do sorvete com a colher. – Site de relacionamento? – sugeri brincando.
Os olhos de Meredith faiscaram em divertimento e aprovação. – Gostei da ideia.
Oh não.
— Não seja louca! Não vai acontecer.
— Jas...
— De jeito nenhum – dispensei a ideia.
Mer grunhiu jogando as mãos para o alto. – Qual a pior coisa que pode acontecer?
— Oh não sei dar de cara com um assassino profissional?
— Por favor – ela bufou. – Você anda lendo romances policias demais.
Resmunguei. – Não. Apenas ando assistindo ao noticiário. Porque não começa a fazer isso qualquer dia desses?
Na verdade eu odiava assistir ao jornal, e Meredith tinha razão eu andava lendo romances policias demais, porém essa informação podia ser acrescentada a conversa apenas mentalmente.
— Por que um serial kellier iria marcar encontros pela internet? – argumentou cética.
Foi minha vez de jogar as mãos para o alto dramaticamente. – Meu curso da faculdade é design não psicologia.
Ela bufou. – Você entendeu meu ponto, espertinha.
— Você é louca. Isso tem tudo para dar errado.
— Como se estivesse muito atrás de mim nesse quesito. Vamos lá o que de mal pode realmente acontecer se fizermos uma tentativa? – disse piscando os olhos e cutucando meu ombro com o dela.
Esfreguei o rosto franzindo os lábios. Além do que acabei de pontuar?
— Ah qual é nós duas sabemos que você está ao menos curiosa.
Suspirei. Maldita seja Meredith por ter razão.
— Uma tentativa – cedi. – Apenas uma.
"As grandes coisas se partem em pequenas. As coisas pequenas viram pó." – Provérbio Japonês.
Fale com o autor