Era para ser você

40 Sweet Flavors e sundaes deliciosos


Notas iniciais
Como pedido de desculpas pelo atraso da semana passada escrevi um capítulo gigante e só queria dizer que... AMO CHASE E VOU DEFENDÊ-LO ♥

Chase tinha um sorriso tão iluminado que você pensaria que ele ganhou na loteria e não uma simples rodada de bebidas grátis. Eu ri sem jeito e nem um pouco surpresa com a minha falta de sorte. Se houve algo fiel e que nunca me abandonou em todos esses anos foi ela.

– Você trapaceou não foi? – guardei a moeda de volta na bolsa e ergui a sobrancelha para ele. Era besteira gastar saliva com isso, mas só então percebi como minha ideia foi boba, porque eu tinha basicamente meu passe do metrô na bolsa e dez dólares.

– Como se trapaceia no cara ou coroa, gênia?

– Você é quem tem que me dizer! – desafiei rindo. Era patético, eu sei, mas achei que me sairia bem e ganharia sorvete de graça.

Dei de ombros sorrindo e continuei.

– Certo, tenho uma proposta – joguei minha bolsa por cima do ombro e suspirei. – O que tenho de dinheiro na bolsa não dá nem pra passar pela porta de um bar. Que tal deixarmos isso para outra hora?

Para qualquer olhar desatento, Chase pareceria indiferente, mas para mim ele parecia quase desapontado.

– Quanto você tem?

– Doze dólares – revelei o valor na minha bolsa. – Acho que vai ter que beber sozinho esta noite, companheiro.

Ele pareceu considerar o que eu falei por alguns segundos até que estalou os lábios, como se achasse uma solução.

– Abasteci a geladeira recentemente, podemos ir para minha casa, se quiser.

Meu sorriso vacilou, ficando tenso no meu rosto. Franzi as sobrancelhas. Oh não, pensei. Talvez Chase fizesse o tipo babaca. Toda a minha vontade de passar tempo com ele azedou. Acho que isso ficou nítido demais, pois ele ergueu as mãos em sinal de rendição.

– O que vou dizer – começou com calma – vai soar meio babaca, e talvez meia dúzia de caras possam ter dito isso antes, mas não tenho segundas intenções e, ao contrário deles, realmente não tenho quaisquer outras intenções.

Abri a boca para falar, ao passo que ele acrescentou:

– E você não faz meu tipo. – Ergui as sobrancelhas novamente, vacilando com suas palavras. Ele suspirou. – Isso soou rude? Não foi minha intenção. Juro.

Deus, eu estava sendo ingênua em acreditar? Ele parecia sincero demais para um mentiroso. Lembrei-me do meu pai e dos seus conselhos sobre homens.

Homens mentem tão bem que eles mesmos acreditam em suas mentiras.

Observei Chase por longas batidas desconfortáveis, decidindo o que fazer. Era só uma bebida, certo? O que podia dar errado?

Muita coisa se tratando de mim.

Eu sabia que deveria decidir logo, porque estava parecendo uma louca encarando-o fixamente. Inquieta, sem sair do lugar, me remexi. Santo Deus! Minha mente estava dando um nó. E se ele tentasse algo? Não seria o primeiro a usar um sorriso doce para persuadir alguém. O estranho é que minha intuição dizia que ele era outro tipo de cara.

– Onde você mora? Muito longe daqui?

– Meia hora – ele respondeu quietamente. Esperou uma resposta e quando não dei nenhuma balançou a cabeça, como se falasse algo para si mesmo mentalmente. – Cruzou com tantos babacas assim?

Soltei o ar.

– Mais do que você pode imaginar. Infelizmente.

Esperei e esperei que algum sinal de alerta viesse, mas nenhum veio. Ainda assim, me senti estranha de ir para casa de um cara que mal conhecia. Chase parecia legal e pelo pouco que eu o conhecia podia apostar nisso, mas segurança nunca era demais. Sobretudo com meu histórico de confusões.

Quando não cedi, ele franziu os lábios num sorriso falso e tenso. Normalmente era nessa hora que caras que não sabem ouvir NÃO surtavam e mesmo sem querer me preparei para isso.

– Pode ficar para outra hora – sugeriu. – Mas fique sabendo que vou cobrar minha rodada de bebidas grátis – deu de ombros. – Tenho uma boa memória quando o assunto é álcool.

Isso inesperadamente deixou o clima mais leve e eu ri agradecida.

Certo, talvez ele fosse mesmo legal. Se bem que era obrigação de qualquer ser humano meramente decente aceitar um não e respeitar isso.

– O quê?

Meu rosto aqueceu quando notei o que tinha dito em voz alta. Esfreguei os olhos pensando em como sair da saia justa. Por fim dei de ombros e falei a verdade.

– Achei que você ia surtar ou algo assim.

– Algo assim? – riu ele. – Me ilumine.

Senhor, quanto sarcasmo!

– Homens não conhecem limites. É como se vocês apenas tapassem os ouvidos para as recusas que nós mulheres damos em vocês. – Percebi que ele estava prestes a discordar e segui falando. – Como quando estamos na balada e alguém nos convida para dançar, e um simples não, infelizmente, não é recado o bastante e vocês continuam insistindo. Ou então quando...

– Não sou assim – interrompeu desconcertado.

Suspirei.

– Bom! Mas eu já esbarrei com mais idiotas do que gostaria de lembrar e não dá pra simplesmente dar sorte ao azar.

Isso pareceu atingi-lo e gostei disso. Sua boca abriu e fechou algumas vezes, ficando nítida a sua procura mental pelas palavras certas.

– Eu não sou assim – repetiu. – É só o que posso garantir... E eu não sei como provar isso, mas gostaria de fazê-lo, se possível.

Deus ele tinha conseguido me deixar realmente confusa. Era minha vez de ficar sem palavras.

Sorri.

– Não tem que fazer isso. Você já se mostrou legal o bastante.

– Não! – ele balançou a cabeça sério. – É meu dever mostrar que nem todo homem vai ser um...

– Babaca misógino? – eu o interrompi rindo. – Relaxa você não tem que provar nada.

– Isso serve. – parou de falar me olhando pensativo. – Você conhece um lugar chamado Sweet Flavors?

Tive uma sensação de déjà-vu, como se conhecesse, embora não lembrasse de ter estado num lugar com esse nome.

– Sim... Quer dizer não.

– Hum? – indagou confuso.

– Na verdade, mais ou menos – esclareci. – Sinto que já ouvi falar desse lugar, mas nunca estivesse de fato lá.

– Um pouco confuso isso, mas entendi... Acho.

Rolei os olhos.

– Onde fica? Ou melhor, que lugar é esse?

– É um dos meus lugares favoritos! – Chase comentou, mexendo no bolso da calça e puxando a chave do carro. – Quer dar uma passada lá antes de ir pra casa? A conta é minha – acrescentou.

O que de ruim podia acontecer? Perguntei-me mentalmente, ao passo que minha mente prontamente me respondeu: se tratando de você muita coisa!

– Vamos! – respondi, ignorando a voz da razão.

***

Chase tinha carro, então não usamos o metrô como achei que faríamos. Ele dirigia calmamente, como se não quisesse me assustar com movimentos bruscos. Era engraçado, mas o cansaço do dia todo estava tendo seu melhor efeito sobre mim e sua lentidão ao dirigir estava me dando sono.

Seu carro estava caindo aos pedaços, mas, quando comentei isso, ele pareceu dramaticamente magoado e disse para eu não chamar Mary de sucata. Sim. O carro se chamava Mary.

Estranho.

Nós não falamos por quase todo o trajeto, que na verdade não durou muito tempo, apenas cerca de vinte minutos. Fiquei olhando para fora da janela enquanto avançávamos pelo caminho e havia uma sensação confortável nisso. O silêncio não estava constrangedor e conforme Chase dirigia o sono começava a me dar sinais. Por duas vezes pensei em pedir para ele tomar o caminho de volta e me levar para casa, mas desisti.

Por fim, quando chegamos, precisei conter alguns bocejos e esfregar os olhos para me manter totalmente acordada.

– Chegamos! – sua animação era tão palpável que até sorri.

Aconchegante.

Essa foi à primeira palavra que veio à minha mente quando entramos na Sweet Flavors. Era uma espécie de lanchonete e restaurante de uma vez só, com uma decoração simples e acolhedora.

Quando abrimos a porta e entramos, ouvimos um barulho por conta do sino pendurado, que creio estivesse ali justamente para alertar a entrada de pessoas. O restaurante tinha alguns clientes. Uma senhora de no máximo sessenta anos, tomando uma xícara de café, um casal de jovens mais ocupados com seus celulares do que em olharem um para o outro, um homem calvo perdido em seus próprios pensamentos e por fim nós.

Chase escolheu um dos lugares perto da janela. Quase que instantaneamente, depois de nos sentarmos, uma senhora de cabelos brancos e sorriso doce saiu de trás do balcão e caminhou até nós.

Chase se levantou para cumprimentá-la o que me deixou um pouco surpresa e me perguntando se deveria fazer o mesmo.

– Por que você precisa aparecer quase na hora de fechar? – ela fez uma careta balançando a cabeça de forma reprovativa.

Chase riu.

– Vocês só fecham depois das três, ainda tenho tempo. Queria apresentar esse lugar para alguém.

Isso fez com que ela finalmente dirigisse sua atenção a mim. Em seu crachá, grudado no avental, estava escrito Tifanny. Rangi os dentes com a ironia.

Dei um sorriso tenso.

– Olá! – tentei soar simpática, mas acabei soando falsa demais. Também, caramba, de todos os nomes, justo esse! – Sou Jas.

Tifanny olhou de mim para Chase com um olhar suspeito e desejei ler mentes para saber exatamente o que se passava na dela.

– Bem vinda, meu bem! – sua voz era tão doce quanto seu sorriso.

Soltei o ar. Talvez nem todas as Tifannys do mundo fossem esnobes e cretinas.

– Já sabem o que vão pedir? – Tifanny indagou.

Peguei o cardápio, pensativa. Na verdade eu não estava com fome, mas comeria algo mesmo assim.

– Dois sundaes tamanho gigante – Chase falou rápido.

Larguei o cardápio surpresa em cima da mesa.

– Sundae? – Tifanny e eu perguntamos ao mesmo tempo.

Ele deu de ombros.

– Sim, sundaes!

***

Conversamos sobre a faculdade e sobre nossos planos para quando ela acabasse. Contei a ele que voltaria para o Brasil e tentaria um emprego por lá, enquanto Chase revelou que pretendia continuar trabalhando no mesmo estúdio de tatuagens em que trabalhava por mais um tempo, até decidir o que fazer.

– Na verdade tenho poucos amigos aqui – expliquei. Peguei meu celular da bolsa e abri a galeria. – Essa é minha melhor amiga, Meredith – levantei o celular para que ele pudesse ver a foto que eu estava mostrando. Era uma foto minha e de Mer, na nossa última bebedeira no Skulls. – Esses são Susan e Eoin – passei as fotos até achar uma foto dos dois sorrindo um para o outro num almoço em meu apartamento. – Essa é minha amiga Julyan e seu filho – sorri ao olhar para meu celular e ver uma foto de nós três espremidos no meu sofá. – E basicamente esse é o fim do meu ciclo de amigos – dei de ombros. – Não estou reclamando, pois eles são tudo que preciso para ser feliz aqui. – Não soube se deveria falar de Will porque sequer sabia se éramos ou não amigos.

Foi no meio da conversa que percebi porque o nome do restaurante era familiar.

Foi onde Will quis me levar no nosso primeiro “encontro”, encontro esse que cancelei para ir com Mer até a exposição. De repente, fiquei juntando os fatos e me perguntando quão diferente as coisas poderiam ter sido se eu tivesse vindo com ele.

Olhei para a grande maravilha em frente a mim e sorri largamente. Sorvete era sem dúvida um dos meus maiores amores. Cutuquei uma das bolas de sorvete com a colher e levei até a boca deixando o sabor explodir na minha língua.

– Você encontrou o que queria? – perguntei aleatoriamente, esquecendo que Chase simplesmente não era capaz de ler mentes.

– Não entendi! — ele ergueu a sobrancelha, tomando um pouco mais do seu sundae.

– Sábado, na galeria – reformulei. – Você disse que estava lá por alguém.

Seu sorriso congelou no rosto e seus olhos revelaram tanta fragilidade que disfarcei os olhos por uma batida.

Pergunta errada.

Era estranho ver como uma simples pergunta tinha o deixado tão desconfortável.

– Depende do ponto de vista – ele cutucou seu sundae com um pouco mais de força do que o necessário e rangeu o maxilar. – Depende muito do ponto de vista – continuou.

Não sabia se deveria ou não insistir no assunto, por fim devorei meu sundae um pouco mais dando tempo a ele para decidir.

– Você já teve a sensação de estar andando em ciclos com alguém? – ele coçou o queixo suspirando. – Como se apenas ser sincero em relação aos seus sentimentos não fosse o bastante?

A pergunta foi tão espontânea que me deixou sem uma boa resposta.

– Não exatamente! – minha mente correu contra o tempo procurando algo decente pra falar. – Mas acho que entendo, sabe?

– Como?

– Sentimentos são confusos – falei comendo mais sorvete, que já estava quase no fim. – Nunca é preto no branco.

– Se você apenas soubesse o quanto.

– Qual o nome dela? – perguntei. – É alguma garota da faculdade? Nunca vi você sério com nenhuma garota, apesar de estar cercado delas o tempo todo – brinquei.

Soube que tinha falado a coisa errada de novo quando ele soltou um suspiro.

– Ninguém da faculdade – murmurou passando as mãos pelo rosto com um olhar quase debochado. – Quando o sorvete vai congelar os sentimentos? – ele riu. – O álcool já teria feito efeito a essa altura.

Dei um tapa em seu braço rolando os olhos.

– Cala a boca! – zombei. – Você deveria me agradecer por não ter uma ressaca quando acordar.

– Não tenha tanta certeza! – retorquiu.

Sorri e então limpei a garganta.

– Se isso te faz sentir melhor, sábado não foi um bom dia para mim também.

– Eu deveria dizer que isso não me fez sentir melhor, mas saber que não sou o único azarado é bom.

– Oh, você com certeza não é – rolei os olhos rindo! – Eu sou conhecida entre meus amigos pelo meu adorável azar.

Ele riu.

– Difícil – insistiu. – Minha habilidade é estragar tudo sempre.

– Isso é uma competição? – franzi a testa, olhando-o com diversão.

– Não, porque você com certeza perderia.

Não havia mais nenhum cliente no restaurante, e quando olhei o relógio na parede em forma de hambúrguer me surpreendi ao perceber que já estávamos ali a mais de uma hora. Lembrei-me da conversa de Chase e Tifanny, sobre o restaurante fechar as três, e decidi que ainda tínhamos um pouco de tempo a desperdiçar.

– Eu tinha um encontro no sábado – comecei. – Mas minha melhor amiga estava empolgada com a exposição, ela ama fotografia e tínhamos combinado de ir juntas há muito mais tempo e...

– Direto ao ponto – ele riu. – Você divaga demais.

Eu sequer podia argumentar sobre isso, porque ele tinha razão.

– Não fui ao encontro, mas fui à maldita exposição – rangi os dentes. – Encontrei meu chefe lá.

Ele franziu o cenho e fez uma careta engraçada.

– Isso é ruim, mas não te torna tão azarada assim.

Eu o ignorei e segui falando.

– Nós nos beijamos! – continuei e com satisfação vi seus olhos aumentarem de tamanho. – E eu acho que estou apaixonada por ele.