Era para ser você
41 Chicago, malas prontas e sentimentos ocultos
Notas iniciais
Se eu sobreviver à viagem de Chicago, poderei me considerar imbatível. Certo, talvez isso seja um tanto quanto exagerado, mas eu não ligo. É de Mabuchi que estamos falando. A viagem será amanhã e eu estou quase pedindo aos céus uma gripe que me derrube na cama por uma semana inteira.
Meu querido chefe (haha) passou mais do que boa parte do expediente fora da empresa, algo sobre um imprevisto em sua casa, o que me fez ter que remarcar seus compromissos igual a uma louca. Fiquei curiosa para saber que tipo de imprevisto era, mas segurei minha curiosidade ao lembrar que sequer era da minha conta.
Dois dias se passaram desde que Chase e eu comemos sundae juntos e falamos sobre tudo.
A realidade do que admiti a ele me fez querer vomitar. Não sei porque disse aquilo. Queria tomar as palavras de volta e escondê-las de onde nunca deveriam ter saído.
Não sei se estou apaixonada por Mabuchi, às vezes sinto vontade de jogá-lo pela janela, então isso é um não. Definitivamente um não! Então por que eu disse o que disse?
Suspirei olhando fixamente para a tela do meu computador.
Acho que estou enlouquecendo, – murmurei — e não apaixonada. Pensei em Will e em como eu me sentia com ele. Ou em como deveria me sentir. Sentimentos são confusos, minha mãe já havia dito. Suspirei pensando em como isso era a coisa mais honesta sobre o que estava se passando comigo.
Ele é meu chefe – bufei. – A droga do meu chefe. Meu Deus!
Deitei a cabeça em cima da mesa e ri sem qualquer traço de humor. Era trágico e ainda assim irônico. Se isso não fosse o universo mostrando seu senso de humor, eu não saberia dizer o que era.
Estou indo embora de qualquer forma, lembrei a mim mesma. Seja o que for isso – que com certeza não é paixão e, bom Deus, nem amor – vai sumir. E logo! Virei o pescoço para o lado fitando o relógio e sorri aliviada por ver que faltavam três minutos para ir embora. O dia não tinha sido cansativo, não houve brigas ou discussões com Mabuchi, como era rotineiro, mas eu estava cansada ainda assim. Queria um banho, Thor e sorvete.
Muito sorvete.
Assim que chegasse em casa eu devo arrumar as coisas para a viagem. Escolher as roupas que vou levar, comprar comida extra para Thor e deixá-lo com Julyan, para ela cuidar dele enquanto eu estiver fora.
Três dias aturando-o.
Bom Deus misericordioso, eu espero que ambos voltemos inteiros para Chicago.
Desliguei o computador e alonguei os músculos das costas. Ficar na mesma posição curvada durante tanto tempo estava me acabando.
* * *
— Alô? – coloquei o celular na curva do meu ombro e pescoço e suspirei. — Preciso de ajuda.
— O que precisa? – Julyan indagou do outro lado da linha. – Jack não... sem TV até acabar a lição!
Sorri ao ouvir o resmungo contrariado de Jack, ao que Julyan respondeu.
— Porque sim! Porque eu sou a adulta e estou dizendo não! – mais resmungos e contrariedades da parte de Jack. — Fim de papo! – concluiu ela aumentando a voz apenas um pouco. – Acabe a lição e talvez possa assistir desenho se se comportar.
— Momento ruim?
Ela riu.
— Jack está fazendo a lição, mas segundo ele cinco minutos de televisão farão o cérebro dele funcionar melhor.
— Deixe-me adivinhar – sentei na cama e coloquei os pés para cima chutando as pantufas para longe – isso só funciona na cabeça dele.
— Unicamente na cabeça dele – concordou. – Mas do que precisa?
— Preciso arrumar minha mochila para a viagem de amanhã e não sei o que levar.
— Porque não? Basta colocar uma coisa aqui e outra ali e está feito. Serão só dois dias não é?
— Sim – balancei a cabeça deitando-me. – Mas eu nunca fui a uma viagem assim, entende? Não sei que tipo de roupa usar. Sendo sincera nem sei porque tenho que ir.
— Quer que eu vá até ai? Podemos dar um jeito nisso.
Olhei ao redor do meu quarto. Até uma hora atrás estava organizado, agora mais parecia um cenário de guerra com tudo espalhado do que qualquer outra coisa.
— Eu apreciaria muito isso – falei com sinceridade e alegria. – Muito mesmo!
* * *
Julyan era incrível. Se eu algum dia tivesse que defini-la com certeza usaria palavras como incrível, sensacional, maravilhosa e etc. Porque em menos de uma hora ela não só conseguiu me ajudar a organizar tudo que eu precisava levar, como também deixou meu quarto parecendo um quarto outra vez.
— Vai ser moleza – ela me tranquilizou. – Você vai se sair bem!
Esfreguei os olhos me jogando mais uma vez na minha cama. Tudo estava tão organizado quanto possível, mas eu tinha a impressão que algo iria acontecer.
— Tomara – murmurei baixinho.
A porta do quarto estava aberta para que mantivéssemos um olho atento em Jack, que estava assistindo televisão, pois já que tinha acabado a lição de casa. Thor estava com ele, era impressionante como eles se davam bem, já que em geral Thor fugia de humanos, por conta dos maus tratos que sofreu com os antigos donos.
— Eu estou me sentindo estranha sabe?
Julyan parou de dobrar uma peça de roupa que estava no chão e me fitou com curiosidade.
— Estranha como? – deixando a blusa de lado sentou ao meu lado. – Acha que não vai se sair bem?
Dei de ombros e encarei meu teto como se todas as respostas estivessem ali.
— Nós nos beijamos Julyan e agora vamos viajar juntos, tem ideia de como é estranho pra mim?
— Você é madura o bastante para deixar isso de lado – falou com calma.
Dei risada.
— Madura o bastante – repeti incapaz de me manter seria. – Claro porque essa é a primeira palavra que usam para me descrever.
— Toda vez que Jack me responde com sarcasmo e ironia eu o coloco de castigo, devo começar a fazer isso com você para que responda com seriedade minhas perguntas? – censurou de brincadeira.
Ri baixinho olhando para ela.
— É que, meu Deus, não sei mais como reagir perto dele, sabe? Ele é meu chefe e aquilo não deveria ter acontecido.
— Mas aconteceu – disse ela apertando de leve minha mão – e ficar pensando nisso é apenas dor de cabeça desnecessária porque não dá pra voltar no tempo.
Fiquei quieta. Julyan tinha sempre a coisa certa a dizer e irradiava calma. Queria ser como ela.
— Você voltaria se pudesse? — Não respondi. – Voltaria? – insistiu.
— Por mais errado que soe não. Não voltaria – soltei um gritinho de frustração. – Será que estou ficando louca?
Julyan riu e me lembrou minha mãe. Era um riso de quem sabia mais e eu odiei.
— Eu daria um outro nome para isso – comentou distraidamente sorrindo.
Rolei os olhos bufando.
— Você anda comendo algo estragado? — debochei. — Seja lá o que for que esteja comendo é melhor parar antes que te faça mal.
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