Era para ser você
11 Sotaque irlandês
Notas iniciais
Organizar os compromissos.
Responder aos emails que acumularam com o final de semana.
Telefonar para Alaric Eaton do setor de RTVC, e...
—Se você falar mais um aham, ou então der mais um balançar de cabeça, vou esquecer que somos melhores amigas e jogar você pela janela.
Ergui a cabeça e sorri com a declaração pouco afetuosa de Meredith.
—Desculpe. Eu estava distraída. O que você estava dizendo?
Meredith esbugalhou um dos olhos e ergueu uma sobrancelha.
—Pensando em que perfume vai usar na segunda, estou supondo — ela brincou piscando os cílios inocentemente para mim.
Rolei meus olhos e joguei nela a primeira coisa que alcancei que acabou por ser a almofada perto de mim no sofá.
—Que bom que uma de nós achou graça disso — resmunguei lembrando-me do que Mabuchi disse sobre o meu perfume no meio da semana. Girei meu lápis entre os dedos, pensando quão grande poderia ser o estrago se eu o enfiasse no olho do meu chefe.
—Quer ir até o pub? — Meredith olhou para os cadernos e livros em sua frente, e suspirou. Foi quase possível vê-la medindo estudos e diversão em uma balança invisível dentro de sua cabeça.
—Skulls?- perguntei. — Você quer ir ao bar em que trabalha na noite em que está de folga?
Eu sei — ela riu. — Loucura. Mas é o único lugar que conheço e que consigo pensar.
Bufei. Quem diabos era eu para falar de loucura quando estava mentalmente organizando minhas tarefas de trabalho apenas um segundo atrás?
—Nós não vamos voltar tarde, certo? Uma ou duas cervejas no máximo e estamos de volta?
—Não sei se tenho energia ou dinheiro para mais que isso de qualquer forma, Jasmim — ela informou levantando do sofá e pegando sua xícara de café vazia do chão.
Balancei a cabeça em concordância, e lancei um olhar para meus trajes. Quando vim para o apartamento de Meredith mais cedo, coloquei uma roupa confortável. Calças de Yoga e camiseta, para coroar o pacote um par de alpargatas velhas e furadas. Iríamos estudar logo conforto era uma boa jogada. Horas depois diante da ideia de sair para noite, o encaixe estava errado em mais de uma maneira.
—Posso pegar uma roupa sua emprestada? — questionei tomando o restante do conteúdo da minha xícara de café. Era potencialmente a terceira em menos de meia hora. Com as provas finais batendo na nossa porta, Meredith e eu estávamos dando tudo de nós. Estudando tanto quanto possível. Infelizmente nossa energia estava em falta, e café era tudo que nos restava para não fecharmos os olhos e cochilar em cima dos cadernos.
—Qualquer coisa — prontamente concordou com um sorriso enxaguando sua xícara suja na pia. — Aliás, tenho um vestido azul Royal que vai ficar lindo em você — seu olhar percorreu meu corpo como se me imaginasse vestindo-o e ela assentiu para si mesma. — Sim, tenho certeza que o vestido vai valorizar suas curvas. Quer que eu o pegue antes de entrar no banho ou pode procurar sozinha?
Encolhi os ombros e fechei meus livros encerrando de vez meu estudo. — Posso procurar sozinha.
Mer assentiu, mas antes de se afastar, acrescentou com um risinho: — Tem perfume na cômoda!
Praguejei sob a minha respiração e mostrei o dedo.
***
Meredith tinha razão. O vestido era lindo, e abraçou minhas curvas com perfeição. Era curto, e tinha um decote longo nas costas. Meu pai torceria o nariz em desaprovação, se me visse usando-o.
No tempo que Meredith demorou no banheiro, Loki dormiu e acordou pelo menos umas duas vezes aos pés da cama, fui capaz de me maquiar, e deixar meu cabelo com uma aparência decente. Veja bem, eu amo meus cachos, mas é bastante claro que eles não respondem meu amor, por que preferem se rebelar tanto quanto possível. Coloquei um sapato, peep toe preto com detalhes de spikes no salto e andei pelo quarto. Não importava para onde olhasse, havia fotos por todo lugar — fotografia era um hobby de Meredith, e possivelmente uma das únicas coisas no mundo que a deixava calma. Colocadas no espelho havia fotos nossas, e fotos dela com seus pais. No quadro de memórias — fotos de Thor, e Loki nas mais diversas posições, juntamente fotos de Eoin e Susan, e novamente minhas, e dos pais. Havia uma tirada há quase dois meses atrás dela, Eoin e Susan que eu havia tirado. Todos estavam fazendo caretas, com as bocas sujas de glacê por causa da torta que tínhamos acabado de comer. Paisagens e rostos desconhecidos estavam colados aleatoriamente pela parede, o que de alguma forma dava um toque aconchegante ao quarto minúsculo.
O que pareceu duas horas depois, Meredith entrou no quarto, inundando meus sentidos com cheiro de canela e rosas – seu perfume favorito.
— Aleluia! – debochei. – Achei que você tinha caído dentro do ralo.
Ela bufou. – Eu só demorei meia hora, rainha do drama – resmungou abrindo as portas do guarda roupa.
— Seu cabelo ainda está pingando água, e você ainda continua de pijama – apontei dando-lhe meu melhor olhar superior. — Meia hora no cabelo, e pelo menos 40 minutos na roupa.
Sua resposta foi me olhar por cima do ombro e suspirar dramaticamente.
— Cinco minutos e estamos fora – prometeu. — O vestido ficou bom em você a propósito.
Os cinco minutos foram alongados para 50 minutos.
Como éramos rostos conhecidos no bar, não precisamos enfrentar fila. Entre inúmeras cotoveladas, e pisadas nos pés depois dei meu primeiro gole de cerveja em meses.
Eoin estava atendendo no balcão principal — o balcão que Meredith geralmente tomava conta.
—Faz pelo menos um mês que não pisa no meu bar. Venho encher a cara ou sentiu minha falta? – perguntou no instante que seus olhos pousaram em mim. Apesar de estar conversando comigo seus olhos estavam em todo lugar. Atendendo aos clientes e dando uma atenção especial para os possíveis encrenqueiros.
Sorri. — Senti sua falta é claro. Além do mais como você sentiria minha falta se eu viesse o tempo todo aqui?
Uma loira sentada a dois lugares de mim acenou com a mão de unhas bem feitas para Eoin, quando conseguiu sua atenção sorriu sugestivamente deixando claro que não queria apenas bebida. Bufei em um sorriso. Eoin era um cara extremamente agradável de olhar. 40 e poucos anos, cabelo ruivo, olhos azuis brilhantes, sorriso grande, barba por fazer, um leve sotaque irlandês que o tempo não conseguiu apagar. Infelizmente para a população feminina só tinha olhos para a esposa. Ele colocou Meredith sob sua asa quando no instante em que ela pediu um emprego no seu bar. Quando fiquei desempregada ele me ajudou dando-me um lugar para obter meu dinheiro de forma honesta. Por diversas vezes quando as coisas estavam realmente ruins, recebi uma ligação sua pedindo-me uma mãozinha como garçonete. Sempre soube que a maior parte de suas ligações eram feitas porque ele sabia o que eu estava passando, apesar de Meredith e ele negarem até hoje. Eoin o cara irlandês que até hoje não sou capaz de pronunciar o nome corretamente, ofereceu-me a mão, e nem sequer piscou. Não é engraçado como a ajuda vem de onde menos se espera?
—Meredith comentou que você começou a trabalhar para um figurão de Manhattan — ele murmurou servindo uma bebida escura para um homem de sotaque alemão atrás de mim.
—Sr. Mabuchi — gritei para ser ouvida sobre a voz de Britney Spears.
— Sr. Mabuchi?- repetiu quando pelo canto do olho notei a loira tentando chamar sua atenção outra vez. — Você o trata por senhor mesmo estando fora do trabalho? Seus olhos franziram quando ele me lançou um largo e debochado sorriso. — Estranho.
Embora eu detestasse chamar bastardo arrogante de senhor, conforme a semana passou se tornou instantâneo me referir a ele assim. A única forma que encontrei de termos uma chance de uma convivência relativamente apaziguada era com distancia. E era mais fácil manter distancia quando pensava nele apenas como alguém que pagava meu salário.
—É complicado de explicar — dei de ombros esticando o pescoço para ver se Meredith já estava voltando do banheiro, embora a fila estivesse tão longa, que não seria exagero afirmar que ela poderia passar a noite inteira na fila esperando para usar uma cabine. — Nas nossas interações sempre pareceu que ele queria atirar na própria cabeça a passar mais tempo falando comigo. O sentimento é recíproco, por isso coloquei essa barreira quase sem notar. É mais fácil manter distancia dessa forma, entende?
A maior parte das minhas palavras se perdeu pelo volume da música, mas Eoin sacudiu a cabeça concordando seriamente.
Tomei um gole de cerveja – eu não gostava do gosto, mas era a única bebida que podia pagar e indaguei: — Você entendeu o que eu disse, ou apenas acenou porque não queria magoar meus sentimentos?
Por um breve instante as feições dele se transformaram em um ponto de interrogação gigante, e então ele sorriu e assentiu. – Claro Jasmim você tem razão – concordou respondendo minha pergunta apesar de não ter entendido-a.
Balancei a cabeça contendo uma risada e ele sorriu de volta completamente alheio.
A música de Britney parou e uma nova cantora começou a cantar no exato momento que Meredith parou ao meu lado.
—Achei que eu iria passar a noite toda na fila- grunhiu, e ao reconhecer a voz de Adele gritou tão alto que pulei na minha banqueta assustada. -Eu amo essa música!
Esfreguei meu ouvido, ainda sentindo seu grito ecoar dentro da minha cabeça. — Vá dançar!
Seu olhar foi de mim para a pista de dança algumas vezes duvidosa. -Dança comigo?
Balancei a cabeça vigorosamente. -De jeito nenhum.
—Por favor — implorou fazendo biquinho.
—Eu odeio quando ela faz isso — Eoin resmungou intrometendo-se na conversa. -Ela parece um cachorro que caiu da mudança. Não tem como dizer não.
Assenti oferecendo um olhar de pura de compreensão a ele e suspirei cedendo. -Só essa música.
Meredith soltou um gritinho animado lembrando-me uma criança hiperativa. — Só essa música. Prometo!
Tomei alguns longos goles de cerveja tomando coragem de ir para pista. Eu sabia dançar, só que não gostava de fazer isso em público porque sempre acabava passando vergonha tropeçando nos meus próprios pés ou coisa parecida.
—Vamos!
Eu parecia um pato manco.
O sapato que peguei emprestado de Meredith que pareceu tão lindo anteriormente apertava tanto meus pés que precisei dançar na sola dos pés para diminuir a dor. Estava ridícula, mas me divertindo. Adele acabou sua canção, e alguém cantando sobre fazer amor a noite toda tomou seu lugar. Meredith dançou a sua maneira, e estava mandando bem. Seus olhos estavam fechados enquanto se entregava a letra, por isso não notou a quantidade de olhares do sexo oposto que estava recebendo. Quando uma nova música começou, meus pés estavam me matando tanto que alegremente voltei a sentar no balcão, Meredith, entretanto tentou me convencer a dançar mais um pouco, mas nem seu biquinho persuasivo me convenceu quando colocado na balança com a dor nos meus pés.
—Ela é boa — Eoin exclamou descontente apontando com a cabeça para a pista de dança. -Só não gosto da quantidade de testosterona cercando-a — continuou parecendo um pai zeloso.
—Ela vai sobreviver — brinquei rolando os olhos e então pedi uma nova cerveja. Eu era muito fraca para beber, mas estava disposta a me divertir um pouco. Deus sabe que não tive qualquer diversão nos últimos meses.
—Como vai Susan? — Susan era esposa de Eoin, e uma mulher tão adorável quanto ele.
Enquanto Meredith era apegada a Eoin, sempre me senti mais próxima de Susan. Infelizmente em um dos exames de rotina, os médicos detectaram que o câncer de mama tinha voltado. Meredith chorou por uma hora inteira depois de me contar, e parte minha desconfia que o fato de ela querer ''encher a cara'' tenha a ver com isso mais do que qualquer outra coisa relacionada aos estudos.
—Ela começa o tratamento em breve — ouvi sua voz vacilar mesmo com a música pulsando por todo o meu corpo. — Os médicos estão esperançosos, então estamos otimistas. — Uma batida inteira se passou, enquanto revirei minha mente a procura da coisa certa para dizer, mas me encontrei completamente vazia de palavras tranquilizadora. Meu pai teve câncer de pulmão alguns anos atrás, e eu sabia por experiência própria que escutar algumas coisas só pioravam.
Ficando de joelhos na banqueta, joguei meus braços ao redor dele em um abraço estranho e desconfortável ignorando os olhares curiosos que estava atraindo.
—Vai dar tudo certo — falei porque essa era a coisa certa a dizer. Uma garantia vazia. — Susan é forte — acrescentei da forma mais encorajadora que pude dando um beijo na sua bochecha suada.
De volta ao meu lugar virei minha cerveja para cima acabando com o conteúdo. Meus olhos encheram d'água, o que me fez piscar até que as lágrimas estúpidas se formando sumissem. Rangi os dentes tentando entrar no espírito festeiro de todos ao meu redor, e desvie minha atenção para Meredith ainda dançando. Não funcionou.
— Mais uma cerveja – pedi empurrando a garrafa vazia para Eoin, e porque estava irada demais com o universo por alguém como Susan ter que passar por uma rotina tão dura outra vez, bebi mais quatro cervejas logo em seguida.
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