Era para ser você
12 Sobre ontem á noite
Notas iniciais

Ressaca é uma coisa do diabo.
O cerco de dor na minha cabeça aumentava, ao menor ruído. Como uma vingança pela noite passada. Junte isso ao fato de eu não ter obtido mais que duas horas de sono, e você vai chegar ao resultado final da equação. Minha aparência era semelhante à de um zumbi. Possivelmente pior.
Durante a madrugada Meredith e eu nos revezamos no banheiro. Cada de uma de nós lutando pelo direito de vomitar dentro do vaso sanitário desde o momento que Eoin nos deixou na porta do meu apartamento.
Eoin.
Como se não bastasse todas as suas preocupações com Susan e o bar, ainda teve de nos acrescentar a sua lista.
Chacoalhei a cabeça e empurrei esse pensamento para longe ao ouvir a voz de Mabuchi.
—Entre. — Equilibrei as pastas de documentos em meus braços e girei a fechadura preparando-me mentalmente para a carranca que ele parecia guardar especialmente para mim. Esta manhã, ela estava ainda mais profunda.
—Trouxe o que me pediu — comuniquei. Vacilei quando a luz da janela atingiu em cheio meus olhos sensíveis. O agarre sobre as pastas amoleceu, até que as mesmas espalharam-se pelo chão.
—Merda — praguejei, recolhendo os documentos caídos aos meus pés, deliberadamente evitando contato visual.
Mabuchi suspirou. Alto e longo. Como se eu fosse uma decepção apenas por continuar respirando.
—Eu honestamente não me importo com o que faz fora daqui – ele cuspiu as palavras parecendo irritado e frustrado. — Mas a partir do momento em que pisa dentro da minha empresa, é seu dever estar cem por cento apta a fazer seu trabalho.
Seus olhos me fitaram com indiferença, e desdém como se eu fosse um presente de Natal que não merecia ser aberto.
Coloquei as pastas em cima da mesa e assenti matando suas palavras no osso do peito. Minhas mãos tremiam de raiva. Raiva de mim mesma por ele ter razão.
Balancei a cabeça duramente, e sustentei seu olhar de censura lutando para não vacilar outra vez.
—Tem toda razão senhor. Desculpe.
Seus lábios foram para cima em um sorriso frio, o que de alguma forma só serviu para intensificar ainda mais sua carranca.
— Não constate o obvio. Pode se retirar.
Assenti novamente embora sua atenção já estivesse nas pastas colocadas em sua frente.
Na segurança da minha mente gemi afundando a cabeça nas mãos.
A pior parte? Bastardo arrogante tinha toda a maldita razão. Além de parecer uma morta-viva, meus pensamentos iam de tempo em tempo para Susan deixando-me emotiva e fora de controle. Eu não estava no meu melhor hoje, todavia tamanha grosseria não era necessária.
Abri minha caixa de email, e respondi aos emails acumulando-se aos montes. De forma lenta minha mente pareceu encontrar foco, e desligou-se de tudo que não tinha relação ao trabalho. Uma ligação de Espósito Hernandez, líder do Grupo Hernandez me tirou da minha bolha de concentração. Ao contrário da filha, ele dominava a língua inglesa. Falando-a muito melhor que eu. Passei a ligação para o escritório, e de repente meia hora se passou. Quando meu relógio digital anunciou meio dia agarrei o blazer das costas da minha cadeira, e fiquei de pé. Eu precisava esticar as pernas, e usar o banheiro. Não cheguei muito longe. Quando meu dedo tocou o botão do elevador, Mabuchi enfiou a cabeça para fora do seu escritório. A última troca de palavras que tivemos foi à meia hora atrás quando passei a ligação do senhor Hernandez para sua sala. Chegava a ser impressionante como mesmo estando tão perto éramos capazes de manter uma distancia tão considerável. Cada um de nós tornando as interações obrigatórias tão breves quanto possíveis.
Sua aparição tão abrupta assustou o inferno para fora de mim. Aparentemente sem se importar que quase tinha me dado um ataque do coração, ele rosnou:
— Pesquise tanto quanto possível sobre a marca Quimica Perfecta. Traga um relatório das campanhas que fizeram no último ano e seja o mais descritiva possível. Quero tudo que achar relevante — sua mão apertou os lados da porta com força. -É uma conta importante e não quero dar um passo em falso na quinta ou perde-la para alguém estúpido quanto Andrew.
Como se possível sua voz estava ainda mais infeliz, do que quando me censurou sobre derrubar os papeis no chão.
A porta estalou fechada antes que houvesse chance de esboçar uma reação ou responder. Olhei para as portas do elevador abrindo-se. Meus olhos do tamanho de pires.
Que diabo estava errado com ele agora? Melhor ainda quem no inferno era Andrew pelo amor de Deus?
Arrastei-me novamente para o cubículo que era minha mesa e joguei minha bolsa no chão frustrada. Cruzei e descruzei as pernas, sem saber por onde começar.
Voltei no tempo para entender o porquê de sua ordem. E não encontrei nada. Nada a não ser... A ligação de Espósito Hernandez.
O que bastardo arrogante havia dito? Não quero pisar em falso na quinta.
Abri sua agenda digital, e chequei seus compromissos.
Quinta-feira aconteceria uma nova reunião com Valentina Hernandez.
Humm.
Embora ela não estivesse plenamente satisfeita com a proposta oferecida no nosso último encontro, depois dos ajustes ela de fato tinha dito que a conta era da empresa. Quando passei a ligação de Espósito para Mabuchi achei que se tratava de puro praxe. Não fazia sentido.
***
Minha cadeira embora tivesse um design bonito tornou-se implacavelmente desconfortável com o passar das horas.
Já passavam das quatro, e eu ainda estava afundada até o pescoço fazendo pesquisas. Meu estomago roncava de instante a instante, e minha bexiga estava tão terrivelmente apertada que podia muito bem estourar qualquer momento. Mabuchi não saiu da sua sala nem para o almoço. Nem ele, nem eu.
Imprimi um gráfico sobre a penetração que o Grupo Hernandez tinha nas mídias sociais e coloquei na pasta vermelha perto do computador. Eu tinha colocado toda a informação que vinha coletando nas últimas horas em três pastas diferentes. Amarela, verde e vermelha.
Mesmo tendo pesquisado com Meredith sobre a Quimica Perfecta fiquei impressionada com a dimensão do Grupo Hernandez. Quimica perfecta era apenas um grão de areia comparado a tudo que o Grupo Hernandez possuía.
Finalizei tudo colocando uma última folha na pasta amarela e suspirei contente. Ajeitei uma mexa de cabelo e rumei até a porta do escritório batendo duas vezes antes de entrar.
A primeira coisa que notei foi sua mesa repleta de papéis. Bagunça, era algo que não se esperava de Gregory Mabuchi, embora a grande verdade seja que você nunca sabe o que esperar dele. A segunda foi que ele havia tirado o terno, e tinha dobrado a camisa até os cotovelos. A terceira foi que seus olhos estavam presos a mim. Cheios de confusão, e curiosidade.
—O que há de errado? – indagou passando as mãos pelos cabelos.
Meu rosto aqueceu, quando percebi que estava olhando-o fixamente. Fixamente, e sem nem ao menos piscar. Limpei a garganta, e murmurei a primeira coisa coerente que pensei: — Bagunça, não é algo que eu esperaria do senhor.
Mabuchi ergueu a sobrancelha como se eu tivesse deixado-o surpreso. Por uns bons 10 segundos mesmo ele parecia incerto do que dizer.
— E o que espera de mim?- A carranca tinha suavizado, mas seus olhos escuros continuavam afiados, retendo tudo e não devolvendo nada. Meu rosto ferveu colorindo minhas bochechas de vermelho. As palavras tinham feitos às malas, e tirado férias abandonando-me.
Coloquei as pastas em cima da mesa, e sem querer usei um pouco mais de força do que era necessário, mas não me importei.
—Tudo de relevante está aqui senhor — o desvio de assunto foi nítido e por um segundo estranho Mabuchi pareceu... Decepcionado. Ou isso, ou... Minha fome estava me fazendo ver coisas que não existiam.
—Porque colocou tudo em pastas diferentes?- ele suspirou tão logo coloquei as pastas em sua frente. — Eu devo perder tempo tentando entender sua desorganização senhorita? Será que não deixei obvio o quanto é importante saber onde estamos pisando?
Agradeci aos céus pela sua aspereza. Era mais fácil me manter no lugar tendo que lidar com ele sendo um bastardo odioso. Não havia muito espaço para pensar em Susan ou no resto da minha vida, quando eu planejava assassinatos sangrentos.
—Oh sobre isso — sorri orgulhosa. -Tomei a liberdade de colocar os arquivos em pastas diferentes. A pasta vermelha é a que eu recomendaria olhar primeiro. A verde mostra um pouco sobre a criação da marca Quimica perfecta e um pouco das outras marcas do Grupo Hernandez. Amarelas contém informações sobre a última empresa de publicidade com que trabalharam. Achei que dessa forma, seria mais fácil de encontrar o que queria e por isso faria com que perdesse menos tempo senhor — com mais um sorriso brilhante acrescentei:- Sei que provavelmente já tem conhecimento da maior parte do que trouxe, mas nunca é demais ter uma carga na manga.
Ele afrouxou o nó de sua gravata, e me fitou, quando abriu a boca para falar, sua voz pingou mau humor, mas havia algo mais escondido em seus olhos. Algo parecido como reconhecimento, fosse o que fosse sumiu tão rápido que eu podia muito bem ter delirado.
— Obrigada.
Meus olhos arregalaram-se. Jesus me ajude, ele sabe agradecer!
Com o pensamento, mal pude evitar um sorriso, e então como confirmação dos meus genes loucos, precisei me controlar para não soltar uma gargalhada.
Ele notou isso. Não me surpreendi, ele nunca perdia nada.
— Algum problema?
Balancei a cabeça, forçando meu rosto em uma expressão neutra, e conseguindo por pouco.
— Nenhum – disse e comecei a voltar para minha mesa, parando em seguida. A boa e velha cortesia falando mais algo. – Na verdade, – balbuciei –quero saber se quer que eu traga algo para comer já que não saiu para o almoço. – Assim como eu...
Se eu tivesse gritado que estava aderindo o nudismo na minha vida, e que iria começar a andar nua por ai, talvez ele tivesse ficado menos surpreso porque pelo olhar em seu rosto você pensaria que eu tinha confessado que era de Marte.
— Que comovente! Agora estamos preocupando-nos um com o outro? – debochou em tom esnobe baixando os olhos para os arquivos da pasta vermelha.
Cerrei os punhos. É tão surpreendente como um alguém na sua posição social consegue ser tão rude – guinchei mentalmente. Minha língua coçando para dizer as palavras em voz alta.
– Só quis ser gentil...
— Se eu precisar de algo, direi — interrompeu. — Pode sair.
O riso que muito dificultosamente engoli, rasgou seu caminho superfície a fora. Ou eu ria, ou o estrangulava. Minha cabeça explodiu em um milhão de pequenos pedacinhos de dor com o som, fazendo-me gemer e colocar minha mão na testa. Mabuchi olhou-me novamente como se uma cabeça extra estivesse nascendo em meu ombro.
Os olhos dele examinaram-me como se eu fosse uma estranha equação matemática que precisava ser resolvida. Os documentos que pareciam tomar sua atenção por completo anteriormente, deixados de lado. Minha vontade era de erguer meu dedo médio.
Resmungando baixinho comecei a me virar, entretanto como se o universo quisesse se divertir as minhas custas, um suave, quase inaudível clique foi ouvido, e eu quis chorar porque bem assim o salto do meu sapato quebrou.
Um dos meus sapatos favoritos.
Atrás de mim, uma risada baixa soou. Soprei o ar pelo nariz, e antes de fechar a porta, as seguintes palavras pularam para fora da minha boca:
— Embora seja indelicado observar, preciso dizer que tirou conclusões precipitadas, senhor. Não estou sendo gentil por preocupação. Se algo lhe acontecer quem pagará meu salário? — sorri e pisquei. – Uma batida inteira depois a realidade me atingiu com um tapa na cara. Bom Deus eu tinha realmente acabado de piscar para o meu chefe?
Bati com a porta, e me atirei na minha cadeira. Meu tornozelo protestando e latejando. Meus dedos terem sido esmagados na noite passada não tinha sido o suficiente obviamente.
Tirei meu sapato, e massageei meu tornozelo esquerdo, estremecendo ao toca-lo. Num olhar superficial, ficou claro que não estava torcido, apenas dolorido e sensível.
Bufei. Qual era o problema daquele homem? Porque era assim tão engraçado me ver no limite?
Minha barriga roncou, e ergui minhas mãos para cima fazendo um gesto obsceno que faria minha mãe me puxar pelas orelhas. Empurrei meu sapato para baixo da mesa, e suspirei. Um nome em especial uniu-se aos meus pensamentos.
Andrew.
Peguei uma barra de cereal de dentro da bolsa, e dei uma mordida grande e raivosa.
Joguei o nome Andrew no Google, mas como eu esperava foi uma total perda de tempo. Obtive resultado sobre um ator chamado Andrew Evans que interpreta um personagem chamado Joe em uma série adolescente, um Andrew cantor, modelo, e até mesmo um site sobre alguém com esse nome que presta serviços para mulheres carentes e sozinhas. Todos inúteis, pois dificilmente os resultados se referiam a quem Mabuchi tinha chamado de estúpido. Talvez o último eu devesse salvar nos favoritos do computador, apesar de tudo... Nunca se sabe o dia de amanhã.
Enquanto devorava minha barra de cereal, fui juntando as peças, e criando teorias. Será que Andrew é de uma empresa concorrente? Faria sentido.
Espósito tomou a frente das negociações, quando Valentina já havia resolvido tudo, será que isso significava que alguma outra empresa ofereceu uma proposta melhor? Não havia amarras, além da palavra dela, logo isso embora de antiético, era possível. Lembrei-me de sua gentileza comigo na reunião, e não consegui imagina-la fazendo algo assim, o que apenas tornou tudo mais confuso.
Em uma junção de teorias, e pensamentos confusos, fui arrastada para a primeira vez que conversei com alguém em espanhol. Tinha sido para acalmar uma noiva em prantos e certamente foi tão insano quanto ser uma tradutora fajuta. Dei risada de mim mesma, por não ter lembrado isso antes.
A noiva tinha desistido do casamento poucas horas antes que ele de fato acontecesse por ter descoberto uma traição entre seu futuro marido, e sua melhor amiga. Meu instantaneamente coração se partiu quando abri a porta do seu quarto para limpá-lo e a encontrei no chão vestindo um lindo vestido de noiva vintage. Batom borrado, penteado desmanchado, e rímel preto escorrendo pelas bochechas graças lágrimas.
Não havia muito que dizer á ela principalmente porque mal falávamos a mesma língua, então fiz o que qualquer pessoa faria xinguei com todos palavrões que conhecia seu noivo e pedi a cozinha para trazer sorvete.
No dia seguinte ela já tinha ido embora, mas havia uma carta em meu nome na recepção agradecendo pela ajuda. Uma semana depois Dylan me demitiu.
Sempre me perguntei que destino àquela mulher de coração partido teve, assim como sempre me questionei que tipo de homem trai sua noiva horas antes do casamento.
O pior tipo. Ou como Meredith diria o tipo de homem que deve ser castrado.
‘’As dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas. ’’
— Provérbio japonês.
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