Era para ser você

35 Saudades de casa, bolo de chocolate e aplicativos para encalhados no amor


Notas iniciais
Oi ♥ tudo bem com vocês?

Meredith e eu conversamos até as cinco da madrugada e acabamos dormindo ali mesmo, no meu sofá, que é pequeno, ainda mais com as tendências espaçosas que ela tem. Quando acordei perto das onze, Mer tinha parcialmente me jogado para fora do sofá. Suas pernas estavam em cima das minhas, cabeça no meu ombro e uma mão no meu rosto. Levantei com cuidado, desfazendo-me do seu enlaço estranho e fui fazer café. Soltei um bocejo de sono e cocei a cabeça. Demorou um pouco para eu acordar de verdade e mesmo assim não podia dizer que estava totalmente lúcida. Sempre demoro mais do que o restante das pessoas ao meu redor para despertar totalmente.

Apesar de estar dolorida, foi uma boa noite de sono – melhor dizendo, algumas horas de sono – e tive um sonho estranho com meus pais. Um fragmento de uma conversa de anos atrás. Ao mesmo tempo em que foi reconfortante, me deixou com a pulga atrás da orelha sobre o porquê de ter sonhado com isso justo agora.

O sonho começava comigo chegando da escola, talvez com quinze ou catorze anos. Estranho como alguns detalhes estavam tão vívidos na minha mente, eu me lembrava até da roupa que estava usando, jeans e uma blusa de verão florida.

– Como a gente sabe que tá apaixonada? – perguntei para minha mãe pendurando a mochila numa das cadeiras da cozinha. Tinha feito essa pergunta porque, Letícia, uma amiga de escola da época, tinha mais uma vez reatado com o namorado. Eles viviam brigando, mas sempre voltavam um para o outro. Um dia desses entrei no Facebook e dei de cara com uma foto dos dois. Estavam noivos. Noivos! Quem diria que mesmo com tantas idas e voltas os dois continuaram juntos anos depois?

– Algum motivo especial para essa pergunta? – minha mãe ergueu a sobrancelha curiosa e pensativa ao mesmo tempo.

– Espero que não! – meu pai surgiu dos fundos da casa me assustando. Ele era insuportavelmente bom em aparecer do nada, sem que ninguém percebesse. – Está cedo demais para querer saber disso, não acha?

Assim como eu, minha mãe rolou os olhos. Inacreditavelmente meu pai ainda me faz a mesma pergunta. Acho que para ele sempre vou ser nova demais para me envolver com alguém, mesmo quando tiver oitenta anos.

– Carter! – minha mãe abriu a geladeira pegando uma garrafa de água gelada, servindo um pouco da mesma num copo. Era verão e os dias de verão em Pelotas, e em todo sul normalmente, são quentes e sempre com temperaturas altas e insuportáveis. – Não seja intrometido e aliás, tu não estava dormindo? Tenho quase certeza que te ouvi roncar quando fui no quarto pedir ajuda para limpar a sala.

Meu pai riu.

– Sonambulismo.

Bebericando um pouco da sua água, minha mãe riu.

– Então refaça o caminho e volte a dormir.

Ri baixinho, quando ele pegou a garrafa de água das mãos dela, soprou um beijo para mim e obedientemente fez como ela mandou. Meus pais eram estranhos, lembro-me de pensar isso e ainda hoje continuo com esse mesmo pensamento em mente.

– A Letícia e o Rodrigo voltaram como à senhora disse que aconteceria – falei.

– Fiz bolo enquanto tu tava na aula – disse ela, apontando para o forno. – Mais alguns minutos e já já fica pronto, mas tem suco de laranja na geladeira, toma um pouco enquanto isso.

Meu estômago roncou tão alto que minha mãe ouviu. Fiz menção de ir pegar o suco, mas ela me impediu.

– Lava as mãos, primeiro! – censurou, como só as mães conseguem fazer.

Alguns minutos depois, eu estava soprando o bolo de chocolate, para não queimar os lábios em cada mordida que eu dava e tomava suco de laranja. Minha mãe estava sentada ao meu lado fazendo o mesmo.

– E eu não entendo – retomei a conversa. – Por que eles brigam tanto? Nem a senhora e o pai brigam com frequência e olha que já são velhos.

– E olha que já são velhos! – ela repetiu zombando. – O que isso quer dizer?

– A maior parte dos pais das minhas amigas brigam o tempo todo, achei que era uma coisa que só os casais que já estão há algum tempo juntos fazem.

Minha mãe riu alto.

– De onde tu tirou isso? – Abri a boca para falar, mas ela sacudiu a cabeça me impedindo. – Acho melhor eu nem saber, né?

Dei de ombros concordando.

– Provavelmente.

– Mas onde é que essa história toda vai chegar? – insistiu dando uma mordida no bolo.

– A Letícia diz que sabe que ele é o cara certo – tomei um gole de suco e em seguida dei uma mordida generosa no bolo de chocolate caseiro da minha mãe. – Mas como que ela sabe disso? E porque eu ainda não sei quem é o cara certo?

– Talvez ainda não seja a hora – respondeu simplesmente.

Rolei os olhos.

– A senhora vai me tratar igual criança também? Porque eu já tenho quinze anos, já sou grande.

Com toda a seriedade do mundo, ela assentiu.

– Com certeza, quase uma adulta mandando no próprio nariz.

– Não debocha, mãe.

– Certo! – ela enxugou as minúsculas gotas de suor com as costas das mãos, que haviam se formado no seu rosto por causa do calor e suspirou pensativa. – Acho que a gente só sabe que está apaixonada quando de fato está, mesmo quando é jovem.

Foi minha vez de suspirar. Aquilo não fazia o menor sentido para mim.

– Como assim? – perguntei. – A Letícia tem certeza.

– Quando se é jovem a gente tem certeza de uma porção de coisas, que pouco a pouco caem por terra. Eu não estou dizendo que o que a Letícia sente não é de verdade, pelo contrário, eu já fui jovem e sei como sentimentos são intensos nesta fase.

– Acho que só fiquei mais confusa! – cocei a cabeça sujando a testa de cobertura de chocolate.

– Como tu sabe que está respirando, Jasmim?

Dei uma nova mordida no bolo, acabando com a fatia e peguei outra na forma para substituí-la.

Ergui a sobrancelha. Que tipo de comparação era aquela?

– Porque estou viva...?

– Estar apaixonada é como estar respirando, a gente apenas sabe, entende?

– Foi assim com o papai?

Suas bochechas enrugaram quando ela sorriu largamente.

– Exatamente assim.

– Sentimentos são confusos! – suspirei cansada. – Não sei se quero me apaixonar, parece difícil vendo de fora.

– Estando no olho do furação não é lá a coisa mais fácil do mundo também.

– Por que as pessoas tentam então?

– Por incrível que pareça, é difícil decidir entre ir e ficar. Quando deixamos alguém entrar na nossa vida, damos a essa pessoa um espaço especial no nosso coração. Não há como saber o que vai acontecer em seguida, não realmente.

– Então isso quer dizer que só podemos torcer para que tudo fique bem no final.

– Guria esperta! – minha mãe sorriu. – Gostar de alguém é uma das coisas mais bonitas que se pode sentir, principalmente se houver reciprocidade. E é bem mais do que os livros e filmes mostram. E apenas sabemos, entende? É como respirar, é algo tão normal que quase não se percebe se não prestar atenção o bastante.

– Mas e se eu não quiser dar um lugar especial no meu coração para alguém? E se eu não quiser me apaixonar?

Minha mãe riu, como quem sabe das coisas.

– É um direito seu, mas sentimentos são confusos e não temos controle do que sentimos. Por isso é tão complicado decidir quando é a hora de ir embora, é difícil dar adeus a quem a gente ama...

– Mesmo quando isso nos faz mal? – interrompi querendo saber.

Ela assentiu.

– Às vezes, sim. Por um milhão de motivos, eu já disse “sentimentos são confusos”, contudo é errado julgar alguém por algo que não se pode controlar.

– Que confuso!

– Realmente, mas por enquanto tudo que precisa saber é que o primeiro amor a que se deve sentir é o próprio. Algumas pessoas amam demais os outros, esquecendo de si mesmas e isso só torna as coisas mais difíceis. Aos poucos vai entender que não precisa deixar alguém entrar se não quiser, mas que a vida se torna inevitavelmente melhor quando faz isso. É tu quem escolhe quem pode ou não te machucar.

Voltei a realidade com nostalgia, lembrando das inúmeras conversas que tive com minha mãe naquela cozinha e senti falta disso. A cafeteira apitou indicando que o café já estava pronto e servi-me de uma xícara generosa.

Sentimentos são confusos, pensei, bebericando o doce elixir com cuidado, para não me queimar. Não temos controle.

Mabuchi surgiu nos meus pensamentos de forma tão rápida que acabei derrubando café em mim mesma. Eu odiava Gregory Mabuchi, por perseguir meus pensamentos, como um assassino persegue sua vítima. A comparação me fez rir, o que só resultou em mais café derramado.

Maldição!

Tinha algo muito errado acontecendo comigo e eu tinha até medo de descobrir o que era. Coloquei a caneca agora quase em cima da pia e tratei de limpar a sujeira que tinha feito, irritada. Mesmo longe, Mabuchi conseguia ferrar com meu juízo. Como que isso era possível?

Bom Deus!

Estiquei o pescoço para verificar se Meredith ainda dormia e constatei que sim. Desliguei a cafeteira e me servi de uma nova xícara de café. Estava com fome, mas na geladeira só havia leite e um queijo de aparência duvidosa. Suspirei. O bolo de chocolate da minha mãe não cairia mal. Pensar nisso só serviu para me deixar com mais fome.

Bocejei e me contentei com o café. Por uns três minutos até que escovei os dentes, dei uma ajeitada no cabelo, – ou tentei – peguei dinheiro de cima da geladeira e fui comprar pão, sem nem me preocupar em tirar o pijama puído que eu estava usando. Eu realmente não entendia como algumas pessoas conseguiam passar fome em prol da dieta e do corpo perfeito, já que eu não conseguia ficar sem comer nem quando não estava com fome.

O ser humano é estranho, conclui. E infelizmente eu estava incluída na categoria humana, então fazia parte dessa estranheza toda.