Era para ser você
36 ''Ele não é tão ruim''
Notas iniciais
Convidei Julyan e Meredith para almoçarem comigo, porque, apesar de eu falar de uma para outra, ambas ainda não se conheciam. Se bem que não dava para chamar nosso almoço de almoço realmente, já que ao invés de almoçar, partimos direto para a sobremesa, bolo de chocolate. Tentei fazer o bolo da minha mãe, mas fracassei. Faltava alguma coisa, o engraçado é que eu sabia cada ingrediente de cor. Julyan limpou a tremenda bagunça que fiz, na esperança de me animar, o que até funcionou um pouco, mas meu humor inconstante só melhorou mesmo quando fui buscar Thor na minha vizinha.
Honestamente não sei como o assunto da nossa conversa chegou ao tema Mabuchi, mas de uma hora para outra, nós três estávamos quase aos gritos.
— Ela o quê? – Jill perguntou para Mer, já que eu me recusava a responder a mesma coisa pela terceira vez.
— Beijou ele! – Meredith exclamou.
Rolei os olhos fazendo carinho em Thor que dormia – para variar – no meu colo.
— Duas tolas! – resmunguei.
— O que você disse aí? – Julyan retorquiu.
— Parem com isso! – suspirei. – Eu o beijei e isso não é uma grande coisa.
— Ela estava totalmente surtada ontem! – Mer sussurrou de forma conspiratória. – Tá fingindo que não se importa, e está fazendo isso muito mal.
Ai, eu não sabia que era uma atriz tão ruim assim.
— Tanto faz! – rolei os olhos com indiferença. – Quanto menos a gente falar disso, mais fácil será para eu esquecer.
— Hum... – Julyan examinou as unhas fingindo indiferença, só que fingia tão mal quanto eu. – Você vai olhar para a cara dele todo santo dia! – apontou. – Acho que não vai ser tão fácil assim.
— Caramba! – praticamente rosnei. – Vamos mudar de assunto?
Como se o universo estivesse querendo me ajudar, meu celular vibrou em cima da mesa do centro. Era uma notificação doembuscadoamor.com. Uma nova combinação.
— Uma nova combinação no Encalhados! – murmurei com um meio sorriso.
Encalhados era o apelido que eu tinha dado para o Em busca do amor.com. Meredith tinha detestado o apelido, afinal de contas, ela não estava encalhada, só estava ali para se divertir.
Aham. Tá bom!E chocolate não engorda!
— É uma ajudinha da internet para encontrar o cara certo! – Meredith explicou com um olhar severo para mim.
— O cara certo? – Julyan repetiu rindo. – E tal espécime existe?
— Oh, Deus! Eu posso lidar com a falta de fé da Jasmim, já estou acostumada, mas você, Julyan... – Meredith torceu o rosto numa careta de desgosto – Está me desapontando.
Julyan deu de ombros sorrindo.
— Que pena!
Observei as duas com um sorriso brincando em meus lábios, ambas haviam se conhecido oficialmente há poucas horas, mas pareciam extremamente à vontade na presença uma da outra.
Meredith seguiu seu monólogo, ao passo que eu e Julyan fingíamos prestar atenção.
— E então? – concluiu ela, obviamente esperando uma resposta a altura de tudo o que tinha acabado de falar.
— Hum, ainda acho que esta coisa de cara certo não existe, quero dizer, isso não faz muito sentido, pelo menos.
Afofei Thor em meu colo, prestando atenção no que Julyan estava falando, pois concordo com ela. Não é que eu não acredite em amor verdadeiro, pelo contrário, acredito, mas não quero ser a metade da laranja de ninguém, quero alguém que seja inteiro assim como eu e me transborde.
— Como assim não faz sentido? – Mer incentivou e eu balancei a cabeça querendo que ela continuasse.
— Se hipoteticamente existisse o cara certo, – Julyan riu e ergueu as mãos fazendo aspas no hipoteticamente – e estou usando a palavra hipoteticamente porque não acho que exista. Por que se de fato existir, onde diabos ele está?
— Por aí, procurando por você também – Meredith respondeu.
— Mas eu não estou procurando! Eis aí o grande problema, minha cara.
— Isso não faz sentido! – ela balançou a cabeça pensativa. – Você não quer sair com ninguém no momento?
— Não é isso! – explicou. – É só que – deu de ombros. – Não é algo realmente ruim completar-se a si mesmo. Dá pra ser feliz ser ter um cara grudado em mim, entende? Sem contar que ainda preciso descobrir uma porção de coisas sobre mim mesma antes de tentar encontrar alguém. E se for pra acontecer, simplesmente será. Eu acredito no destino.
— Você estava “toda negócios”, e de repente encerra a frase com um “acredito em destinos” – ri baixinho. – Que paradoxo!
— Tá! – Meredith murmurou, franzindo as sobrancelhas de forma pensativa. – Acho que faz sentido. Na verdade faz bastante sentido, é só que às vezes sinto essa necessidade estranha de ter alguém por perto – olhou para nós duas querendo saber se entendíamos, e algo em nossos rostos deve ter dito que sim, pois ela continuou falando. – Casais por toda parte – rolou os olhos, gesticulou com as mãos no ar num gesto abrangente e fez um muxoxo com os lábios. Tudo de uma vez só. – Sei lá, meus relacionamentos deram tão errado, mas parece loucura não querer tentar novamente, porque – encolheu os ombros lembrando-me Jack e prosseguiu – eu quero que dê certo. Me pergunto se sou incrível demais e assusto os homens – debochou, nos fazendo rir.
Julyan acabou concordando em fazer seu cadastro no encalhados.com, digo em busca do amor.com.
***
“O amor pode acontecer de várias formas”. Nós nos lembramos dessa frase clichê, durante uma propaganda que passava na televisão e num acordo estranho, regado a suco de manga e o restante do meu bolo de chocolate, todas nós decidimos que daríamos uma chance para o destino, universo, ou seja lá qual a força que nos rege, nos surpreender.
Rimos a tarde toda, debochando de relacionamentos antigos e mesmo das pequenas tragédias do dia-a-dia. Reclamamos do nosso trabalho, – Julyan e eu – da saudade da família – todas nós – e da carência – Meredith. Até que Julyan precisou ir buscar Jack na casa do colega de escola e Mer precisou voltar para cuidar de Loki.
Coincidentemente, justo quando eu estava com o celular na mão para ligar para casa, o telefone tocou e, quando atendi, a voz calma da minha mãe me saudou.
— Estava pensando na senhora – falei com carinho. – Até sonhei com uma conversa que tivemos.
Enchi a tigela de Thor de ração e coloquei um bocado a mais de leite, chamando-o para comer e em seguida me joguei no sofá.
— O que andou aprontando? – ela brincou.
— Nada – fingi estar magoada. – Só saudade!
— Hum, e qual sonho tu teve?
Ponderei se deveria ou não falar, mas por fim conclui que era tolice esconder qualquer coisa da minha mãe. Era como se ela tivesse um sexto sentido, sempre sabia quando eu estava mentindo ou desviando o assunto.
— Se lembra de uma conversa que tivemos lá pela minha adolescência?
Ela riu.
– Nós tivemos muitas conversas na sua adolescência, Jasmim.
Fui o mais explicita possível, dando vários detalhes, esperando que ela se lembrasse.
— Oh! – exclamou com suspeita. – Algum motivo especial?
Mordi os lábios.
— Não...
— Porque eu sinto que está tentando me passar a perna?
Porque de fato, estou mãe.
— Não sei do que está falando – debochei e tratei de mudar de assunto.
— E como vai o meu pai? Ele está por aí?
— Dormindo. Chegou do trabalho com dor nas costas. E o seu trabalho, como vai? Seu chefe continua incomodando muito?
— Na verdade, – lembrei-me da noite anterior e fechei os olhos com força – não.
— E o que mudou? – indagou curiosa.
— É complicado.
— Complicado? Há bem pouco tempo você o odiava, e agora parece gostar dele de certa forma. Só consigo pensar que ele não é tão babaca assim – riu ela em confusão.
Odiava que minha mãe me conhecesse tão bem.
— Esse é que é o problema. Ele não é tão ruim – suspirei.
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