Era para ser você
28 Ellie Mabuchi, a desenhista
Notas iniciais
Mabuchi era pai. Santo Deus! Nunca tal coisa tinha se passado pela minha cabeça. E isso tornava a situação toda muito estranha. Aliás, estranha era a única palavra capaz de definir o que estava acontecendo. Mabuchi estava estranho. Eu estava estranha. Marie estava estranha e Julyan não ficava muito atrás. Mas Ellie... Ellie estava tão confortável que você acharia que ela estava acostumada com situações assim.
Ellie tinha uma língua afiada para alguém tão pequeno, provavelmente em decorrência de ser filha de quem era, e nas mãos dela Mabuchi parecia um bonequinho. Mordi o lábio para não rir ao ouvir sua explicação do porquê tinha sido desobediente e saído pela empresa sozinha. Mabuchi era o culpado. Ele não tinha dado atenção o bastante para ela, o que a fez ficar entediada e sair por ali. Prova disso era que ele não tinha percebido seu desaparecimento por um longo tempo.
Alguns minutos se passaram nessa conversa e eu estava tão aérea que acabei indo atrás deles. Só percebi que estávamos no elevador quando as portas se fecharam e eu não tinha mais para onde correr. Na pequena caixa de metal Ellie e Mabuchi conversavam baixinho enquanto eu permanecia tão afastada quanto possível deles. Fiz o meu melhor para não ouvir o que ambos falavam, mas era impossível, tendo em vista o local tão pequeno em que estávamos. A conversa era engraçada e sem cabimento. Não aguentei e ri.
— Porque está rindo? – Ellie, ou talvez Mabuchi tenha perguntado.
Meus olhos se encheram de água por conta do riso e escorreguei pela parede do elevador me abanando. Foi mais forte do que eu. A mini Mabuchi cruzou os bracinhos sobre o peito e abriu a boca para falar mais. Ellie era tão parecida com ele que era algo assustador. Ao olhar para Mabuchi lembrei-me do meu sonho. E por conta dessa lembrança cada gesto dele, cada olhar, pareceu para mim intensificado.
O resultado disso foi uma Jasmim bagunçada e envergonhada.
***
Além de estranha, minha manhã começou a ficar surpreendente. Eu não sabia o que esperar quando Mabuchi me pediu para que eu o acompanhasse até sua sala. Em nenhum momento consegui fazer contato visual sem me sentir envergonhada. Bastava olhar para ele que as palavras BEIJO e ELEVADOR piscavam em letreiros brilhantes dentro da minha cabeça. Minhas bochechas ardiam com tanto calor que me vi outra vez no colegial.
Alisei meu vestido e sorri vendo Ellie sentar no sofá de couro, exatamente onde eu havia me sentado pela primeira e única vez no dia que Mabuchi me demitiu. Observei como ela, com gestos graciosos, pegou uma mochila rosa felpuda jogada no chão, que até aquele momento eu sequer tinha notado. E só depois de meia batida é que percebi que Mabuchi estava falando comigo. Limpei a garganta e me forcei a olhar para ele, só para em seguida desviar os olhos. Fiz isso mais duas vezes até conseguir sustentar seu olhar e balancei a cabeça com intensidade. Quando não se esta prestando atenção na conversa, a atitude mais sensata é concordar.
— Sim? – Mabuchi indagou com um franzir de testa.
— Pai? – Ellie o chamou. Ela tinha espalhado todo o conteúdo de sua mochila em cima do sofá – fora as coisas que ficaram caídas no chão. – Que cor eu pinto o leopardo? – perguntou levantando seu livro de colorir e mordendo seu lápis de cor.
Mabuchi sorriu. Um sorriso tão raro que me peguei olhando tempo demais. Era um sorriso grande e bonito eu precisava admitir, porém assim que voltou os olhos para mim o sorriso sumiu.
— Qual cor quer pintar El? – sua atenção retornou pra filha.
— Verde.
— Um leopardo verde? – Ellie assentiu rindo baixinho e Mabuchi a acompanhou. – Por que não?
Apesar de desconfortável, eu estava feliz por presenciar a conversa “pai e filha” dos dois, porém ao notar o sorriso de Mabuchi se esconder mais uma vez quando olhou para mim, decidi me levantar e ir para minha mesa.
— Obrigado! – ele disse. Rápido e tão baixo que mal pude entender.
— Desculpe? – ergui a sobrancelha fingindo não ter ouvido. – O que disse?
Mabuchi tossiu e cerrou o maxilar.
— Obrigado por cuidar de Ellie.
Pude perceber que as palavras saíram doídas, como se estivesse engolindo cacos de vidro.
— Não precisa me agradecer – falei com serenidade. – Não fui eu quem achou Ellie. Foi Julyan quem a encontrou.
Na verdade tinha sido a própria Ellie quem havia encontrado Julyan, mas eu não quis citar esse fato.
— Talvez isso lhe faça entender – disse antes que pudesse me conter. Existia essa força maluca que me fazia querer provocá-lo.
—Talvez isso me faça entender o quê?
Lembrei-me do quanto Julyan tinha temido perder seu emprego quando Jack teve mais uma de suas crises de asma e me pediu para ir buscá-lo na escola.
— Que imprevistos acontecem, mesmo para alguém na sua posição social. Sabe, Julyan, a moça que achou Ellie, tem um filho asmático, mas não pôde sair mais cedo da empresa quando ele passou mal alguns dias atrás, pois foi ameaçada de perder o emprego. Seria mais fácil se todos, inclusive o senhor entendessem isso.
Eu não sabia de onde tinha vindo esse sermão, mas me levantei antes que ele pudesse rebatê-lo. Caminhei a passos largos até a porta e assim que alcancei a maçaneta Ellie tirou seus óculos escuros e veio até mim.
— Eu esqueci seu nome – murmurou ela abraçando minhas pernas.
— Jasmim – apertei de leve seus ombros retribuindo o abraço e olhando em seus olhos puxadinhos.
— Quase como a princesa de Aladim – comentou sorrindo.
— Quase – concordei. – Mas igual a flor.
***
Ellie se aproximava vez ou outra para falar comigo em minha mesa, mas a cada vez que ela demorava mais do que dois minutos Mabuchi a chamava de volta preocupado. Ela era uma criança inteligente e sagaz e várias vezes me lembrou Jack. Tenho certeza que se os dois se conhecessem seriam bons amigos. Perto do horário de almoço ela apareceu de novo. Eu estava digitando uma resposta para um e-mail quando ouvi a porta abrir e olhei para cima. Debaixo do seu braço estava seu caderno de colorir e nas mãos seus lápis de cores.
— Pois não, mocinha? – quis me adiantar, preparando-me para mais uma rodada de perguntas, pois cada vez que aparecia ela queria saber de algo novo.
— Olha meu desenho! – seus olhos brilharam. Eram olhos tão parecidos com o do pai, mas ao mesmo tempo continham uma pureza e inocência não característica de Mabuchi. Não consegui identificar ao certo o que era o desenho, mas sorri empolgada mesmo assim.
— Que lindo! – com uma olhada mais atenta comecei a ver os contornos de uma vaca. – Que vaca linda! – elogiei.
— Vaca? – ela fez um biquinho. – Mas essa é você!
Soltei uma gargalhada.
– Eu? – minha barriga doeu pelo riso e ela assentiu um tanto quanto magoada. – Claro, que sou eu. Estava brincando com você. Que desenho lindo! – tornei a rir incapaz de me segurar. Apontei para a figura ao meu lado. – E quem é essa aqui?
— Eu!
Nos duas olhamos para trás quando a porta se abriu e Mabuchi saiu por ela.
— Vamos indo? – ele perguntou para Ellie. – Precisa almoçar.
— Cindy já ligou, pai? – foi sua resposta. Ele balançou a cabeça afirmativamente.
— Já, podemos falar disso no caminho. Porque não deixa a senhorita ali – apontou para mim e quase sorriu – trabalhar?
— Mas pai, – Ellie fez biquinho – não tô atrapalhando! – Ela olhou para mim com um olhar levemente magoado. – Eu tô?
— Não! – apressei-me em negar. – Está tudo bem senhor. Sua filha é um amor.
Diferente de você, pensei.
Ellie sorriu vitoriosa.
— Ela pode vir junto?
— Onde? – perguntamos em uníssono.
— Almoçar – ela soprou a franja impaciente.
Comecei negando e dizendo que não queria ser inconveniente e que ainda queria acabar algumas coisas antes de descer para o almoço.
— Não será inconveniente – Mabuchi disse pausadamente. Seu tom de voz mostrava o quão falsamente relaxado ele estava.
Neguei mais uma vez.
— Por favor, Jasmim! – Ellie implorou juntando as mãozinhas rechonchudas em frente ao rosto.
E eu cedi.
Notas:
1- Não abandonei a história.
2- Estou num momento meio complicado e instável, por isso ando demorando tanto para atualizar.
3- Fiz algumas alterações, como por exemplo a doença da Susan. Basta dizer que nessas alterações ela não tem mais câncer, achei que conseguiria escrever sobre esse assunto, mas por motivos pessoais não estou conseguindo.
4- Como sempre vou me redimir fazendo capítulos maiores e postando bônus.
5- Vai ter capítulo na semana que vem, com direito a surpresinhas!
6- Amo todas vocês.
7- Muito mesmo ♥
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