Era para ser você
42 Avião, aleatoriedades e Mabuchi
Notas iniciais
Apertei o celular entre minhas mãos, com um pouco mais de força do que o necessário. Podia sentir os olhos de Mabuchi em mim, o que só contribuía para meu nervosismo aumentar. Para ser honesta, não tenho pensado muito sobre estar dentro de um avião desde minha chegada em Nova York, há vários meses atrás, mas estar dentro de um fazia meu cérebro sacudir dentro da minha cabeça, se é que tal coisa seja possível.
A aeromoça parou ao meu lado e disse algo que não consegui entender. Talvez porque eu estivesse usando toda a minha energia para não surtar e correr avião afora. Mabuchi trocou algumas palavras com ela e seja lá qual tenha sido sua resposta pareceu agradá-la, pois fez com que ela se fosse para checar os outros passageiros.
Meia batida se passou até que ele cutucou de leve meu ombro e por incrível que pareça o toque dele aliviou o cerco apertado em volta de mim. Limpei a garganta.
— Sim?
— Está com medo? – esperei que ele soasse zombeteiro, mas havia preocupação genuína em sua voz.
Coloquei o celular no bolso do meu Cardigan e balancei a cabeça, vigorosamente, negando.
— Não! Medo algum! – afirmei, percebendo tardiamente que respondi em português.
Seu olhar ficou curioso e engraçado.
— Desculpe-me?
Inspirei o ar pelo nariz e o soltei pela boca, pelo menos duas vezes antes de virar para ele novamente e responder.
— Eu disse não, de jeito nenhum.
— Em qual língua?
A voz do piloto ecoou pelo avião e a maior parte dos passageiros cessaram suas conversas para escutá-lo a se apresentar, explicar o roteiro da viagem e os procedimentos de segurança, eu, no entanto, apenas me apavorei mais.
— Minha língua materna – respondi, aterrorizada, uns instantes depois, quando o avião começou a levantar voo.
Mabuchi riu.
Eu quis chorar.
E matá-lo.
Não necessariamente nessa ordem.
Oh, meu Deus! Estávamos viajando numa lata no meio das nuvens.
— Senhor me proteja! – balbuciei desesperada.
Mabuchi riu.
Eu quis chorar.
E matá-lo.
Não necessariamente nessa ordem.
— Tem certeza que a resposta ainda é não, de jeito nenhum?
— Absoluta senhor – menti, desviando o olhar.
Quando era mais nova, sempre que eu me assustava ou ficava com medo, usava uma expressão que provocava um misto de desgosto e divertimento em minha mãe.
“Tô quase cagando nas calças de medo”.
Era certamente a expressão perfeita, para o momento perfeito.
— Chicago fica relativamente perto – Mabuchi tentou me tranquilizar. – A viagem vai ser curta.
— Não estou com medo – menti novamente. – Só...
Só quase borrando as calças, mas certamente sem qualquer indício de medo.
— Não estou com medo! – repeti.
Quando viajei de avião pela primeira vez tive a sorte de me sentar ao lado de uma senhora de noventa anos, que falou tanto que nem me deu tempo para raciocinar. Seu nome era Maria e ela estava indo visitar sua filha, que estava quase dando à luz ao seu terceiro filho. Estava tão feliz que mal conseguia ficar sentada na cadeira.
E eu estava sentindo falta da Maria e seu jeito falante.
— Eu costumava ficar nervoso nas primeiras vezes também – ele comentou com calma. – É a primeira vez que viaja de avião?
Balancei a cabeça confusa, sobre o porquê de estarmos conversando em primeiro lugar. Normalmente nós mal saíamos do “bom dia”, “estou saindo para o almoço” e “até amanhã”. Fechei os olhos por um segundo tentando controlar meu coração, que parecia que ia saltar pela boca
— Não, mas é a primeira vez que fico tão nervosa.
— Falar ajuda – ele assegurou e eu ri. Ri porque era engraçado alguém como ele, que mal falava comigo, sugerir isso, ri porque era inegavelmente engraçado vê-lo tentar me acalmar.
— Tenho a teoria de que a gente só conhece alguém quando descobrimos algo aleatório sobre essa pessoa – comentei sem saber direito o porquê. – Aleatoriedades não podem ser mentidas, acho que é por isso.
Achei que ele não diria nada e justo quando comecei a me sentir uma idiota por abrir a boca, Mabuchi pediu:
— Conte-me uma aleatoriedade sobre você.
— Eu sou azarada – respondi, encolhendo os ombros. Era algo que ele nem precisava fazer esforço para descobrir.
— Todo mundo é, ao menos um pouco.
Ergui a sobrancelha rindo.
– Eu sou mais do que um pouco.
Minha resposta o fez refletir. Sorri ainda mais.
— Qual seria a porcentagem equivalente a essa sua afirmação?
— Azarada ao ponto de derrubar café no chefe, no meu primeiro dia de trabalho – comentei rindo.
Minha intenção era irritá-lo, mas, ao invés de soltar alguma resposta ácida, ele riu.
— Fiquei sabendo desse fato.
Balancei a cabeça solene.
— Trágico.
— Ser azarada não é algo aleatório, mesmo que você seja desastrosamente azarada, ainda assim, metade da população também é.
Achei que ele tinha um pouco de razão, mas eu não estava pronta para admitir isso em voz alta.
— Qual é a aleatoriedade sobre você, senhor?
— Não me chame de senhor – suspirou, passando a mão pelo rosto. – Entendo que faça isso na empresa, mas não precisamos ser tão formais fora dela.
Mais uma surpresa para adicionar ao dia.
— Como devo chamá-lo? Mabuchi? Chefe?
Mais um suspiro, mais uma passada de mão pela barba.
— Gregory. Meu nome é Gregory. Você pode me chamar assim.
Engoli.
— Qual é a aleatoriedade sobre você, Gregory, que gostaria de compartilhar comigo?
— Eu costumava escrever cartas quando era mais jovem. Ainda tenho algumas guardadas. Acho que isso se encaixa corretamente em aleatoriedades.
Contive um sorriso.
— Perfeitamente, senho... Gregory. – Pensei sobre algo que poucas pessoas, ou ninguém sabia sobre mim para contar para ele. – Eu amo tudo que envolva o universo. Sou apaixonada por isso, ás vezes saio para o a rua só para observar as estrelas e a lua.
— Akemi costumava cantar para Ellie dormir, mas na maior parte das vezes quem dormia era eu – ele riu, mas em seguida algo verdadeiramente triste brilhou em seus olhos.
A primeira coisa que pensei foi:
Caramba que nome estranho!
A segunda foi:
Pai amado! Ele está falando da mãe de Ellie para mim.
Olhei de relance para suas mãos, tentando ver uma aliança, mas seus dedos estavam nus como os meus.
Limpei a garganta.
— Akemi é sua esposa?
A pergunta ficou desconfortavelmente solta no ar, mas não me arrependi de tê-la feito.
— Sim – respondeu.
Fiquei confusa com a dor aguda que se instalou em meu peito, que tão rápida quanto surgiu, sumiu. Uma simples palavra era pouco para sanar minha curiosidade. Eu queria, precisava saber mais.
– Mas você não usa aliança... Vocês são separados?
— Esse não é um tópico que eu gostaria de entrar – encerrou o assunto. – Qual é a próxima aleatoriedade sobre você?
— Sou gaúcha, mas odeio fortemente chimarrão – falei me sentindo atordoada.
Sua testa vincou de leve.
— O que é ser gaúcha e o que é chimarrão?
Sem conseguir me segurar, dei risada com sua tentativa de falar as palavras “chimarrão e gaúcha”. Soou ligeiramente fofo.
— Chimarrão é uma bebida típica do Rio Grande do Sul. As pessoas que nascem lá são chamadas de gaúchas.
— Entendo. Sua língua materna é Rio Grande do Sul?
Contive uma risada.
— Não. Minha língua materna é português brasileiro. Sou brasileira, Rio grande do Sul é apenas o nome do estado onde nasci.
Pelos minutos seguintes conversamos sobre aleatoriedades e sobre as coisas que nos faziam sermos quem éramos. Contei a ele sobre o Brasil e meus pais, e ele sobre o Japão, e Ellie.
Gregory Mabuchi, quando visto com um olhar mais atento, era tudo menos o carrasco que eu costumava enxergar.
Fale com o autor