Era novamente uma vez
8 Capítulo 8 – Mal entendidos parte 1
Notas iniciais
Uma mulher muito branca de cabelos pretos com alguns fios prateados lhe emoldurando o rosto redondo olhou na direção de Emma esticando os braços em sua direção:
– Emma, minha filha! Estava te procurando.
Ela foi a frente abraçando com força a loira que estava com os olhos arregalados e não reagiu de maneira tão calorosa quanto a outra aparentemente esperava:
– Mãe...O que você está fazendo no meu trabalho, ou melhor o que você está fazendo em Boston?
A mãe a soltou mas antes que pudesse responder uma voz grossa ecoou ao lado delas:
– Emma! Como você está, meu amor?
– Pai? Mas que diabos...
O homem atlético de rosto marcado pelo tempo e meio aloirado deu alguns passos a frente a abraçando também:
– Viemos assim que soubemos da notícia!
– Que notícia?
– Oras, que aquele monstro teve a justiça que merece! – bradou sua mãe abrindo um sorriso enorme – Estamos aqui para assistir o funeral.
– Sua mãe mede demais as palavras... A verdade é que viemos comemorar a morte do canalha! – disse seu pai aos risos
– Hã? Calma, vocês vieram só por causa da morte do Senador Gold?
Nesse momento uma terceira voz mais fina apareceu por detrás das costas largas do pai de Emma:
– Irmãzona!!
– Ai meu Deus, vocês trouxeram até o Henry?! E ai, garoto?
O garoto claro de seus 12 anos deu um passo a frente abraçando a irmã mais velha e na sequencia franziu a testa surpreso e abriu um sorriso maior ao ver a morena parada ao lado dela visivelmente não notada pelos dois adultos que estavam com ele:
– Regina! Quanto tempo!
Regina abriu um sorriso largo relativamente comovida com a atitude do pequeno, se abaixou um pouco recebendo um abraço apertado:
– Olá, Henry, como vai? Faz tempo mesmo, vocês cresceu muito desde a última vez que nos vimos...
– Obrigado! Você continua linda! – disse o menino com sinceridade
– Não se anima que eu estou de olho em você, rapazinho! – brincou Emma fazendo um tom sério
Regina riu mas logo desfez o sorriso e soltou um pigarro ao ver a seriedade dos pais de Emma a encarando:
– Sra. Mary Margaret, Sr. David, como vão?
– Bem, obrigado, Regina. – respondeu David após um breve silêncio constrangedor e apertando o braço da esposa ao notar que a outra havia virado a cara para a morena mais nova.
– Emma, podemos falar a sós com você um instante?
A detetive já havia percebido o clima tenso que em segundos se formara ali e respondeu de maneira dura:
– Na verdade mãe, eu estou trabalhando agora. Se estão na cidade para o funeral acredito que vão ficar pelo menos alguns dias em Boston, então, vamos marcar algum almoço ou jantar depois, está bem?
Mary Margaret segurou um suspiro e franziu a boca em reprovação dando as costas e caminhando de volta para o saguão, seu marido revirou os olhos enquanto tirava um cartão do bolso da jaqueta:
– Nem preciso dizer pra você não ligar né? Conhece sua mãe... Aqui, filha, o hotel que estamos hospedados! Me dá uma ligada quando estiver livre ou apareça lá.
– Pode deixar, pai! – respondeu Emma abrindo um meio sorriso e pegando o cartão.
– Nos vemos em breve! Vem, Henry, a Emma está ocupada agora, não podemos atrapalhar.
– Ok! Tchau Em! Tchau Regina! – falou o garoto acenando com a mão para as duas enquanto seu pai lhe envolvia pelos ombros o levando em direção a mãe que já estava na porta de saída da Delegacia.
Emma baixou os ombros e se virou para Regina notando a tristeza em seu olhar. Não precisava perguntar o motivo, ela sabia muito bem no que a morena estava pensando...
Um ano antes
– Despejados??? Como assim estamos sendo despejados?!! – gritava Emma para o síndico do prédio antigo no Centro da cidade em que morava, e que fazia uma reunião de emergência no hall de entrada
– Stra. Swan, controle-se, por favor! Eu compreendo que todos aqui estão nervosos mas vamos nos acalmar para que eu possa esclarecer tudo!
– Você tem muita coisa pra esclarecer mesmo se não quiser ir preso, palhaço! – rosnou Jane mostrando o distintivo
Os moradores aplaudiram as detetives e começaram um coro de pedido de explicações e reclamações. O homem grisalho a frente da pequena plateia ajeitava os óculos nervoso:
– Pessoal, pessoal, me escutem! Uma grande empresa comercial comprou este terreno e a incorporadora que construiu nosso prédio está falida, tentou recorrer na justiça mas perdeu o caso ela perdeu a posse do imóvel, teremos que sair!
– E vamos pra onde? Como ninguém nos avisou antes? Por que você não fez nada? Quem vai pagar o nosso prejuízo? – várias pessoas vomitavam perguntas no homem que pressionado se pôs a chorar
– Eu não sei, está bem? Estou do lado de vocês! Também acabo de perder minha casa e temos apenas um mês pra sair porque o prédio será totalmente demolido... Me... Me desculpem, eu não posso fazer nada!
Jane e Emma se olharam e deram um aceno concordando com a ideia que acabaram de ter. Jane soltou um assobio alto calando as pessoas enquanto Emma tomava a palavra:
– Galera! Ei, eu e a Jane somos da polícia, certo? Iremos agora mesmo investigar melhor essa história e voltamos com uma explicação mais concreta e se Deus quiser uma solução...
Os moradores pareceram mais calmos e agradeceram as duas mulheres que saíram rapidamente em direção ao tribunal da cidade.
– Stra. Mills? – disse a voz tímida da recepcionista na porta do amplo escritório da procuradora – Tem duas detetives aqui querendo ver a senhora.
– Detetives? – perguntou a morena confusa – Falaram sobre o que seria?
– Não, apenas que era um assunto particular, se chamam Swan e Rizzoli.
Regina franziu mais ainda a testa surpresa com a presença das duas. Não estavam cuidando de nenhum caso recentemente, pelo menos não que ela tivesse conhecimento ainda. Permitiu a entrada e ficou de pé dando um sorriso formal quando as mulheres passaram pela porta:
– Ora, ora, que surpresa! Não temos nenhum morto de caso complicado recentemente, então ao que devo a visita?
As detetives sorriram tensas, desde que Regina havia sido nomeada procuradora geral no ano anterior elas vinham trabalhando em conjunto. Depois daquela festa em que Emma definitivamente “conheceu” Regina ela criaram um laço mais estreito e mesmo depois daquilo tendo ido somente mais uma ou duas vezes para a cama com a morena elas haviam se tornado mais íntimas totalmente desassociadas disso, era algo que criaram dentro do próprio ambiente de trabalho, Jane passava tanto tempo quanto Emma com Regina nas vezes que se viam que em muitos casos quis dizer vários dias convivendo e aos poucos iam se conhecendo. As três juntas tinham hoje uma relação que estava num espécie de limbo: não sabiam se poderiam se considerar amigas ainda, mas já eram mais do que apenas colegas de trabalho e por este motivo que recorreram a Regina naquele momento. Era alguém em que não só poderia ajudar tecnicamente como era uma pessoa em quem elas confiavam para tratar de um assunto tão delicado envolvendo suas vidas particulares.
– Regina, nós queríamos tratar de um assunto particular com você... nós... bem... – começou Jane sem jeito – Estamos com um problema grave.
Logo ela e Emma contaram toda a história enquanto Regina ouvia em silêncio. Assim que terminaram ela abanou a cabeça pensativa:
– Não é a minha especialidade mas com certeza posso correr atrás de descobrir isso para vocês. Vou atrás de alguns contatos e pedir urgência, assim que possível retorno!
As detetives deixaram o prédio mais aliviadas, ao menos a outra lhes passara segurança que faria de tudo para tentar ajudar. Foram para o trabalho e no meio da tarde receberam um telefonema de Regina dizendo que havia uma brecha no tal acordo comercial e seu contato estava mexendo no processo. Voltaram para casa no fim do dia com uma ponta de esperança mas ainda não disseram nada aos outros moradores. No dia seguinte no entanto, Regina ligou novamente para dizer que o material que tinham não era suficiente e perderam de vez o processo sem chance de recorrer. Dentro de 1 mês as detetives estariam sem casa. Já havia acabado e expediente e Jane e Emma foram ao Dirty Robber, o bar ao lado da delegacia sem saber que rumo tomar.
– Ainda não acredito que isto seja real... – comentou baixinho Emma encarando sua caneca de cerveja
– Nem eu, Em...Nem eu... – suspirou Jane dando um gole da sua. – Não sei com que cara vamos contar ao moradores que não pudemos fazer nada.
– Pois é... E também não sei pra onde vamos. Não recebemos um salário tão maravilhoso assim, Jane! Onde vamos achar um apartamento tão bom pelo mesmo preço?
– Ele não era tão bom assim, vai? Era o que podíamos pagar...
– A localização era ótima! Ficava perto de tudo, tinham uns mercados baratos, uma lanchonete 24h que sempre nos salvou, e até aquele mecânico Giovani que nunca nos cobrou um centavo pra arrumar o carro quando enguiçava!
– Isso é verdade... Que merda, cara!
As duas suspiraram longamente depois tomaram alguns goles de cerveja em silêncio concentradas em seus pensamentos, Emma falou hesitante:
– Janie? Acha viável pedir ajuda pros seus pais?
– Eles se mudaram pra Itália faz menos de 6 meses, Em! Venderam a casa daqui para poder ir pra lá, não se estabilizaram ainda. Não teria coragem de fazer eles se sacrificarem por mim, estão finalmente realizando o sonho da vida deles.
– Seus irmãos?
– Tá me zuando né? – resmungou Jane irônica – O Frankie é mais duro que pau de tarado com aquele empreguinho de treinador de academia e o Tommy nem sei como se sustenta! Vive de bicos que dão errado e ainda tem a pensão do meu sobrinho pra pagar! Que tal os seus?
– Meus pais? Agora é você quem está me zuando, certo? Eu fugi de casa milhões de vezes, a gente sempre teve uma relação péssima, só entrei pra academia de polícia porque era a última chance que me deram pra entrar na linha, sorte que me encontrei nisso e agora eles vem querer me procurar dizendo que sou uma ótima filha porque saio nos jornais quando resolvo casos... Não! Tudo que não preciso é deles se metendo de novo na minha vida!
As duas ficaram se encarando e riram sem saber o que mais fazer a respeito do problemão que tinham arranjado do dia para a noite. Já estavam na terceira caneca quando Regina entrou no bar. Veio caminhando devagar até a mesa delas, pediu licença e se sentou ao lado de Emma apoiando sua elegante bolsa sobre a mesa. Tentou dar um sorriso confortante as duas mulheres com ar desolado.
– Oi! Eu sinto muito por vocês, meninas. Desculpem se não pude ajudar mais...
– Tudo bem, Regina! Você fez até mais do que devia, isso nem é assunto do seu departamento. – comentou Emma de maneira carinhosa.
– Eu sei mas, não gostaria de vê-las assim! O que vão fazer agora? Já tem para onde ir?
– Não se preocupe conosco, vamos dar um jeito! – falou Jane tentando dar um sorriso
Houve uma longa pausa na qual só se escutava as goladas nas bebidas e a barulheira habitual do bar nas mesas ao lado. Regina ergueu a cabeça e disse de maneira firme:
– Minha casa é enorme. Tem 4 quartos, vocês podem muito bem ir morar lá e ainda sobraria um para hóspedes!
As detetives cuspiram suas cervejas em espanto:
– O que? Não, Regina, tá louca? Você não tem que ceder um quarto pra gente morar só porque estamos sem casa! – falou Emma inconformada
– Quem disse que eu estou cedendo? Vou alugar eles para vocês, assim não firo a dignidade de ninguém e ainda ganho companhia. É meio entediante às vezes morar numa casa tão grande sozinha... – retrucou Regina lançando um olhar malicioso para Emma ao final
– Mesmo assim, não! – interviu Jane – Não faz sentido a gente morar com você, quer dizer, talvez pra Emma faça, mas o que eu faria lá?
– Jane!! – brigou Emma lhe dando um chute por debaixo da mesa
Regina riu:
– Eu não teria coragem de separar vocês duas, que tipo de pessoa adota uma criança e não leva seu irmãozinho junto?
– É sério, Regina, você não tem que fazer isso e...
– A oferta foi dada! Amanhã formalizo por e-mail um contrato de aluguel com valores e o que está incluso além dos quartos na casa. Se estiverem interessadas é só me procurar!
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