Não existem fotos ou testemunhas. Esses eventos aconteceram no momento em que nem uma alma repousava seus olhos sobre o manto estrelado. Alguns livros mitológicos citam esses eventos como a falta de esperança... Olhar para o céu nos dá uma sensação de que nada pode nos acontecer, não?

Um raio branco acinzentado rasgou os céus. Em algum momento, entretanto, dividiu-se em dois: um caiu em uma cidade e o outro desapareceu atrás das montanhas. Durante o impacto do primeiro, algo despertou; alguém despertou. Um homem abre os olhos.

O apitar ensurdecedor ecoou pela mente daquele homem; era seu despertador. Suado e ofegante, o homem encarava – assustado – a tela da televisão à sua frente. “Um sonho?”, perguntou-se, “ou será que foi outro pesadelo?”, completou. Como se todo aquele susto tivesse perdido a importância, ele saiu do quarto. O relógio marcava seis horas da manhã.

Fora de seu quarto, o errante passou pelo corredor seco e estreito daquele apartamento e, ao chegar ao fim deste, viu um retrato caído. Com este em mãos, viu a imagem de sua irmã. Pele morena – assim como a sua – e cabelos negros. “Muito parecidos”, disse enquanto botava a foto no seu devido lugar.

– Bóreas! – gritou a voz no telefone.

– Bom dia, Dione. Onde você está?

– Eu... Você não viu o que aconteceu durante a madrugada? – alguns gritos e buzinas abafavam a voz da mulher.

O celular de Bóreas corta o momento com um alto e repetido bipe.

– Bóreas Autrus. – Vendo o nome na tela do aparelho, o homem o pegou como se fosse um caso de vida ou morte.

– Você tem noção de quantas vezes eu tentei te ligar? Dez! DEZ vezes! Onde você estava?

– Estava... Dormindo, senhor. Ainda não começou meu expediente, senhor. – sabendo que estava certo, a leve petulância no tom do homem podia ser notada facilmente.

– Ligue a TV! Não há tempo para regras em um momento como esse. Se arrume e venha para a edição AGORA! – e a ligação caiu.

Bóreas trabalhava no principal jornal da cidade. O homem no telefone, o editor chefe, não parecia em ares de brincadeira, logo, aquele sonolento e cansado repórter pegou o controle da televisão e a ligou. “Engraçado, logo no canal das notícias”, ironizou. O choque fora tão grande que ele deixou o controle cair. As pilhas rolaram para debaixo do sofá enquanto a chamada “Meteorito destrói parque ecológico local” rodava no pé da imagem.

– Alô? Bóreas? – Dione, sua irmã, ouvira tudo.

– Onde você está?

– Eu estou bem, calma! O exército está vindo para pegar esse meteorito. “Caso de extrema urgência”, é o que todos dizem. – a piada foi clara, mas o riso da mulher havia sido abafado por algum grito vindo do lugar onde ela estava. — Enfim, eles pediram a ajuda de alguns policias do distrito para manter a ordem.

– Você não estava de férias? Daquelas que é obrigada a tirar por ordem da corporação?

– Sim, mas... Olha, vá para o trabalho antes que o Tubarão comece a ficar no seu pé. Não me espere acordado.

Tubarão é o jeito carinhoso que todos do jornal chamavam o editor-chefe. Após inúmeras reclamações em casa era normal que Dione soubesse e usasse esse nome para referir-se ao chefe de seu irmão.

Aquele sonho de Bóreas o deixou intrigado, mesmo que não pudesse lembrar-se dele. “Como ninguém viu aquilo?”. O mais estranho era o exército. “É mesmo necessário isso tudo por causa de um meteorito? Alguns forenses ou alguém do governo bastaria”.

De nada adiantava ele ficar com tantas perguntas na cabeça. Respostas era o que ele iria buscar. Muitos viam Bóreas e Dione como os irmãos mais perigosos da cidade. Um jornalista irmão de uma policial ex-militar? É como dar o poder de julgamento para uma arma de destruição em massa.

Pouco menos de meia hora depois daquilo tudo, Bóreas já estava no estacionamento de seu edifício. Chegando na porta de seu carro – que por sinal não era um modelo novo -, um cartão em branco colado no vidro do motorista chamou a atenção. Ao toma-lo em mãos, o repórter não viu nada demais naquele pedaço de papel. ‘’Estou esquecendo de algo... O que é?”. Em um outro momento, Bóreas já estava dirigindo, fora da calçada e indo em direção ao trabalho. O telefone toca mais uma vez.

– Autrus, onde você está?! – gritou Tubarão.

– Trânsito.

– Ignore, não venha mais para cá. Vá direto para o parque. Um fotógrafo está a sua espera.

“Não podia ter falado mais cedo? Agora terei que pegar o retorno”, pensou o homem ao volante.

– Quem é? Não me diga que...

– É um novato. – terminou Tubarão.

O estressado editor chefe passou os próximos minutos explicando como era o tal novato e onde ele estaria. Não era uma coisa fácil de fazer, se ele não estivesse entre centenas de pessoas, policiais estressados e militares com armas cada vez maiores para compensar algo. Cobrir confusões como essa era o que fazia Bóreas repensar sua vida. Nada que tenha a ver com um tipo de crise existencial, mas com quanto menos gente ele pudesse trabalhar, melhor.

O transito não estava colaborando. Mesmo gostando de ficar sozinho, ficar parado pode matar qualquer um. Você sabe. “Eu sei”. O mais próximo possível das centenas de pessoas, viaturas e carros governamentais, Bóreas saiu do seu carro e começou a cortar a multidão. Era muita gente para pouco espaço. “Tenho que achar esse novato”, pensou. “Boné preto, ruivo e casaco rubro... Achei!”.

– Franco? – perguntou Bóreas.

– Sim?

Ouvir seu nome fez o fotógrafo olhar imediatamente para o lado e fitar o repórter. Como todo ruivo, Franco tinha algumas sardas, mas não era nada de mais. O que realmente chamava a atenção eram os olhos meio avermelhados que ele tinha.

– Prazer, Bóreas. – foi aí, nesse exato momento, ao apertarem as mãos, que tudo teve início.

Já pensou como seria se você pudesse congelar e analisar um momento? O exato momento em que esses dois apertaram as mãos podia congelar e ser analisado. Se você acredita em sequencialidade e ordem de fatores, isso pode ser dado como o início de tudo o que ainda estava por vir. Quando um país invade o outro, podemos dizer que isso foi o estopim de uma guerra. Pois bem, esse foi o estopim do que estava para acontecer; de tudo que estava para acontecer. Que tal... Voltar? Sim! Mostrar o outro lado desse começo.

É difícil saber como entidades cósmicas medem o tempo, mas se formos comparar do jeito que os humanos medem, voltaremos uma semana no tempo, movendo o foco de um homem da cidade para um homem sozinho no alto de uma montanha. Antes da queda da Luz, porém, após o início do ataque, a barbaridade que acontecia no Verso podia ser vista por esse homem e mais alguns outros. Oito no total. Enquanto Trevas devastava as forças da vida, seus filhos observavam tudo da Terra. O choro das vidas que queimavam e sucumbiam ao marchar da entidade louca. O olhar dela pode ser visto fitando o mundo abaixo daquele. Talvez olhando seu filho? Mandando uma mensagem para alguém? Talvez fosse apenas um gesto de desgosto para com aquele mundo. A traição do Fogo.

O clímax pode ter sido a morte da Luz, mas a traição do Fogo abalou a todos. O filho deste, que via tudo do alto de uma montanha fora, talvez, o mais surpreso. Naquele momento, o filho do Fogo sabia que o certo seria correr e se esconder, mas ele tinha que provar sua inocência para um pessoa, sua companheira através de anos e gerações: A filha do Raio.

A traição do fogo. Traidor, pária, inimigo. Esses eram os títulos carregados pela entidade cósmica e, consequentemente, seu herdeiro na Terra. “O que os outros estão pensando? Devo esconder-me?”. É incrível como tantas coisas podem passar em nossa cabeça durante uma fração de segundo, não? Talvez fosse a distância, ou o fato deles ainda terem todos os poderes, mas segundos foi o tempo necessário para a tempestade de raios ter início. Ao virar-se, F (ou Franco) viu a mulher de cabelos azuis claros sair do raio que havia atingido o alto da montanha; em sua mão, uma espada prateada – lembrando aquele estilo usado no Japão – era rodeada por traços azuis dançantes.

– Eu sei o que você está pensando. – disse o ruivo em um tom sério.

Nada. Uma raiz de árvore saiu do chão e enroscou-se na perna do suposto traidor. Apesar de parecer uma, a força daquele aperto era de longe superior ao de uma cobra, a mais forte delas.

– NÃO! – gritou enquanto agarrava a raiz – VOCÊ SABE QUE EU NÃO TENHO NADA A VER COM ISSO!

Também azuis, os olhos dela desviaram o olhar. Um sinal de relutância, talvez? Não havia tempo para pensar nisso. Os raios rugiam e corriam pelos céus, enquanto que a terra começou a tremer. A chuva começou a cair. Você já chegou a ver aquelas tempestades que o mundo parece que vai acabar? Algo tão forte e poderoso que é como se a fúria dos deuses caísse sobre o nosso mundo? Não é que ela caísse, mas ela já estava aqui.

Como em sua perna, uma raiz – com a mesma foça que a primeira – prendeu o braço de F. Atrás dele, a mulher de cabelos castanhos deixava sua franja gerar uma sombra, algo como uma máscara, evitando que seu rosto aparecesse. Não era algo que ela queria estar fazendo, mas “aquilo fora imperdoável”, pensou ela. Não havia nada em suas mãos, apenas uma aljava (com flechas) cruzada em suas costas.

– O lado da luz não foi suficiente, irmão? – aquela voz. Uma voz pesada.

– Thomas...

Um frio tomou conta do corpo de Jonas. Não era frio em si, na verdade, mas a sensação gélida do medo. O medo próprio. Uma presença apareceu em suas costas. A mão pesada do alto homem desceu com força no ombro do ruivo; O Filho da Terra, um dos mais poderosos filhos de essências.

– Então veio me matar pessoalmente... T?

– Não iremos mata-lo, apesar de esse ser o destino correto para um traidor receber.

O sermão do recém-chegado continuou. Jonas, entretanto, trocou olhares com Rei, A Filha do Raio. “Por favor”, estava estampado no apelo que os olhos do homem faziam. Mais atrás, Nia, A Filha da Natureza, observava tudo de punhos cerrados. “Algo está errado. Isso está errado”, pensou.

– Você nos ajudará a pegar a essência das Trevas.

– O que... O que você está falando? – “como se isso fosse possível”.

– Seu pai e você tem mais proximidade com Trevas e—

– EU NÃO SOU UM TRAIDOR! – interrompeu Jonas com um grito.

Um olhar foi tudo o que bastou. Aquilo não fora espontâneo, e sim mais como uma tática de batalha bem estudada e aperfeiçoada. Um sinal que só aqueles entenderiam. Rei apontou sua lâmina contra os céus a medida que Thomas deu dois passos para trás. Um denso e poderoso raio surgiu entre as nuvens, descarregando sua ira no homem preso. Mais um. A cada clarão gerado pelo raio, os também castanhos cabelos do homem ressaltavam-se. A cicatriz que cortava seu lábio inferior também se revelava. E outro. Quatro, para completar, foi o número de penitências que sofrera Jonas.

– R... Até você? – a esperança parecia ter ido embora. Nada mais importava.

O ar começou a ficar seco. Mesmo com a chuva, parecia que a umidade típica não estava mais ali. Um cheiro de madeira queimada subiu com a fumaça que saía da raiz. Fogo e mais fogo. Todos levantaram a guarda ao verem Jonas sumir nas densas chamas.

– Resolveu lutar então, traidor!?

Todas aquelas chamas entraram em harmonia, tomando a forma de uma Fênix de fogo. Como todo pássaro, aquela Fênix levantou voo e foi embora. Mesmo voando, ela estava machucada... Machucada e triste. “Meus irmãos me caçando e meu pai me traindo... Não tomarei mais partido nessa guerra sem causa”.

– Covarde. – todos reuniram-se ao redor do local onde O Filho do Fogo estava.

– E agora? – perguntou Nia – O Verso perecerá caso não entremos na Guerra.

– Anfitrite já está à procura d’ O Filho do Vento. Esses bastardos do Vento estão acostumados a ficarem sozinhos, mas agora é diferente. – disparou T.

– Luz...

Tanto Nia quanto o Filho da Terra olharam para Rei. Era a primeira coisa que ela falava no dia.

– A batalha começou, mas A Filha da Luz está desaparecida. Relatos dizem que sua atual encarnação é uma mulher, mas sem ela, as nossas chances são poucas.

– Ela irá revelar-se. Nossos pais necessitam de nossa ajuda...

Foi assim que começou a Era das Trevas. Brigas na família; sangue e lágrimas; dor. Na Terra, Franco exilava-se e A Filha da Água marchava em busca do filho que estava faltando. A Luz, desaparecida e O Filho do Vento esquecido. Nenhum sinal daquele que vestia o manto das Trevas na Terra.

A batalha, apesar de esmagadora, durou bastante. No fim, entretanto, O Verso perdeu. Thomas, Nia e Rei sentiram a dor e a Luz indo embora. Sem as essências, os filhos da Terra, Água, Natureza e Raio perderam quase todos os poderes. O raio de luz branco caia mirando o mundo abaixo d’O Verso. Eles perderam.

Novamente no meio da multidão, Bóreas e Jonas sorriam um para o outro. Suas mãos apertavam-se, balançando de leve. A vida do local, as pessoas, seus futuros e seus passados, o presente, era a moldura perfeito para o quadro que daria início a tudo.

– Prazer, Jonas.