Paralelamente ao encontro dos dois repórteres, Dione, a irmã mais velha de Bóreas, estava auxiliando os militares que estavam ali pelo objeto na cratera. O dia estava uma correria. A arrogância dos soldados contra as dos policiais já havia gerado muitos problemas.

O trânsito daquela parte da cidade estava um caos – como em várias outras partes -. Um jovem policial corria desesperadamente entre os carros da polícia e os veículos militares. Ele suava e estava ofegante; claramente assustado. Em suas mãos estava um telefone celular. Atrás dele vinha um cabo, também correndo, com outro telefone em mãos. No fim daquele alvoroço e dos gritos, o policial e o cabo acabaram se dirigindo as mesmas pessoas.

– Capitão! – gritou o policial. Perdemos mais uma.

Ao lado do alto e barrigudo homem, o qual fora chamado de Capitão, havia um oficial militar – primeiro tenente – ao qual recebeu a mesma notícia, só que vinda do cabo que também tinha um telefone em mãos. Más cruzadas de olhares depois, o pânico estava alastrado.

– Sabe onde foi? – disse o primeiro tenente.

– Não, senhor. – na plaqueta do cabo estava escrito Guariglia. Tudo o que sabemos é que outra delegacia de policia foi atacada.

Quem atacaria várias delegacias em plena luz do dia?, pensou o Capitão da polícia.

– É a sua primeira vez trabalhando em algo parecido com isso?

Aquela área estava lotada de pessoas. Algumas gritavam, outras riam e conversavam aos berros. Os carros buzinando também não ajudavam Jonas a ouvir o que Bóreas estava tentando dizer.

– Acho que se pode dizer que sim... – a voz desse estava relutante.

Os dois homens começaram a caminhar para o centro da multidão. Vários militares e policiais estavam posicionados naquela área. Em um ponto, Jonas tentou tirar uma foto da cratera, mas foi atrapalhado por um oficial da policia que pôs-se na frente da câmera.

– Que tipo de coisa está enterrada ali que nós não podemos nem tirar uma foto? – perguntou-se Bóreas.

– Você não sabe mesmo, não é?

Viajando até o outro lado daquela grande cidade, era possível ver as fumaças provenientes de alguns incêndios que estavam acontecendo em alguns bairros daquela área. As nuvens estavam cinza e quem andava na rua se assustava com a quantidade de caminhões de bombeiros que circulavam naquela área. Em uma delegacia de polícia – localizada bem no cento daquela área – ali perto, todos estavam nervosos. Desde o mais jovem policial até o delegado responsável pela divisão. Todos falavam dos ataques repentinos e da estadia do exército na cidade. Algo grande está para acontecer, murmurou um dos tenentes para si mesmo. Uma alta explosão assustou todos ali.

– O que foi isso!? – gritou uma policial.

– Veio lá de fora. – respondeu alguém.

Uma massa de uniformes escuros com detalhes em prata e ouro foi correndo até a rua. Mesmo as pessoas que estavam ocupadas, com telefones na mão e coisas assim, foram ver o que havia gerado aquela explosão. Já lá fora, o policial que estava na frente do grupo parou na metade da escada que dava na calçada. Um carro pegando fogo, com peças espalhadas e chamuscadas fora o cenário visto. Atrás do fogo, algumas pessoas pairavam olhando para os oficiais.

– Quem está aí? – sacou a arma, seguido por todos.

– Ninguém. É só uma sombra.

Eles avançaram.

A multidão não desaparecia. Mesmo com o tempo, e o horário de almoço chegando, as pessoas ainda estavam em volta da cratera. Na verdade, parecia que mais pessoas chegavam a cada momento. Os carros táticos e dois tanques do exército faziam um cordão na área, sem contar com as inúmeras cancelas improvisadas e os próprios militares, armados com muito poder de fogo. Mais do que deveriam.

– Senhor, afaste-se.

– Cabo... Guariglia, não? Cabo, você não sabe nada sobre esse cometa? – perguntou Bóreas, que anotava algumas coisas em um pequeno bloco.

– Não é um cometa. Afaste-se, senhor.

– Mas eu...

– Senhor! – gritou um policial – Afaste-se ou terei que detê-lo por obstrução.

– Policial Torres, não é? – Bóreas leu a plaquinha no uniforme do homem – Colocarei o seu nome na minha matéria.

Era óbvio que ninguém ali ia dar nenhum tipo de informação, mas não custava nada tentar. Todos os policiais e militares ali pareciam centrados no que estavam fazendo. Cansado e com fome, Bóreas se virou procurando por Jonas e viu que este estava parado na calçada, encarando o céu. Merda de novato resmungou enquanto cruzava o mar de pessoas.

– Você pelo menos sabe como se liga essa merda de máquina?

– Está vindo.

– O que está v—um raio negro caiu no carro que estava a poucos metros de Bóreas, explodindo-o.

Tudo estava escuro. Longe – mais longe do que qualquer homem poderia alcançar – alguém em um manto escuro andava. Não dava para saber onde era, ou quem estava lá, apenas essa pessoa de preto e com um chicote na mão. A cada passo que dava, a figura se distanciava do campo de visão de Bóreas, até que entrou em uma sala; foi quando tudo ficou mais claro. Aquilo parecia um homem, apesar do observador não saber o que é. Este estava acorrentado, velho e cansado. O repórter tinha a sensação de que conhecia aquele homem, mesmo que nunca o tenha visto. Já sentiu isso? A agonia? “Filho...” foi o que ele disse.

– BÓREAS! – gritou Jonas.

Os tiros e outras explosões foram pior do que o som de um bipe ao acordar alguém. Estou vivo, pensou o homem. Impossível.

– O que... O...

– Temos que ir, vamos!

Tudo estava girando e embaçado para Bóreas. Os militares e policiais atiravam em coisas... Estranhas. No estado em que estava, pareciam mais manchas escuras e rápidas, muito rápidas. Os raios negros não paravam de cair do céu. Distraído, Bóreas tropeçou e caiu.

– O que... – era um cadáver que havia o derrubado no asfalto.

– Não pare de correr. – disse Jonas enquanto corria em direção à cratera.

O caos estava se espalhando por todo o lugar. Conforme os segundos iam passando, os sentidos de Bóreas voltavam a seu estado normal, o que lhe permitia ver e ouvir tudo com mais atenção. As “coisas” pareciam animais, bestas, mas não como nada que ele já havia visto. Como for lhe dito, o homem começou a correr atrás do ruivo. Prédios em chamas, o grito de uma criança, que clamava por sua mãe e o cheiro da morte espalhavam-se por ali.

Já em frente a cratera, o falso fotógrafo apontou para o objeto no centro do buraco e virou-se para o outro homem.

– Pegue! – gritou Jonas.

– Pega você. – respondeu Bóreas.

– Eu... Eu não posso. Vá, nós precisamos daquilo!

– Do que você está falando? Nós precisamos é sair daqui. Agora.

– Apenas pegue!

Do outro lado da cratera, um militar viu toda a cena, incluindo o momento em que Bóreas começou a descer até o objeto que outrora estava protegendo. Não, não, pensou. Antes que pudesse fazer alguma coisa, uma sombra fechou o sol sobre sua cabeça. O frio do medo congelou o peito do militar. Paralisado, nada pode fazer para evitar ter seu coração perfurado por algo afiado e duro; era um tipo de baioneta. A criatura rugiu.

O som ecoou por vários metros, até que chegou aos ouvidos de Jonas. Não havia quase nenhum civil – vivo – no local, apenas os que tentavam lutar contra... Será que aquilo podia ser chamado de invasão? Guerra? A palavra que mais descrevia o que estava acontecendo era um massacre. Sim, apenas os que tentavam evitar o crescente massacre ainda estavam ali. O ruivo não parecia estar com medo daquela criatura. Esta devia ter pouco mais de dois metros, com dois chifres no topo de sua cabeça. A baioneta era atrelada a sua... Calda, sim. Para piorar, ele vestia “Uma armadura”, pensou o homem.

– Mas que merda de coisa é aquela!? – gritou Bóreas.

Sem medo, Jonas pulou a cratera. Antes que pense, sim, era um salto impossível, mas ele o fez. Sua sombra passou por cima do homem no buraco, que, ao olhar para cima, jurou ver algo parecido com asas vermelhas. Na verdade, parecia mais com fogo em forma de asas. “Impressão minha”, disse enquanto mirava no objeto preso no chão. Este era algo parecido com um orbe, uma esfera cinza. Ao contrário do que achava, sua remoção foi fácil. Por que ele quer essa coisa? Eu quero sair daqui... Uma lágrima escorreu do rosto de Bóreas enquanto este escalava até sair do buraco em que estava. Já no asfalto, seus olhos viram algo que – na opinião deste – nunca deveriam ter visto. Jonas socou o rosto da criatura. O barulho do golpe fora alto e Bóreas podia jurar que viu uma faísca sair do punho do outro homem. Atordoado, o estranho ser rugiu de raiva.

O som era ensurdecedor. Alguns vidros chegaram a quebrar. Jonas, porém, não fraquejou. Como o suor que escorria de suas testas, chamas saíram dos poros de sua pele, o suficiente para encher e atear fogo em seus braços. O tempo parou naquele momento. Todos que viam a impossível cena ficaram chocados. Você já vivenciou algo tão estranho, tão assustador ou, até mesmo, incrível, que o tempo pareceu correr mais devagar? Cortando o momento, o homem em chamas mirou seu braço na direção da criatura. Esta foi totalmente pulverizada pelo calor das chamas.

– Você... O que é você?

– Não havia tempo para explicar. Você pegou?

Paralelamente àqueles eventos, Dione, a irmã mais nova de Bóreas, corria de uma criatura quadrúpede, cinza e com grandes garras. A mulher estava desesperada e sem forças, tornando-se uma presa fácil. A cada chance que tinha, mirava sua pistola na criatura, mas seus tiros não tinham muito efeito. No máximo, atrasavam um pouco o monstro.

– Alguém! Socorro! – ela gritou, antes de tropeçar e cair.

Três tiros acertaram a cabeça da criatura, que foi ao chão.

– Corra até aqui! – o atirador balançava a mão no alto de uma loja de dois andares.

O misterioso homem deu a chance e Dione aproveitou, disparando o mais rápido que podia até a loja.

– Não pare de correr! Atravesse a loja e continue correndo! – gritou ele.

A criatura levantou-se do chão. Os tiros nem sequer fizeram uma perfuração em seu crânio. Desesperado, o atirador misterioso pegou uma granada de sua bolsa, removeu o pino de segurança e a arremessou. Apressado, deu as costas e pulou no latão de lixo que havia atrás da loja, alcançando Dione. A granada explode.

– Você matou aquela coisa?

– Não sei e não quero ficar para descobrir.

Os dois correram o mais rápido, tentando alcançar algum lugar com resistência militar ou civil. Em uma avenida a duas quadras dali, uma grande batalha tomava lugar. Policiais e militares tentavam segurar as criaturas vindas do outro lado da cidade. Os sobreviventes que escondiam-se nos prédios em volta estavam todos observando de janelas o grande derramamento de sangue. Com uma grande desvantagem, os militares pediram mais reforços e mais poder de fogo. Todos estavam perdendo a esperança, até que algo aconteceu. Algo que os livros do Verso descrevem como golem chegou em um raio negro que rasgou os céus. Os tiros, gritaria e correria cessaram. A criatura tinha três metros e aparentava ser incrivelmente forte, visto o tamanho de sua massa corporal.

Longe, muito longe dali, Jonas olhava na direção de onde tudo acontecia.

– Merda... Temos que ir. Depois eu te explico tudo.

– O que... – uma explosão cortou Bóreas – o que aconteceu?

– Eles chegaram.

A lâmina de uma greatsword perfurou o peito do golem.