Era das Trevas
4 Cidade Morta
O dia pareceu ter durado apenas alguns minutos após o cair da noite. A batalha havia cessado para uma parada estratégica, talvez. Vai saber. Tudo o que era claro é que os sobreviventes – humanos, claro – estavam escondidos, fossem civis, policiais ou militares. O exército negro caminhava livre pela madrugada. Alguns ainda destruíam coisas, mas a maioria parecia apenas esperar. “Por que esperar?”, pensou Jonas, enquanto encarava o vazio da cidade pelo vidro quebrado de uma janela.
Bem igual com o resto, àquela parte da cidade estava bastante danificada. Não havia nenhum prédio sem algum dano. Agora com quase todos destruídos, não eram mais os carros que enfeitavam a vista, e sim os corpos e escombros espalhados por todo lado. De hora em hora, um grito ou choro podia ser ouvido. Ninguém ajudava. Todos esperavam o silêncio vir ao som de ossos quebrando ou carne sendo mutilada.
Trancados em um quarto escuro, porém, em boas condições, Bóreas e Jonas esperavam o melhor momento para agir. O primeiro dormia, algo que parecia não fazer há séculos, deixando a vigia para o outro. De um dos cantos daquele pequeno quarto, um homem com silhueta totalmente escura saiu e repousou a mão no peito do que dormia. “Acorde”, disse em voz baixa.
– O que? – perguntou Bóreas.
– Oi? – perguntou de volta Jonas.
“Um sonho?”. Agora sentado na cama, sua força já parecia ter parcialmente voltado. Após acharem um lugar para se esconderem enquanto o dia estava claro, Jonas explicou tudo o que pôde para o outrora jornalista. Apesar de achar ser muita informação para o homem processar, o Filho do Fogo contou tudo com a esperança que o outro lembrasse de sua verdadeira natureza. Nada, mas pelo menos algumas dúvidas foram esclarecidas e um plano de ação formado.
– Como iremos sair daqui para ir até aquele lugar que você me disse?
– Começando um novo conflito. Está vendo aquele carro ali? – Jonas apontou para um jipe estacionado ao lado do prédio da frente.
– Sim. — respondeu Bóreas.
– Eu irei chamar a atenção das criaturas enquanto você vai até ele. A chave deve estar dentro, caso contrário, espere eu chegar. Se você conseguir liga-lo, vá embora que eu irei encontra-lo fora da cidade.
Depois de ouvir tudo, o homem que estava dormia consentiu e voltou a sentar-se na cama. Seus pensamentos flutuaram pelo Jonas havia lhe dito mais cedo. “Eu sou... O Filho do Vento?”, pensou. Rapidamente, seu olhar voltou-se para a esfera que estava em cima do criado mudo.
– Então... Eu sou adotado ou algo assim? – perguntou Bóreas.
– Hã?
– Você disse que eu sou o Filho do Vento.
– Não. Você representa a entidade, a consciência do elemento vento, na Terra. Você é o que chamamos de um “filho de alma”. Apesar de ser geneticamente filho de seus pais, sua alma, assim como a de todos os Filhos, vem reencarnando desde a Grande Criação. Sua alma está ligada ao Vento.
– E a minha irmã? Ela também é uma... Filha, ou algo assim?
– Não.
“Ela é apenas uma humana comum.”
A quilômetros dali, o cabo Guaríglia, Dione e Torres – que agora estava com eles – circulavam pelo interior de uma farmácia. Um lugar bem conveniente para estar preso, visto que todos estavam com feridas e arranhões. Não havia só o trio ali. Um casal e seu bebê, uma senhora e três jovens tremiam, cada um em seu canto. Os produtos da farmácia estavam, em grande maioria, espalhados pelo chão. A destruição e os contínuos saques foram os responsáveis por tal bagunça.
– Os reforços vão chegar daqui a duas horas, no amanhecer. É quando iremos agir.
– Vocês podem ir, se quiser. Eu tenho que buscar meu irmão. – disse Dione, interrompendo a linha de raciocínio do soldado.
– Nessa confusão toda, seu irmão já deve estar morto. E mesmo se não estiver, como acha que vai encontra-lo?
– Se ele estiver vivo, e eu tenho certeza que está, já sei para onde ele irá.
Os pensamentos horríveis não fugiam da mente de Bóreas. As imagens do que poderia estar acontecendo com sua irmã vinham como flashes em sua mente: torturada, morta, esquartejada, dissecada, tudo. Nada escapava. Um pequeno calafrio subiu a espinha deste, que tremeu de leve. O ar parecia ter ficado mais pesado e um aperto gelado em seu coração – tristeza – o acertou como uma flecha. “Está decidido.”
– O que você está fazendo? – perguntou Jonas ao ver o outro por a Essência do Vento dentro de sua mochila.
– Indo salvar minha irmã.
– Você não pode. Existem centenas dessas criaturas lá fora. Saia antes do amanhecer e será morto e a essência roubada. – Jonas pôs a mão no peito de Bóreas. Você não vai. – concluiu.
– De acordo com o que você me disse, eu sou o mais poderoso desse mundo, visto que estou com a essência de meu pai. Posso não saber ou lembrar de como usá-la, mas prometo criar uma confusão tão grande que ambos seremos mortos. Deixe-me passar, Filho do Fogo. – seu olhar e seu tom estavam afiados e alinhados como alfanjes gêmeos.
Alguns minutos depois, Bóreas estava saindo do prédio e esgueirando-se em vielas e becos. Jonas estava atrás. “Não posso deixar esse babaca se matar”, pensou.
Normalmente, chegar de onde a dupla de fogo e vento estavam até Dione não demoraria mais que quarenta minutos, mas por estarem tomando cuidado, tendo que fazer desvios algumas vezes, os dois demoraram pouco mais de uma hora. O lugar era uma praça, ou o que restou dela. Seus brinquedos estavam destruídos e haviam alguns corpos, alguns mesmos até de crianças, ali. Aquela visão entrou fundo na mente de Bóreas, que passou a mão pelo balanço destruído.
Tão nítido quanto os corpos, o homem de vento pode ver seu eu criança correndo, chorando para dentro de um dos brinquedos do parque. O dia clareou e várias pessoas estavam andando com suas famílias. Bóreas, porém, chorava e soluçava escondido e sozinho. Horas se passaram até que uma pequena e criança Dione o achou dormindo, encolhido como se fosse um caracol. O cenário voltou para sua forma atual: destruída e com o cheiro da morte impregnado ali.
– O que é esse local?
– Eu vim para cá depois que meus pais morreram. Minha irmã me achou dormindo. Depois daquele dia, esse lugar passou a ser meu refúgio do mundo.
– Temos pouco menos de uma hora antes do nascer do sol. Depois disso, irei com ou sem você, homem do Vento.
O crepúsculo pré-amanhecer já ia surgindo, sendo assistido por três pessoas no alto do que restou de um prédio. Na frente do primeiro havia uma greatsword encravada no chão. Ao lado deste, duas mulheres também observavam aquela cena. A de cabelos azuis, na verdade, fitava o chão entre seus pés, enquanto a outra apenas parecia não ligar para a cor laranja que dominava os céus.
– Este será o último dia dessa cidade... – a voz de Thomas deu outro ar ao momento
– Vamos fazê-lo contar, então. – disse a mulher com o arco.
O dia já estava totalmente claro, trazendo o conflito novamente à tona. Não dá para saber onde começou, mas as criaturas voltaram a atacar seus alvos, uma vez que estes reapareceram. Ainda na praça, Dione e Bóreas se viram, mesmo que ainda muito longe um do outro. Guariglia e Torres corriam junto com a mulher, mas algo no céu chamou a atenção.
– Queimem até a última alma dessa cidade. – disse a voz seca do homem sentado no trono negro.
Algo estava caindo. Parecia um cometa, mas não era; estava claro que não era. Sua forma era estranha e parecia se mexer e alterar. Jonas virou seu olhar para a bola de fogo que caia rumo em direção onde eles estavam. “Não fora de propósito”, pensou antes de voar contra o objeto. O militar e os policiais assustaram-se com a cena. Começando como uma rajada de chamas, o Filho do Fogo tomou a forma de um pássaro de fogo. O choque contra aquela coisa que caia emanou algumas ondas de energia. Ali, Jonas tentava empurrar o objeto e mudar sua trajetória, porém, nada funcionou. Uma boa olhada no buraco feito com seu punho e o homem pode ver o que realmente aquilo era: o principal guerreiro do exercido das Trevas. Uma katana com punho azul perfurou o casulo de rochas.
No chão, os pedaços flamejantes de rochas destruíram o que restou da praça. Uma pequena explosão arremessou Bóreas contra uma coluna caída no chão, enquanto que o outro trio desapareceu nas explosões e no fogo. Toda a momentânea e curta felicidade do ambiente foi reduzida a cinzas. A explosão chamou a atenção das criaturas mais próximas – que não eram poucas – e, em pouco tempo, eles andavam procurando por cadáveres. Uma criatura bípede, com vestes rasgadas e rosto deformado, achou Bóreas em baixo de algumas pedras, sorrindo ao ver o homem desmaiado e indefeso. O canhão de corte da Filha da Água atravessou o peito da criatura, matando-a.
Jonas foi arrastado por Dione até um lugar seguro, onde, uma vez lá, o acordou. A primeira reação do homem foi apertar o pescoço da mulher, mas logo o soltou ao ver que era apenas uma pessoa comum. Dando um tempo para recuperar as forças, Jonas levantou sob a mira das armas de Guariglia e Torres. Ambos estavam assustados e tentavam esconder isso por trás de suas armas.
– Vocês tem que sair daqui. – o ruivo falava enquanto empurrava os dois homens armados em sua frente.
– Não vou a lugar n—
– Agora. – terminou com um tom seco e grosso.
Em uma sala branca, totalmente branca, e longe, bem longe dali, um homem de cabelos negros estava sentado em uma cadeira. Não havia mais nada na sala. Literalmente, nada mesmo. O homem, entretanto, estava encarando um ponto escuro na parede a sua frente. Não havia sentido naquilo, mas ele o fazia. Na verdade, seu olhar parecia estar indo além daquela parede branca, como se esperasse algo acontecer.
De volta à cidade quebrada, Anfitrite, a Filha da Água, ajudava um ferido Filho do Vento a sair dali. O caminho dos dois foi bloqueado por um esquadrão do exercido das Trevas. Sem temer o perigo, a mulher de cabelos azuis claros disparou seu canhão de corte contra as criaturas. Os jatos eram rápidos e mortais, capazes de cortar até diamante, o que era impossível para uma pessoa comum. Como é da característica daquelas criaturas, elas sumiram nas sombras. Uma delas arranhou as costas de Anfitrite, enquanto que um tipo de cão mordeu o braço que segurava o canhão. Uma lâmina de gelo atravessou o crânio da criatura. Sangrando e em desvantagem, a Filha da Água lutou até derrotar o último do esquadrão.
Escondida entre pilastras e rochas, Nia mirava seu arco em Anfitrite e Bóreas, pronta para disparar a qualquer sinal de perigo mortal. A mão de Thomas em seu ombro indicou que não era necessário fazer mais nada. “Por que não agimos?”, pensou. Não só pensou, como também perguntou.
– Essa cidade está acabada. Isso foi só o começo... Temos que parar esses desgraçados antes que seja tarde. – disse o Filho da Terra.
– Como faremos isso? – perguntou a arqueira.
– Trevor.
As fortes e vermelhas chamas de Jonas eram envolvidas por uma aura negra como nada visto antes. O rastro de vermelho havia sido manchado com o preto à medida que ele cruzava os céus em sua queda. Já de pé em sua frente, um cavaleiro de armadura parcialmente destruída empunhava uma espada de duelo. Novamente em pé, Jonas segurava uma machadinha em cada mão. O punho parecia ser feito de algum tipo de metal, mas nada que desse para ser reconhecível. Escrituras estranhas estavam gravadas em ambas as lâminas, que brilhavam em um forte vermelho.
– Onde você conseguiu esse poder? – perguntou o Filho do Fogo.
O outro homem não respondeu, apenas sorriu e mostrou a tatuagem de uma foice em seu braço exposto. Jonas arregalou os olhos de espanto. Como borrões, o vermelho e o preto chocaram-se em um implacável duelo. Os golpes das machadinhas eram anulados com a rápida e perfeita defesa da espada de duelo. Um corte desferido por esta fez o sangue de Jonas se derramado no chão. O corte em seu peito parecia profundo, mas não era algo que ele tinha o luxo de preocupar-se naquele momento.
Usando a raiva e convicção em uma bela combinação, o ruivo pisou com força no chão e fez com que colunas de lava explodissem em direção ao inimigo. Este era mais rápido. Nada havia o acertado, com exceção da primeira, que o pegou de surpresa. Cordas de energia negra amarraram e arremessaram Jonas para o alto, caindo com um chute foice do cavaleiro negro. Este estava pressionando a batalha contra o outro. O céu, de repente, escureceu, mas somente em cima do território da cidade. Colunas negras levantavam-se a cada esquina, indo tão alto que os olhos não acompanhavam mais.
– O que você...
– Essa cidade verá a fúria da Primeira Entidade. – ele sorriu.
Apesar de nunca ter visto aquilo, o Filho do Fogo sabia o que estava para acontecer. A “fúria da Primeira Entidade” ia, basicamente, arrancar a alma dos corpos com vida daquela cidade, levando-as para a profunda e eterna escuridão. Jonas tomou sua forma de pássaro de fogo, mas nada pode fazer ao ser golpeado por uma onda de energia negra. Mais uma vez, a batalha entre o Filho do Fogo e o homem com a marca da foice continuou. A atenção, entretanto, foi toda para uma coluna negra que fora destruída por uma flecha. No alto de um prédio, Nia atirou uma flecha, acertando em cheio o ombro do cavaleiro. Em outro estante, Rei acertou um chute no peito do homem da tatuagem como um raio acerta uma árvore. O golpe destruiu o pedaço da armadura daquele local, empurrando o homem para trás.
– Rei... – Jonas olhou claramente feliz para a Filha do Raio. – Rei, eu...
O Fogo foi totalmente ignorado, uma vez que a mulher de cabelos azuis escuros disparou contra o inimigo. Seus golpes eram rápidos e precisos, mas isso não era suficiente. Vendo uma abertura na guarda desta, o homem da tatuagem socou o rosto da mulher com toda a força que conseguiu reunir naquela fração de segundo. Cambaleante, Rei tentou ficar em pé, mas o raio negro a jogou para longe dali. Enfurecido, Jonas cerrou o punho, abrindo-o logo depois, mostrando uma pequena esfera vermelha; era uma estrela de supernova. Aquela técnica era perigosa e difícil de ser apreendida, mesmo para um Filho de Essência. Os errantes dos Três Montes o treinaram bem.
Sem medo e sem nada mais para perder, J acumulou chamas tão quentes quanto às do inferno e arremessou a pequena estrela contra o homem da armadura. Um escudo de Trevas foi a sua tentativa de defesa, mas essa logo fora frustrada, partindo-se em pequenos pedaços. Por mais estranho que vá parecer, a explosão da estrela foi concentrada e direta, jogando o outro homem para longe dali.
– Esse lugar já era... – o ruivo falava da cidade.
Quando percebeu, ele estava sozinho. Rei e Nia haviam desaparecido. As colunas começaram a reagir umas com as outras. O ar ficou rarefeito e o corpo de Jonas bem leve. Dione, Guariglia e Torres agonizavam no chão, com as mãos em seus pescoços e peitos; os efeitos eram mais fortes em pessoas comuns. Perto dali, Anfitrite e Bóreas estavam na mesma situação, sendo pior para este último, que ainda não havia obtido todos seus poderes.
Abrir portais pela as dimensões não é algo difícil, se em condições normais. Como Jonas estava, toda sua energia foi gasta na fenda que materializou até o Verso, por onde foram ele, Dione e os outros dois homens. Anfitrite e Bóreas continuaram ali, sozinhos em meio a gritos e pessoas morrendo. Sorrindo e alegre, o homem do quarto branco estalou o dedo, criando um eco na sala fechada. No fim, os Filhos da Água e do Vento haviam desaparecido na escuridão.
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