Era Uma Vez o Amor
9 Capítulo 9
Notas iniciais
No dia seguinte ao beijo, Emma estava totalmente inquieta. Não conseguia se concentrar no trabalho. Não tinha dormido nada a noite, rolou pela cama a noite inteira, quando finalmente foi sucumbida pelo cansaço, e nisso já passava das 4 da manhã.
Ainda nem era hora do almoço, mas ela estava na lanchonete da Vovó. Ficar naquela delegacia estava matando ela, além do tédio, não parava de pensar em Regina e no beijo. Precisava se distrair.
Estava sentada tomando um chocolate quente. Era viciada naquilo. Não havia hora nem lugar pra tomar um.
Vez ou outra Ruby parava próxima a sua mesa e batiam um papo de uns dois minutos.
Em um desses momentos em que a moça se afastou, Emma se permitiu olhar para o corpo dela. De propósito. E não era preciso muito para enxergar qualquer parte do corpo da garçonete, visto que as roupas que usava eram as mais curtas, justas e decotadas possíveis.
Nunca tinha olhado pra uma mulher com desejo, e agora de repente tinha beijado uma. Queria entender o que era aquilo que sentia. Se era mesmo atração por mulher o que estava sentindo, queria ter certeza, queria entender como aquilo funcionava.
E o que constatou foi que nada sentiu ao olhar para Ruby. Absolutamente nada. Realmente a única mulher que mexia com Emma era a Prefeita. Era a única que fazia surgir dentro dela aquele desejo jamais sentido.
Passou a mão pelo rosto. Exausta pelo sono e por tentar e tentar entender aquilo e não conseguir. Resolveu voltar pra delegacia.
Ao sair, August estava se aproximando de moto e encostou na frente da lanchonete.
– E então, vamos tomar aquele drink agora? – Perguntou ele.
– Não vai entrar? – Ele ficou em silêncio – Ué, pensei que quisesse um drink.
– E quero, mas eu não disse que seria aqui. Sobe aí.
– Quer que eu suba na sua moto? – Emma perguntou desacreditada.
– Foi o que eu quis dizer com “sobe aí”- Respondeu debochado.
– Se a gente for a algum lugar, eu dirijo. – Ela retrucou impaciente.
– Que tal parar de ter o controle sobre tudo e se arriscar um pouco? – Ela suspirou meio irritada – Você me deve uma bebida. Sobe aí – Ele continuou sem se importar. – Eu conheço um poço com água boa.
– Se você não for, eu vou – Disse Vovó, que observava tudo sorridente, debruçada na cerca da lanchonete.
Emma a olhou e suspirou. Por fim decidiu ir. Talvez fosse bom tomar uma bebida com ele. Quem sabe assim conseguia se distrair e parava de pensar numa certa morena linda de lábios avermelhados e macios.
Ele entregou um capacete a ela, que subiu na moto. E saíram.
Logo estavam em um lugar cheio de árvores, no meio da floresta, de frente a um poço velho e abandonado.
– Isso é um poço? Literalmente? – Emma perguntou achando graça, quando desceu da moto.
– Bom, podem dizer o que quiserem de mim. Mas sempre digo a verdade.
– Achei que a gente ia beber vinho ou whisky.
– Você quer que eu te embebede? – Ele perguntou cheio de ironia.
– Não – Ela disse cortando logo.
– Na próxima então – Ele não deixava de sorrir nem quando ela era ríspida.
– Que otimista – Foi impossível não achar graça daquele jeito dele.
Ele pegou duas canecas na sua bolsa presa na moto e foi até Emma, que estava examinando o poço de perto.
August começou a falar algo sobre uma lenda, de que a água do poço vinha de um lago com propriedades mágicas. Ela disse que ele parecia o Henry falando sobre magia.
Emma ficou desconfiada e perguntou como ele sabia tanto sobre aquele lugar. E ele disse que simplesmente leu o que estava na placa do poço.
Ele continuou aquele papo sobre água e magia. E sobre acreditar em coisas inexplicáveis, e ter a mente aberta. Tudo aquilo que Emma já estava cansada de ouvir de Henry o tempo todo. Mas ao contrário do garoto, August não impunha que ela acreditasse no que ele dizia. Apenas comentava, como se ele mesmo não tivesse muito interesse.
Brindaram e beberam um pouco da água. Que era realmente boa. Apesar de estar muito gelada. Era um dia frio.
Até que não era de todo mal conversar com ele. Já haviam batido alguns papos antes. Ele certa vez chegou a ajudá-la com o caso, quando Mary Margaret estava na cadeia.
Mas a verdade é que nada conseguia fazer Emma parar de pensar naquele beijo. Tinha botado na sua cabeça que iria esquecer aquilo. Toda aquela história.
Mas estava sendo muito difícil esquecer o calor dos lábios de Regina nos seus. O corpo quente dela.
Foram embora e Emma voltou pra delegacia. Sem conseguir abandonar a lembrança do beijo.
Aquele beijo mexeu com ela de um jeito que há muito tempo não sentia.
*****
Alguns dias haviam se passado. Regina e Emma não haviam se visto mais. Ambas estavam evitando aquele encontro. Queriam deixar a poeira baixar. Como se a distância e o tempo fossem apagar de suas memórias o que tinha acontecido.
Henry foi para a lanchonete da Vovó depois de sair da escola. Regina tinha combinado com ele de se encontrarem lá para lancharem. Henry realmente estava dando uma chance a Regina, queria ver que ela podia sim ser uma pessoa melhor.
Mas ele estava cabisbaixo. Já tinha vários meses que Emma estava em Storybrooke e nada mudava. Nenhum sinal de que a maldição seria quebrada. Já havia vários dias, desde que Emma tinha combinado com ele de tentar fazer Regina mudar, e mesmo assim nada acontecia.
Por um momento ele se permitiu desacreditar. Será que realmente eram apenas histórias? Será que era tudo coisa da sua cabeça e afinal não existia nenhuma Rainha Má, nem Branca de Neve e Príncipe Encantado e nenhuma Salvadora?
Estava sentado no banco do balcão e Ruby se aproximou para colocar canela no chocolate dele. Ele apenas deu um meio sorriso triste.
– Não vai tomar seu chocolate, Henry? – Era August que falava. Ele nem olhou. August sentou ao lado dele. – Preocupado com alguma coisa?
– Nada demais.
– Não parece ser algo sem importância.
Henry deu um breve suspiro.
– É essa cidade. Nada parece ser o que é aqui. E as coisas nunca mudam. Nada acontece. E só eu percebo. Por que ninguém mais vê isso?
– Porque a maioria só vê o que tá na frente delas. Você não vai encontrar as respostas no fundo dessa caneca.
– Então onde? – Ele perguntou antes de levar o copo a boca e apreciar um pouco do creme.
– Num livro numa mochila – Henry olhou de relance para sua mochila que estava sobre a mesa.
– Você sabe que eu sou escritor. Acredito encontrar as minhas respostas sob a forma literária.
– É só um livro – Respondeu totalmente desanimado.
– Mesmo?
– É.
– Nós dois sabemos que não é bem assim... Pode trazer água? – Pediu a Ruby.
Henry olhou desconfiado pra ele.
– O que sabe sobre isso? – Perguntou o garoto.
– Sei que é um livro de histórias – Falou como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
– Não são todos? – Henry perguntou debochado. Aquele jeito lembrava muito o de Emma.
– Histórias... que realmente aconteceram – O homem concluiu.
Henry arregalou os olhos e o olhou esperançoso.
– Você acha que meu livro é real? – Perguntou com um leve entusiasmo.
– Tão real quanto eu.
– Como sabe?
– Digamos que eu sou... alguém que acredita. E eu quero ajudar os outros nisso. É por isso, meu amigo, que eu estou aqui.
– Mas eu já acredito.
– Não estou aqui por você. Estou... aqui pela Emma.
– Quer que ela acredite? Por que não conta pra ela? – Em seu coração puro havia esperança. A fé crescendo novamente dentro dele.
– Bom, existem algumas pessoas, como você e eu, que tem fé. Mas outras como a Emma, que precisam de provas.
– A última vez que procurei prova fiquei preso num buraco – Henry falou com insatisfação, lembrando de quando ficou preso na mina abandonada.
– Existem lugares menos perigosos pra procurar. – Estendeu o braço e levantou uma parte da mochila de Henry, que estava aberta, deixando um pedaço do livro à mostra.
Henry imediatamente quis tirar o livro da bolsa, mas então ouviu uma voz irritada chamando por ele.
– Henry?! – Era Regina.
Ela se aproximou deles caminhando rápido. O salto batia forte no chão, produzindo um barulho alto.
– Boa tarde, Senhora Prefeita – August cumprimentou com leve ar de ironia.
– Você aqui com meu filho. – Disse desconfiada e sarcástica – De novo! – Concluiu irritada, lembrando que certa vez já o havia encontrado falando com Henry em frente a mansão.
– Só estávamos conversando. – O homem respondeu sorrindo.
– E o que um homem como você tem pra conversar com um garoto de dez anos? – Perguntou com seu ar de superioridade.
– Ele é um garoto bem esperto. Sabe conversar. – Ela olhava pra ele com desprezo – Bom, eu já estava de saída. Com licença. Até mais, Henry. – Disse enquanto saia.
Assim que ele se afastou, Regina disse rígida.
– Henry, quantas vezes eu já te disse que não deve conversar com estranhos?
– Ele não é um estranho. É o August.
– Henry, esse homem chegou aqui sabe-se lá de onde, nós nem sabemos quem ele é. Não quero você conversando com ele. Ele pode ser um bandido.
Ele não respondeu nada, apenas desviou o olhar e começou a tomar seu chocolate.
Regina suspirou impaciente. Virou-se para pegar o cardápio.
– Emma, oi! – Henry exclamou quando o sino da porta soou e ele olhou pra ver quem era.
Imediatamente o coração de Regina disparou. Não era possível isso.
Apesar do susto ela não olhou para a loira. Tentou se manter firme. Teve que respirar fundo várias vezes, pois de repente parecia faltar oxigênio no ar.
Não era possível. Passou todos aqueles dias evitando ver ela. E agora a encontrava ali, do nada. Sentiu que Emma se aproximava.
– Oi, garoto. — Sorriu pra ele – Oi – Foi só o que conseguiu dizer quando Regina levemente se virou na direção dela.
Emma também estava nervosa. Não esperava encontrar Regina ali naquele horário.
Desde o beijo vários dias se passaram e não a tinha visto. Achou que uns dias sem ver ela seria suficiente pra tirar aquelas ideias e aquele beijo da sua cabeça.
Mas agora ali, frente a frente com ela, percebeu que foi exatamente o contrário.
Já sentia sua respiração dar sinais de que iria ficar ofegante. Era o que sempre acontecia quando estava nervosa.
Quando entrou na lanchonete e viu Regina, seu coração deu um salto em seu peito, suas mãos suaram. Era nervoso, ansiedade. E uma pontada de felicidade.
Por mais que tentassem afirmar que não. Elas sentiram saudade uma da outra.
Parada à porta tendo a visão da Prefeita de costas, e sentindo seu coração na garganta, pensou em dar meia volta e sair dali. Mas logo Henry chamou por ela. Não teve outra escolha a não ser ir até eles.
Estavam as duas envergonhadas. Tinham se beijado. Emma a segurou à força. Regina deu um tapa nela. Como simplesmente não pensar naquilo? As duas sentiram seu rosto corar pela vergonha.
– Olá, Xerife Swan – Regina buscou o ar e tentou manter sua voz firme ao responder o cumprimento dela. Não poderia demonstrar fraqueza diante dela. Seria um absurdo.
– Lancha com a gente, Emma! – Pediu Henry entusiasmado.
Regina sentiu a respiração falhar de novo.
Não! Não! Henry não podia ter feito aquilo. Como iria suportar a presença dela com todo aquele turbilhão de emoções dentro de si? Seu coração batia feito um louco. Sentia aquele friozinho na barriga. A lembrança do beijo bombardeando sua mente.
– Não, obrigada, Henry, eu não posso ficar. Só vim pegar um chocolate quente e espairecer um pouco, mas tenho que voltar pra delegacia, tô muito ocupada – Mentira. Simplesmente não sabia como ia ficar ali sem agarrar Regina.
Sim! Isso mesmo. Por que no minuto em que se aproximou dela, que a viu tão linda, sentiu seu cheiro e olhou para aquela boca com aquele batom vermelho, aquela boca que sabia ser tão macia, a vontade que sentiu foi de fazer a mesma coisa que fez naquele dia. Agarrá-la e beijá-la.
Seu coração batia tão desesperado. Desesperado por sentir o que sentiu naquele beijo. Emma queria tanto naquele momento ter Regina em seus braços mais uma vez.
Regina não conseguia dizer nada. Corria os olhos pelo cardápio, fingindo pensar no que ia pedir. Mas não conseguia se concentrar em nada do que estava escrito ali.
Escutar a voz dela tão perto. E sentir o cheiro. Mesmo sem estarem abraçadas, era como se pudesse sentir o calor que emanava do corpo dela.
Durante todos os dias que se passaram, o beijo permaneceu vivo em sua mente. Mas ainda assim achava que a qualquer momento aquilo iria sumir de sua cabeça e tudo voltaria ao normal.
Mas agora, novamente na presença dela, tão perto. Tudo que sentia era um desejo louco de que Emma agisse como naquele dia. Que a pegasse com força e a beijasse com toda vontade.
– Bom, eu já vou indo – Disse a loira pegando a embalagem que Ruby havia trago.
Quando a garçonete a viu entrando já foi logo preparar. Já estava acostumada ao lanche que Emma fazia todas as tardes. Sempre chocolate com canela e algumas rosquinhas.
Quando Emma saiu da delegacia sua intenção era comer lá na lanchonete. Mas agora não conseguiria ficar ali. Ou ia ter um treco de tanta ansiedade. Ou ia acabar esquecendo das pessoas no local, inclusive de Henry, e pegar Regina e beijar com toda vontade que estava sentindo.
Despediu-se deles e saiu. Com o coração quase saindo pela boca. As pernas fraquejando. Um calor no peito.
E Regina ficou ali desnorteada. Sentindo as mãos suando, um nervosismo que não era normal dela. O peito sendo consumido por um fogo que parecia queimar seu coração.
Henry foi quem a tirou de seus devaneios.
– Mãe, por que você e a Emma não se falaram direito? – Ele era esperto. Tinha percebido o clima.
– O que? – Tentou disfarçar – Foi impressão sua, Henry. – Sorriu com toda sua falsidade.
– Não foi não! Vocês brigaram de novo?
Engoliu em seco. Ela ia dizer o que? “Sim, Henry. Ela me beijou à força e eu dei um tapa nela”
– Claro que não, querido. Está tudo bem. – Regina sabia fingir com maestria.
Ele ficou em silêncio. Como se quisesse analisar ela.
– Mãe, por favor, promete que não vai brigar mais com a Emma. – Seu tom era quase suplicante.
– Henry, eu... – Tentou contornar a situação.
– Promete! – O pequeno garoto de apenas dez anos disse com autoridade. – Por favor.
Ela mesma se surpreendeu com o tom dele. Suspirou. Não queria ver seu filho triste de novo. Não podia mais afastar ele de Emma. E nem de si mesma.
– Eu prometo, Henry.
Ele deu aquele sorriso doce. E ela sorriu de volta.
*****
À noite daquele mesmo dia, Emma estava muito inquieta. A ansiedade era tanta que mal conseguiu tocar na comida. Pensava em Regina simplesmente o tempo todo. E depois de ter encontrado ela no Da Vovó naquela tarde, aquilo estava ficando insuportável. Aqueles pensamentos e sensações estavam sufocando ela.
Precisava sair, se distrair, parar de pensar. Parar de pensar em tudo. Apenas relaxar.
Chamou Mary Margaret para ir com ela, mas a amiga recusou, alegando estar muito cansada. A professora não era muito de noitadas.
– Emma, o que ta acontecendo com você? – A morena de cabelos curtos perguntou.
– O que? Como assim?
– Você anda estranha. Tem alguns dias que você não come direito. Fica cabisbaixa pelos cantos. Parece que sua mente tá voando. – Fez uma pausa e se aproximou dela. – Você tá com algum problema? Sabe que pode confiar em mim. – Mary realmente se importava com a amiga.
Emma respirou fundo. É claro que estava com um problema. Um que nunca imaginou ter. Que estava tirando seu sono, sua fome, seu juízo.
Queria muito conversar com Mary sobre isso, mas não sabia nem por onde começar. Mas uma vez decidiu manter aquilo em segredo.
– É impressão sua, Mary Margaret. Acho que estou só estressada mesmo. Tem certeza que não quer vir comigo?
– Tenho sim – Mary respondeu sem acreditar muito na resposta da amiga.
Emma pegou sua jaqueta vermelha e saiu.
Queria beber, curtir. Ver gente diferente. Apesar de saber que isso era praticamente impossível ali. Storybrooke era uma cidade pequena onde quase todos os rostos eram conhecidos.
Decidiu ir à Toca do Coelho. Lá ouviria música alta, beberia muita cerveja, talvez jogasse um pouco de sinuca. E com sorte, esqueceria Regina por algumas horas.
*****
É impressionante como ás vezes em nossas vidas acontecem coisas que parecem estar planejadas para acontecer. Alguns chamam isso de destino. Outros dizem que é apenas coincidência.
Mas o que importa é que por vezes estamos no lugar certo, na hora certa. Em outras estamos no lugar errado, na hora errada.
Um simples ato pode fazer a felicidade de um coração ansioso por afeto. E assim também um simples ato pode destruir um coração carente de amor.
Destino ou coincidência, certas coisas acontecem sem explicação. E nos deixam impressionados por que aconteceram justamente no momento em que estávamos naquele lugar, naquela hora.
Naquela noite Regina também estava aflita, ansiosa. Encontrar Emma aquela tarde tinha complicado tudo ainda mais. Não entendia por que não conseguia afastar aqueles pensamentos.
Aquilo já estava se transformando em desespero. Ser beijada por uma mulher já era bem estranho. Ter sentido as coisas que sentiu era mais estranho ainda. E quando se lembrava quem é essa mulher tudo ficava mais confuso. Como podia ter tido aquelas sensação num beijo roubado pela Salvadora? A mulher que podia destruir tudo que ela tinha construído.
Se fosse uma outra mulher seria complicado, mas até seria aceitável. Mas com Emma não! Iria tirar ela de sua cabeça.
Decidiu pegar seu carro e dar uma volta pela cidade. Como costumava fazer quando estava com a cabeça cheia. Bom, foi assim que sofreu o acidente da outra vez, mas não era por isso que iria acontecer de novo.
Henry já estava dormindo, então daria uma volta rápida.
*****
Emma estava com um copo de cerveja na mão e um taco de sinuca na outra. Acompanhava a jogada de seu adversário. Não sabia o nome dele. E também nem importava.
Comemorou quando ele errou. Ela já estava um pouco alterada pela bebida. Mas nada que fizesse trocar as pernas ou não se lembrar no dia seguinte. Estava apenas um pouco mais alegre.
Era sua vez de jogar. Colocou o copo numa das beiradas da mesa e deu sua tacada. Encaçapando a bola.
– Boom!! – Exclamou. Pegou o copo e bebeu um grande gole da cerveja.
– Parabéns, Emma.
Logo se virou quando ouviu aquela voz. Era August.
– Tá me seguindo, é? – Ela perguntou irônica – Você aparece em todos os lugares que eu tô.
Ele gargalhou.
– Bom, já que eu te encontrei aqui, tava pensando se não poderia te pagar aquele vinho ou aquele whisky agora. – Disse presunçoso.
Emma apenas sorriu. Começaram a bater um papo. Ele a desafiou pra uma partida de sinuca.
Ficaram jogando, conversando, bebendo. Emma estava mesmo conseguindo se distrair. Tinha feito bem pra ela ir ali.
August estava claramente flertando com ela. Não que nunca tivesse feito isso antes. Ao contrário, fazia sempre. Mas era diferente agora... Emma estava retribuindo.
Precisava tirar Regina da cabeça, aquilo era um completo absurdo. E se ficar com alguém a fizesse esquecer? Podia funcionar.
Estar com um homem novamente, talvez fosse o que precisava para voltar ao normal.
Mas ao mesmo tempo não queria aquilo. Estava se forçando a querer algo que seu corpo não desejava.
Queria beijar ele pra ver o que ia sentir, para ver se com o beijo dele, conseguia esquecer o de Regina. Mas ao mesmo tempo não sentia desejo de beijá-lo. Aquele desejo que sentia pela boca de Regina. Era tudo uma completa confusão na cabeça dela.
Resolveu ir embora.
Ele a acompanhou até o lado de fora, se ofereceu pra levar ela em casa, mas ela recusou, afinal estava com seu fusca.
– Bom, eu já vou – Disse fazendo menção de se afastar.
Mas ele a segurou levemente pelo braço, fazendo ela se virar pra ele. Seus olhares se cruzaram. Emma sentiu o coração palpitar. Mas não foi de emoção. E sim por saber o que aquele olhar dele dizia. E o dela com certeza não dizia o mesmo.
Mas é claro, ela havia retribuído o flerte dele lá dentro. De certa forma tinha dado a entender que queria aquilo também.
Ele se aproximou. Ela quis recuar. Mas novamente pensou que aquilo poderia ser a solução do problema. Então não se afastou.
Ele segurou o rosto dela com as mãos e a beijou de leve. Tocou de leve os lábios dela com os dele.
Emma quis corresponder, mas o calor daquela boca não era o mesmo, não era macia como a de Regina.
“Regina”
O nome, o rosto belo, o cheiro, o beijo. Tudo em relação a Regina povoou a mente dela.
Então se afastou rapidamente. Sem nem dar tempo para que ele movesse a boca contra a dela. Foi apenas um selinho. Sem graça, ela baixou o olhar.
– Desculpa, August. Eu não... não posso... não quero isso. – Foi sincera.
Nem esperou para ouvir o que ele ia dizer. Saiu em disparada para seu carro e foi embora. Deixando o homem lá parado, sem entender muito bem o que tinha acontecido.
Ela estava envergonhada. Dele e de si mesma.
Percorreu o caminho de seu apartamento com uma sensação de que tinha feito algo errado. Mas não tinha.
Pensava em Regina, no beijo.
August era bonito, legal, jamais havia forçado nada. E ainda assim Emma o dispensou. Não era ele que ela queria.
Sabia bem quem era e que boca ela queria beijar.
*****
Já tinha passado mais de uma hora que Regina, estava dando voltas pelas ruas da cidade. Distrair não tinha conseguido, mas sentia-se mais relaxada. Os pensamentos ainda estavam ali, mas estava de certa forma mais tranquila.
Já estava voltando para casa quando passa perto da Toca do Coelho e vê o fusca de Emma parado numa das vagas da frente. Seu coração deu um salto. Ela estava lá.
E então como num passe de mágica, vê ela saindo do bar junto com aquele homem.
E assim a coincidência acontece. Regina estava ali exatamente no mesmo momento que Emma. Mas seria mesmo coincidência ou destino? As coisas simplesmente acontecem ou acontecem por que estavam previstas para acontecer?
E um único momento pode mudar tudo.
Eles estavam próximos, rindo. Regina sentiu um calor subir por sua espinha.
Diminuiu a velocidade do carro e estacionou um pouco a frente. Eles não viram o carro dela. Regina não sabia por que, mas sentiu necessidade de saber por que Emma estava ali com aquele homem. Ficou observando eles pelo retrovisor.
Foi quando viu ele a segurar pelo braço. Fechou os punhos no volante com raiva. Por que ele estava segurando ela assim?
Eles se olharam. O coração de Regina batia ansioso. Como quando sentimos que algo ruim vai acontecer. E então... ele a beijou.
Regina soltou um suspiro pesado, como se não acreditasse no que estava vendo.
Seu semblante se fechou numa expressão de raiva. Sentiu seu peito doer. O que era aquilo?
Ele a segurava pelo rosto. Emma estava com o corpo praticamente grudado no dele. E as bocas se tocavam. Regina sentiu nojo. O peito queimava num sentimento que ia da raiva a dor. Não saberia explicar o que era, mas se sentiu sufocada. Como se algo apertasse seu peito.
Seus pensamentos se tornaram involuntários, não conseguia controlar. Se tivesse magia, com certeza transformaria aquele homem nojento em um inseto e pisaria nele. Saboreando sua morte.
Ou ainda melhor, arrancaria seu coração, e o esmagaria na frente dele, para que ele visse a própria morte.
O importante seria afastar ele do corpo dela. Aquilo estava lhe causando uma raiva descomunal.
Mas então, logo em seguida, viu Emma se afastar rapidamente. E a expressão dela não era de felicidade ou de alguém que acaba de beijar a pessoa que gosta. Pelo contrário, Emma parecia insatisfeita.
Mas ela não estava tão perto e olhava pelo retrovisor. Não poderia dizer ao certo o que estava acontecendo lá. Muito menos saber o que Emma disse logo após o beijo.
Viu Emma se afastar dele e entrar no carro. O fusca dela passou bem ao lado de onde seu carro estava estacionado. Acompanhou o veículo amarelo com o olhar, até ele sumir virando a rua.
Ainda observava o vazio por onde o fusca dela havia passado, quando ouviu o barulho de uma moto. Olhou pelo retrovisor e viu August sair com a moto dele, indo na direção oposta a que Emma tinha ido.
Ficou ali por alguns minutos. Sentindo a respiração entrecortada. E aquela sensação horrível no peito. Deu a partida e saiu daquele lugar que estava lhe causando calafrios de ódio.
Logo estava em casa. Entrou desanimada, jogou as chaves no móvel e subiu as escadas. Abriu a porta do quarto de Henry e entrou. Observou ele dormir, parecia um anjinho. Ajeitou a coberta dele. Passou a mão por seus cabelos e depositou um beijo em sua testa.
Foi para seu quarto. Retirou o casaco e jogou numa cadeira qualquer. Coisa que não costumava fazer, já que é extremamente cuidadosa com suas coisas. Mas nessa noite nada parecia importar.
Sentou na cama, olhando para o nada.
“O que a Emma viu naquele cara?” Pensava enojada.
“Ela nem sabe quem ele é”. “E ele é feio, horrível”. Estava com tanta raiva que podia sentir sua mão doer de tão forte que apertava o punho.
“Será que eles estão juntos há muito tempo?”
“Então por que ela me beijou?” Sentiu sua raiva aumentar.
“Agora mais do que nunca vejo que ela não tem vergonha na cara. Sai por aí beijando todo mundo. Homem, mulher. Tanto faz.”
“Provavelmente já estava com ele antes, afinal ele faz visitinhas pra ela na delegacia” – Pensou o “vistinhas” com deboche – “E saem juntos, se pegam na frente do bar!”
Bufou com raiva.
“Sem vergonha descarada! Tem um caso com aquele cara e me agarra pra me beijar! Isso não vai ficar assim, Emma Swan.”
Levantou-se, trocou de roupa e deitou para dormir. Mas dormir era algo que não fazia com facilidade nos últimos tempos.
Não conseguia tirar aquela imagem da sua cabeça. Ainda sentia aquele aperto no peito. Respirou fundo, suspirou. “Por que ela me beijou se está com ele?” Pensava.
Além da raiva, sentia uma certa melancolia. “Não! Isso não! Não posso estar com ciúmes dela. Isso já é demais!”
Não queria admitir, mas o ciúme a estava corroendo por dentro.
*****
No dia seguinte a cabeça de Emma doía demais. Efeitos da ressaca. Tinha bebido um pouquinho além da conta.
Mas sua cabeça doía ainda mais por todos os pensamentos que atormentavam sua mente. “Por que eu fui beijar ele, meu Deus?!” Se martirizava. “O que tá acontecendo comigo? Primeiro beijo a Regina. E agora o August. Era só o que me faltava. O que deu em mim?” Se perguntava sentada na cadeira da delegacia, enquanto massageava suas têmporas.
“Mas quando ele me beijou eu não senti nada. Pelo contrário, me senti mal.” Pensou lembrando da sensação desagradável que o beijo ele lhe causou. “Diferente de quando eu beijei ela... Nossa, foi um turbilhão de emoções”. Sem conseguir controlar, sorriu levemente. Mas seu sorriso sumiu quando lembrou do tapa.
Suspirou e levantou para pegar uma água. Sentou numa das mesas enquanto bebia a água. Espalhados pela mesa estavam alguns dardos. Aquelas malditas coisinhas que ela nunca conseguia colocar no alvo. “Hoje eu consigo”. Pensou semicerrando os olhos enquanto mirava apontando o dardo para o alvo.
Jogou. E ele bateu na parede. “Aff, desisto”
– Ah, o dinheiro dos nossos impostos sendo empregado – Ouviu aquela voz debochada quando ia se levantar da mesa para pegar o dardo do chão.
– Regina? – Emma respondeu mais desconcertada do que gostaria. O coração queimou no mesmo instante.
A morena tinha aquele sorriso cínico no rosto. E como estava linda. Um vestido cinza com um terno preto por cima, o qual estava apenas apoiado sobre os ombros e ela segurava com a mão direita.
– Vejo que se diverte bastante trabalhando aqui não é mesmo, Xerife? – Foi mais do que sarcástica.
Emma suspirou levantando da mesa finalmente.
– Só estava relaxando um pouco, Senhora Prefeita. – Emma estava exausta. Não queria brigar. E além do mais a presença de Regina a afetava.
– Eu imagino, depois da noite que teve ontem com seu namorado. – Enquanto falava, Regina sentia o sangue ferver só de lembrar de Emma beijando aquele cara.
Emma a olhou confusa.
– É por isso que estou aqui, para falar de sua relação com esse tal de August. – Concluiu Regina engolindo em seco. Mas mantendo sua pose.
Emma não fazia ideia do que Regina estava falando.
– Eu não tenho uma relação com ele – Falou pegando o dardo do chão e jogando na mesa.
– Ah, então nada aconteceu entre vocês dois?
Emma arregalou os olhos. Como ela poderia saber?
– Você esquece, Srta. Swan, eu tenho olhos em todos os lugares. – Disse andando na direção dela.
Para estar falando daquele jeito, é por que ela sabia do beijo. Mas como?
Emma sabia que quanto mais perguntasse, mas aquilo as levaria para mais uma de suas discussões sem fim. E ela estava mesmo cansada daquilo. Então resolveu apenas dizer a verdade.
– Nada significante.
– Ah, é claro que não. Por que você é incapaz de sentir alguma coisa por alguém. – Regina foi rápida em responder. Sentindo um misto de raiva e decepção alvejar seu coração – Existe um motivo pra estar tanto tempo sozinha, não é?
Regina passou dos limites. Como ela se atrevia a falar assim? Ela não tinha nada a ver com sua vida.
– Com todo respeito, minha vida é problema meu – Retrucou impaciente. Juntando os dardos para arrumá-los na mesa.
– É sim, até que ela invada a minha vida. – A morena se aproximou mais – Fique longe do Henry. – Ordenou educadamente com aquele sorriso ameaçador.
– O que?! Como assim fi...
– Xerife Swan, esse homem com quem resolveu se envolver é um completo estranho – Regina a interrompeu – Ele anda rondando o Henry. Não sei o que ele quer nessa cidade ou que quer com meu filho, mas não estou disposta a pagar para descobrir. Quero ele longe! E se você quer ter uma história de amor com ele, quero você longe também. — Emma a olhava sem entender. – Fique longe do meu filho.
Falou bem próxima a ela e então se virou e saiu.
Regina entrou no carro e respirou fundo. Conseguiu! Teve forças para falar o que queria para Emma. Não iria arriscar a segurança de seu filho por causa de um casinho de amor nojento entre a Xerife da cidade e um estranho com cara de psicopata.
Mas no fundo. Lá no íntimo de seu ser. Naquele lugarzinho que só ela poderia adentrar. Sabia que não era só isso. Estava ardendo em raiva por Emma estar com ele. Já havia admitido em sua mente que Emma tinha um caso com ele.
Sentia ódio disso. O que ela viu nele? O que ele tinha de tão especial? Queria matá-lo.
E queria punir a loira. Jamais voltaria a ter Henry de novo.
*****
Emma estava completamente desorientada. Como Regina sabia que algo havia acontecido entre ela e August? Inacreditável.
Era hora do almoço ela estava comendo no Da Vovó. Quando algo estava ruim, conseguia piorar. Não sabia como Regina sabia daquilo, mas o fato dela a querer longe de Henry a preocupava.
É claro, ele era mesmo um desconhecido. Ela tinha razão em se preocupar com Henry. Mas será que era só isso? “Claro que é, Emma! Não coloca coisas na sua cabeça”.
– Oi, Emma – Estava tão distraída que não viu Henry se aproximar. Ele sentou de frente pra ela na mesa.
Emma se assustou.
– O que tá fazendo aqui, garoto?
– Saí mais cedo. E como eu sei que você sempre almoça aqui a essa hora, vim correndo pra cá te ver. – Ele falava rápido, feliz por estar com ela. – Eu tô com saudade. Quando vamos sair juntos de novo?
Ela suspirou sem saber o que falar. Será novamente estaria naquela situação de disputa por Henry com Regina?
– Não sei, garoto. Agora é melhor você ir pra casa.
– O que você tem? – Perguntou estranhando a expressão dela.
– Nada, Henry. Vai pra casa – Se Regina soubesse que estavam juntos ali poderia piorar tudo. Era melhor deixar ela se acalmar e conversar com ela depois.
– Emma, que foi? Me fala por que você tá falando assim comigo. – Ele estava aflito.
Ela passou a mão pelos cabelos e soltou um longo suspiro. Ele não iria desistir.
– Henry... sua mãe e eu... ela disse que não quer mais que eu veja você...
Antes que pudesse terminar a frase e ele falou exasperado:
– Que?! Por que ela fez isso?
– É que ela tá preocupada com você por causa do August, aí então...
– Do August?! – Ele interrompeu de novo – O que ele tem a ver com isso?
– É uma longa história, Henry. Mas eu vou conversar com ela. Vai ficar tudo bem. Só deixa ela se acalmar. Agora vai pra casa, não vamos piorar as coisas. Vai pra casa, por favor. – Ela praticamente suplicou.
– Tá bem – Ele assentiu. Se despediu dela e saiu.
Mas o coração dele estava em pedaços.
E o de Emma também. Ela precisava encontrar um jeito de fazer Regina voltar atrás. Não queria mais brigar com ela. Não aguentava mais. Mas se fosse preciso, brigaria até na justiça.
*****
Quando Regina chegou em casa, Henry estava sentado no sofá esperando por ela. Ele sentia uma tristeza profunda. Estava decepcionado. Sua mãe tinha prometido nunca mais brigar com Emma. E não cumpriu a promessa.
– Oi, querido.
– Mãe, por que você não quer mais deixar eu ver a Emma? – Ele foi direto ao ponto.
Ela o olhou assustada por alguns segundos. Mas logo entendeu.
– Ah, ela já foi fazer fofoca? – Seu tom irônico.
– Não! Encontrei ela na lanchonete e como ela tava muito triste eu perguntei o que era. Ela não queria falar, mas eu insisti e ela falou. Mãe, você prometeu que não ia mais brigar com ela. Você prometeu! – Ele gritou – Por que você fez isso agora? – Ele já chorava tamanho o nervosismo e a decepção.
– Henry, eu não acho que ela seja uma boa companhia pra você. – Tentava ser calma – Ela está se envolvendo com aquele tal de August. E ele pode ser um bandido. Não quero esse tipo de gente perto de você, querido.
Ela se aproximou e tentou fazer carinho no rosto dele, mas ele recuou.
– Mãe, para com isso! Para de decidir tudo sem perguntar o que eu acho! Eu gosto da Emma e ela de mim. Se ela quer namorar o August, problema é dela, não é? E ele é legal. Já tem tempo que ele tá aqui e não fez nada de ruim!
O coração de Regina gelou quando ouviu a palavra “namorar”. Não, Emma não podia namorar com ele.
– Henry, olha só...
– Mãe, por favor – Ele interrompeu – Não me impede de ver Emma. Por favor – Ele chorava. Ela tinha os olhos marejados. Até que uma lágrima correu por sua face. – Se você me proibir de novo de ver ela, eu vou ficar muito triste. Ela não fez nada de ruim.
Aquelas palavras a fizeram lembrar do quanto ele ficou feliz quando ela deixou que ele saísse com Emma. E do quanto ele tinha mudado com ela. Não queria perder aquilo.
E no fundo sabia que não era só preocupação o que sentia. Era um desejo de punir Emma por ter beijado outra pessoa.
Outra pessoa? Aquilo doeu dentro dela. Mas realmente não podia fazer seu filho sofrer por causa daquilo. Quando esteve na delegacia estava cega pela raiva inexplicável e agiu por impulso.
– Está bem, querido – Suspirou alto – Está bem. Me desculpa. Você tem razão. Não quero brigar mais com você.
Ele sorriu em meio ao choro.
– É sério?
– Sim, querido.
– Então prova. Liga pra Emma agora e pede pra ela vir aqui. E me deixa sair com ela.
– Henry, já passa das sete da noite.
– Por favor, mãe.
– Não, Henry – Ela percebeu a expressão de frustração dele. – Olha, amanhã é sábado. Amanhã eu ligo pra ela e peço pra ela vir buscar você, tá bem?
– Promete?
– Sim, querido.
Ele sorriu.
*****
Se aproximava das nove da manhã do sábado e Henry já estava de pé. Desceu as escadas correndo e parou de frente para Regina que estava na cozinha, sentada à bancada, tomando um café.
– Bom dia, meu pequeno príncipe. Deu formiga na cama? – Ela falou sorrindo.
– Você disse que vai ligar pra Emma. Então, tô esperando.
– Mas, Henry, ainda vai dar nova horas da manhã.
– Mãe, você prometeu. – Ele estava ansioso. Pra ver Emma e também por que queria de verdade acreditar que Regina cumpriria o que prometeu.
– Certo, querido. Então vai toma café e depois vai tomar banho, enquanto eu ligo pra saber se ela pode vir te buscar.
– Não quero que você ligue na minha frente.
Ela não gostou do tom dele, mas não retrucou. Pegou o telefone, procurou o número da loira na agenda e ligou.
Na delegacia Emma escutou o celular tocar. E quando olhou o visor sentiu o coração dar um salto. Estava com raiva de Regina, mas aquelas sensação em relação a ela não desapareciam.
– Alô? – Atendeu meio sem jeito. O que será que ela queria?
– Srta. Swan, poderia vir a minha casa agora? Preciso conversar com você – Fez uma pausa – Sobre o Henry.
– O que houve com ele?
– Nada. Bem, eu resolvi que não fará bem pra ele se afastar de você. Então pensei se você poderia vir buscá-lo para passear com ele hoje.
Emma não entendeu nada. Como Regina mudava de uma hora pra outra?
– Claro que sim, mas estou na delegacia. A senhora me libera do trabalho por hoje, Prefeita? – Era normal usar seu tom irônico com Regina, mesmo sem pensar.
– Venha logo, antes que eu mude de ideia, Xerife. Henry está esperando.
– Ok. Estou indo.
Emma se apressou em ir para a mansão.
– Pronto, Henry. Ela está vindo. Agora vá tomar banho.
– Não. Vou esperar a Emma chegar. Aí eu tomo. – Ele queria ter certeza.
Regina revirou os olhos sem paciência. Mas era melhor fazer do jeito dele, não queria que ele ficasse com raiva dela.
Foi para o quarto terminar de se aprontar para ir para a prefeitura, enquanto Henry ficou na sala esperando a Xerife.
Logo a campanhinha toca. Henry foi atender entusiasmado.
– Oi, Emma.
– E aí, garoto? – Ela entrou – Isso é sério mesmo ou sua mãe preparou uma armadilha pra mim? – Disse brincando com ele.
– Se eu quisesse preparar uma armadilha pra você, não envolveria meu filho nisso, Srta. Swan – Aquela voz rouca e sensual vinha da escada.
O salto batia contra os degraus, fazendo um barulho imponente ecoar pelo ambiente. Emma acompanhou a morena descer as escadas. Ela estava deslumbrante. Vestia uma blusa branca de seda e uma saia preta muito justa. Emma tentou, mas não conseguiu segurar o olhar.
Sentiu a respiração falhar e seu coração disparou.
– Eu seria bem mais ardilosa, pode ter certeza – Concluiu a morena quando desceu o último degrau, ficando perto de onde eles estavam. – Pronto, Henry, ela já chegou. Agora vá se arrumar.
– Tá – Falou sorrindo – Eu já volto, Emma – Saiu em disparada correndo pelas escadas.
– Sem correr, Henry! – Regina repreendeu, mas ele já estava lá em cima.
– Me acompanha até a sala enquanto espera o Henry? – Regina disse dando passagem para ela.
Foram para a sala.
– Regina, olha, sei que isso deve ser difícil pra você. Mas é o melhor pro Henry. Pra todos nós. – Emma tentava explicar.
– Eu sei, Swan. Não precisa me lembrar. Estou fazendo isso por ele, por que quero vê-lo bem. Mas saiba que se algo acontecer com ele por sua causa, eu acabo com você.
Emma sentiu uma pontada de irritação pelo tom dela. Mas não culpava Regina por estar agindo assim. Ela era uma mãe.
– E por falar nisso – A morena continuou – Como vai o seu caso com o motoqueiro? – Tentou se segurar, mas não conseguiu. Aquilo estava sendo mais forte do que ela. Precisava saber.
– Eu não tenho um caso com ele, Regina!
– Por favor, Swan, ninguém me contou, eu vi – Seu tom foi mais exasperado do que gostaria. – Eu vi vocês se beijando em frente aquele bar nojento. – Concluiu com insatisfação. Emma a olhou confusa. E Regina entendeu – Eu por acaso estava passando por lá e vi – Achou melhor explicar. Vai que ela pensava que a estava seguindo?
“Então foi isso” Emma pensou.
– Bem, se você viu o beijo, então também viu que eu não correspondi.
Regina se surpreendeu. Realmente Emma não parecia feliz, mas de longe não dava para ter certeza do que estava de fato acontecendo.
– Ele me beijou sim, mas eu recusei. Não sinto nada por ele e não tenho nada com ele. – Sentia uma estranha necessidade de que Regina acreditasse nela.
– É claro, eu já disse, você não sente nada por ninguém. Por que primeiro você me beija e depois sai por aí sendo beijada por qualquer outro. – Simplesmente escapou. E seu tom não era exatamente o que queria.
Tentou se recompor. Voltar a ser a dama de ferro. Não podia deixar Emma perceber o conflito que se passava dentro dela.
Mas Emma percebeu. A voz de Regina parecia trêmula.
– Então é isso? Regina... Você está com ciúmes? – Emma resolveu arriscar. Tinha que saber. Uma estranha pontada de esperança surgindo em seu coração. E sequer sabia de que seria essa esperança.
Regina gargalhou nervosa.
– Está louca, Swan?! Por que eu estaria com ciúmes de você? – Usou todo seu tom frio.
Emma sentiu uma corrente de decepção subir por sua espinha.
– Mas enfim, eu não tenho nada a ver com a sua vida mesmo. – Sentiu uma leve pontada de dor no peito — Desde que isso não afete meu filho, o problema é seu. Tenha o caso que quiser e com quem quiser! – Estava morrendo de ciúmes, mas na admitiria nem pra ela mesma. Fez menção de sair da sala, e passou por Emma.
– Regina... – Sem saber de onde e por que, Emma reuniu coragem e segurou o braço dela quando ela passou, fazendo com que ela parasse.
Aquele simples toque fez todos os pelos do corpo de Regina se arrepiarem. Sentiu o coração vir na boca.
Emma ficou a sua frente, já não segurava mais o seu braço. A loira tinha a respiração ofegante. Aquilo que sentia perto de Regina era tão forte! A ponto de fazê-la esquecer de tudo.
– Eu não tenho um caso com ele – Falou baixo, olhando direto nos olhos dela – Eu juro!
Regina não conseguia deixar de olhar para os olhos da loira. Se conseguisse desviar seria mais fácil. Mas aqueles verdes tinham uma força que prendia ela.
– O que você viu foi um erro. Ele tentou me beijar, mas eu não deixei. Eu não quis! – Era mais forte do que o juízo dela. Pra que dar explicações pra Regina? Não sabia. Simplesmente precisava ardentemente que a morena acreditasse nela.
Emma sentia seu coração quase arrebentar o seu peito. Estava tão perto de Regina, como da outra vez. E ela estava tão linda, e tão cheirosa. Precisava se controlar. Não podia cometer outra loucura.
– Você não precisa me dar satisfação da sua vida, Srta. Swan – Regina vacilava na voz. Aquela proximidade com Emma lhe causava tremores nas pernas. Um frio lhe subindo a espinha. Deus, como o cheiro da Xerife era bom. – A vida é sua – Concluiu num fio de voz.
– Eu sei. Mas eu... só queria que entendesse... não precisa se preocupar em relação ao Henry... eu não tenho nada com o August.
– Ok, Swan – Regina já não conseguia falar. Quando foi que ficou tão vulnerável? “Ok, Swan” foi tudo que conseguiu pronunciar diante daquela mulher linda de cabelos loiros e olhos verdes a sua frente.
Sua cabeça dava voltas. Queria sair dali. E ao mesmo tempo queria se lançar nos braços da Xerife. Por mais que tentasse controlar, sua respiração era pesada.
– E... quanto a eu ter... te beijado – Emma continuou – Eu não quis te ofender... Eu só... – Suspirou – Eu não sei o que me deu... Me desculpa, eu não devia ter feito aquilo – Pronunciou aquelas palavras sem um pingo de verdade. Por que a verdade era que não se arrependia. Ao contrário, queria mais.
E como desejava que Regina quisesse também.
Regina ouvia aquelas palavras sem prestar muita atenção. O coração estava tomado por um ritmo que fazia seu corpo ficar quente com o sangue circulando mais rápido. Queria sair de perto dela, mas não conseguia.
Seus olhos simplesmente não desgrudavam. Já estava impossível controlar todas aquelas sensações. Estavam tão perto uma da outra.
Regina não conseguiu controlar e seu olhar pousou nos lábios rosados da loira, fazendo sua respiração ficar ainda mais forte com aquela visão.
Emma seguindo por instinto o movimento dela, também desviou seu olhar para aquela boca carnuda, aquele batom vermelho era tão convidativo. Era como se as duas estivessem ligadas no automático. Não tinham noção do que estavam fazendo.
O olhar de Regina voltou para o de Emma e percebeu que a loira a olhava intensamente.
Era impossível! Incontrolável! E Regina não conseguiu mais se conter.
Se aproximou mais da loira e tomada por aquele desejo que já lhe consumia corpo e alma, colou sua boca na dela.
Regina a beijou!
Emma não esperava. Desejava, mas não podia esperar que Regina fosse fazer aquilo. Uma chama tomou conta de todo seu corpo. E ela correspondeu de imediato. Precisava sentir aquela boca mais uma vez.
Seus lábios estavam se tocando novamente.
Era um beijo lento. Apenas um reconhecer de lábios. Regina sentia que tudo aquilo era uma grande loucura. Mas era impossível controlar. Movia seus lábios lentamente pelos de Emma. Sentindo a textura deles. A maciez.
Dessa vez Emma tinha certeza, Regina a estava beijando. Segurou a morena delicadamente pela cintura. Gesto esse que causou mais arrepios em Regina.
Com uma certa timidez, mas tomada pelo desejo, Regina depositou sua mão esquerda nos cabelos da loira. Acompanhando os movimentos que ela fazia enquanto beijava.
Então sentiu a língua quente de Emma pedir espaço. Não hesitou. E entreabriu sua boca para dar passagem.
Aprofundaram o beijo.
Agora não só os lábios, mas também as línguas se tocavam. Causando arrepios de fogo pelo corpo das duas.
Emma tinha uma boca tão gostosa de beijar. Era quente, macia, sua língua era deliciosa. Que beijo gostoso a loira tinha.
Emma estava totalmente tomada por aquele desejo louco que consumia sua alma. E ter a boca de Regina grudada a sua num beijo correspondido era o suficiente para que perdesse qualquer resto de juízo que pudesse ter. Com a respiração pesada, puxou Regina para si, a segurando forte pela cintura, colando ainda mais seus corpos.
Regina suspirou no beijo. E seu braço direito passou pelo pescoço da loira, enquanto sua mão esquerda estava entrelaçada nos longos cabelos dela.
O beijo foi ficando mais forte. Suas bocas pareciam se encaixar perfeitamente. Era delicioso sentir suas línguas se entrelaçando. Sentir o coração bater naquele ritmo, sendo aquecido a cada toque.
As mãos de Emma, que não conseguia se conter, passeavam pelas costas da morena, sentindo o tecido fino da blusa dela.
Agora finalmente Emma podia sentir o quanto a boca de Regina era gostosa! Degustava aqueles lábios carnudos sentindo um prazer imenso. Que delicia era beijar aquela mulher. A boca tão perfeita, parecia completar a sua. Um gosto levemente adocicado. Misturado ao cheiro maravilhoso dela.
Aproveitavam cada detalhe daquele beijo como se fosse a primeira vez que beijavam na vida.
Estavam em êxtase sentindo os lábios se tocando, as línguas bailando numa dança de encontro a outra, as mãos buscando mais contato.
Tudo era incrível naquele beijo. Regina não conseguia raciocinar. Pensar se aquilo era errado ou não. Só queria beijar a loira a sua frente. Sentir o gosto daquela boca.
Beijavam-se sem se importar com nada. Esquecendo do mundo a sua volta.
Foi quando ouviram passos rápidos na escada. Era Henry que vinha correndo.
Rapidamente elas se afastaram assustadas. E logo ele entrou na sala. Felizmente ele não viu nada.
Elas nem se olhavam. Agora que o beijo havia sido interrompido, parecia que a ficha tinha caído. E estavam envergonhadas.
– Vamos, Emma?! – Ele estava mais do que entusiasmado.
– V-vamos, garoto – A voz quase não saiu.
– Tchau, mãe – Ele se aproximou e deu um beijo no rosto dela – Valeu por isso!
Ela sorriu meio sem jeito. A respiração ainda era ofegante. E a boca ainda sentia os efeitos daquele beijo avassalador.
– Vambora, Emma – Ele passou rápido por ela, já abrindo a porta e saindo. Deixando ela para trás.
Nesse momento os olhares delas se cruzaram. Estavam tomados pelo desejo do beijo de segundos atrás. Logo Regina desviou. Emma tentou falar algo, mas a voz não saia. Então foi atrás de Henry, fechando a porta da casa.
Quando ela saiu, Regina pareceu soltar todo o ar que estava em seus pulmões. Deixou seu corpo cair sobre o sofá. E ali sentada, mordeu o lábio inferior com a lembrança recente daquele beijo gostoso.
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