Era Uma Vez o Amor
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Já havia se passado uma semana desde a última aventura de Henry. E o castigo continuava. As regras eram claras: Regina iria buscá-lo todos os dias na escola, ele não poderia sair de casa pra nada, ficaria sem televisão e sem videogame e principalmente sem o seu livro. E é claro, sob hipótese alguma ele veria Emma.
Regina fez questão de levar trabalho do gabinete pra casa todos os dias, assim poderia sair do escritório na hora em que Henry saísse da escola e ir direto pra casa com ele, para certificar-se de que ele cumpriria todas as regras do castigo.
Mas aquela semana custou a passar em meio aquele silêncio. Silêncio entre ela e Henry, já que os dois mal trocaram duas palavras nos últimos dias. No início Regina estava realmente furiosa e achou mais do que merecido aquele castigo. Mas agora era apenas orgulho, ele tinha que entender quem mandava. Sua velha mania de conseguir tudo a força. Seu coração estava tão vazio, tudo que queria era o amor de seu filho, mas sentia que não tinha isso como antes.
Henry foi a única pessoa depois de muitos anos que deu carinho à Regina. Amor sincero, atenção, alegria. E foi a única pessoa que Regina conseguiu amar depois de tantos anos. Mas o tempo foi passando e ele se distanciou, se tornou mais frio. Não a tratava com tanto carinho quanto antes. E isso feria Regina profundamente. Seu amor era sincero, mas possessivo. E isso fez com que Henry se sentisse sufocado. E principalmente depois da chegada de Emma, ele tinha se afastado ainda mais.
Nos primeiros dias do castigo via raiva no olhar dele, mas agora ele estava com aquela carinha triste e isso partia o coração dela. Mas como dar o braço a torcer? Isso era tão difícil pra ela.
– Quer mais suco? – Estavam sentados à mesa tomando o café da manha. O silêncio era mais do que constrangedor. E ela resolveu cortar com essa pergunta.
– Não – Ele respondeu seco, olhando para sua panqueca.
O coração dela apertou. Mas não deixou transparecer. Regina havia aprendido tão bem a esconder as emoções que até mesmo quando queria mostrá-las não conseguia.
– Bom, então se apresse. Vá escovar os dentes e saímos em cinco minutos. – Ela disse também seca, mas com o coração doendo.
Levou-o até a escola e foi para o gabinete. Suspirou triste ao entrar e colocar sua bolsa sobre uma poltrona. “Todos os dias a mesma coisa”. Pensou ela. Durante 28 anos tudo era a mesma coisa, trabalho e mais trabalho. Nenhuma alegria de verdade. Exceto Henry. Ele era sua alegria, sua força, sua razão de viver.
E agora sentia que o estava perdendo. E pior, perdendo pra mulher que o abandonou, pra mulher que era filha de sua maior inimiga, pra mulher que podia destruir sua maldição. Pra mulher que estava atormentando seus mais secretos pensamentos.
***
Já era hora do almoço e Regina estava comendo no Da Vovó. Desde o dia que tinha encontrado a xerife lá, parece que tinha perdido seu gosto por sentar no balcão, pois sempre procurava sentar-se na mesma mesa da outra vez.
Estava melancólica. Seus pensamentos vagavam pela Floresta Encantada. Pensava em Daniel. A saudade era enorme. Como ele fazia falta pra ela. Lembrou-se das vezes que se encontravam escondidos para namorar, de como seu coração batia forte quando ele a beijava, a abraçava. Sentia-se protegida, amada.
Era uma jovem apaixonada. E como qualquer outra, só queria ser feliz com o seu amor. Quantas vezes desejou não ser de uma família rica, mas ser humilde como Daniel. E poder ficar com ele sem se importar com poder ou posição social. Ele foi seu primeiro e único amor, com ele desejou formar uma família, ser feliz. Embora estivesse confusa e com medo do que sua mãe iria achar.
Sabia que sua mãe nunca aceitaria, por isso não pensou duas vezes quando teve que ficar noiva do Rei por obrigação. A melhor solução era fugir. Ir pra longe, muito longe. E ser feliz. Pensou em como teria sido se a maldita linguaruda da Branca de Neve não tivesse feito fofoca pra sua mãe.
Sua mãe. Era uma mistura de ódio, amor, raiva e saudade o que sentia por ela. Era sua mãe, mas tinha matado o amor de sua vida só para ter poder, só para que Regina pudesse ser rainha. Mas ainda assim, era sua mãe. E bem lá no fundo Regina sabia que Cora havia feito aquilo por que queria o melhor pra sua filha. Mas isso não justificava nada. E mesmo tendo o pensamento de que Cora queria o melhor pra ela, também sabia que ela queria o melhor pra si mesma. Sendo a mãe da rainha ela teria todas as regalias. De um jeito ou de outro, os motivos de sua mãe foram egoístas.
Sua felicidade havia sido arrancada de forma tão brutal por culpa de duas pessoas: Sua mãe e Branca de Neve.
Observava as pessoas no local enquanto almoçava. Aqueles rostos conhecidos não só de Strorybrook, mas também da Floresta Encantada. Sentia-se tão orgulhosa quando via o quanto havia sido bem sucedida com sua vingança. Todos, absolutamente todos tinham sido separados das pessoas que amavam. E até mesmo quem continuava junto não convivia tão bem, como era o caso de Ruby e Vovó. Estavam sempre discutindo por alguma coisa, não se davam bem.
Regina observava com um leve sorriso o sofrimento deles. Se ela não tinha sido feliz, então ninguém mais seria, principalmente os que apoiaram a causadora de todo o seu sofrimento.
Nesse momento o sino da porta soou mais uma vez. E quem entrou foi a própria: Branca de Neve. Ela caminhou e sentou-se num banco no balcão. O sangue de Regina ferveu. Era incrível como mesmo depois de mais de trinta anos ainda a odiava com tanta força. Só conseguia pensar que se não fosse por ela, teria sido feliz com Daniel.
Ela observava com desprezo a mulher de cabelos curtos. Não suportava aquela mulher. Mary Margaret Blanchard conseguia ser ainda mais chata e insuportável do que era como Branca de Neve.
Alguns minutos depois uma pessoa entrou no estabelecimento e Mary olhou. Regina percebeu que seu olhar mudou. Então virou o rosto para ver quem era. David. Os olhares deles se encontraram, ambos carregados de tristeza. Mary então desviou o olhar e David buscou uma mesa.
Regina sorriu vitoriosa. A melhor coisa que aconteceu foi David ter mentido pra Mary. Isso foi melhor até do que quando Regina armou pra ela com o sumiço de Kathryn. Pois o próprio David havia traído a confiança de Mary. Ele mentiu para as duas, e isso a santa e rogada Mary Margaret não iria perdoar. Eles nunca ficariam juntos. Essa era a vitória de Regina.
Olhou discretamente para ele, que estava numa mesa afastada, nos fundos do estabelecimento. Ele observava Mary, que estava de costas para ele. Seu olhar era triste, culpado. Regina se deliciava com aquilo.
De repente ele suspirou e fez uma expressão idêntica a que Henry fazia quando estava triste. O sorriso de Regina fechou. Henry devia ter puxado isso dele, era seu neto. Imediatamente seu pensamento voou até Emma. Não pode controlar, simplesmente formou a imagem da loira em sua mente.
Desde aquele dia na delegacia, desde aquela proximidade, não a tinha visto mais. Uma semana inteira sem vê-la. Isso era um alívio para Regina, mas não porque só porque a odiava. Mas também porque estando longe não sentia aquelas esquisitas sensações que afloravam quando estava perto dela.
Ainda assim, todos os dias naquela semana procurou sentar-se na mesma mesa em que estava sentada no dia em que se encontraram lá. Era algo inconsciente. Será que era uma maneira de resgatar a lembrança daquele dia. Ou será que esperava que a loira fosse entrar por aquela porta, sentar na mesma mesa que sentou na semana passada e ficar trocando olhares com ela, como foi no outro dia. Regina não sabia explicar. E pra falar a verdade, não pensou muito nisso.
Observando aquela expressão triste que David fizera, e lembrando de Henry, um pensamento voou por sua mente: “Será que Emma também faz essa carinha quando está triste?”. Se perguntou inconscientemente. Logo sentiu raiva desse pensamento. Não tinha cabimento pensar nela assim. Levantou-se e foi até o balcão pagar sua conta. Ao se aproximar lançou um olhar de desprezo para Mary, que desviou o olhar com indiferença.
Mary já não parecia ser aquela menina que morria de medo da prefeita. Já não tinha mais o mesmo respeito por ela. Se não fosse por Sidney ter assumido toda a culpa, ela teria plena certeza de que foi Regina que armou pra ela quando Kathryn sumiu.
Regina saiu da lanchonete e foi para o seu carro. Estava voltando para o gabinete quando decidiu dar meia volta e ir antes a outro lugar.
***
Entrou na loja de brinquedos ainda sem saber o que iria comprar. Olhava carrinhos, bonecos. Enquanto ia para o gabinete pensava em Henry, decidiu que já era hora de terminar o castigo. Não aguentava mais vê-lo com aquela carinha triste. E ele parecia estar bem chateado com ela, então pensou em comprar um presente pra ver se amenizava as coisas.
Ficou um tempo olhando os brinquedos até que decidiu por levar um carrinho de controle remoto que se transformava em um robô. Pediu ao atendente que embrulhasse pra presente. Saiu da loja com um sorriso nos lábios e voltou para o gabinete. Ficou torcendo pra que a hora passasse rápido. Queria ver seu filho, queria abraçá-lo, dizer que o ama.
***
As três em ponto estava na frente da escola do menino. Logo ele saiu. Regina o abraçou forte e deu um beijo em sua testa. Mas ele não correspondeu muito o abraço, estava indiferente.
Quando chegaram em casa ele já ia subir correndo para o seu quarto, mas Regina o chamou.
– Espere, querido. Tenho algo pra você, vem cá. – Sentou-se no sofá e fez sinal para que ele sentasse também. Ele aproximou-se e sentou.
– Toma – Ela disse retirando o pacote da sacola e entregando ao menino. Estava devidamente embrulhado e com um laço azul em cima.
Ele pegou e ficou olhando para o presente.
– Anda querido, abre logo – Ela disse sorrindo.
– Qual é o motivo? – Ele perguntou sério.
– O motivo é que eu te amo.
Ele suspirou e abriu o presente.
– Achei que iria gostar de um brinquedo novo – Ela sorria.
Ele nada disse, apenas segurava o controle e olhava para o carrinho dentro da caixa. Regina ficou um pouco ansiosa com a falta de reação dele.
– Olha só o que ele pode fazer – Disse ela colocando o carrinho no chão e pegando o controle da mão dele – Ele se transforma em um robô. – Ela fez o carrinho andar, tentou transformá-lo em robô, mas não conseguiu – Deve ser assim – Ela disse já irritada, sacudindo o controle e apertando os botões meio sem jeito. O carrinho só andava de um lado pro outro.
Henry sorriu. Regina bufou de raiva olhando pro controle.
– Mãe, me empresta aqui – Disse pegando o controle da mão dela. – Acho que é assim.
O carrinho começou a se abrir e mudar de forma, até que diante deles apareceu um robô de mais ou menos 30 cm de altura.
– Você é bom nisso – Ela disse sorrindo sem graça.
– É – Ele respondeu cabisbaixo.
Trouxe o robô para perto de si, fez ele voltar a ser carrinho e o colocou de volta na caixa.
– Não gostou, querido? – Ela perguntou triste.
– Gostei, mãe. Obrigado.
– Não parece – Ela fez uma pausa – Olha, querido, eu sei que está chateado porque eu te deixei de castigo. Mas eu sou mãe, Henry. E é isso que as mães fazem, corrigem os filhos.
Ele suspirou cabisbaixo.
– Não é só pelo castigo – ele disse agora olhando pra ela.
– O que é então, querido? – Falou mansa.
– É a Emma. Eu quero ver ela.
O coração dela apertou.
– Mas... Henry...
– Eu tô com saudade dela – Ele a interrompeu fazendo a mesma expressão triste que David fizera na lanchonete.
– Henry, por que está com saudade dela? – Ela disse se levantando – Como você pode gostar de alguém que você mal conhece?
– Ela é minha mãe.
– EU sou sua mãe! – Ela quase gritou.
– Eu sei. Mas ela também é. E eu gosto dela tanto quanto gosto de você.
Regina ficou confusa. Não sabia se ficava feliz por Henry ter dito que gostava dela. Ou se ficava triste por saber que ele gostava de Emma do mesmo jeito.
– Ela te abandonou, Henry – Disse baixo, triste.
– Eu sei disso – Ele abaixou a cabeça. Regina sentiu que não devia ter falado aquilo depois da expressão triste que ele fez. Ela o tinha magoado com aquelas palavras. – Mas também sei que ela teve os motivos dela – Voltou a olhar para Regina – Ela achou que não conseguiria cuidar de mim, então quis me dar a minha melhor chance. – Fez uma pausa – E se eu não posso vê-la não vou ficar feliz só porque você me deu um brinquedo. — Levantou-se do sofá largando o brinquedo lá e subiu as escadas correndo.
Regina sentiu os olhos marejados. O ciúme a corroia por dentro. Caminhou lentamente de volta até o sofá. Sentou-se. Uma lágrima teimosa tentou escorrer, mas Regina não deixou. Passou a mão sobre o brinquedo. Lembrou do que Emma tinha dito: “Ele vê em mim uma amiga e não uma carrasca”.
Talvez se estivessem em uma situação contrária, Emma nunca o proibiria de vê-la.
Ficou ali por alguns minutos saboreando aquela tristeza. Até que resolveu por um fim naquele momento de fraqueza. Levantou-se e foi até seu escritório, pegou sua garrafa de sidra de maçã, sua fiel companheira nesses momentos.
“Como Henry pode gostar tanto dela?”. Pensava enquanto levava o copo à boca. “Tudo que ela fez foi infernizar a minha vida”. Como um filme, lembrou-se de vários momentos ocorridos desde a chegada de Emma. Quando ela desobedeceu sua ordem de levar aquelas duas crianças para Boston, entregando-as ao pai. Quando simplesmente decidiu concorrer ao cargo de xerife, quando Regina já estava prestes a nomear Sidney. E muitos outros momentos, sempre desafiando a prefeita. E Regina já sentia o sangue correr mais rápido com aquelas lembranças. Mas sua mente estacionou em uma lembrança em especial. O dia em que Emma apareceu em seu jardim com uma serra elétrica na mão e derrubou sua macieira.
O coração de Regina acelerou de raiva. Mas involuntariamente um sorriso se formou no canto de sua boca.
No dia do acontecimento Regina sentiu ódio de Emma. E junto com aquele ódio, Regina sentiu... vida. Sim, sentiu o sangue em suas veias, o coração batendo no seu peito, os pulmões se enchendo de ar. Foi como se estivesse adormecida por muitos anos e tivesse acabado de acordar. Sentiu-se viva outra vez, como há muito não se sentia. E um pequeno sorriso discreto se formou nos lábios de Regina no exato momento em que Emma disse: “Se vier atrás de mim de novo, eu corto o resto dessa árvore! Porque você não tem ideia do que eu sou capaz!”. Aquilo era o que ela precisava, não queria admitir, mas inconscientemente sabia que era verdade. Precisava de alguém que a desafiasse, que não abaixasse a cabeça para ela, que tivesse vontade própria. E Emma com certeza era assim. Quando Emma disse aquelas palavras, Regina teve certeza, depois de tantos anos havia encontrado alguém com quem brigar. Por isso aquele sorrisinho.
Na Floresta Encantada ela tinha Branca de Neve para perseguir. E a jovem princesa não ficava por baixo. Sempre desafiando a Rainha. Era uma luta de igual para igual. Até que A Rainha Má venceu Branca de Neve com a maldição. A Rainha odiava a princesa e queria destruí-la acima de qualquer coisa. Quando lançou a maldição com sucesso degustou a vitória.
Mas os anos foram passando e Regina percebeu que o motivo de sua vida era aquela briga com Branca. E agora que a briga não existia mais era como se algo tivesse deixado de fazer sentido.
Em Storybrooke a princesa não mais a desafiava. Ninguém fazia isso. Todos ou morriam de medo da prefeita, como a própria Mary Margaret, ou eram indiferentes a ela. Não havia emoção, não havia rivalidade.
Claro que estava satisfeita por ter conseguido lançar a maldição. Ver Branca de Neve e Príncipe Encantado separados era sua maior vitória. Mas o tempo foi passando, um ano, dois anos, dez, quinze, vinte anos. E vinte e oito anos depois tudo era exatamente a mesma coisa. Sentia falta dos dias de perseguição entre eles na Floresta Encantada. Não se sentia tão viva quanto antes.
Até que Emma chegou e começou a enfrentar a Prefeita de um jeito que ninguém fazia. Aquilo que não tinha mais com Branca de Neve, agora tinha com Emma Swan.
Durante toda aquela semana do castigo de Henry, Regina não havia encontrado ou sequer falado com Emma. E foi uma semana vazia. Mas é claro que jamais admitiria isso. Mas naquela semana Emma não havia brigado com ela, não a tinha desafiado, desobedecido. Não havia feito nada que irritava profundamente Regina. E por mais que fosse difícil reconhecer, a prefeita sentiu falta daquilo.
***
Emma estava na delegacia olhando o relógio. Sabia que Regina era extremamente pontual. E já sabia o horário em que ela almoçava quando ia ao Da Vovó. Sabia que às vezes a prefeita almoçava em casa, mas de qualquer forma não queria arriscar encontrá-la na lanchonete. Por isso durante aquela semana ou estava indo antes ou depois do horário que sabia ser possível encontrar Regina. Queria evitar confrontos desnecessários, porque era sempre o que acontecia quando se viam.
Uma e meia da tarde, era o que mostrava o relógio. Se Regina tivesse ido ao Da Vovó, a essa hora já não estaria lá. Emma deixou a delegacia e dirigiu-se até a lanchonete. Durante toda aquela semana não havia encontrado Regina, nem falado com ela. O que era um grande alívio. Mas sentia algo estranho com essa ausência. Não sabia exatamente o que era. E principalmente, não havia visto Henry, e estava sofrendo com isso. Já tinha se apegado a seu filho, ele já era parte de sua vida. Não sabia mais viver sem ele.
Ao entrar na lanchonete deparou-se com Mary Margaret sentada no balcão. Ao caminhar até ela, percebeu David sentando numa mesa ao fundo. Cumprimentou a amiga e sentou-se também num banco no balcão. E a morena de cabelos curtos disse:
– Regina acabou de sair daqui.
O coração de Emma palpitou. Alívio? Ou frustração pela oportunidade perdida de encontrá-la?
– E aconteceu alguma coisa? – Emma perguntou.
– Não. Ela como sempre me olhou com desprezo e eu retribuí da mesma forma.
– É, isso já é um hábito – Disse debochada. Mary riu.
– Bom, já vou indo. Desculpe não te fazer companhia, mas tenho que voltar pra escola.
– Tudo bem. Nos vemos mais tarde.
Mary saiu. E Emma pediu a Ruby que servisse seu almoço na mesa. Afastou-se do balcão e sentou-se na mesma mesa em que David estava. Em uma cadeira de frente pra ele.
– Hey, David.
– Oi, Emma – Disse surpreso por ela ter se sentado ali.
– Tá esperando alguém? – Ela perguntou querendo saber se podia continuar ali.
– Não, não. Tudo bem. – Ele disse entendo, e mostrando que não tinha problema ela sentar-se ali.
– E então, como vão as coisas com Mary Margaret? – Nesse momento Ruby trouxe seu almoço – Obrigada, Ruby – Disse olhando pra ela.
– Estão do mesmo jeito – Ele suspirou – Ela não quer me perdoar.
– Você sabe que o que fez foi grave. E principalmente pra uma mulher tão correta quanto a Mary – Levou uma garfada de comida até a boca. Ele fez o mesmo, porém cabisbaixo. Ao terminar de mastigar ela continuou – Poxa, primeiro você mente pra ela dizendo que ia contar pra Kathryn, e ao mesmo tempo mente pra Kathryn escondendo sobre a Mary. E depois você ainda duvida dela insinuando que ela poderia ter matado sua esposa. Meio complicado de perdoar algo assim.
– Eu sei, eu sei. Eu fui um idiota. Não sei mais o que fazer, Emma. Eu amo a Mary.
– E a Kathryn, como está? – Perguntou após ter engolido mais um pouco da comida.
– Está melhor. Ela decidiu ficar em Storybrooke, pelo menos até se recuperar totalmente do trauma.
– Sei. Mas vocês... é...
– É claro que não – Ele interrompeu entendendo o que ela queria perguntar – Nós não voltamos e nem vamos voltar. Eu já disse que amo a Mary Margaret.
– Então faz alguma coisa revolucionária antes que você perca ela pra sempre.
– Mas eu não sei o que fazer. Já conversei com ela e ela não quer mesmo me dar uma chance – Ele fez uma pausa – Emma, me ajuda. – Foi mais uma súplica do que um pedido.
– Ai, David. Eu não sei não. Não gosto de ficar bancando o cupido. – Ela disse passando a mão pelos cabelos. Incomodada com aquele pedido.
– Por favor, Emma. Eu a amo – Olhou profundamente nos olhos dela. O olhos dele estavam marejados.
Ela o olhou solidária.
– Tá bem, você venceu. – Os dois sorriram — Eu vou tentar.
Continuaram o almoço e a conversa. Emma sentia-se estranhamente confortável com ele, assim como sentia-se com Mary Margaret. Parecia que já os conhecia há anos.
Ele despediu-se dela para voltar para o abrigo de animais.
– Conto com você, Emma – Ele disse sorrindo enquanto caminhava até a saída.
Ela o acompanhou com o olhar. Sorrindo solidária para ele.
Quando David saiu do estabelecimento, e ela foi virar-se novamente para frente, passou o olhar pela mesa onde Regina havia se sentado naquele dia da semana passada. Mary havia dito que a prefeita tinha estado ali minutos antes dela chegar. Será que tinha se sentado na mesma mesa. Sorriu involuntariamente. Lembrou-se daquela troca de olhares. Voltou a olhar para sua comida. Era coisa da sua cabeça. Regina jamais flertaria com ela. E ela também não faria isso com Regina. Aquela troca de olhares foi... foi... não sabia o que tinha sido, mas não podia ser flerte. “Não pode ser”. Era o que repetia pra si mesma. “Aiii, Emma. Que confusão!”
Alguns minutos depois terminou seu almoço, pagou a conta e seguiu até a viatura para voltar à delegacia.
Estava pensativa dentro do carro. Da Lanchonete da Vovó até a delegacia não era mais do que cinco minutos de carro. Talvez até menos. Mas estava rodando pelas ruas. Se deixando levar pelos pensamentos, pela distração.
Quando deu por si, estava passando em frente à prefeitura. Reduziu a velocidade. Quase parou. Ficou olhando para as portas enormes do lugar. Uma fina corrente de esperança a fazia acreditar que Regina simplesmente iria aparecer ali.
Sentiu uma vontade enorme de parar o carro e entrar na prefeitura. Iria até lá e inventaria qualquer desculpa para falar com Regina.
Mas é claro que não fez isso. Ao contrário, acelerou o carro e saiu dali o mais rápido possível. Antes que se deixasse levar por aquela loucura. Afinal, não tinha nada para falar com ela. Era uma idiotice sem tamanho fazer algo assim.
Voltou para a delegacia. Entrou desanimada, jogou as chaves da viatura em cima da mesa, deu a volta na mesma e sentou-se em sua cadeira. Jogou a cabeça para trás, segurando com as duas mãos entrelaçadas. E colocou as pernas na mesa.
Não parava de pensar em Regina. Só queria entender o porquê daquilo. Era uma coisa sem explicação. Será que estava começando a sentir um certo tipo de simpatia pela morena. Talvez uma vontade de colocar no lugar certo as coisas que aconteceram no passado e começar do zero essa história com Regina e Henry. Talvez fosse um desejo de ter uma amizade com ela. Mesmo que não fosse amizade, mas pelo menos um relacionamento decente, civilizado. Afinal ela era mãe adotiva de seu filho. Seria tão melhor se convivessem bem.
Emma tentava se convencer de que essa era a resposta para o que estava sentindo. Já que não conseguia achar explicação melhor. Porque a outra opção era a de que estava sentindo atração por uma mulher. E pra completar, essa mulher era Regina. Emma não queria que fosse isso. Então o melhor a fazer era procurar pensar que era apenas algum tipo de vontade de se dar bem com ela, num sentido de manter uma convivência no mínimo educada.
Mas logo se lembrou daquele dia em que chegou a delegacia e Regina estava sentada em sua mesa. Aquelas pernas cruzadas. Regina era tão sensual. E logo depois aquela proximidade, o cheiro de Regina e aquela boca carnuda tão próxima da sua. Foi uma situação inexplicável. Literalmente inexplicável. Emma realmente não conseguia encontrar nenhuma explicação para aquilo. Toda aquela tensão que se formou e estavam tão próximas que pode sentir a respiração de Regina naquele momento.
E acabou que Emma passou o resto da tarde assim, pensando em Regina, em Henry. Tentando se concentrar no trabalho. Tentando achar uma explicação para aquelas sensações estranhas. Tentando parar de pensar em Regina. Aquela confusão a estava deixando louca.
Mas a verdade é que a morena linda não saiu de seus pensamentos nem um minuto.
Fale com o autor