Notas iniciais
Boa leitura! Comentem o que acharam ♥

Rey permaneceu deitada no colchão, encarando o teto claro de seu “cárcere” por um longo período. Tentou pegar no sono para acalmar os pensamentos, mas não conseguiu. Nem mesmo meditação foi capaz de apaziguar a aflição crescente sob o peito. O mal estar parecia não querer abandonar seu corpo, e as lembranças das últimas horas tumultuou a mente agitada.

O motivo de estar presa em um quarto confortável ainda era um mistério. Ela preferia estar amarrada á uma maca de metal á ter de passar por aquela angustiante calmaria. O tempo se passou e o silêncio continuou a atormentar. Os dois Stormtroopers que guardavam a entrada não seriam páreo para a Jedi, é claro, mas não valeria a pena enfrenta-los. Mesmo se quisesse fugir, como encontraria a saída naquele labirinto de corredores? E como escaparia da imensa nave de Kylo Ren em plena velocidade da luz?

Não. Ela continuaria ali, aguardando seu futuro incerto.

O costumeiro sentimento de solidão assolou sua alma. Mais uma vez, Rey dependia de sua própria capacidade para sobreviver, sem amigos para ajuda-la. Pensou em Finn, Chewie, Poe, Leia e Luke, e um nó se formou na garganta. Seus olhos queimaram, obrigando-a a fechá-los com força para não derramar as lágrimas acumuladas. Precisava ser forte, mais uma vez. Precisava seguir as orientações de Leia Organa, ou a Resistência não conseguiria se reerguer. Respirou fundo, escondendo os receios em um local obscuro de sua mente.

(...)

A pequena sala de reuniões da nave estava mergulhada em um silêncio profundo. Kylo Ren e Hux aguardavam o contato do Primeiro Líder, prontos para reportar o relatório de guerra conforme viajavam de volta para a base. O cavaleiro podia sentir certo temor vindo do general, e sabia bem o motivo.

— Se você mentir ou ocultar qualquer fato, eu não hesitarei em intervir. – a voz profunda do cavaleiro soou em tom de ameaça. O outro respirou fundo, cerrando os punhos atrás das costas.

— Não tenho razões para mentir.

— Veremos.

Kylo sorria discretamente sob o capacete, parte por ver o general ter de confessar seu erro, e parte por ter finalmente a catadora de lixo nas mãos. Eis um dia glorioso para se comemorar.

Foi então que o mecanismo de hologramas piscou, e a projeção do Supremo Líder flutuou á alguns metros do chão. Snoke olhou para os dois e em seguida proferiu com a costumeira voz fria.

— Me deem boas notícias.

Hux começou declarando que tomou a liderança no ataque. Continuaria o relatório normalmente, não fosse a interrupção do Primeiro Líder.

— Você fez o que...?

— Eu... Tomei a liderança, senhor.

— Você desobedeceu minhas ordens...

— Senhor, se me permite, eu posso explic –

— Não. –se calou imediatamente. — As consequências de seu ato serão avaliadas de acordo com o que me relatar agora. – O ser supremo apoiou os cotovelos em sua cadeira, juntando as pontas dos dedos vagarosamente. — Então, relate.

Hux engoliu em seco, procurando manter a postura intacta. Anunciou a derrota definitiva da Resistência, o que ocasionou em uma leve melhora de humor por parte do ancião. Reportou também detalhes técnicos da batalha, incluindo números e estatísticas. Mas, quando questionado sobre Luke, Rey e Leia Organa; hesitou em responder. Kylo Ren cumpriu sua palavra e tomou a frente, esforçando-se em manter o tom mais neutro possível.

— Leia e Luke escaparam, Supremo Líder, assim como outros rebeldes. Quanto á garota de Jakku, está sob minha custódia.

Silêncio. Snoke respirou fundo, ajeitou-se em seu assento e fitou Hux com fogo em seus olhos. Por fim, balançou a cabeça e massageou a têmpora, desapontado.

— As tropas estavam sob a sua liderança, general Hux. Portanto, a falha na missão é de sua total responsabilidade. Quando eu voltar de minha viagem, decidirei o que fazer com relação á isso. Mas, por hora, você ficará isento de seus deveres como general até segundas ordens.

Kylo sentiu, com certo prazer e cinismo, a sala inteira se inundar com o ódio do ruivo. Ele sabia o quão importante era seu posto no exército, e como essa punição o abalava. Que dia glorioso!

— E quanto á você, Kylo Ren, mantenha a garota no Castelo Forte em minha ausência, e não permita que ela saia. Conversarei com os dois em breve.

— Sim, Supremo Líder.

(...)

Hanoon, assim como D’Qar, estava escondido em um local estratégico da galáxia, oculto por grandes nebulosas coloridas e meteoritos sem rumo. Seu clima costumeiramente frio e chuvoso deixava o planeta cinza, como se estivesse envolto por uma neblina permanente. Apesar da terra pouco produtiva, ainda era uma opção vantajosa para a Primeira Ordem, já que estava próximo a rotas comerciais de suprimentos.

Quando finalmente chegaram a base, Rey se sentiu mais aliviada por poder sair daquele local carregado de energia escura. Quatro soldados adentraram o aposento e prenderam seus pulsos novamente, guiando-a com as blasters em mãos para fora da nave. Caminharam pela pista de pouso coberta, provavelmente três vezes maior que a da Resistência, e entraram numa espécie de veículo próximo á uma parede de concreto.

Rey sentou-se no banco de trás, estupefata com a superioridade de força bélica e organização da Primeira Ordem. Assim que deram a partida, a estranha máquina roncou e flutuou a alguns centímetros do chão. Os grandes portões se abriram á sua frente, e o som de civilização chegou aos seus ouvidos.

O queixo da Jedi caiu ao vislumbrar o que havia do outro lado. Era espantoso e aterrorizante ao mesmo tempo.

Uma cidade inteira se erguia imponente atrás daqueles muros. Os prédios, casas e comércios tinham uma arquitetura futurista, erguendo-se em longas linhas horizontais de vidro e metal. Centenas de veículos circulavam pelas ruas e pontes, serpenteando as construções modernas. Rey avistou uma praça arborizada com crianças brincando junto aos pais, e isso a deixou completamente confusa.

Aquela metrópole lhe impressionou, mas também gerou um grande mal estar na boca do estômago. Enquanto a Resistência lutava para sobreviver em D’Qar, o inimigo fartava-se em luxo e comodidade, rodeado por uma defesa quase impenetrável. Rey mordiscou o interior da bochecha enquanto lutava para não desanimar de sua missão. Se perdesse a esperança, tudo estaria fadado ao fracasso.

Rodaram por aproximadamente quinze minutos, subindo uma grande ladeira e chegando a mais um portão de ferro. Após pedir permissão através de um comunicador, a passagem foi aberta para um grande pátio repleto de fontes de água e jardins verdejantes. No fim, havia uma enorme construção semelhante a um castelo que se impunha até o alto.

Assim que estacionaram em frente ás escadas de pedra, Rey foi novamente escoltada para o interior do local em silêncio. O luxo continuou como marca registrada lá dentro, onde o piso lustroso refletia sua própria imagem e as escadarias suntuosas de mármore levavam ao andar superior. A decoração era ainda mais exuberante, com tapetes rubros nas tábuas do chão e lustres de cristal no teto. Mais uma vez a garota se viu num labirinto de corredores, passando por portas e espelhos pendurados nas paredes.

Finalmente chegaram á uma porta de mogno, e ali retiraram suas algemas. A Jedi foi novamente obrigada a adentrar o quarto, profundamente irritada por ser empurrada de um lado para o outro sem explicações. Dois soldados ficaram no lado de fora; armados até os dentes para impedi-la de sair. O que lhe restou foi analisar o aposento em que estava agora.

A suíte era espaçosa e decorada com tons pastéis. Havia uma cama de casal no centro, um guarda-roupa encostado á parede e uma poltrona de couro em um dos cantos. O banheiro possuía azulejos muito brancos, onde toalhas limpas jaziam dobradas sobre o armário ao lado da pia. Ela caminhou incerta até as cortinas de poliéster perto do leito, puxando-as para contemplar as grandes janelas de vidro temperado. Seu queixo caiu ao admirar a paisagem de boa parte da cidade, e o que deveria ser o pôr-do-sol por detrás das densas nuvens carregadas no horizonte.

Levou um susto quando as portas se abriram em um baque, fechando-se logo em seguida. Girou nos calcanhares e franziu o cenho ao constatar a presença de uma mulher no quarto, carregando uma pilha de roupas nos braços. Seus olhos brilhantes eram do mesmo tom da pele azulada, e em seu pescoço havia uma espécie de colar rastreador. Rey logo concluiu de que se tratava de uma escrava Twi’lek*. Por fim, a serviçal inclinou o corpo em uma breve reverência, declarando a frase decorada sem emoção.

— Boa tarde, Jedi. Meu nome é Arista, e serei a responsável em auxilia-la nos procedimentos da fortaleza nos próximos dias.

— Muito prazer, Arista. Sou Rey. — A garota retribuiu o gesto, sorrindo de forma simpática. Ao menos teria uma companhia. — Pode dizer onde estou?

Ela caminhou até o guarda-roupa e guardou algumas das vestes ali dentro, pendurando nos cabides. Por fim lhe respondeu ainda de forma automática.

— A senhorita está no Castelo Forte, uma mansão exclusiva para membros restritos da Primeira Ordem.

— Ah... E como chama o planeta?

— Hanoon. É uma base militar acoplada á uma metrópole altamente protegida e escondida num local estratégico contra invasores.

— Entendo.

Rey não quis entrar em sua mente, pois seria perda de tempo. Kylo Ren não era estúpido a ponto de revelar algo importante para ela, de qualquer forma. Faria mais perguntas quando conquistasse melhor a confiança da serviçal.

Arista então deixou uma peça específica em cima da cama e voltou a falar em tom complacente.

— Você deve se limpar e colocar uma nova roupa. Kylo Ren a aguarda dentro de uma hora no salão de jantar.

Espera aí. O que?!

— O que?!

— Você deve tomar banho e trocar de roup –

— Eu ouvi a primeira vez. Mas não consegui digerir ainda.

As duas ficaram se encarando, a Twi’lek aguardando pacientemente a resposta e a jovem alternando suas feições entre surpresa e asco. Pegou a roupa á contra gosto e a estendeu á sua frente, revirando-a nas mãos sem paciência.

— Que coisa é essa?!

— Um macacão#.

Realmente, era um macacão de couro preto com um zíper na frente. Havia alguns detalhes em relevo ao longo das pernas e braços, e uma gola simples no pescoço. Rey arqueou uma sobrancelha e encarou Arista como se ela tivesse feito uma piada de mau gosto.

— Você quer que eu use isso, pra jantar com aquele monstro?

— Suas roupas estão sujas, e não há muitas opções de vestimenta por aqui. Esta foi uma das únicas que encontrei que serviriam em você. E, além do mais, creio que infelizmente a senhorita não tenha muita escolha.

Ela falava a verdade com muita cautela. Rey suspirou desistente, analisando os próprios trapos em torno de seu corpo. Arista tinha razão: estavam imundas, assim como ela própria. Convenientemente, seu estômago se retorceu dolorido e roncou, lembrando-a da necessidade por comida. Não adiantava discutir – ela se submeteria àquele fiasco para um bem maior.

Foi até o banheiro, arrancou a roupa e se enfiou no chuveiro, surpreendendo-se com a força em que a água morna batia em suas costas. O stress foi deixado de lado por alguns instantes enquanto esfregava os cabelos emaranhados com um shampoo de ervas. Nunca, em toda a vida, tomou um banho tão satisfatório. Até mesmo o sabonete possuía um aroma floral magnífico, diferente de tudo que já havia utilizado em seus 19 anos de existência. Demorou propositalmente, não se importando muito com o tempo estipulado para o jantar. Seria até uma boa oportunidade para provocar aquele homem cruel...

Quando finalmente saiu, enrolou-se numa toalha limpa e saiu pingando até a cama novamente, onde o maldito macacão a esperava. Arista jazia em pé, perto da porta, fitando o tapete do quarto.

— É melhor se apressar, Srta. Rey, ou chegará atrasada.

Rey revirou os olhos.

— É, ta bom. Você pode olhar para o outro lado enquanto me troco, por favor?

Rey jogou a toalha de lado e começou a se vestir, tendo grande dificuldade em entrar naquele couro apertado. Quando finalmente pôs os membros em seus devidos lugares, fechou o zíper frontal até o pescoço. Caminhou até o espelho pendurado na parede e fez uma careta de desgosto ao se ver no reflexo. Sentia-se ridícula.

— Isso é ridiculamente apertado.

— Creio que a senhorita não deva fechar até o pescoço...

Arista parecia ter uma paciência inesgotável. Foi calmamente até a Jedi e puxou o zíper até metade do colo, deixando um pequeno decote moderado e discreto. Rey por fim calçou um par de botas escuras providenciadas pela Twi’lek e voltou a fitar-se no espelho.

O macacão justo aderiu ao seu corpo com perfeição. Suas curvas bem definidas estavam notoriamente visíveis sob o couro legítimo, e isso a incomodou profundamente. Jamais usaria algo assim, se tivesse escolha. Mas naquele momento, não poderia opinar: era isso ou passar fome. Pensou em refazer seu penteado de três coques, mas o cabelo ainda estava molhado e seu ânimo não era o dos melhores. Por fim decidiu apenas deixa-lo solto.

Ela mal se reconhecia naquele reflexo.

— Eu estou me sentindo péssima. – confessou ela, alisando a roupa sem necessidade.

— Não se preocupe. Logo eu vou poder costurar novas roupas para que se sinta mais á vontade.

— Obrigada.

— Agora vamos. Já esta atrasada.

Rey sentiu-se aliviada por sair do quarto. Caminhou ao lado da escrava e prestou atenção no caminho, decorando os corredores e escadarias com afinco. Agradeceu internamente por terem passado por poucos guardas no percurso, pois parecia ter todos os olhares em si.

Então, ao final de um saguão abastado de livros, chegaram finalmente á uma singela porta dupla de madeira. Arista indicou que Rey deveria entrar sozinha. A Jedi pôde sentir a conhecida energia escura vinda do outro lado, e seu coração começou a bater freneticamente sob o peito. Não sabia ao certo o motivo de estar tão nervosa: encarar Kylo novamente, ou ter de aparecer usando algo tão chamativo.

Talvez um pouco dos dois.

Ela respirou fundo, contou até três e adentrou o salão. A primeira vista, aquele local era tão suntuoso quanto o resto do castelo, apesar de não ser muito maior que seu quarto. Uma vasta refeição estava servida sobre uma mesa com cadeiras estofadas ao redor, e o aroma chegou apetitoso até Rey. As longas cortinas de veludo cor de sangue estavam abertas e, parado de costas em frente á grande janela, estava Kylo Ren.

Ele vestia seu habitual uniforme negro e não usava capacete. Era incrível como o poder obscuro daquele homem parecia querer penetrar cada célula de seu corpo, mesmo á contra gosto. Ele virou-se devagar, aproveitando cada batida descompassada do coração da Jedi e se satisfazendo com a energia tensa que se formou no ambiente. Luz e escuridão pareciam lutar por espaço, envolvendo-os numa áurea de poder indescritível.

Mas nada se igualou ao modo como Kylo reagiu assim que pôs os olhos em Rey.

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso. E então, as íris castanhas pareceram chamas acessas devorando-a por completo, demorando em cada curva sem nenhum escrúpulo. Rey sentiu o estômago afundar e o rosto esquentar no mesmo instante, desejando honestamente se enfiar em um buraco qualquer de Jakku. Não sabia se sentia raiva ou vergonha, então optou pelos dois.

Quando pensou que não poderia piorar, um sorriso malicioso surgiu nos lábios do cavaleiro, e ele pronunciou com a voz profunda e carregada de malícia:

— Bela roupa.

Notas finais
* Twi'Leks são humanoides altos e magros com uma pigmentação da pele que se estende por um arco-íris de cores, nativos de Ryloth: http://vignette2.wikia.nocookie.net/starwarsmush/images/5/57/Alien_snp_Twi'lek.jpg/revision/latest?cb=20090214215450 #Macacão da Rey: http://pre11.deviantart.net/e6b1/th/pre/f/2011/296/e/f/female_sith_by_adam_brown-d4d633a.png