Equilibrium
6 Plano B
Notas iniciais
Hux caminhava impaciente pela cabine principal, o vinco formado entre as sobrancelhas denotando frustração. Aquilo não estava certo. As naves pairavam desligadas sobre o planeta D’Qar, aguardando em silêncio novas ordens para atacar.
— Já chega. – Disse de repente, dirigindo-se até Phasma. – Ordene que iniciem o ataque.
— Fomos orientados á seguir as ordens de Kylo Ren, senhor. E ele pediu que aguardássemos. – ela respondeu em uma voz fria e tediosa.
— Ele já está lá em baixo mais tempo que o necessário. Sabe-se lá o que está fazendo. Se não agirmos logo, vão nos detectar.
— General, eu –
Hux revirou os olhos e se aproximou com fúria mal contida. Sua voz saiu ácida ao proferir as palavras. A mulher de armadura cromada não se moveu.
— Tomarei a culpa pelos atos caso Snoke nos questione. Mas não podemos esperar a boa vontade de Kylo, ou perderemos nossa única chance. Agora, capitã, ordene o ataque, ou eu mesmo tomarei controle do manche.
Ela acenou com a cabeça, desistindo da argumentação. Ele tinha uma parcela de razão, e além do mais, sabia que o homem acabaria realmente tomando aquela atitude se não fizesse alguma coisa. Virou-se para o piloto e ligou o rádio para anunciar ás outras naves.
— Liguem as turbinas. Iniciaremos o ataque.
(...)
O brilho pálido das estrelas foi gradualmente se extinguindo, anunciando a proximidade do alvorecer. A escuridão da noite dava lugar á um céu azul marinho, livre de nuvens. Em meio a clareira da floresta, duas figuras solitárias se encaravam e trocavam uma energia poderosa entre si, assemelhando-se á ondas de pura estática. A voz de Rey se fez ouvir novamente, cortando o silêncio.
— Você só pode estar brincando. O que te faz pensar que eu aceitaria sua oferta?!
Kylo desligou seu sabre de luz em um estampido, guardando-o no cinto das vestes negras. A Jedi ainda permanecia em posição de ataque, confusa e irritada.
— Por que acredito que você possua boa senso.
— Do que está falando?
— Lutar ao lado dos rebeldes é uma utopia. Você deve encarar os fatos com sensatez: Somos infinitamente superiores em quantidade e força. A Resistência irá cair, com ou sem Jedi.
— Não! – os nós dos dedos ficaram brancos com a força em que ela empunha sua arma. – Está enganado. Somos mais fortes do que imagina...
— Não seja tola. –Seu tom era grave e firme. Avançou dois passos, mas parou quando Rey ergueu seu sabre em uma ameaça. –Que chances suas frotas têm? Serão massacrados, e no fundo você sabe disso. Estou lhe oferecendo uma escapatória, uma chance para usar seus dons em prol de uma causa digna.
— Causa digna?! Explodir civilizações inteiras, impor uma ditadura, massacrar e matar inocentes... Você chama isso de causa digna?!
— Sacrifícios têm de ser feitos para alcançar um bem maior, qualquer um envolvido em uma guerra sabe disso. Acha que o Conselho Jedi nunca fez nada parecido?
— Não... – sua resposta soou incerta.
— Vejo que Luke fez um bom trabalho em encher sua cabeça ingênua com mentiras. – Lentamente, voltou a se aproximar, seu tom carregado de arrogância. Rey pensou em afastá-lo, mas algo dentro de si a fez hesitar. Ao invés disso, ela desligou o sabre de luz, permanecendo atenta á qualquer movimento suspeito. – Persuadir aprendizes á seu favor é uma especialidade dele.
Dado o silencio da Jedi, ele continuou.
— Luke tem o péssimo hábito de mostrar apenas um lado da moeda. Eu o compreendo, na verdade: ele precisa ganhar sua confiança, então tem de ocultar as partes podres da história. Mas, se permitir, posso lhe mostrar que as coisas não são tão simples para se dividir entre bem e mal.
— Você matou a sangue frio o seu próprio pai. Pra mim, saber disso já basta.
Um breve sorriso sem emoção traspassou o rosto marcado pela cicatriz. Ele ficou a um palmo de distância, devorando-a com os olhos escuros. Era possível sentir a energia obscura do cavaleiro pesar em seus ombros e formigar as extremidades do corpo.
— Você me intriga. Fala de mim como se me conhecesse tão bem... — se inclinou ligeiramente em sua direção, sussurrando as últimas palavras. – Mas não sabe nada sobre mim.
— Tem razão, não sei. – ela também diminuiu o tom, sentindo-se devorada pela intensidade das íris castanhas. — A única coisa que sei é que sua mãe está naquela base, morrendo aos poucos de desgosto. Como consegue conviver com isso?
Por um segundo, o olhar de Kylo Ren vacilou. Ele pareceu subitamente perdido, como se tivessem lhe socado o estômago.
Nestes breves momentos, Rey podia ver a luz brigando por espaço. Fraca e passageira, de fato, mas existente. E isso tumultuava seus pensamentos – e se ele realmente pudesse se redimir? E se estivesse falando a verdade? Talvez a esperança de Leia não fosse algo infundado.
Mas, tão rápido como veio, a tristeza se foi. Ele retomou a postura prepotente, encarando-a com superioridade. Lá estava Kylo Ren novamente, frio e inatingível. Abriu a boca para lhe responder, mas foi neste momento em que algo cortou a atenção dos dois.
Um zunido distante chegou aos seus ouvidos, semelhante á turbinas de espaçonaves. Ao mesmo tempo, Rey notou uma perturbação abrasadora acometer seu âmago, avisando do perigo. Olhou para o horizonte, e suas feições se contorceram em horror ao avistar pequenos pontos brilhantes sobrevoando D’Qar em alta velocidade. Ela sentiu o estômago afundar.
— Você... – encarou Kylo com incredulidade. -...Estava só me distraindo...
— Eu não –
Ele não completou a frase. Rey ergueu o braço livre e usou a Força para empurrá-lo num solavanco abrupto. Pego desprevenido, Kylo rodopiou alguns metros e por fim quebrou o contato, pousando graciosamente no chão. Ao se recompor, no entanto, viu a garota dar as costas e se embrenhar pela floresta sem olhar para trás.
Kylo Ren fechou as mãos em punhos, a luva de couro impedindo que suas unhas rasgassem as palmas das mãos. Suas feições se contorceram em ódio quando ele olhou mais uma vez para as próprias naves agindo sem seu consentimento, e o peito ardeu em chamas. Rochas ao seu redor racharam-se com a mera perturbação em sua mente agitada, e ele ansiou o momento em que faria o responsável pela rebeldia pagar pelo ato.
Mas, no momento, não teria escolha agora a não ser se juntar ás suas tropas. Dirigiu-se até a pequena nave escondida entre os pinheiros e levantou voo. Deixaria a garota Jedi para depois. Agora, tinha outras coisas para se preocupar.
Enquanto isso, Rey enviou uma simples mensagem até seu mestre através da Força enquanto corria pela mata. “Estamos sento atacados.”
(...)
O alvorecer deslumbrante de D’Qar, outrora típico em suas nuances douradas, encontrava-se manchado por tons rubros e nuvens negras de fumaça. O céu claro enchia-se de caças militares e lasers ruidosos. As tropas de Stormtroopers avançavam intrépidas por terra, atirando em tudo que se movia. Os rebeldes lutavam bravamente, impedindo a aproximação do inimigo, mas estavam em um número consideravelmente menor. Mesmo com o aviso prévio de Rey, não houve tempo para se preparar. Só um milagre os salvaria desta vez.
Poe fazia o impossível ao liderar sua frota aérea em suas acrobacias arriscadas e mira impecável, enquanto Finn juntou-se á Chewbacca e ao restante dos aliados em eliminar o maior número possível de oponentes perto da entrada. As explosões vinham de todos os lados, e as construções fortificadas viravam pedaços de concreto despedaçados sobre o chão.
Dentro da base, Rey uniu-se á Luke e Leia para arrebatar os soldados que os cercavam em uma tentativa de expulsá-los dali. Ela lutava com voracidade e perícia, girando seu sabre-bastão com acrobacias velozes e derrubando qualquer um que se aproximasse. Em meio a confusão, gritou para que os dois a ouvissem.
— Eles são muitos! Não vamos conseguir!
Luke rodopiou com seu sabre, derrubando três de uma só vez. Ele concordou com a garota, ofegante.
— Ela tem razão. Leia, precisamos evacuar agora.
A mulher hesitou em responder. Atirou com sua arma contra dois oponentes, derrubando-os sem vida. Ter de admitir que estavam encurralados parecia incomodá-la. Por fim, concordou com um suspiro entristecido.
— Está bem... Darei a ordem.
E assim o fez. Os rebeldes começaram a recuar imediatamente, procurando por transportes que auxiliassem na fuga. Poe e os caças militares davam cobertura na última tentativa desesperada de sobrevivência. Eliminando todos que estivessem em seu caminho, os três saíram da base e correram através da pista de pouso. Desviaram dos ataques incessantes em meio ao caos e tentavam alcançar a nave que os tiraria do planeta.
Assim que Rey viu a dimensão da batalha ao lado de fora, entrou em estado de choque. Tudo parecia acontecer em câmera lenta ao seu redor.
Tiros de blaster, corpos ao chão, sangue, rostos conhecidos, fumaça, fogo. Suas pernas a guiavam de forma automática, saltando sobre os escombros em chamas de forma hábil. O barulho das explosões pareceu distante, abafado pelas batidas de seu coração. Viu alguém de armadura cromada atirar na nuca do almirante da Resistência, insensível aos respingos de sangue em sua arma. Viu um homem ruivo ordenar que não os permitissem escapar, soando furioso enquanto chutava um rebelde no chão. Viu a nave mãe grandiosa de Kylo Ren sobrevoando ali perto, como se buscasse por algo. Tudo num milésimo de segundo, mas que pareceram séculos perante seus olhos.
Sentiu uma mão a puxá-la para baixo de repente, e isso a retirou do transe. O som da guerra voltou como um baque para seus ouvidos, jorrando adrenalina ao corpo. Leia havia se lançado para trás de uma grande rocha de cimento, arrastando a garota consigo e salvando-a de tiros de blaster. Um esquadrão com centenas de Stormtroopers os encurralou, marchando indômitos em sua direção. Luke acabou correndo para o outro lado, usando uma nave inimiga como escudo.
Aproveitando o breve afastamento do irmão, Leia segurou o rosto da Jedi com ambas as mãos de forma carinhosa, cochichando com urgência.
— Rey, querida, preste atenção no que vou te dizer agora. Eu preciso da sua ajuda.
— Qualquer coisa!
— Vá com o Ben, Rey. Aceite seu convite.
— O que? – ela franziu as sobrancelhas, atônita. Não poderia ter ouvido direito.
— Já perdemos essa guerra. Mesmo se escaparmos, não teremos chance alguma contra a Primeira Ordem. Precisamos de um plano B. Você é o plano B.
— Mas general Organa, eu –
— Escute, não temos tempo! – em seus olhos marejados havia súplica. – Você é a única pessoa que meu filho permite a aproximação. Faça com que ele confie em você. Se infiltre na Primeira Ordem, convença á todos de que mudou de lado. Se algo der errado, eu te dou a minha palavra que vou te resgatar, nem que isso custe minha vida.
Os tiros estavam mais próximos. Rey abriu a boca, mas nenhuma palavra foi formulada. Tudo pareceu girar ao seu redor, causando-lhe tontura. A voz da mais velha soou novamente, desta vez embargada.
— Rey, por favor... Você é nossa única esperança.
E então, veio a compreensão. Leia estava certa. Talvez fosse loucura, mas esta parecia uma saída plausível. A garota acenou com a cabeça, um tanto insegura. Surpreendeu-se quando a general soluçou e a envolveu em um abraço apertado, parecendo uma mãe que se despede de um filho.
Luke analisava a cena do outro lado, entristecido. O coração aflito do Jedi lhe gritava veemente para que não a permitisse partir. Sentiu-se mais uma vez inseguro quanto ao futuro de um aprendiz, pesando em seu peito em muitas toneladas de culpa. Mas, ao mesmo tempo, o fundo de sua consciência indicava que era o caminho certo a seguir. Havia algo diferente na garota, capaz de mudar o curso de toda a galáxia. Deveria confiar nela.
Assim que Rey se afastou do afago, virou o rosto e encontrou os olhos azuis de seu mestre. Em sua mente, pôde ouvir a voz calma dele ecoando num sussurro. “Rey, por favor, tome cuidado. Não se esqueça do que lhe ensinei. Se algo der errado, nós a buscaremos. Estarei sempre ao seu lado.” Ela sorriu em resposta, sentindo-se mais confiante. Todos dependiam dela agora.
— Está bem. Eu vou distrai-los enquanto vocês correm.
Não esperou por uma resposta. Rey se levantou e correu como um raio contra a frota inimiga. Sentindo a Força formigar sob a pele, girou o sabre-bastão nas mãos e começou a atingi-los ás dezenas. Os soldados caiam conforme as lâminas brancas de luz dançavam ferozes no ar. Enquanto isso, Luke e Leia alcançaram finalmente a pequena nave que os levariam para longe daquele planeta.
Kylo Ren se aproximava á passos largos de seu esquadrão com o sabre vermelho chiando em uma das mãos. Sua roupa negra estava manchada o sangue seco das pessoas que ousaram cruzar seu caminho. Sua sensibilidade á Força o guiava através da destruição em massa daquela base, passando por cima de corpos sem se abalar. Quando chegou até a pista de pouso, viu um pequeno transporte comercial levantar voo e se afastar veloz. Ele sentiu em seu âmago que Luke e sua mãe estavam ali dentro, mas não fez nada a respeito. O que ele realmente queria estava ali, massacrando seus Stormtroopers com ferocidade.
Ele sorriu de canto sob o capacete pesado. A Jedi era boa, mas estava sem saída. Ele finalmente a teria em mãos.
— Basta!
Sua voz grave e robotizada ecoou com vigor pela pista. Rey cessou seus ataques e olhou em direção ao cavaleiro, ofegante. Os soldados se afastaram um pouco, cercando a garota e mirando em seu coração. Hux e Phasma surgiram por detrás de Kylo, prepotentes, enquanto algumas naves pairavam ao seu redor aguardando por novas ordens. Os que sobreviveram ao ataque já haviam saído do planeta, que agora estava tomado pela Primeira Ordem.
— Desista, Jedi. Acabou.
Ela desligou o sabre de luz, mantendo a cabeça erguida e a postura inabalável. Não moveu um músculo sequer com a aproximação do cavaleiro, que praticamente colou seu corpo ao dela e a fitou de cima através do visor de sua máscara. O silêncio tornou-se sufocante no local. Ela pôde ouvir a respiração ruidosa próxima ao rosto quando Ren se abaixou e tomou o bastão de suas mãos com uma lentidão desnecessária.
— Não precisamos ser inimigos. Se for obediente e seguir minhas ordens, seu cárcere será bem mais... agradável.
Havia malícia em sua voz grave. Rey fez uma careta, puxou saliva e cuspiu aos pés do cavaleiro. Sabia que teria de ganhar sua confiança, mas o rancor ainda prevalecia sobre o coração da Jedi, assim como seu orgulho. Ele soltou uma risada fraca, dando-lhe ás costas e marchando na direção oposta.
— Prendam-na. Ela é minha prisioneira agora.
Um dos soldados prendeu seus punhos com uma espécie de dispositivo em forma de casulo. A algema cobria suas mãos e alcançava metade do antebraço da Jedi. Aquilo provavelmente era algo especial que a impedia de usar a Força para escapar. Sentiu a ponta de uma arma em suas costas e seguiu andando até a nave principal de Kylo Ren sem afrouxar a postura arrogante. No entanto, seu coração martelava contra as costelas e o medo se apoderou de seu espírito. Ela rezou para que seus amigos estivessem escapado ilesos do planeta, e temeu pelo seu futuro como prisioneira da Primeira Ordem.
Conseguiria enganar Kylo Ren?
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