Notas iniciais
Olá, jovens padawans! Como prometido, aqui está o primeiro capítulo da minha long fic Reylo. Estou com grandes planos para a história, mas quero antes saber se vocês vão gostar do começo!
Criticas e sugestões são bem-vindas.
Boa leitura :3

Nuvens densas e escuras deslizavam pelo céu poluído, privando permanentemente o planeta de qualquer luz solar. O ar árido pesava em seus pulmões, como sempre. Uma energia negativa pairava no local, repelindo qualquer coisa viva que tentasse se aproximar. A agonia em seu peito apenas crescia conforme avançava pelo caminho tortuoso até o templo, desviando das rochas pontiagudas e dos resquícios de concreto que outrora serviram de pilares para uma construção maior.

Estátuas colossais de homens encapuzados enfileiravam-se pela trilha, seus olhos ferozes fitando-a de cima de maneira dissimulada. Seu coração saltava aflito dentro do peito, como se algo muito errado tivesse acontecido ali. Apesar do desconforto, no entanto, sabia que era preciso continuar.

Assim que chegou á sua entrada, sentiu-se pequena perante tamanha magnitude. O grande portal de pedra estava repleto de inscrições antigas, impossíveis de se ler. A construção parecia alcançar os céus, em uma arquitetura única e rudimentar. Subiu alguns degraus e adentrou o templo em uma hesitação palpável.

O imenso saguão estendia-se por vários metros, terminando em uma segunda porta ao final do percurso. Uma densa camada de pó cobria seu piso, resultando em uma aparência de abandono. Pilares enormes sustentavam o teto alto, e seus lustres suntuosos tilintavam conforme o vento uivava agourento em seu interior. A sensação de agonia pareceu dobrar de intensidade, afligindo-a como agulhas quentes contra a pele. Uma energia escura formigou suas extremidades, e Rey pôde sentir o lado negro enraizado nas construções do templo, sufocando sua luz. Olhava ao redor, temerosa, e tremia ao identificar ossos humanos em tumbas abertas espalhados pelas paredes. Milhares de crânios jaziam pendurados em suas bases, e ela podia jurar que sussurravam maldições em línguas antigas. Rey apressou o passo, ansiosa para sair daquele templo, quando lamúrias estridentes ecoaram em seus ouvidos.

Ela começou a correr, horrorizada. Não sabia o que diziam, mas gritavam e gemiam em desespero. Precisava alcançar a porta de madeira no final do saguão o quanto antes. Quanto mais corria, no entanto, mais sentia ser puxada para trás. O caminho pareceu se estender por quilômetros, e seus passos tornaram-se lentos contra sua vontade. O tempo ficou em câmera lenta. Sentiu vontade de chorar, presa em um loop agonizante, e viu com horror figuras pálidas e tremeluzentes saindo das tumbas e voando em sua direção. Eles clamavam seu nome, aflitos, e centenas deles flutuaram com fúria em seus olhos rubros. Ela gritou a todos os pulmões, sabendo que não havia saída.

Rey se sentou em um pulo. O suor brotava das têmporas, escorrendo pelo pescoço e alcançando o colo. Seu coração martelava ferozmente contra as costelas, jogando adrenalina em seu corpo trêmulo. Sentiu-se confusa por alguns instantes, tentando identificar o ambiente ao seu redor.

Suspirou em alívio ao constatar as vigas brutas do teto baixo e o cheiro de madeira invadindo as narinas. As paredes do mesmo tom escuro, o assoalho, os móveis antigos... Estava na cabana de sempre. Desabou novamente no colchão, fechando os olhos para tentar acalmar a respiração ofegante.

Aquele maldito pesadelo novamente. Sempre o mesmo sonho, atormentando suas noites mal dormidas. As perguntas pairavam em sua mente, deixando-a irrequieta e ansiosa. Rey rolou pela cama por alguns minutos, sem conseguir pregar os olhos. Finalmente desistiu de pegar no sono, sentando-se na cama com um suspiro cansado. Talvez um pouco de meditação lhe ajudasse.

Calçou os coturnos desgastados e saiu pela porta da frente, aliviada em respirar ar puro. A pequena cabana foi deixada para trás conforme a jovem avançava pelas trilhas sinuosas de Tython, subindo até o topo da colina. Os músculos das pernas protestavam pelo treino puxado do dia anterior, mas Rey não se importou. Seus pés a guiavam de forma automática entre a vegetação rala – ela já havia decorado quase todos os caminhos da ilha.

Ela contornou um declive íngreme e desviou de algumas rochas moldadas pelo tempo. A brisa fresca da noite balançou os cabelos soltos, acalmando seu espírito. Algumas nuvens deslizavam preguiçosas pelo céu escuro, pontilhado de centenas de estrelas. A lua minguante banhava sua luz pálida sobre os montes, deixando a madrugada mais clara. Mesmo após cinco meses morando na ilha, a beleza singular do local continuava a encantá-la.

Assim que chegou ao topo, espreguiçou o corpo cansado e sentou-se em uma pedra plana, cruzando as pernas em forma de índio. Alguns grilos cricrilavam na grama, fazendo coro ás ondas que quebravam contra as rochas lá em baixo. Se houvesse lugar mais apropriado para meditação, Rey desconhecia.

A jovem respirou fundo, fechando os olhos e descansando as mãos nos joelhos. Concentrou-se nas lições de Luke, esvaziando a mente e elevando o espírito agitado. “A Força é um campo de energia criado por todas as coisas vivas: ela nos cerca, nos penetra; ela mantém a galáxia coesa. Podemos sentir cada ser vivo conectado pelo mesmo poder se nos concentrar o suficiente.” Aos poucos, a paz inundou seu íntimo, desacelerando as batidas do coração. A Força veio em ondas acolhedoras, como sopros quentes de verão. Rey pôde sentir a áurea límpida clareando seus pensamentos, elevando-a em uma nuvem de tranquilidade.

Inspirou, expirou. Concentrando-se melhor, pôde sentir os pequenos insetos correndo pela grama ao seu redor, enérgicos. Enxergou com clareza as raízes das flores incrustradas na terra, sugando água e nutrientes para seus caules. Conseguiu perceber a ilha inteira efervescer de vida, todos conectados em uma mesma teia complexa.

Ousou avançar um pouco mais, atingindo um ápice ainda desconhecido para a jovem aprendiz. Surpreendeu-se consigo mesma ao tocar as estrelas pairando no universo infinito. Reconheceu a matéria física dos planetas, tão parecida consigo própria; os anéis formados por meteoritos e o balanço harmonioso das galáxias mais distantes. Absolutamente tudo estava conectado entre si, e a beleza majestosa do cenário trouxe uma lágrima solitária de pura alegria á Rey. Sentiu-se um pequeno grão de areia, tão minúscula perante o poder da Força, e todos os seus problemas foram esquecidos.

Quanto mais conseguiria alcançar? Decidiu testar seus limites. Franziu o cenho, aprofundando sua consciência contra a vastidão do universo. Nebulosas, buracos negros, naves contrabandistas e planetas – tudo passava diante de seus olhos como um filme. Talvez, um pouco mais longe... Mais sistemas solares passaram por suas íris cor de avelã. As cores e matérias diluíram-se em um borrão, mesclando-se á sua mente em um turbilhão de informações. Tudo começou a mover-se muito rápido, pesando sua mente. Rey sentiu-se tonta com a avalanche de imagens, seu coração batendo em disparada pelo poder descontrolado. Com muita concentração, conseguiu barrar a viagem de repente.

E então, o cenário mudou.

Em um segundo, sentiu uma conhecida tristeza inundar suas entranhas. As mesmas dúvidas, frustrações e solidão assolando-a de forma abrupta, assim como aconteceu meses atrás quando fora raptada pela Primeira Ordem. Ela estava em um quarto, em frente á um grande espelho. Levantou os olhos, e assim que encarou o reflexo, seu coração disparou em frenesi.

Os olhos castanhos, os cabelos negros na altura dos ombros e o semblante sério foram identificados pela catadora de lixo. Rey via o mundo pelos olhos de Kylo Ren, e isso a aterrorizou. Ele estava sem camisa, o dorso definido marcado por dezenas de cicatrizes profundas. O movimento de enfaixar uma nova ferida foi abruptamente interrompido ao perceber a vaga presença de Rey em sua mente.

O reconhecimento mútuo fez o tempo congelar. Ele fitou-se pelo espelho emoldurado em uma intensidade voraz, a nova cicatriz rosada bem visível no rosto anguloso. Seus olhos estreitaram-se, surpresos e indagadores para a consciência da garota que o observava através da Força. Ela, por sua vez, não sabia como reagir, tampouco reconhecer quais sentimentos eram os seus, e quais eram os dele. Tudo parecia se misturar em uma avalanche confusa de sensações, oscilando entre surpresa, medo, raiva e curiosidade.

— A que devo a honra da visita?

Seu timbre grave pendia para o sarcasmo, ecoando em um sussurro pela mente de Rey. O susto fez com que a jovem despertasse de seu transe, motivando-lhe a cortar a conexão com o cavaleiro. Num solavanco repentino, sua consciência a alertou do perigo e retornou ao próprio corpo em Tython. A aprendiz de Jedi abriu os olhos e puxou o ar com força, como se acordasse de mais um pesadelo noturno.

Este, no entanto, aconteceu de verdade.

Sua respiração entrecortada refletia o próprio nervosismo mal controlado. Seu sangue zunia nos ouvidos enquanto tentava processar o que acabara de acontecer. O nó que se formou em sua garganta poderia ser tanto de medo quanto de euforia – não dava para saber. Ela olhou para os lados e piscou algumas vezes, desacreditada. Não suportando a própria agitação, Rey pôs-se de pé, andando de um lado para o outro no penhasco.

Ela havia se conectado com Kylo Ren, a milhares de quilômetros de distância! Como isso era possível? Deveria contar á Luke, ou manter segredo? Kylo havia descoberto sua localização? Quando tentaria novamente?

Não, jamais repetiria aquela experiência. Era loucura. Precisava alertar seu mestre o quanto antes, para se certificar de que estavam seguros. Conforme avançava veloz pelos campos esverdeados, o sol despontava no horizonte, mesclando o céu em tons de lilás e dourado. As imagens que vira na estranha conexão com o cavaleiro voltou a assolar sua mente, causando-lhe sensações que Rey não sabia identificar.