Equilibrium
2 O Lado Sombrio da Força
Notas iniciais
Kylo permaneceu inerte por longos segundos. O grande espelho refletia apenas suas feições indagadoras, sem a presença da jovem padawan o observando. Sentiu o pulsar suave da luz deixando-o repentinamente, como um coelho assustado fugindo para a toca. O fundo de sua consciência voltou a mergulhar na escuridão assim que se viu sozinho em seu quarto.
A surpresa logo deu vazão á incredulidade, despertando-o de uma espécie de transe. Rey causava-lhe sensações controversas. A cicatriz em seu rosto o movia a sentir profunda raiva – a marca era um lembrete constate de seu fracasso. Ter sua privacidade violada também o irritava, resultando em uma breve anotação mental para retribuir a ousadia em um futuro próximo.
Por outro lado, havia certo fascínio. Desde o primeiro momento em que a encontrou na floresta, o cavaleiro sentia-se curioso em desvendar a pequena garota de Jakku. A Força mostrou-se forte nela; e sua simplicidade, aliada á inocência, tornava tudo mais interessante. Mesmo sem treinamento algum, conseguiu proezas que apenas aprendizes em estágio avançado poderiam alcançar. Um lampejo ambicioso traspassou seus olhos brilhantes ao imaginar o poder que ambos teriam se Rey aceitasse ser sua aluna.
E então, a lembrança de ter sido rejeitado fervilhou seu sangue novamente.
Expirou o ar com força, claramente irritado. Lidar com pessoas teimosas e ignorantes parecia ser seu fardo perpétuo. Ela negou seu convite para ser treinada, á meses atrás. Quando se encontrassem novamente, no entanto, Kylo agiria de forma diferente. Ansiava pelo término do treinamento, onde poderia reencontrar sua oponente e lhe mostrar seus novos “truques”. A sombra de um sorriso maldoso surgiu nos lábios, imaginando as possibilidades de um possível – e muito próximo — confronto.
Terminou o curativo contra o tórax e deu ás costas para o espelho, vestindo a blusa e as luvas morosamente. Os novos ferimentos marcavam sua pele alva, resultado do treino intenso com Snoke. Apesar do desconforto, os métodos de ensino de seu mestre geravam resultados satisfatórios no desempenho de Kylo. A dor constante o fazia lembrar seu objetivo final, causando a ira necessária para terminar o que seu avô havia começado.
Algumas dúvidas persistiam em perturbá-lo, no entanto. Como ela havia conseguido conectar-se á sua mente? E por qual motivo?
Não foi para tentar desvendar sua localização. Rey nem sequer se esforçou em obter quaisquer respostas para encontrá-lo. A partir disso, o cavaleiro supôs que não foi algo proposital – ela provavelmente acabou criando a conexão sem querer. A garota realmente não tinha ideia do poder que fluía em suas veias. Ou sabia, mas seu mestre tolo impunha as mesmas regras arcaicas que limitavam o uso da Força.
Seja como for, a luz de Rey o perturbava com menor intensidade agora. As ondas suaves amorteciam parte da consciência de Kylo, apaziguando seus conflitos internos – seu maior combustível para o lado negro. Por breves instantes, o cavaleiro pôde compartilhar da mesma paz da catadora, mesclada á solidão e insegurança. Ao contrário do último encontro entre os dois, no entanto, a tentação estava consideravelmente reduzida. Kylo podia enxergar as fraquezas e incertezas da luz com mais clareza, sendo muito mais simples de ignorá-la. O lado negro era irremediavelmente mais forte, sem regras ou limitações para barrar seus poderes. E esta era sua maior motivação para continuar no caminho escolhido.
Assim que terminou de se trocar, o cavaleiro passou pelo pesado capacete repousado em uma cômoda e o ignorou. Não havia necessidade de usá-lo onde estava. Saiu do quarto á passos firmes, o som de suas botas contra o piso quebrando o silêncio profundo. O manto negro esvoaçava conforme Kylo avançava pelos corredores do templo, completamente vazios e sem vida. O Supremo Líder o aguardava para o início de mais um dia de treinamento.
A construção era enorme. Ele dobrou esquinas e atravessou passarelas de pedra enquanto se dirigia ao grande saguão. Apesar do aspecto abandonado, os adornos arcaicos moldados em suas paredes possuíam uma beleza singular. Algumas estátuas de antigos mestres surgiam em certos pontos do trajeto, cobertas por uma considerável camada de pó sem perder sua magnitude. O ar agourento e carregado não o incomodava mais, apesar de duplicar suas angústias. Kylo Ren já havia aprendido a lidar com a energia escura presente no antigo templo Korriban.
Chegou finalmente ás grandes portas de mogno envelhecido. As abriu sem hesitar, sabendo que o mestre lhe aguardava do outro lado. Conforme atravessava o extenso aposento, a figura de Snoke tornava-se mais nítida aos seus olhos. Ele estava sentado em uma espécie de trono, os olhos fechados como se meditasse. Os abriu devagar assim que Kylo se aproximou o suficiente, ajoelhando-se em um sinal de humildade e respeito.
— Mestre.
— Levante-se, Kylo Ren. – sua voz soou fria e lânguida aos ouvidos do cavaleiro. – Pude perceber um tremor na Força vindo de seus aposentos. Gostaria de me falar á respeito?
Não era um pedido, e sim uma ordem. Os olhos escuros fitavam o aprendiz de maneira intensa, perscrutando cada sutil mudança de temperamento. Kylo não gostaria de expor o acontecido á criatura, mas sabia que precisava manter-se neutro e lhe contar em detalhes, mesmo á contragosto.
— A catadora de lixo veio até minha mente.
Silêncio. O cavaleiro respirava de forma calma, procurando esvaziar a mente para não incitar o mais velho á desconfiança. Ele finalmente respondeu, franzindo o cenho marcado por cicatrizes.
— Ela descobriu sua localização?
— Não. Ela sequer tentou. – Kylo respondeu, sua voz grave soando em um tom neutro. – Creio que tenha criado a conexão por acidente.
Snoke respirou fundo, seu dedo indicador acariciando o apoio para o braço vagarosamente. Olhou para o chão, pensativo, e voltou a encarar o aprendiz com suas íris ardilosas.
— E você, conseguiu identificar onde Luke Skywalker está?
O cavaleiro hesitou por alguns instantes. Então, balançou a cabeça em negativa, sem cortar o contato visual com o alienígena ancião.
— Tudo aconteceu muito rápido. Assim que a senti, a garota cortou a ligação.
— Interessante.
O Supremo Líder levantou-se de seu trono de pedras lapidadas, os movimentos calculados como de costume. Suas vestes compridas arrastaram no chão conforme ele descia os quatro degraus em direção ao aprendiz, que permaneceu imóvel. Ambos possuíam a mesma altura, e as cicatrizes em ambas as faces tornavam-nos semelhantes. Snoke passou a rodear o cavaleiro, expondo seus pensamentos em voz alta.
— Vocês dois possuem uma conexão forte. Algo grandioso os atrai como um ímã, por uma razão que ainda desconheço. — Fez uma pausa. — Seja como for, isso poderá ser útil.
Kylo uniu as sobrancelhas, confuso. Ele prosseguiu, os braços postos solenemente para trás do corpo.
— Rey é curiosa e ingênua. Em breve ela tentará te encontrar novamente, e desta vez, você não deixará que ela quebre a conexão e fuja.
— Eu duvido que ela faça isso. – o cavaleiro o cortou, sem rodeios. Ele realmente cria que a jovem não seria tão tola a este ponto.
— Ela fará. – a certeza transbordava a entonação de Snoke, e o aprendiz resolveu não contestar. – Espere e verá. E quando ela fizer, não tente perscrutar sua mente, ou identificar a localização de Luke. Deixe que ela o veja, o sinta, não tenha medo em se expor. Procure estabelecer uma conexão mais íntima; instigue sua curiosidade natural. Quando finalmente se encontrarem, verá o quanto este processo tornará a mente de Rey mais maleável.
Kylo deixou de se preocupar em parecer neutro, sentindo a raiva tempestuar seu coração atribulado. Aquilo era absurdo. Snoke ainda queria ter Rey em suas mãos, e isso o incomodava. Ele fitou o mais velho de maneira incrédula, o vinco formado entre as sobrancelhas escuras denotando insatisfação.
— Está me dizendo que eu terei de me abrir para a catadora de lixo?! Com todo respeito, mestre, mas isso não vai funcionar! – ele controlava sua voz, que automaticamente subiu meio tom. – Ela me odeia, e é poderosa na Força. Vai descobrir minhas intenções no momento em que eu parecer vulnerável.
— Duvida do lado negro, meu jovem aprendiz? — Ele arqueou uma sobrancelha, parando em frente ao homem de vestes negras. A pergunta o pegou de surpresa. O brilho confuso de seus olhos não perdurou mais que um segundo, logo dando espaço para uma devoção abrasadora. Sua entonação denotava isso de maneira clara.
— Não, mestre. Jamais.
– Então confie em seus instintos. Confie no lado obscuro da Força, e tudo estará á seu alcance. Você superou minhas expectativas quando matou Han Solo, e vem se mostrando cada vez mais poderoso nos últimos meses. Sinto que sua mente, outrora fraca, esteja preparada para tal desafio. Você só precisa de mais fé.
Suas palavras foram proferidas de maneira solene, ecoando pelos cantos do saguão. A Força obscura permeava mestre e aprendiz, envolvendo-os em uma áurea carregada de poder. Kylo por fim assentiu para Snoke, cedendo ás suas vontades.
— Perfeito. Quero que me informe quando acontecer da próxima vez. – ele o alertou, apertado os olhos escuros. — Agora, vamos começar.
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O caminho para retornar ao seu quarto parecia não ter fim. Os corredores estendiam-se por longos e inalcançáveis metros, irritando o cavaleiro solitário. Seu único desejo era poder jogar-se em sua cama e dormir até o próximo dia.
As pernas tremiam devido ao esforço. Sua mente parecia fragmentada em pedaços, violada de todas as formas possíveis por Snoke. Cada músculo de seu corpo protestava conforme ele caminhava pelo templo silencioso, o semblante completamente mal humorado.
Quando finalmente alcançou seus aposentos, não segurou um suspiro de alívio. Arrancou suas roupas de qualquer jeito e se enfiou em baixo do chuveiro, recebendo a água morna com grande receptividade. Os acontecimentos do dia passaram como um filme diante os olhos fechados, enquanto espalmava as mãos nas paredes de azulejos do banheiro e recebia o jato quente em suas costas marcadas.
Estava habituado á intensidade dos treinamentos. Sempre que o dia terminava, Kylo sentia-se apenas um pedaço de trapo esfarrapado. Seu corpo, assim como sua mente, chegava ao extremo pelas investidas incansáveis de Snoke. Seu mestre fazia questão de leva-lo ao seu limite, tanto física quanto psicologicamente. Apesar do sofrimento, no entanto, Kylo Ren sentia os frutos dos ensinamentos de Snoke refletidos em suas novas habilidades. Junto com o cansaço, vinha a sensação sem igual de poder, e a certeza de que tudo valia a pena. Ele sentia-se grande. Forte. Confiante. Sentia-se capaz de derrubar qualquer planeta com o simples uso da mente. E, de fato, agora conseguia. Sempre era bem sucedido nas provas que seu mestre lhe impunha, ultrapassando expectativas. A Resistência não teria a menor chance quando seu treinamento chegasse ao fim. Nem Luke Skywalker, tampouco Rey.
Rey...
A lembrança do pedido de seu mestre lhe trouxe uma careta de desgosto. Sua ideia parecia realmente estúpida. Tentar criar uma conexão com a garota de Jakku? Praticamente se humilhar perante a aprendiz de Jedi? Kylo Ren não poderia pensar em castigo maior.
No fundo de sua consciência, no entanto, o cavaleiro ansiava pela próxima “visita” de Rey. A ideia de ligar-se á psique jovem e ingênua da garota lhe causava certo calafrio, como um adolescente prestes á ter seu primeiro encontro. Ele começou a matutar como agiria quando suas mentes se conectassem novamente. Mesmo após terminar seu banho e encostar a cabeça no travesseiro, permaneceu imaginando todo tipo de diálogo. Um meio sorriso maldoso surgiu em seus lábios conforme pegava no sono, embalado pela imagem de uma Rey submissa e enganada por suas palavras persuasivas.
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