Equilibrium
29 O peso das escolhas
Notas iniciais
Quando a campainha do Castelo-Forte tocou naquela manhã cinza, a porta pesada de mogno abriu-se quase imediatamente.
Um grupo de dez oficiais de uniforme cáqui aguardava do outro lado, os rifles blasters aconchegados sobre os braços como sinal de alerta. Havia tensão em seus rostos cansados da guerra, os músculos rijos prontos para agir caso necessário.
Rey não esboçou qualquer reação, entretanto. Com excessão dos círculos escuros sob os olhos, havia apenas um misterioso ar de condescendência pairando sobre sua aura. Cruzou os braços e aguardou pacientemente até que se pronunciassem.
O comandante puxou uma carta do bolso, desdobrou-a com um movimento rápido e proferiu o mandado de prisão de Kylo Ren em tom firme. Se havia qualquer temor em anunciar tal notícia para dois dos mais poderosos usuários da Força na galáxia, ele não demonstrou.Não fazia difrença, de qualquer forma.
Ela apertou de leve os lábios quando a voz de Ben soou calma por trás dela.
— Sim. Estou aqui.
Ele passou pela Jedi sem olhar em seus olhos.. Não precisava prolongar aquela situação mais do que o necessário. Ainda assim, segurou a sua mão por breves segundos antes de tomar um passo á frente e se entregar para os oficiais.. Rey precisou reunir todas as suas forças para não puxá-lo de volta e expulsar os oficiais — mas aquilo já havia sido discutido na noite passada.
Seus punhos foram algemados enquanto o soldado da Nova República dizia quais eram os seus direitos como prisioneiro. Disse que uma possível primeira sessão no tribunal aconteceria em duas semanas, e que avisaria Rey dos detalhes. Ele precisaria de um advogado, mas isso, é claro, já estava sendo preparado por Leia Organa.
Apesar da postura neutra, o coração da Jedi batia feroz no peito. Ela não respondeu quando eles se despediram, e limitou-se a afundar as suas unhas contra a carne dos braços enquanto observava Ben se afastar e entrar em um grande speeder blindado. Enquanto os via desaparecer na estrada além dos portões da mansão, segurou as lágrimas que ameaçavam rolar pelo rosto.
Não adiantava derramá-las. Era melhor transformar sua tristeza em garra para resolver aquela situação.
Bateu a porta com força quando entrou novamente na mansão. Parou a dois passos e olhou ao redor, o peso da realidade afundando em seu estômago. Se as paredes pudessem falar, contariam longas e espetaculares histórias sobre dois seres sensitivos á Força, em lados opostos da guerra, que se apaixonaram perdidamente e lutaram por um bem maior.
Ela sabia o que fazer. Havia planejado tudo com Ben antes do amanhecer, enquanto tentavam ao máximo aproveitar a companhia um do outro antes de serem afastados novamente. Procurou o botão na biblioteca que abria a porta secreta entre os livros e desceu o longo lance de escadas até a sala no subsolo da mansão.
Enquanto procurava pelos documentos, livros e anotações que Ben havia trabalhado por tanto tempo, — aqueles sobre como derrotar Darth Plagues, os mesmos que serviriam como provas para tentar inocentá-lo de seus atos — ela deixou-se levar pelas lembranças de tudo que viveram até ali, e de como a sua relação evoluiu e se transformou.
Ela gostaria de conhecê-lo melhor. De saber mais detalhes sobre os seus gostos e sua personalidade. Queria entender melhor essa atração e se estavam realmente destinados a ficar juntos. Queria saber quais eram as manias dele, e que tipo de geléia ele gostava de comer de manhã. Coisas banais, coisas pequenas das quais foi privada a vida inteira.
Mas para isso, precisavam de tempo — muito mais tempo.
Alguns meses se passaram desde que fora levada como prisionieira sob a guarda de Kylo, mas a avalanche de acontecimentos fez com que o tempo se esticasse de maneira assombrosa.
Havia muito o que digerir — sua liberdade, a prisão de Ben, a vitória da Nova República, a morte de Ahsoka, a sua percepção sobre quem realmente era Luke Skywalker, a verdade sobre os seus pais. Ainda assim, naquele momento, precisava manter o foco.
Ela guardou tudo que encontrou em uma pasta e enfiou-a em baixo do braço. Apanhou o sabre negro que descansava inocentemente sobre a mesa e procurou pela outra porta escondida, uma que a levaria ainda mais fundo na mansão. As paredes eram de terra escura e ela mal conseguia ver direito aonde pisava, tomando cuidado para não errar o próximo passo. O arrepio que subiu por sua espinha quando chegou á pequena sala no final do caminho nada tinha a ver com a queda de temperatura do ambiente.
O que outrora fora o bizarro altar do capacete de Darth Vader agora não passava de escombros escurecidos no chão. Ben havia destruído ele mesmo na madrugada anterior, ressaltando em uma longa conversa de que gostaria de fazer isso sozinho. Aparentemente tinha um peso valioso em sua luta em desvencilhar-se de qualquer resquício de escuridão dentro de si. Ela deu ás costas para os destroços e saiu dali, certificando-se de que não havia mais nada para tratar.
Depois de preparar uma mochila com os seus pertences, Rey saiu pela porta da frente com um misto de emoções em seu peito. Havia alívio, medo, euforia, ansiedade, e mais outras coisas que ela não teve tempo de nomear. Deslizando o capacete sobre a cabeça, ela subiu no speeder de Ben, sentindo a máquina vibrar sutilmente sob ela. O vento da manhã afagou seu rosto, servindo como um bálsamo temporário para seus pensamentos agitados, enquanto ela acelerava pelas vias de Hanoon. A cidade, ainda marcada por cicatrizes de destruição, passou por ela como um borrão cinzento. No entanto, sua mente estava clara e seu destino, inquestionável.
XoOoX
Ninguém pareceu notar a Jedi quando ela atravessou a Torre de Comando á passos firmes. O ambiente estava repleto de atividade frenética, um zumbido constante de vozes e máquinas. Generais e oficiais de alta patente estavam reunidos em torno de mesas de mapas holográficos, discutindo a redistribuição de tropas e a estabilização de regiões recém-liberadas. Operadores de comunicação estavam ocupados enviando mensagens codificadas para células da Resistência em outros sistemas estelares, atualizando-os sobre a vitória e coordenando os próximos passos.
Alguns estavam focados em relatórios de inteligência, tentando avaliar o que restava das forças inimigas e onde elas poderiam atacar a seguir. Outros analisavam dados de suprimentos e logística, assegurando que as tropas tivessem o necessário para manter a ordem nos territórios recém-conquistados. Médicos e enfermeiros passavam, atualizando os líderes sobre o estado dos feridos e o que seria necessário para seu tratamento.
Em um canto, um grupo estava envolvido em conversas diplomáticas, preparando declarações para os mundos aliados e neutros, buscando solidificar o apoio e o reconhecimento da nova ordem que se estabelecia. A atmosfera era de alívio misturado com tensão; a vitória tinha sido alcançada, mas o trabalho para manter essa paz recém-conquistada estava apenas começando. Ela varreu os olhos pela agitação, mas não encontrou Leia, ou qualquer um dos seus amigos.
—Com licença, — ela decidiu finalmente perguntar ao grupo mais próximo. — Vocês saberiam me dizer onde está a General Organa?
Houve uma troca de olhares dúbios, e depois de um momento de silêncio, o oficial Mon Calamari virou-se para ela .
— Não sabemos ao certo. Talvez na sala de reunião.
—Saberia dizer qual delas?
Ele apenas balançou a cabeça, pedindo desculpas com os olhos.
— Ok, obrigada.
Ela conhecia relativamente bem a planta daquela Torre, então saiu á sua busca com o olhar atento. A cidade enfrentava um apagão há algumas horas, tornando o elevador inoperante e causando congestionamento nas escadas. Vasculhou as salas dos terceiros e quartos andares como um raio, mas não encontrou sinais dela. Ao longo do caminho, fez perguntas a várias pessoas, os sinais de ansiedade emergindo do peito, até que finalmente alguém lhe confirmou sobre o paradeiro de Leia.
—Sim, eu a vi. Está com Luke, no final do corredor á esquerda.
Apesar da mão gelada apertando o estômago, Rey agradeceu com um sorriso e praticamente correu para lá. Ela não sabia se estava preparada para falar com seu antigo mestre novamente — não depois do que Ben havia contado a seu respeito — mas decidiu guardar essa lembrança em uma gaveta de sua mente. Evitou esbarrar nos muitos médicos daquele corredor e, finalmente, encontrou a tal sala.
Com uma rápida olhada lá dentro, identificou o que parecia ser uma ala hospitalar bem equipada, movida a uma reserva de energia especialmente trazida para este fim. O ambiente estava quase silencioso, exceto pelo ritmo constante dos batimentos cardíacos emitidos pelo monitor médico. Luke repousava inconsciente na cama, enquanto a irmã estava sentada em uma poltrona ao seu lado, o olhar distante e alheio á presença de mais alguém ali.
Rey bateu de leve na porta, causando-lhe um leve sobressalto.
— Desculpe, General Organa, talvez essa não seja uma boa hora...
— Rey, querida, não a vi chegar. — desculpou-se, piscando como se acordasse de um sonho. — Não, não se preocupe com isso. Pode entrar.
— Com licença. — ela se aproximou, analisando o homem sobre a maca. Apesar dos curativos sobre a pele machucada, sua respiração parecia calma. — Como ele está?
— Estável. Deram medicação para que ele continuasse a dormir e não sentisse muita dor. Creio que tenha quebrado algumas costelas.
— Oh.
— Não se preocupe. Ele é casca grossa. — Leia abriu um pequeno sorriso e segurou a mão desocupada de Rey por um instante, um aperto reconfortante. — Seus olhos castanhos se fixaram nos olhos cor de avelã da jovem, carregados de empatia. — Estou aliviada em ver que você está bem.
— Obrigada. Mas e quanto á senhora? Não deveria estar descansando?
Ela parecia definititivamente esgotada. Olheiras marcavam a pele abaixo de seus olhos, e suas maçãs do rosto pareciam mais salientes, sugerindo uma perda de peso recente. Leia soltou um riso abafado pelo nariz, mais um sinal cínico de sua resignação do que uma verdadeira expressão de alegria.
— Ah, eu agradeço a sua preocupação. Terei tempo para descansar mais tarde.
Ela voltou sua atenção ao irmão, um suspiro escapando dos lábios. Houve um momento de silêncio, o bipe dos batimentos cardíacos de Luke ecoando em um pulsar calmo e constante. Rey ponderou como falar sobre o motivo de ela estar ali sem causar-lhe ainda mais stress, mas imaginou que Leia tinha uma vaga ideia do que seria. Não encontrando nenhuma alternativa sutil, decidiu ir direto ao ponto.
— Eles o levaram esta manhã.
Leia não se moveu, mas foi possível perceber a sutil mudança no ritmo da sua respiração.
— Sim, eu sei.
— Ele estava do nosso lado. — ela segurou a pasta com as duas mãos agora, agarrando-se com força á sua última esperança. — Durante todos esses anos, ele estava tentando achar uma forma de derrotar Snoke. Ele me contou tudo e pediu minha ajuda. — fez uma pausa, lembrando dos últimos meses com um aperto no coração. — Ele sentia muito a sua falta.
Leia finalmente se virou para ela de novo, as sobrancelhas franzidas e os olhos brilhantes de emoção.
— Eu acredito completamente no que diz, Rey. Eu sinto em minha alma. Mas temo que sejamos as únicas pessoas a pensar dessa forma.
— Por isso eu trouxe provas. — ela estendeu a volumosa pasta para a general. Hesitante, as mãos frágeis tremeram um pouco antes de equilibrar o objeto no colo. — Toda a documentação dos anos de pesquisa dele sobre Darth Plagueis, a Força, o Sabre Negro. Essa pode ser a defesa dele no tribunal.
Organa folheou as páginas, escanenado brevemente o conteúdo da página. Seu coração apertou no peito ao reconhecer a califragia do filho, mas ela não demonstrou sua emoção naquele momento. Ao invés disso, ergueu os olhos astutos para a Jedi.
— Isso é prova valiosa, Rey. Junto ao seu depoimento, acho que teremos uma chance. Vou mantê-la em segurança até o dia do julgamento.
— Tem ideia de quando vai ser?
— Não. Eu não estou diretamente envolvida no processo, como deve imaginar. Mas deve levar pelo menos duas semanas. O caso dele é… complicado.
— Complicado, mas incontestável, certo? Quero dizer, com essas provas, não há como algo dar errado.
Rey queria que sua última afirmação soasse mais confiante, mas a voz dela estremeceu por um momento. Leia ainda estudava as folhas do documento, as sobrancelhas próximas á linha do cabelo.
— Eu não tenho como dizer. Tenho meus contatos e influência no Senado, mas a pressão popular será grande. Precisamos ser espertos e tomar cuidado com a mídia.
— As pessoas verão quem ele realmente é. Como foi manipulado quando mais jovem. Elas terão empatia, como eu tive.
— Sim, na melhor das hipóteses. Mas não se esqueça de que uma galáxia inteira sofreu nas mãos de Snoke, e a notícia de que Ben era a mão direita dele vai se espalhar como fogo. Muitas pessoas não querem vê-lo em liberdade, então temos que nos preparar bem.
— Certo. Devemos procurar um advogado.
— Sim. Eu tenho um contato, mas precisamos ir até a outra sala primeiro…
Leia tentou se levantar da poltrona, mas suas pernas vacilaram no primeiro passo. Rey agiu rapidamente, amparando-a e evitando que ela caísse ao chão.
— Enfermeira! Ajudem, por favor!
— Não, não preciso de enfermeira, eu só estou cansada. — Ela ofegou, recompondo-se com certa dificuldade.
— Você precisa de cuidados! Eu vou manter a pasta em segurança comigo e voltamos a nos falar amanhã, quando estiver se sentindo melhor.
— Eu estou bem querida, juro… Nós precisamos…
— Precisamos descansar. — A Jedi enfatizou a palavra, certificando-se de que ela poderia ficar de pé antes de soltá-la. Ao mesmo tempo, um droide enfermeiro deslizou porta adentro, o visor eletrônico fazendo uma leitura completa dos sinais vitais da general.
— Acompanhe-me por favor, General Organa. — disse a voz metálica, e puxou uma cadeira de rodas do canto da sala, posicionando-a atrás dela. Leia lançou um olhar de desagrado para a cadeira e fez um gesto de desdém com a mão.
— Ora, francamente, isso é desnecessário.
Ela finalmente cedou e sentou na cadeira, os braços cruzados em resistência.
— Ok, está bem. Nos encontramos amanhã na sala de reuniões então, no mesmo horário.
— Combinado. Até logo, General.
— Até mais, Rey. E me chame de Leia.
Ela não percebeu o sorriso de Rey, já que estava sendo conduzida pelo droide pelo corredor. Uma sensação renovada de inquietação acometeu a Jedi ao vê-la se distanciar, mesmo sabendo que estava sob cuidados competentes da Resistência. A garota lançou um olhar final ao seu mestre adormecido antes de deixar o quarto, resignada a encontrar os amigos. Eram seu último porto seguro, no fim das contas, e ela simplesmente não suportaria ficar na mansão de Kylo Ren sozinha.
xXoXx
123, 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 130…
Ben contava os números mentalmente a cada flexão, o suor escorrendo pela testa. Seus músculos doíam em protesto, mas ele continuou.
131, 132, 133, 135, 136, 137…
O piso branco abaixo de suas mãos cheirava a cloro. Igual á academia de Luke.
138, 139, 140…
Os braços estremeceram, ele quase se desequilibrou.
141, 142, 143…
O último número fora terrivelmente lento. Ele desceu até o fim, mas a subida quase não aconteceu. Isso o irritou. Era capaz de muito mais intensidade que aquilo, mas seu foco estava abalado. Os pensamentos rugiam em sua mente, distraindo-o.
139… 140… Não, espere, ele já tinha contado esses. Ok, 143, 144, 145…
Aonde Rey estaria naquele momento? Se fosse esperta o suficiente, já teria desistido dele e ido embora para outra galáxia.
146, 147… 148… 149…
Com certeza era por isso que não a encontrava mais com o uso da Força. Ela tinha finalmente partido e bloqueado sua conexão.
150…
Ben gemeu com o esforço, parando em posição de prancha. O coração martelava feroz no peito, seu abdomem doía.
151, 152…
Ela talvez tivesse partido com Fenrir. Aquele desgraçado com certeza ainda estava vivo.
153…
Ele desceu mais uma vez, mas ao tentar voltar, seu corpo colapsou. Os joelhos cederam e ele se sentou nos calcanhares, um grunhido de frustração escapando da garganta. Tirou alguns fios rebeldes que escaparam do seu rabo de cavalo e ficou ali por longos minutos, o olhar perdido em algum ponto da parede com o maxilar trincado.
Quatorze dias. Quatorze longos dias em que exercitava-se até chegar a exaustão. E ainda assim, nada conseguia apaziguar a tempestade que ameaçava explodir em seu âmago, muito menos dissipar os pensamentos sombrios que turvavam sua mente. Sua única possível fonte de paz estava inacessível, e mesmo que tentasse se persuadir de que ela tinha razões válidas para isso, uma voz implacável — a sua própria — murmurava palavras duras em seus ouvidos.
Ela o abandonou. Eu faria o mesmo, se fosse ela.
Ergueu-se em um ímpeto, os músculos rijos, aquela emoção efervescente crescendo dentro de si como um incêndio. Caminhou de um lado para o outro, lançando olhares furtivos do pequeno espaço da janela para a porta, agora parcialmente coberta pela pálida luz do luar. Um mínimo esforço, um foco centralizado nos parafusos e junções daquela estrutura, e tudo voaria pelos ares. A Força formigou na ponta dos seus dedos, pronta para ser usada — implorando para ser usada.
— Merda!
Ele sacudiu o corpo, afastando os pensamentos intrusivos. Um padrão mental ao qual se acostumara ao longo dos anos, ocasionalmente servindo como entrada paraa influência de Snoke. Ceder aos seus impulsos arruinaria tudo.
Desta vez, escolheria fazer o que era correto, mesmo que fosse o trajeto mais árduo, ou que não houvesse mais ninguém esperando do lado de fora.
Escolheria a luz, mesmo se o julgassem culpado e o deixassem preso.
Ele congelou com o último pensamento. Não era a primeira vez que essa ideia lhe vinha à mente, mas sempre deixava um gosto amargo em sua boca. Rey era, sem dúvida, sua principal razão para se apegar à luz, talvez seguida de perto por sua mãe. Mas se ambas fossem retiradas de sua vida, o que lhe restaria? Qual seria seu desejo mais profundo e verdadeiro?
Era difícil dizer. Quase impossível, na verdade. Qualquer que fosse a essência de Ben Solo, os valores e os sonhos daquele garotinho de Chandrila, estava agora soterrado sobre uma camada grossa de traumas. Snoke quase conseguiu apagar sua verdadeira essência, fragmentando sua alma em pedaços tão minúsculos que pareciam irrecuperáveis. Mesmo que ele tivesse planejado se voltar contra seu mestre por anos, era inegável que sua motivação predominante — a que carregara consigo antes de Rey surgir em sua vida — era a busca por poder.
Ben Solo sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao confrontar esses pensamentos. Eles eram como fantasmas, assombrando os cantos mais escuros de sua mente e criando ecos no coração. Sabia que não podia deixar as dúvidas o consumirem, e por fim decidiu pôr um fim naquela torrente perigosa de ideias com a única coisa que poderia acalmar a tempestade dentro de si mesmo.
Sentou-se no chão frio, cruzando as pernas e fechando os olhos. Inspirou profundamente, enchendo seus pulmões com o ar estagnado da cela, e expirou, tentando liberar a tensão que se acumulava em seus músculos. Repetiu o processo algumas vezes, o calor do corpo dissipando-se gradualmente.
Por um momento, sua mente vagou. Pensou em Rey, e depois em sua mãe, e nos treinamentos intensivos, e até em Luke Skywalker. Normalmente tentaria buscar a energia reconfortante da Jedi mas, dessa vez, ele se esforçou para afastar essas distrações, focando em sua respiração e no ritmo constante de seu coração. Aos poucos, sentiu sua mente se aquietar, como se uma névoa estivesse se dissipando para revelar um céu claro.
Embora ainda não tivesse todas as respostas, sentiu um vislumbre de paz, um conforto fugaz que vinha de algum lugar profundo dentro de si. Era um conforto solitário, mas naquele momento, naquela cela, era tudo o que ele tinha. Seu coração batia calmo nos ouvidos, a Força formigava pelos membros — não com o impulso ardente de antes, mas como um bálsamo refrescante pelos músculos.
Perdeu a noção do tempo. Poderiam ter sido minutos ou horas, não fazia diferença. Seu corpo já não pesava nada, e a própria ideia de matéria deixou de existir. O único motivo pelo qual recuperou uma parte de sua consciência se devia á sutil diferença no ambiente. Como uma pressão atmosférica antes de uma tempestade, arrepiando os pêlos da nuca. Ele tentou ignorar e voltar ao seu foco, mas quando isso não aconteceu, abriu os olhos.
Então, ele o viu. Uma figura translúcida emergiu das sombras de sua mente, caminhando em sua direção com um sorriso enviesado e olhar sereno.
— Olá, Ben.
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