Equilibrium

24 O início do fim


Notas iniciais
Demorei mas cheguei. Espero que não tenha ficado muito confuso o capítulo. Não revisei, então se tiver algum erro, por favor me corrijam! Beijinhos e boa leitura ♥

Flashback ON

A tensão na ponte de comando se instalou entre os tripulantes como uma corrente elétrica. Os olhares dos comandantes se cruzavam pela sala com um misto de nervosismo e excitação. O breve silêncio não os esmagava de maneira consternada, mas sim com expectativa. Após incontáveis derrotas, perdas e sua quase aniquilação, uma nova esperança surgia. Despontava no horizonte como raios dourados de sol. Não seria mais uma tentativa discreta de roubar combustível, ou uma investida improvisada contra um acampamento isolado, tampouco uma desesperada fuga até uma base precária. Pela primeira vez, eles tinham um plano concreto, um que realmente poderia pôr fim àquela guerra. Eles estavam um passo à frente daquela ditadura.

No centro de todas as atenções, Leia Organa mantinha sua postura imaculada. Sua mera presença inspirava coragem. As pessoas ali a respeitavam por quem ela era, por tudo que tinha passado ao longo das décadas, pela causa que ela representava. Quando a General inspirou o ar e falou, havia um tom positivo em sua voz firme.

— Todos estão bem cientes do que passamos nas mãos da Primeira Ordem nos últimos meses. Não foram poucas as tribulações, e cada um de nós teve que carregar seu próprio fardo. Mesmo assim, apesar de tudo, vocês mantiveram-se leais. Alguns chegaram a pouco tempo e, corajosamente, tomaram nosso lado. Outros conseguiram passar pela fase mais obscura da Resistência, firmes ao meu lado. – seu olhar se demorou sobre Poe, Finn, Rose e alguns comandantes que escaparam do expurgo da Primeira Ordem. – Pessoas se sacrificaram pela causa. Amigos, familiares, colegas de longa data. No entanto, sinto-me confiante em afirmar que sua partida não será em vão. Pela primeira vez em meses, nós estamos com a vantagem.

Um pequeno sorriso de triunfo surgiu no rosto marcado pela idade da General. Os presentes na sala não puderam evitar senão imitar o ato, motivados pela nova onda de esperança. Ela continuou seu pequeno discurso motivados, mas nesse momento Finn se distraiu um instante e as palavras dela se tornaram abafadas aos seus ouvidos.

O ex stormtrooper olhou ao redor. Atentou-se a expressão quase iluminada daquelas pessoas e ele próprio sentiu uma bolha de orgulho inflar dentro do peito. Foram meses de trabalho. Meses se esgueirando entre as bases da Primeira Ordem, formando alianças delicadas com espécies duvidosas e trabalhando incansavelmente com dados e planilhas. Não fosse o apoio dos aliados na Orla Exterior, nada disso teria sido possível. Claro que exigiu certa persuasão por parte deles – como convencer as pessoas de que meia dúzia de rebeldes poderiam reerguer uma força bélica de igual poder contra Snoke e seu exército? Bem, a resposta foi simples. As pessoas gostam de lendas, histórias contadas de pais para filhos que alimentam a imaginação e aumentam os fatos para alcançar um nível épico. Luke Skywalker fora pessoalmente até elas com a mensagem gravada de Leia Organa e, aparentemente, funcionou.

De tijolo em tijolo, eles foram reconstruindo o que antes fora um frágil castelo de areia prestes a desaparecer. Agora, eram uma fortaleza abarrotada de aliados e poder bélico. “Conheça seu inimigo”, foi o que Leia disse para ele a um tempo atrás. Da mesma forma que Palpatine fez o Império crescer debaixo do nariz da República, e assim como Snoke tomou seus remanescentes para construir a Primeira Ordem sem que ninguém percebesse, a Resistência também havia se aproveitado dos mesmos truques e discrição. Para Snoke, eles já estavam destruídos. Incapaz de encontrar Luke e Leia, mas ainda assim, soberbo demais para imaginar que estariam se reerguendo com tamanha rapidez e força. Talvez, se prestasse mais atenção no fogo queimando nos olhos dos civis, o Supremo Líder poderia ter previsto a revolta, a traição, a sede de vingança. O massacre em seus lares não seria esquecido. A raiva sobrepujava o medo, que consequentemente alimentava a força da Resistência. Não há ameaças quando não se tem mais nada a perder.

Mais uma vez, subestimar a sede por liberdade se tornava um erro. Pensando estar no topo do universo, Snoke determinava sua eminente queda.

— ...Ainda assim, é importante que nos concentremos e sigamos restritamente ao plano para que nossas chances continuem promissoras. Comandante Ak Bar, pode nos passar o relatório?

O soldado pescou a frase aleatória e logo voltou a se distrair. Já havia repassado os dados umas mil vezes com Poe, que tinha acesso ás informações antes que toda a tripulação – com exceção de Leia, claro. Viu a Togruta de pele laranja do outro lado da sala, atenta ao discurso da líder da Resistência. Apesar de seus traços jovens, algo em seus olhos verdes parecia refletir séculos de experiência. Era a primeira vez que conhecia alguém daquela espécie e talvez todos exalassem essa aura misteriosa – um dia, quem sabe, poderia descobrir isso. A propósito, havia uma mistura considerável de raças, todos juntos para uma única causa, e isso alimentava sua determinação.

Era uma pena que Rey não pudesse estar ali. Ela iria gostar de conhecer tantas pessoas diferentes e fazer parte dessa reunião final. No entanto, se tudo corresse bem, ela conseguiria participar quanto estivessem dentro de Hanoon. Ah, Finn podia até imaginar a cara de sua melhor amiga quando atacassem com força total aquela capital.

— ...Nossa isca foi mandada a um planeta distante na Orla Exterior, para um local não mapeado. – o comandante com escamas de peixe continuou. – Duas fragatas com nada além de bombas e um falso transmissor de ondas via rádio. As minas estão posicionadas e os canhões de turbolaser apontados diretamente para o céu, ocultos pela vegetação local e pelo sistema de camuflagem que Rose Tico desenvolveu para nós. – Os grandes olhos vítreos focaram-se na garota por um instante, gratos. Finn sorriu para ela, orgulhoso. Eles trabalharam juntos na mesma divisão de esquadrão e haviam se tornado bastante próximos. As maças do rosto da rebelde enrubesceram. – A pista falsa de que o que restou da Resistência está naquele local foi implantada com sucesso entre os leais a Snoke e estamos monitorando através do satélite a hora que enviarem soldados para lá. Então, a base em Hanoon ficará parcialmente desprotegida.

Outro erro grave do inimigo – ao substituir a Nau Capitânia, a gigantesca nave que servia como base principal por instalações fixas em um planeta com seu próprio sistema solar, Snoke havia condenado a si próprio e ao seu exército. Mais uma vez, sua pretensão de pensar ter ganho a guerra o fazia um alvo muito mais fácil.

— Obrigada, comandante. A partir desse momento, Rose, Bargwill e Temiri farão o que talvez seja a parte mais importante da missão. Entrarão escondidos nas cápsulas da nave cargueira do contrabandista Jolee Antilles e entrarão na base com o disfarces que conseguimos. – eles assentiram, já cientes dos seus papéis. — O serviço de vocês é desativar os escudos para que os caças do capitão Dameron penetrem a base. Não temos o código de acesso das torres, então serão implantadas bombas que serão acionadas de uma vez ao final da tarefa, no ponto de encontro. Vocês precisam ser rápidos, cada um será responsabilizado por uma torre diferente. – um mapa do local flutuou sobre o painel de controle em forma de holograma, indicando o caminho mais rápido por uma espécie de rede de canos no subsolo. — Jolee vai demorar o máximo que puder enquanto negocia com os soldados. Certo, Sr. Antilles?

— Sem problemas. – resmungou o Weequay do outro canto, parecendo entediado.

Finn não conseguiu se segurar e levantou a mão. Ele reparou Leia soltar um suspiro, mas ainda assim fita-lo com seu costumeiro olhar caloroso. Ela já sabia o que ele iria dizer.

— Desculpe, com licença, General, mas eu não entendo o motivo de não participar dessa missão. Conheço a rotina dos soldados, posso ser bastante útil...

— Nós já repassamos esse plano várias vezes, Finn, e você sabe que será mais útil junto com nossa fragata de escolta. – disse com gentileza nas palavras. — Isso já está resolvido, não temos tempo para rever agora. Vamos prosseguir.

O rapaz não evitou lhe devolver uma cara emburrada. Rose esfregou seu braço com uma das mãos em forma de consolo, mas isso não diminuiu sua revolta. Ele sabia bem o motivo, e nada tinha a ver com a escolta. Leia temia que, no momento em que Finn estivesse na base, ele correria em busca de Rey para então realizar a missão. E, de fato, era isso o que ele queria fazer. Como ela poderia saber que a cidade estava sendo atacada? Era seu dever deixa-la ciente do plano, pois a garota também fazia parte da Resistência. A tentativa de fazer Kylo Ren se voltar para a luz havia evidentemente falhado. Além do mais, seria de uma ajuda imprescindível tê-la ao seu lado durante a tarefa. Ao invés de explodir os painéis de controle e chamar atenção indevida, ela poderia muito bem ter descoberto alguma senha útil e dar ainda mais tempo para o esquadrão de Poe. Mas isso ele não revelou nem mesmo para Rose.

Ele cruzou os braços e viu o contrabandista meio oculto nas sombras, perto do corredor, palitando um dente afiado com a ponta de um canivete. Ele não parecia nada confiável e só estava disposto a carregar uma carga secreta em sua nave pelo pagamento oferecido em troca. Ele gostaria não ter de depender todo o exército rebelde nas mãos de um salafrário, mas não havia muitas opções. Jolee negociava armas e suprimentos a um bom tempo com alguns oficiais da Primeira Ordem e, apesar de lucrativo no começo, vinha reduzindo seus ganhos conforme a guerra vinha acabando. Agora a Resistência seria sua fonte de renda – não havia lealdade com essa escória. Apenas negócios.

— No momento em que os escudos forem desativados, os caças atacarão os hangares antes que os TIE possam decolar. Eles provavelmente terão alguns AT-AT no arsenal, então foquem neles logo em seguida. Nesse momento vamos fazer o ataque final. Esquadrão delta, vocês seguirão Ahsoka Tano a noroeste...

Os detalhes técnicos foram repassados pela última vez. Se algo desse errado, havia o plano B, o C e até um D meio improvisado. A margem de erro era grande, mas a chance de vitória também. Era uma jogada de tudo ou nada, algo muito incomum para a Resistência, mas que finalmente viria a calhar. Poe parecia extremamente satisfeito e louco para entrar em sua nave. Leia finalmente disse para todos ficarem a postos e esperarem por seu sinal para realizar a parte do plano. Cada esquadrão tomou seu rumo, Finn acompanhando relutantemente o pessoal da fragata. Depois de passar pela general, no entanto, desviou por um corredor e se apressou para alcançar Rose a caminho do cargueiro do contrabandista.

— Finn! O que está fazendo? Seu esquadrão não está do outro lado? – a garota sussurrou, enérgica, enquanto pessoas corriam de um lado para o outro sem prestar atenção neles.

— Rose, eu preciso ir com vocês. Rey precisa saber do plano.

A garota revirou os olhos.

— Rey, Rey, tudo é Rey pra você....

— Não, não é isso. – ele rebateu, ofendido. – Ela pode saber informações importantes, algo que possa nos ajudar nessa tarefa. É algo muito arriscado, se não precisarmos explodir as torres, vamos chamar menos atenção...

— Sugira isso para nossa General, então. Eu não quero ser considerada traidora ou fazer algo que atrapalhe o plano.

— Sabe muito bem que Leia não vai me ouvir. Ela acha que eu só quero salvar a Rey, mas nós já sabemos que ela não precisa de proteção. O que eu quero é dar uma vantagem... Eu posso ir junto e procurar por ela, decorei aquele mapa de cabo a rabo. Vocês fazem sua parte e eu vou atrás dela.

— Não sei se isso é uma boa ideia.

— Rose, por favor... – ele se colocou a sua frente, unindo as mãos em forma de rogo. – Eu vou tomar cuidado. Deixe que eu vá junto.

A garota estreitou os olhos. Depois respirou fundo, colocando as mãos na cintura. Finn sempre acabava a convencendo – provavelmente por causa do seu jeito pidão e do rosto bonito. Por fim, ela encolheu os ombros.

— Tá, que seja. Mas se te descobrirem, eu vou dizer que não sabia de nada. Vou falar que entrou escondido na nave. Fechado?

Ele abriu um sorriso de orelha a orelha e a abraçou, deixando-a paralisada por um instante.

— Obrigado! Eu sabia que podia contar com você!

Ela retribuiu meio sem jeito, mas contente.

— Só toma cuidado.

— Prometo que tomo.

— Agora vamos logo, antes que os outros te vejam se escondendo lá também.

XXX

Leia Organa esperou que todos saíssem da sala de reuniões para pensar. Apoiou as mãos no console da nave e fechou os olhos, procurando se conectar a Força para aliviar a tensão nos músculos. Sozinha em meio ao silêncio, pôde organizar os pensamentos e ceder aos medos que permeavam sua mente. Fora um longo e árduo trabalho até ali, mais longo do que gostaria que fosse. Finalmente, sua nova frota de naves e aliados poderiam enfrentar a Primeira Ordem e ter uma grande chance de vitória. No lugar de exultação, no entanto, veio apenas cansaço. Um peso enorme que recaiu em seus ombros, esmagando-a sem piedade, um último suspiro de lamentação antes de se livrar daquele conflito sem fim. Ela era responsável por tantas coisas que sentia-se calejada por dentro, em uma luta constante contra a culpa e as memórias do passado. Provavelmente, ela pensou, a única coisa que ainda a mantinha de pé era ter uma causa para lutar. Era saber que pessoas precisavam dela, como sempre fora a sua vida inteira. E, quando este peso cedesse, o resultado físico de anos de stress psicológico recairia de uma vez sobre seus ossos e ela estaria finalmente livre para descansar em paz. Era um pensamento mórbido, sim, mas sem Han e Ben Solo ao seu lado não havia restado muito pelo o que viver. Apenas a rebelião e Luke a mantinham firme, de certa maneira. Seu irmão também parecia ansioso para partir – dava para sentir isso na ligação entre os dois — e, portanto, quando a guerra acabasse, independente do resultado, seria a última coisa que ela gostaria de enfrentar. Ela simplesmente sentia-se incapaz de passar por mais dor, ou prolongar sua estadia no universo sem uma responsabilidade nas costas. Seu papel estava prestes a terminar, mas Leia não sabia ao certo como se sentia sobre isso. Talvez fosse um misto de alívio e pesar. Alívio por não precisar mais ser o pilar de uma guerra, tristeza por não ter sido capaz de ajudar seu amado filho.

De qualquer forma, estava na hora de passar o bastão. Já havia considerado Rey, mas algo dentro de si lhe indicava que a garota tinha o próprio caminho a seguir e não se interessaria por tal atividade. Coisa de Jedi. Finn ainda não estava preparado para tamanha responsabilidade – ele ainda precisava encontrar um propósito, para então conduzir um exército. Poe Dameron, apesar de jovem e um tanto impulsivo, parecia a pessoa certa para isso. Por esse motivo ela vinha lhe dando cada vez mais responsabilidades na frota, para acostumá-lo com a rotina. Sua intuição lhe dizia que era a melhor escolha a fazer.

A general sentiu a presença familiar de Luke se aproximando. Ele soou preocupado quando falou.

— Você deveria relaxar um pouco. Passar a responsabilidade para outra pessoa.

Leia abriu os olhos.

— É o que farei. Mas sabe não consigo simplesmente me desligar da guerra, Luke. Preciso estar exatamente aqui.

— O que você precisa é de aposentadoria. – o irmão brincou, ficando ao seu lado e arrumando a gola da camisa dela. – Uma cadeira vai-e-vem e duas varetas de tricô.

Leia riu pelo nariz.

— É, talvez. – Ela fez uma pausa. Abriu a boca, hesitou. Então deu de ombros e sorriu, visualizando algo que só existia em sua cabeça com o olhar perdido. – Sabe... Teve uma época em que eu tentava me imaginar com essa idade. Era difícil, mas minha mente projetava alguns vislumbres. E era algo mais ou menos assim: sentada em uma varanda, com vista para um quintal florido – talvez em Naboo, aquele lugar sempre foi lindo – e tricotando meias para meus netos. É ridículo porque eu nunca aprendi a tricotar, só a empunhar blasters, mas eu daria um jeito de aprender. Ben com uma jovem mulher que o amasse muito. E Han as vezes estava ao meu lado nesses sonhos, mas as vezes não. Acho que eu sempre desconfiei de sua alma livre, mas eu sempre estive bem com isso. Você nos visitaria com sua esposa. – ele ergueu as sobrancelhas. — Como era o nome daquela moça ruiva que você namorava?

— Mara?

— É. Mara Jade. Ela era muito bonita.

Ele próprio foi acometido por suas lembranças pessoais e os olhos brilharam um pouco. Mas Luke tratou de afastar aqueles pensamentos no mesmo instante e focar no presente, passando um dos braços por trás de Leia.

— Não faz bem pensar no passado dessa forma, com ilusões do que poderia ou não ter acontecido. Ninguém tem total controle de suas vidas.

— Eu sei, eu sei. Eu só estou cansada... Às vezes não consigo evitar.

Ela pousou a cabeça no ombro do irmão, ouvindo as batidas calmas do seu coração e tentando não remoer as lembranças. Depois de um tempo, resolveu perguntar.

— Você acha que a Força dita nosso destino? Que somos incapazes de alterar o curso da história?

— Não. Cada pessoa é dona de sua própria trajetória nesse universo. Nossas escolhas são apenas nossas, e tudo o que acontece são frutos de nossas decisões ou então de fatores externos dos quais não temos controle. A Força apenas tenta trazer o equilíbrio quando acha necessário, mas ela não dita nosso futuro. O que aconteceu com a galáxia... Com Han...Com Ben... O único culpado é o Snoke. E é por isso que vamos acabar com ele hoje.

O Jedi sentiu o peito de Leia queimar com sede de justiça ao ouvir aquelas palavras, eletrizando as células do corpo. Ela estava determinada a fazer com que isso se tornasse verdade. Ao contrário de si próprio, nunca em sua vida ele sentiu no coração de Organa algo que indicasse qualquer inclinação para o lado obscuro. Mesmo agora, quando o responsável pelas tristezas de sua vida estava muito perto de cair, não havia desejo de vingança ou ódio reprimido. Apenas a vontade de concertar as coisas, de ajudar todos aqueles que também perderam pessoas amadas para a Primeira Ordem. E ele a admirava intensamente por isso.

— Isso vai acabar logo. Eu prometo. – ele beijou sua testa e se afastou com delicadeza. Os olhos azuis a fitaram com uma conexão que apenas os dois compartilhavam. – Agora preciso ir até meu dormitório me preparar.

— Você não precisa fazer isso. Eles já vão viajar até a isca de qualquer forma.

— Já conversamos sobre isso. Se eu me projetar lá, vão demorar ainda mais para perceber que é uma armadilha. Confie em mim.

— Isso pode te matar, Luke. Já são tantas perdas... – ela franziu as sobrancelhas, um nó se formando na garganta.

— Então será um sacrifício que eu estou disposto a pagar. Não fique assim, Leia. Você faria a mesma coisa no meu lugar.

A general respirou fundo e assentiu.

— Que a Força esteja com você.

Ele sorriu em resposta e lhe deu as costas. Logo em seguida, o sinalizador do painel de controle piscou uma luz vermelha, alertando algo importante. Leia puxou sem comlink das vestes e seu coração disparou pela adrenalina.

— Uma frota de naves acaba de deixar Hanoon. Eles morderam a isca. Sr. Antilles, tudo pronto?

Uma voz áspera surgiu do comunicador.

— Sim, senhora. Estamos partindo agora.

XXX

Finn se escondeu dentro de um galão que deveria transportar grãos importados no cargueiro do contrabandista. A nave meio velha cheirava a mofo e condimentos, mas ainda assim parecia mais inteira do que a Falcon. Apenas Rose sabia de sua presença ali, mesmo que a contragosto, e nada disse aos colegas da missão. Como os disfarces haviam sido separados anteriormente para apenas três pessoas, o ex stormtrooper estava apenas com a roupa do corpo. Chegando lá ele decidiria o que fazer.

A viagem foi relativamente rápida ao piloto, mas pareceu durar uma eternidade para a tripulação. O rapaz pôde ouvir o rádio comunicador no momento em que se aproximaram do perímetro da base. Ao pedir permissão para pousar, os controladores da torre exigiram número de série da nave, identificação, carga e motivo da abordagem. Após a resposta rotineira dele e um longo minuto de tensão silenciosa, eles deram permissão para pousar. Conforme a nave descia, seu coração retumbava com maior ferocidade dentro do peito. Ele sabia que seus colegas também sentiam o mesmo. A missão dependia dos três, e Finn não queria estragar tudo com seu anseio de convocar Rey para a tarefa.

Finalmente no chão, o rapaz ouviu a porta da escotilha se abrir e Antilles sair com seu andar arrastado para fora, cumprimentando amigavelmente os oficiais. Fosse verdade ou apenas atuação, os soldados de nada desconfiaram. Trocaram algumas palavras e, momentos depois, alguns pares de pés embarcaram na nave, pesados como as botas de stormtroopers. Finn esperou impaciente, sentindo câimbras nas pernas e suor escorrendo pelas têmporas, até que finalmente acionaram o campo gravitacional dos galões. Eles flutuaram centímetros do chão e foram deslizados pela rampa até o chão metálico do hangar, deixados ali sem saber do seu real conteúdo.

Havia frestas pequenas nos galões, permitindo certa visibilidade do ambiente inóspito. Mesmo assim, Jolee emitiria um sinal indicando que estava tudo limpo para que eles saíssem dos galões, apenas por precaução. Dois espirros eram a chave – algo meio ultrapassado, mas insuperavelmente mais seguro do que manter escutas ou rádios dentro do casaco.

Não levou mais do que dois minutos para que ouvissem o sinal. Finn viu, pela abertura do galão, Rose e os outros dois colegas saírem com cuidado do esconderijo e marcharem pelas sombras o mais naturalmente possível. Estavam parcialmente protegidos pelo uniforme padrão da Primeira Ordem, afinal de contas, e se não fizessem nada que chamasse atenção, passariam despercebidos pelos soldados. A única pessoa que deveriam evitar – além do próprio Snoke e de Kylo Ren, é claro – era um “farda branca”. Oficiais designados apenas para desconfiarem de tudo e de todos que circulavam pelas plataformas em turnos. Fora isso, estariam seguros em seus disfarces.

Finn emergiu logo em seguida do galão. Sua roupa chamaria atenção de imediato caso fosse descoberto, então todo cuidado era pouco. Ele rolou mais que depressa trás de algumas caixas lacradas com munição, o sangue retumbando nos ouvidos, os olhos fazendo uma varredura completa dos arredores para se certificar de que estava seguro. Havia dezenas de stormtroopers marchando pelo hangar e alguns oficiais com pranchetas circulando pela área – ele sabia que estava brincando com fogo. Ainda assim, sua maior vantagem fora o mapa detalhado que a Resistência conseguiu usurpar da Primeira Ordem. Ele decorou cada canto daquele holograma em suas horas vagas, e agora sabia muito bem que havia uma grade no chão, a alguns metros de distância, onde poderia entrar e caminhar pelo subsolo da cidade.

Uma tropa de shadowtroopers passou ao lado das caixas e o obrigou a congelar, costas coladas a madeira, tentando respirar o mais silenciosamente possível. Se algum deles decidisse verificara aquela carga em específico, seria o fim. Para sua sorte, eles continuaram seu caminho. No momento em que se distanciaram, Finn engatinhou depressa até a grade atrás da coluna de cimento e puxou uma espécie de canivete suíço do bolso. Trabalhou rápido nos parafusos, olhando ao redor de vez em quando para se certificar de que ninguém o via, e antes de pular para baixo, teve a terrível sensação de que não caberia na abertura. Por sorte, os dias de treinamento na resistência lhe renderam uma boa perda de peso e permitiram que ele deslizasse para o encanamento. Apesar do cheiro fétido, ele respirou fundo de alívio quando se viu em meio ao breu do enorme cano com água até as canelas. Meio encurvado, ele puxou da memória o mapa e seguiu seu caminho em meio aos animais rasteiros que habitavam ali.

XXX

Na sala do trono, Snoke avaliava as duas figuras ajoelhadas a sua frente com frieza. Sua voz arrastada ecoou pelo cômodo quando falou.

— Creio que não é preciso lembra-los, Fenrir e Lyra, que vocês devem lealdade a mim antes que qualquer outra pessoa dessa galáxia. E isso inclui seu mestre, Kylo Ren. Qualquer forma de traição, por menor que seja, será punida com a morte. O mesmo se aplica a quem não reportar qualquer sinal de ameaça aparente.

— Sim, senhor. – os dois responderam em uníssono.

— Ótimo. Então me passem o relatório.

— Tenho observado a garota Jedi e meu mestre, Kylo, como o senhor ordenou. – O homem quem se pronunciou primeiro. – Mas não consegui encontrar nada de incomum.

Houve um momento de silêncio. O supremo Líder avaliou o cavaleiro de cima a baixo e, mesmo que Fenrir não fosse sensitivo a Força, ele sentiu algo errado acontecendo com sua mente. Como se suas lembranças passassem por seus olhos por contra própria e trouxessem consigo uma enxaqueca incômoda capaz de proporcionar mal estar no estômago. Ele acreditava nos poderes místicos da Força e sabia que suas memórias estavam sendo remexidas por Snoke, o que lhe causava um enorme desconforto. Quando finalmente a sensação acabou, o rapaz respirou aliviado e piscou algumas vezes. O ancião parecia satisfeito.

— E quanto a você, jovem Lyra?

— Eu os ouvi cochichando, mestre. Não consegui entender toda a conversa, mas era algo sobre um holocron sith.

— Hum... – o ser enigmático estreitou os olhos, tamborilando os dedos compridos no trono. – O que mais?

— Apenas isso, infelizmente.

A mesma coisa aconteceu com ela. Ao contrário de Fenrir, Lyra não conseguiu esconder a palidez em seu rosto, como se estivesse prestes a vomitar pela intromissão de Snoke em seus pensamentos. Fenrir permaneceu de cabeça baixa, submisso.

— Certo. Continuem com seu trabalho, então, quero ser informado de qualquer movimentação estranha. Estão dispensados.

Os dois se levantaram e saíram até o corredor, acompanhados pelo olhar dos temíveis guardas pretorianos. Quando estavam fora da torre, Lyra bufou incomodada.

— Não entendo o motivo disso. Ele não lê mentes? Por que simplesmente não lê a do Kylo e descobre o que quer?

— Talvez ele tenha aprendido a bloquear o Supremo Líder. – Fenrir respondeu, dando de ombros. – Bom, eu vou tomar um gim bem forte pra passar essa enxaqueca. Quer me acompanhar?

— Não. Eu vou até aquele castelo-forte perguntar o que diabos está acontecendo. Ele já está nos evitando a muito tempo, se isolando com aquela sucateira magrela.

— Então é melhor se apressar. Snoke enviou uma frota inteira para o espaço, algo me diz que ele vai convocar o Kylo também.

Ela lhe deu repentinamente as costas e se dirigiu rápido até o landspeeder estacionado na rua. Os cabelos louros balançavam as suas costas conforme marchava até o veículo. Fenrir suspirou, quase rolando os olhos.

— Tão bonita, mas tão burra.

XXX

Finn primeiro foi até as masmorras, um complexo de câmaras em um porão feito especialmente para foras da lei e qualquer pessoa que desrespeitasse as novas regras de Snoke. Como era de se esperar, havia dois guardas dando sopa no pé da escada que levava ao piso superior. O rebelde retirou um aparelho atordoador da jaqueta – um utensílio muito útil que obtivera de Rose – e, silenciosamente, se aproximou dos guardas por detrás, colocando o dedo indicador sobre os lábios para pedir a colaboração dos prisioneiros. Com um aperto de botão, ele acionou o choque de 40 miliampères e encaixou-a exatamente no ponto fraco na armadura do stormtrooper, algo que poucos sabiam – entre a placa do ombro e do tórax, próximo a axila. O homem estremeceu e desabou no chão, desacordado. O segundo guarda só teve tempo de mirar em Finn para então desabar com o tiro de blaster que o homem tirou das mãos do soldado desmaiado. Eficiência com armas foi uma coisa que aprendeu com o treinamento na academia da Primeira Ordem e aperfeiçoou com a Resistência. Poucos conseguiam superá-lo nesse quesito.

Ele começou a procurar por Rey nas celas de maior periculosidade, mas não a encontrou. Se dirigiu as mais simples, no labirinto sombrio da masmorra, sem sinal dela. Chamou seu nome o mais alto que ousou, mas por detrás de cada parede de laser, havia apenas pessoas que ele não conhecia. Quando começou a se desesperar, ouviu a voz de uma mulher do outro lado do corredor.

— Você está procurando por Rey? A Jedi treinada por Luke Skywalker?

O rebelde correu até a twi’lek maltrapilha e seus olhos brilharam com esperança.

— Isso! Sabe onde ela está?!

— Ela não está presa. Está no Castelo-Forte, no sul da cidade. Mas ela tem livre acesso para ir e vir em Hanoon. — Finn piscou aturdido, processando aquela informação, mas despertou de seus devaneios quando a alienígena voltou a falar. – Você é da Resistência?

— Shhh, não fale alto... – ele cochichou em resposta, olhando ao redor. – Sim. Como faço pra abrir essas celas?

— Você precisa do código de acesso. Não está com os guardas, só com os oficiais da torre de comando.

— Ah, certo... Bom, logo vocês vão sair daí, eu prometo. Mas primeiro preciso encontrá-la.

— O lugar não está muito longe daqui.

— Sim, eu sei. Se prepare, logo precisarão correr e procurar abrigo. O bicho vai pegar.

Seu rosto magro e cansado pareceu se iluminar.

— Obrigada!

Ele assentiu brevemente, depois correu até os guardas e os prendeu no suporte para blasters com as algemas que encontrou perto da porta. Com sorte, estariam desacordados pelas próximas horas, e até lá a Resistência já teria atacado Hanoon. Correu de volta para os encanamentos e seguiu o caminho até o tal Castelo-Forte, imaginando o motivo de sua amiga estar lá e não em uma cela.

XXX

Lyra, assim como todos os cavaleiros de Ren e os oficiais mais importantes, possuíam um comunicador que os alertava sobre qualquer movimentação estranha na base. Quando estava a meio caminho do Castelo-Forte, o rádio de seu speeder anunciou algo peculiar.

— Atenção, alerta máximo. Intruso na masmorra de número 7, identificação comprovada pelas câmeras como FN-2187, agora membro da Resistência. Permissão para protocolo de extermínio...

— Não. – a mulher apanhou seu comlink e alertou com frieza. – Não façam nada. Deixe que eu cuido disso. Mandem reforços para minha localização. Eu já sei onde ele está indo.

O traidor com certeza estava atrás de Rey e, dependendo da conversa, ela conseguiria não apenas eliminar a escória rebelde, como também apanhar Rey em um ato de traição. Dois coelhos em uma cajadada só. E, para melhorar ainda mais a situação, Hux estava ocupado demais organizando suas tropas para sei lá aonde, então ela teria tempo para tomar uma atitude antes que ele se intrometesse.

Hoje era seu dia de sorte.

XXX

Kylo Ren estava a caminho da sala do trono para a convocação de Snoke quando ouviu a mensagem de alerta no rádio – assim como a resposta de Lyra. Sua cabeça começou a trabalhar rápido. Algo estava para acontecer – não era a Força que lhe dizia, mas algo mais íntimo, como uma intuição. Estava sendo convocado até a Torre por causa disso? Improvável. Ele não sabia como Finn havia parado ali, mas se ele estava em Hanoon, outros rebeldes poderiam estar também.

O cavaleiro rapidamente juntou as peças do quebra-cabeça e chegou a uma conclusão imediata: haveria uma tentativa de ataque. E, para ele, isso seria bastante útil. Ainda assim, algumas coisas não pareceram encaixar. Por que diabos aquele traidor estúpido achava que não seria pego tentando alcançar Rey, Kylo jamais saberia. Mas ele tinha certeza de que o rebelde seria preso, e que logo em seguida seria mandado para execução. Obviamente, sabendo o quão sádico Snoke é, o carrasco seria ele próprio. Isso abalaria propositalmente a frágil relação construída com Rey ao longos dessas semanas.

Não. Ele não permitiria que isso acontecesse. Ele não deixaria que o Supremo Líder tirasse a única coisa boa que já aconteceu a ele nesses trinta anos de vida. Snoke não tiraria mais nada dele.

O cavaleiro bufou e tomou uma estrada diferente com brusquidão, furando o sinal vermelho e quase colidindo com uma speeder bike. Sua raiva queimava nas veias e ameaça explodir a qualquer instante. Tinha de agir rápido, de se controlar. Era uma medida um tanto desesperada, mas não havia muito o que ser feito, não de última hora. Seu coração se apertou dentro do peito no momento em que estacionou o speeder de qualquer jeito em frente ao bar e entrou rezando para que a pessoa que procurava estivesse lá.

Isso ainda lhe custaria caro, mas no fim das contas, era melhor do que agir conforme Snoke ditava.

XXX

Fenrir engoliu sua terceira dose de gim com uma careta. A bebida desceu queimando e, quando atingiu a corrente sanguínea, lhe proporcionou uma agradável imperturbabilidade. Ele pousou o copo no balcão e, antes que pudesse pedir para o bartender de tentáculos enchê-la novamente, viu pelo canto de olho uma figura grande e escura se aproximar como um trovão, uma capa chamativa esvoaçando pelas costas. As pessoas do bar imediatamente se calaram, a música parou, o cigarro caiu da boca de um dos bêbados. A voz de Kylo foi baixa ao pé do ouvido de Fenrir.

— Precisamos conversar. Agora.

— Claro.

Ele sorriu amarelo e se levantou, acompanhando-o para fora depois de depositar alguns créditos na superfície do balcão. Conversar era a última coisa que Fenrir queria naquele momento. Especialmente quando o mestre dos cavaleiros de Ren parecia tão conturbado, prestes a ter mais um ataque de ira destrutivo. Mas que escolha ele tinha, além de obedecer? O homem de queixo emoldurado e olhos muito azuis havia se candidatado para a vaga por conta própria, e agora tinha de se submeter àquela loucura.

Se pudesse voltar no tempo, teria tomado decisões diferentes.

Os dois foram até o beco ao lado do bar e Kylo continuou aos sussurros em tom urgente.

— Preciso da sua ajuda.

— Pode falar.

Ele hesitou um momento, aparentemente sem saber por onde começar. Então suspirou e resolveu ir direto ao assunto.

— Lyra está indo até o Castelo-Forte prender FN-2187.

— O que...?

— O ex stormtrooper traidor que abandonou nossas tropas para se juntar a Resistência.

— Ah...! Certo...

— Ele não pode morrer. Está entendendo? Precisamos fingir a morte dele.

Fenrir arqueou as sobrancelhas, espantado.

— Como assim?

— Preste atenção! – Kylo murmurou com irritação, se aproximando mais depois de verificar se estavam sendo observados. Ele desatou a falar com rapidez, encarando-o no fundo dos olhos para ver se ele estava sóbrio para cumprir com a tarefa. – Você vai até o Castelo-Forte agora, vai falar com a Lyra e ajudá-la a prendê-lo. Vai confiscar as armas dele e da Rey. Rey vai estar com um sabre diferente, quero que ele fique bem guardado com você e que ninguém mais saiba disso. Vamos todos para a sala do trono e eu vou fingir a morte do traidor. Quando ele estiver desmaiado, é você quem tem que se voluntariar para checar se ele está vivo. Entendeu?! Isso é o mais importante!

— Ok, certo. – ele concordou, mas a quantidade de informações abruptas giravam em sua cabeça enquanto ele tentava processá-las. – Mas se Snoke acessar minhas memórias...

— Ele não vai. Pelo menos não naquele momento. Vai ser tumultuado, todos vão estar ocupados demais, ele se acha muito superior para ter uma ordem dessas desacatada. E depois...Bem, se tudo correr bem, não vai haver depois.

Fenrir engoliu em seco, pesando as palavras. O mestre dos cavaleiros continuou.

— Você vai leva-lo a um lugar seguro. Num depósito ou qualquer coisa assim. Depois, se eu não estiver aqui, quero que vá até Rey e conte a ela que o traidor está vivo. Ela precisa saber. Você precisa ajuda-la, Fenrir. Por favor.

Seu tom não era uma ordem, mas sim um apelo.

— Está bem, eu faço.

— Obrigado.

Quando Kylo ia se virando para partir, Fenrir o chamou, confuso.

— Espera... Por que eu?

— Tivemos nossas diferenças, mas eu sei que gosta da Rey. E aquela escória rebelde é importante para ela. – havia certo deboche naquela sentença. – Além do mais, eu sei que você só quer sair de toda essa merda. Eu também quero.

Eles trocaram um olhar significativo. Se essa conversa caísse nos ouvidos de Snoke, os dois estariam mortos. Era mais alta traição. Mas Ren sabia que aquele homem queria tanto que o Supremo Líder morresse quanto ele. Depois de assentir, os dois tomaram cada um o seu caminho.

XXX

Fenrir fez exatamente o que Kylo Ren pediu. Seguiu Lyra, encontrou-se com ela no Castelo-Forte no momento em que espionava o tal soldado da resistência e Rey. Havia stormtroopers cercando a área em silêncio, aguardando por novas ordens. Hux cedeu, após muita insistência, para que os cavaleiros cuidassem do intruso. O cavaleiro sabia bem que Lyra ansiava por maior destaque e sonhava com o dia em que pudesse prejudicar a Jedi. Em sua cabeça, esse dia era hoje. Durante aqueles poucos minutos em que aguardava nos jardins do Castelo-Forte, Fenrir mediu suas chances e todas as possíveis variáveis da escolha que tomaria nesse dia.

Aquele maldito gim fez os pensamentos demorarem a entrar no eixo. Ainda assim, ele estava bem ciente do perigo que correria se obedecesse ao mestre dos cavaleiros de Ren. Se Snoke descobrisse a farsa – e as chances de isso acontecer eram muito grandes — ele os mataria sem pensar duas vezes. Por outro lado, se ele simplesmente relatasse que o ex stormtrooper ainda estava vivo e traísse seu superior, apenas Kylo morreria. O loiro poderia conviver com isso tranquilamente a essa altura do campeonato. No entanto, ele permaneceria preso nesse inferno de base por sabe-se lá quanto tempo, e decepcionaria Rey profundamente.

Rey.... Aquela garota nunca havia lhe dado quaisquer esperanças românticas. Eles se conheciam muito pouco e mal se falavam. Mesmo assim, ela tinha algo especial. Algo puro e frágil, difícil de se encontrar por aí. Não era perfeita; longe disso – por vezes se mostrava teimosa, impetuosa e rude — mas havia uma espécie de luz em sua aura que o acalmava. Fenrir acabou nutrindo carinho pela moça, como se ela inconscientemente o atraísse e o compelisse a ser uma pessoa melhor. E ela também se voluntariou para ser um ombro amigo, para se tornarem ao menos confidentes em um lugar deturpado por valores ruins.

E céus, como ele queria isso. Alguém transparente e verdadeiro para conversar.

No começo, ele havia se dedicado a causa de corpo e alma. Não havia Snoke, nem Hux, nem Phasma, nem cópia da Estrela da Morte. Havia apenas oito pessoas – Os Cavaleiros de Ren — em prol de um bem maior. Mas agora, após anos de serviço, as coisas haviam mudado. Esse não era seu lugar. Não era a vida que ele gostaria de ter. Tantos inocentes mortos, tanta crueldade e injustiça... Eles deveriam defender a justiça, buscar conhecimento e trazer o equilíbrio. Mas as coisas se deturparam demais ao longo do caminho. Ele não se reconhecia mais, moldado pelas mãos cadavéricas de um ser cruel e ditador. E, pelo visto, seu próprio mestre também havia mudado de opinião a respeito de seus ideais.

Quando a porta da cozinha se abriu e Rey saiu acompanhada pelo amigo, seu espanto foi logo substituído por raiva. Ela queria atacar cada pessoa parada no jardim, incluindo Fenrir. Mas sabiamente não fez isso. Não adiantaria – mais soldados viriam, levando-os acorrentados até Snoke.

No momento em que o cavaleiro se aproximou e relatou o olhar desamparado da Jedi, ele já havia tomado sua decisão.

FLASHBACK OFF

XXX

Uma parte de sua mente insistia em tentar convencê-la de que era uma armadilha. De que Fenrir a estava enganando, se aproveitando de um momento frágil e guiando-a para a morte conforme avançavam de speeder pelas ruas da cidade. Mas no final das contas, ela realmente não se importava. Nada mais importava.

O crepúsculo se aproximava. O céu se tingia em belos tons de púrpura e azul, banhando os prédios espelhados com suas cores delicadas. Isso passou despercebido aos olhos da Jedi, embaçados pelas lágrimas que ainda brotavam inconsoláveis e deslizavam por seu rosto inchado.

Ela não conseguiu prestar atenção no caminho, mas era uma estrada que conduzia para longe do centro. Estavam em uma área rural repleta de plantações e fazendas com moinhos. Ao invés de arranha-céus, casas surgiam ocasionalmente entre os campos agrícolas e Banthas pastavam pacificamente nos montes com grama. A garota teria gostado dali em outras circunstâncias.

Fenrir estacionou em um lugar qualquer e a guiou pela mão até um galpão abandonado. Chegando lá dentro, ele buscou por algo no chão – uma espécie de porta com uma argola de ferro acoplada a madeira. Quando a abriu, Rey sentiu cheiro de mofo e feno subir por uma abertura escura, e isso a fez espirrar. Uma luz amarela acendeu lá do fundo e revelou a escada que dava acesso ao porão. O homem tomou a dianteira e pediu que ela o acompanhasse. A madeira rangeu sob seus pés, mas ela acatou ao pedido quase gentil de Fenrir.

Uma vez no fundo, viram-se em uma câmara espaçosa mobiliada com uma cama velha, um armário, um banheiro e um balde com água. Mas a garota não reparou nesses detalhes. A única coisa que seus olhos captaram foi Finn parado ao lado do colchão de molas aparentes, aliviada pela visita ser amigável e irremediavelmente feliz em vê-la.

Rey desatou a chorar mais uma vez, dessa vez de alegria. Ela correu até o amigo e o envolveu em um abraço longo e atrapalhado. O homem tentava acalmá-la enquanto Fenrir cruzara os braços e permanecera a uma distância considerável, desconfortável com a situação.

— Finn! Eu não consigo acreditar! Você tá bem? – ela finalmente conseguiu se separar dele, fitando-o com os olhos vermelhos.

— Estou bem, não se preocupe! Só um pouco confuso...

Ela olhou do ex stormtrooper para Fenrir, alarmada.

– Como isso é possível? O que aconteceu?!

O cavaleiro alisou a barba por fazer no rosto bonito e deu de ombros.

— Bom, resumindo, Kylo pediu que eu colaborasse com a morte falsa do seu amigo e o escondesse até segundas ordens. Mas agora eu sinceramente não sei o que vamos fazer.

— Ele... ele te mandou fazer isso? Quando?

Fenrir pensou que ela fosse desmaiar, porque ficou branca como papel. O cavaleiro tentou contar resumidamente como tudo aconteceu e, conforme o fazia, a Jedi arregalava mais os olhos. No final, ela tampou a boca com as mãos e parecia segurar outra crise de choro.

— Onde ele está agora...?!

— Snoke o mandou junto com as tropas para um planeta da Orla Exterior, parece que encontraram o restante dos seus amigos ou algo assim.

A jovem se virou para Finn, aterrorizada, mas ele parecia não ter se abalado com a informação.

— Bom, eu não queria falar nada, mas nosso amigo parece ser confiável. – ele analisou Fenrir por um instante, recebendo um rolar de olhar como resposta. – É uma isca. Uma armadilha para atrai-los para longe daqui.

— Uma armadilha... Ben... – muitas coisas passavam pela sua cabeça. Arrependimento, culpa e medo inundaram seu peito. Alertar Ben Solo era a principal prioridade, mas então outro pensamento nublou suas preocupações. — Mas... O que vai acontecer aqui?

Como se premeditado, no exato momento em que Rey o questionou, o chão do porão estremeceu. Pó caiu do teto e um barulho semelhante a um trovão ressoou do lado de fora. Os três se olharam, mas apenas Finn sorria.

— Guerra.