Equilibrium
3 A Caverna de Cristais
Notas iniciais
O chiado característico dos sabres de luz mesclava-se ás respirações ofegantes e aos passos ligeiros sobre as folhas secas do chão. Lâminas verde e azul chocavam-se ininterruptas, causando descargas ruidosas que ecoavam pelo bosque. Rey desviava das investidas em uma velocidade espantosa, contra-atacando com movimentos graciosos e articulados. Luke, por sua vez, movia sua arma com precisão e força, bloqueando o feixe luminoso da garota por todos os lados. Se alguém os visse lutando ali, na pequena clareira da floresta, conseguiria captar dois borrões agitando-se ferozes sob os primeiros raios de sol da manhã.
Ambos procuravam por brechas para desarmar o oponente, investindo e recuando em nuances que lembravam uma dança. Os reflexos causados pelo uso da Força, aliados ao treinamento físico tornava a luta indômita. Seguindo os conselhos de seu metre, Rey utilizava a vantagem de ser “pequena e ágil” para revidar, tomando cuidado para se concentrar e não perder a paz interior durante a batalha. Os golpes de Luke eram firmes e balanceados, obrigando-a a se defender na maior parte do tempo. Por outro lado, o mais velho se esforçava em igualar sua velocidade ao da aprendiz, tendo grande dificuldade em prever o próximo ataque. Eles vinham de todos os lados – direita, esquerda, cima, baixo – e o fazia se cansar rapidamente. Bastava apenas meio segundo de oscilação, e um dos dois perderia o combate.
No momento em que Rey tomou espaço para revidar, Luke usou a Força no que os Jedi chamavam de “empurrão”. A garota sentiu algo invisível jogá-la bruscamente para o alto, girando-a no ar. Seus reflexos bem treinados cortaram o processo, no entanto, fazendo com que ela estabilizasse o corpo e pousasse graciosamente no chão. Rapidamente ergueu sua mão, concentrando-se no ambiente ao seu redor e percebendo o mesmo poder formigar a ponta dos dedos. As rochas soltas da clareira voaram intrépidas na direção de seu mestre, movidos pela consciência da aprendiz. O sabre esverdeado cortou os objetos em uma facilidade notória, impedindo que os atingisse.
Quando a última pedra foi partida ao meio, Rey saltou sobre o homem como um felino, pegando-o desprevenido. A técnica funcionou: Bastou alguns giros com sua espada e, utilizando um jogo rápido de pernas, desarmou Luke Skywalker, lançando o tubo pesado de metal á vários metros de distância.
O baque seco da arma contra a grama foi seguido por um sorriso satisfeito de Luke. Ambos respiravam arfantes, os músculos tencionados do corpo relaxando aos poucos. O sabre caído voou para a mão estendida do dono, enquanto Rey desligava o seu em um estalido. Limpou o suor da testa e comentou, divertida:
— Isso me dá direito á um dia de folga, não dá?
— Nem pensar.
Ela riu das sobrancelhas arqueadas do mais velho. Deu de ombros, guardando a arma em suas vestes cor de terra.
— Foi o que eu imaginei.
— Mas merece congratulações. Você está se tornando uma Jedi poderosa, Rey. Sinto que seu treinamento está chegando ao fim.
Ela não soube o que responder, portanto apenas sorriu. Aquela constatação dividia seus sentimentos. Por um lado, estava feliz e surpresa em ser considerada capacitada para ajudar a Resistência; mas por outro, triste em cessar seu convívio com mestre Luke. Depois de cinco meses, ela já havia se habituado á companhia do Jedi, e criado certa afeição pelo mais velho. A amizade entre os dois se formou de maneira natural conforme os dias se passavam.
Luke sentou-se em uma rocha plana sob uma árvore frondosa; as folhas verdes projetando sombra fresca e convidativa. Rey sentia-se muito agitada para conseguir descansar, por isso permaneceu de pé, as mãos na cintura enquanto cutucava um formigueiro com a ponta da bota. O silêncio se instalou entre os dois – não algo incômodo, mas sim confortável. O som do riacho logo atrás da clareira se destacou, fazendo coro ao canto enérgico dos pássaros. Quando ela levantou a cabeça, franziu o cenho ao constatar o olhar terno – quase paternal – de seu mestre sobre si.
— O que foi?
— Você me lembra muito o seu pai.
Os olhos da garota brilharam. Tocar naquele assunto sempre aquecia seu coração, trazendo um sorriso saudoso nos lábios. Ela sentou-se no chão, cruzando as pernas em forma de índio e inclinando o corpo como uma criança ansiosa para ouvir uma história.
— Me conte mais sobre ele! E sobre minha mãe também...
O homem riu. Ajeitou-se melhor sobre a rocha e cruzou os braços, o azul de seus olhos refletindo o mesmo tom do céu sem nuvens.
— Mas eu já lhe contei tudo, mais de mil vezes.
— Não me importo. Eu gosto de ouvir.
Rey apoiou o queixo contra as palmas das mãos, aguardando o relato. Ele riu mais uma vez, fitando um ponto distante da ilha como se recordasse de algo bom.
— Richard foi um dos melhores pilotos que já conheci, e um dos homens mais corajosos também. Nada conseguia intimidá-lo. Na verdade, ele parecia ter paixão pelo perigo. – o sorriso bobo surgiu no rosto da garota novamente, atenta ás palavras de Luke. Ela não se lembrava dos rostos de seus pais, mas gostava de imaginá-los em sua mente. – Seu amor pelo desafio só não era maior que o amor pela sua mãe, Kyra.
“Mulher adorável, a sua mãe. Doce e calma como um sopro de verão. Era uma médica muito habilidosa, também. Só ela e sua paciência conseguia domar o coração selvagem de Richard. Eles formavam um lindo casal, sabe? Se completavam.”
Ele pausou por alguns segundos, apreciando a brisa fresca soprar os cabelos castanhos. Rey começou a puxar algumas folhas do solo, pensativa, e então perguntou:
— Por que acha que sou mais parecida com meu pai?
— Bom... Fisicamente, você se parece muito com sua mãe. Os olhos, o nariz, o sorriso... Mas em personalidade, vejo apenas o seu pai. A paixão pela vida, a curiosidade aguçada, a mesma coragem e determinação...
A jovem sorriu, genuinamente feliz. Ouvir aquilo significava muito para ela.
— Não me lembro dos seus rostos. Somente flashes de sons e toques. – admitiu, reflexiva.
— Isso é natural. Você era muito nova quando eles tiveram de partir.
E então, o brilho de seu rosto se apagou um pouco. Lembrar que havia sido abandonada sozinha num planeta árido fazia seu coração se apertar em amargor. Sensitivo aos abalos emocionais da garota, Luke voltou a falar, sua voz exteriorizando brandura.
– Eles te amavam muito, Rey. Mais do que você imagina. E foi por isso que tiveram de deixa-la em Jakku, para que você tivesse uma chance de sobreviver. Não teriam feito se tivessem escolha.
— Eu sei, eu sei. Estava acontecendo uma guerra, e rebeldes perseguiam minha família. Mas... não sei se iria preferir ficar em Jakku. – ela desabafou, sua voz soando baixa e magoada. – Talvez fosse melhor aproveitar os poucos momentos com eles, do que passar uma vida de solidão em uma espera inútil...
Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas não as derramou. Apertou os lábios numa linha reta, respirando fundo para se conter. Havia mais raiva que tristeza. Luke se inclinou para a aprendiz de forma preocupada, afagando delicadamente uma das mãos entre as suas. Ele a fitou com profundo apreço quando fez soar as próximas palavras.
— Não diga isso, Rey. Eles fizeram o que qualquer pai ou mãe fariam. Sacrificaram-se por você. Por favor, não sinta raiva deles. Seus pais teriam tanto orgulho se a vissem hoje...
Ela engoliu em seco, o brilho de seus olhos desaparecendo. A tristeza deu lugar á conformidade. Ele tinha razão. Rey suspirou, afastando-se delicadamente do contato com seu mestre e comentando casualmente.
— Se ao menos eles tivessem contado á você onde eu estava... As coisas poderiam ter sido diferentes.
Luke sorriu, mas não a respondeu. O silêncio perdurou por alguns segundos, até que ele se fez ouvir novamente, dessa vez mudando de assunto.
— E quanto aos seus pesadelos?
— Continuam os mesmos. Quase todas as noites.
Luke suspirou; perdido em pensamentos. Eles conversaram muito sobre isso á alguns dias atrás, quando Rey revelou que havia conseguido se conectar á Ben através de meditação. A obsessão de Kylo Ren por sua aprendiz o deixava profundamente preocupado, causando noites de sono mal dormidas. Era obvio o seu intento em seduzi-la para o lado obscuro, e ele não podia permitir que isso acontecesse. O motivo de essa conexão existir, no entanto, permanecia um mistério para o Jedi.
A garota sugeriu que tentasse novamente – de acordo com ela, estava preparada para perscrutar a mente do cavaleiro e descobrir sua localização. Luke não permitiu, obviamente. Rey era muito poderosa, mas e remorso por ter fracassado com Bejamin já era um fardo suficiente sobre seus ombros. Ele não poderia repetir o mesmo erro com a garota de Jakku. A principio, deixaria as coisas como estavam.
Por fim, Luke finalmente se levantou como se lembrasse de algo importante. Ofereceu a mão para sua aprendiz, a ajudando a levantar.
— Venha comigo, criança. Tenho algo especial para o seu treinamento hoje.
Os dois puseram-se a caminhar pela trilha sinuosa do bosque. A decepção de Rey logo foi substituída por curiosidade, especialmente quando começaram a seguir por um caminho do qual nunca haviam tomado antes.
Eles começaram a descer por um declive em meio aos arbustos frutíferos, adentrando cada vez mais na mata virgem. Rey tomou cuidado para não tropeçar na vegetação rasteira e não engatar as roupas nos cipós e galhos no caminho. Eles contornaram cachoeiras, raízes de árvores tropicais e grandes paredões rochosos enquanto cruzavam o matagal. A trilha já não mais existia, e a garota imaginou que Jedi conseguia se encontrar em meio á floresta fechada apenas pelo uso da Força. Algo quente começou a crescer gradualmente em seu peito, aumentando de intensidade á cada passo.
— Consegue sentir? – Adivinhando seus pensamentos, Luke a questionou, sem olhar para a aprendiz.
— Sim... O que é?
— Você verá.
Aquela força presenta em Tython não era algo novo. Logo nos primeiros dias de treinamento, Luke lhe explicou que aquele lugar era um santuário antigo, lar do primeiro templo Jedi da história. Em vista disso, o núcleo da ilha irradiava energia como ondas elétricas, e somente pessoas sensitivas á Força poderiam detectá-la.
Mas agora, aquilo parecia ainda mais forte.
Após longos minutos de caminhada, eles pararam próximos á uma grande fenda na montanha, uma caverna oculta por longos ramos de plantas silvestres.
— Esta é uma parte muito importante do treino de um Jedi, Rey. – ele voltou-se para a garota, que tentava espiar o que havia lá dentro. – Como eu já lhe expliquei, um padawan precisa passar pelo processo de construção do seu Sabre de Luz. Mas, para isso, deve encontrar um cristal adequado para o processo. Sua tarefa é encontrar o núcleo de sua nova arma.
Os olhos de Rey brilharam em excitação, mal acreditando nas palavras de seu mestre. Ela finalmente teria um sabre só seu, construído por suas próprias mãos.
— Sim, mestre!
Sua ansiedade era quase palpável. Ela pegou o tubo metálico de suas vestes e o entregou para Luke — o qual, na verdade, pertencia originalmente ao pai do Jedi. Por fim, ele continuou a lhe orientar, paciente. – Quero que apenas siga seus instintos. Deixe que a Força a guie pela caverna. O cristal a escolherá.
— E o que eu faço quando achar?
— Traga para cá, e então lhe darei novas instruções.
Ela tinha mil perguntas, mas optou por não fazê-las. Deu as costas ao seu mestre e entrou na caverna, as palmas das mãos molhadas. Respirou fundo, um tanto tensa, e avançou para seu interior silencioso.
Aquela força presenta em Tython não era algo novo. Logo nos primeiros dias de treinamento, Luke lhe explicou que aquele lugar era um santuário antigo, lar do primeiro templo Jedi da história. Em vista disso, o núcleo da ilha irradiava energia como ondas elétricas, e somente pessoas sensitivas á Força poderiam detectá-la.
Mas agora, aquilo parecia ainda mais forte.
Após longos minutos de caminhada, eles pararam próximos á uma grande fenda na montanha, uma caverna oculta por longos ramos de plantas silvestres.
— Esta é uma parte muito importante do treino de um Jedi, Rey. – ele voltou-se para a garota, que tentava espiar o que havia lá dentro. – Sinto que esteja preparada para essa etapa.
Assentiu para seu mestre, resoluta, e aguardou novas instruções.
— Você não precisará do seu sabre de luz. — Ela entregou o tubo metálico para Luke; o qual, na verdade, não era realmente seu, mas sim da família Skywalker. – Quero que apenas siga seus instintos. Deixe que a Força a guie pela caverna. Sua tarefa é encontrar aquilo que a chama.
Ela sabia do que ele estava falando. Essa energia aquiescendo seu peito e lhe atraindo como um ímã – não sabia de onde vinha, mas precisava encontrar.
— E o que eu faço quando achar?
— Traga para cá, e então lhe darei novas instruções.
Ela tinha mil perguntas, mas optou por não fazê-las. Deu as costas ao seu mestre e entrou na caverna, as palmas das mãos molhadas. Respirou fundo, um tanto tensa, e avançou para seu interior silencioso.
O chão era irregular e a conduzia cada vez mais fundo na montanha. Logo os raios de sol vindos da floresta foram deixados para trás, incapazes de alcançar o interior da caverna e mergulhando-a em completa escuridão. Os únicos sons provinham de sua respiração entrecortada e das botas gastas contra a terra solta. Os segundos se passaram; depois minutos, e Rey continuou a andar num ritmo constante. Sem conseguir enxergar, a garota confiou na Força como seu guia para orientá-la.
A trilha parecia não ter fim. Ela contornava pedras e agachava-se quando o teto se tornava muito baixo, apostando em seus instintos para se orientar. O ar tornava-se úmido e quente, deixando-a um tanto claustrofóbica. Apesar disso, seus passos nunca vacilavam. O conhecido calor queimava em seu peito de forma ainda mais intensa, e ela jurou escutar vozes sussurrando seu nome, chamando-a em tom convidativo.
E então, seus olhos já sensíveis ao breu captaram algo. Á alguns metros á frente, uma mínima fonte de luz se mostrou presente, irradiando contra as rochas escuras das paredes. Rey sentiu o coração acelerar, aumentando o passo para descobrir do que se tratava. Conforme se aproximava, a luminosidade ia gradualmente aumentando, até se tornar forte o suficiente para clarear o caminho. O espaço se estreitou, obrigando-a se espremer por uma fenda ainda menor. Foi ao passar para o outro lado que suas feições se tornaram deslumbradas.
O espaço expandiu-se em uma grande câmara circular, com cristais incrustrados nas rochas e iluminando o ambiente em tons de azul, verde, lilás e amarelo. Um pequeno lago de águas cristalinas jazia em um canto, sua superfície lançando sombras dançantes contra a parede.
Seu coração se inundou de algo grandioso, como se a Força da ilha irradiasse daquele lugar. Passeou perto dos objetos, correndo os dedos pela textura rudimentar e apreciando a cada um com grande fascínio. O que eram aquelas joias? Por que brilhavam daquela forma? Sabia, em seu íntimo, que não deveria apanhar qualquer pedra. Continuou explorando, notando que algo ainda persistia em lhe chamar. Estreitou os olhos para uma rocha em particular, próxima ao lago, e se dirigiu até lá.
Um impulso ardente fervilhou suas veias quando se aproximou. Rey se viu obrigada a analisar mais de perto, procurando por algo que, de alguma forma, sabia estar ali. Olhou com atenção, intrigada, e quando se abaixou, finalmente encontrou o que buscava: um pequeno cristal branco, o único da caverna, reluzindo em um local parcialmente escondido.
Algo em seu subconsciente a alertou de que aquele era o cristal certo. Seus olhos brilhavam com a beleza quase hipnótica da joia, clamando seu nome. Ela estendeu a mão, cautelosa; absorta com o brilho pálido refletido em sua pele. Assim que tocou a superfície do objeto, no entanto, sentiu um solavanco. Tudo se tornou um clarão, turvando sua vista e confundindo os sentidos em um espiral. Ela puxou o ar, assustada, e deu alguns passos para trás. Olhou ao redor, e tudo estava completamente branco, assemelhando-se ao limbo.
O que estava acontecendo?
— Você realmente confia nele, não é?
Rey deu um pulo, girando nos calcanhares para encarar o dono da voz. O timbre grave alterado mecanicamente arrepiou os pelos do braço, lhe soando terrivelmente familiar. Ela confirmou suas teorias ao constatar Kylo Ren parado á alguns metros, os braços postos para trás e o rosto coberto pelo capacete escuro.
A garota sentiu a raiva penetrar seu espírito, mas conteve-se em apenas afundar as unhas contra a palma da mão e lhe responder em tom áspero.
— Não sei do que está falando.
— Luke Skywalker. Você confia cegamente nele, e isso é um erro.
— Sim, eu confio no seu tio. — frisou a palavra, arqueando uma sobrancelha. – Ele é um bom homem. Ao contrário de você, tenho amigos que se importam comigo.
Sua risada soou sarcástica sob a máscara de metal. Isso a irritou ainda mais.
— Que adorável. Sua ingenuidade permanece inalterada desde nosso último encontro. – ele começou a caminhar devagar em sua direção, meneando a cabeça. Rey permaneceu imóvel, inabalável perante a presença intimidadora do homem. – Me permita lhe dar um conselho: ele não é o que aparenta ser. Luke é um homem cheio de mistérios e meias verdades. Eu desconfiaria das coisas que ele lhe diz, se fosse você.
— Não me interessa o que você faria em meu lugar, honestamente. – ela o cortou de maneira rude. Quando ele estava á alguns palmos de distância, a diferença de altura se tornou evidente. Isso não a abalou, entretanto. – E por que está usando esse capacete para falar comigo? Tem algo a ver com a nova cicatriz?
Rey pôde sentir seu orgulho sempre intacto vacilar por um segundo. Kylo logo retomou o controle dos próprios sentimentos, evitando se irritar. Destravou o capacete e o retirou com calma, alguns fios negros lhe caindo sobre a face no movimento. Ele largou o objeto no chão, causando um estrondo que ecoou pelo local. A nova marca estava lá, uma linha rosada cruzando o rosto anguloso, lembrando-o sempre de sua luta com Rey na floresta.
— Satisfeita? – a intensidade em que a fitava lhe causava desconforto. O homem continuou, sem esperar uma resposta. – Deixe-me adivinhar: Eu aposto que ele inventou alguma história sobre seu passado. Algo bonito para te fazer sentir bem com relação á sua família, sem perguntas adicionais.
Aquilo a pegou de surpresa. Seu olhar vacilou por um instante enquanto buscava na memória por respostas... Não, não deveria dar ouvidos àquele homem. Ele percebeu sua hesitação, rodeando-a como um predador.
— Claro que disse. E com certeza você já fez algum questionamento, e ele pareceu desviar o assunto para algo menos pessoal. Típico do Luke.
— O que está fazendo aqui? – ela mudou de assunto. Não admitia ficar ouvindo-o falar de Luke daquela forma. – Como conseguiu me encontrar?
— Não controlo essas coisas. Elas simplesmente acontecem. Essa conexão... – ele estava bem atrás de Rey, a voz soando baixa e profunda perto de seu ouvido. – é algo que se estabelece sozinha. Normalmente é possível criar a ligação quando se experimenta algo poderoso na Força, algo muito intenso.
A garota se virou, desgostosa pelo fato de não tê-lo em sua mira o tempo todo. Deparou-se com Kylo muito próximo de si, encarando-a de cima, mas não recuou. Ao invés disso, ergueu a cabeça e enfrentou sem temores. Havia algo diferente no cavaleiro. Algo mais escuro e profundo em suas íris castanhas, como um vazio instalado em sua alma. Rey não sabia dizer ao certo do que se tratava, mas aquilo pesava em seus ombros de uma forma ruim.
— Eu não quero que venha até mim. Não quero nada de você.
— É mesmo? – um sorriso de escárnio surgiu nos lábios cheios. — Não me pareceu incomodada ao invadir minha mente, dias atrás.
— Foi um acidente!
— Pelo qual se mostrou bastante interessada.
— Eu não...
— Eu posso senti-la, esqueceu?! Sei exatamente o que sente, por que sua maldita luz fica vagando em minha cabeça!
Ele alterou seu tom de voz, soando irritado pela primeira vez. Um silêncio desconfortável pairou entre os dois em seguida, e a garota cortou o contato visual, embaraçada. Suspirou, tomando distância do cavaleiro mais uma vez.
— Só me deixe em paz.
— Reflita sobre o que lhe falei. Nem tudo é o que parece; nem sempre as coisas são preto no branco. Pense bem antes de depositar sua confiança em alguém.
— E em quem eu deveria confiar? Você? – ela riu sem ânimo. Não sabia por que tentava insistir naquela conversa sem sentido.
— Sei de coisas que mudariam seu ponto de vista sobre muitos assuntos. Especialmente com respeito aqueles que você chama de “amigos”. – Pegou o capacete do chão, cobrindo sua face e voltando a falar com sua voz alterada artificialmente. – O maior problema de vocês, Jedi, é sua inocência. Conseguem ser facilmente enganados. Apenas faça um teste: pergunte por detalhes do dia em que foi levada para Jakku. Veja se seu amado mestre não mudará o rumo da conversa de maneira sutil.
Ele lhe deu ás costas, pronto para ir embora. Antes disso, no entanto, Rey se fez ouvir novamente, carregada de sarcasmo.
— E você quer que eu acredite que está me dando um conselho amigo, para meu próprio bem, eu imagino.
Kylo estancou no lugar, virando meio corpo para a garota, devagar. Sua voz saiu autoritária e firme.
— Minha proposta continua aberta. Não é nenhum segredo que eu ainda a queira como aprendiz. Não sou homem de meias verdades.
Ela sentiu-se levemente surpresa pela simplicidade das palavras tão diretas. Como ele poderia achar que algum dia isso iria acontecer?
— Sabe que isso nunca vai acontecer.
— Veremos.
E, dito isso, partiu da conexão. Rey sentiu-se sugada á realidade também, puxando oxigênio com força ao se ver novamente na câmara de cristais. Precisava de ar puro urgentemente. Pegou a joia escolhida, guardando-a nas vestes e tomando o rumo da saída. Conforme caminhava, refletiu sobre o que acabara de acontecer. Não cairia na conversa de Kylo Ren, obviamente. Ele provavelmente estava tentando plantar duvidas em sua cabeça, e ela não permitiria que isso acontecesse.
No entanto, decidiu não contar á Luke no momento. Ao invés disso, esvaziou sua mente, procurando não sentir nada que denunciasse a recente conexão com o cavaleiro de Ren. Quando chegou á superfície, sorriu para seu mestre, como se nada tivesse acontecido. Decidiria o que fazer mais tarde.
Fale com o autor