Equilibrium
27 O Equilíbrio
Notas iniciais
— Então prove. – a voz grave de Kylo adotou um tom mais áspero sob a influência maligna de Palpatine. – Curve-se. Prove que é leal, e eu permitirei que se junte a mim.
Ela dobrou um dos joelhos em uma reverência trêmula e encarou as janelas de uma alma que ela não mais reconhecia. Seu coração se retorceu em dor, disparado contra as costelas, quando não encontrou mais Ben Solo com sua energia cálida se conectando a sua. Os olhos se tornaram turvos pelas lágrimas que começavam a cair pelo rosto machucado e ela concentrou toda a raiva que sentia pelo Imperador ser direcionada para suas palavras.
— Você pode ler minha mente. Pode sentir minhas intenções. Eu não tenho mais nada, sempre estive sozinha. E com o seu poder, sei que nenhum inimigo terá quaisquer chances.
A risada dele arrepiou os cabelos da sua nuca.
— Garota esperta. – ergueu a mão esquerda no ar, fechando os olhos por um momento. Aquele sorriso diabólico não deixava o rosto de quem outrora fora seu amado. – Ah, sim, eu sinto muita raiva em você... isso servirá bem.
A garota se levantou. Seus músculos rijos protestavam pelo esforço em não desabar, não cair no chão e chorar amargamente. Ao invés disso, manteve uma postura solene e respeitosa perante o Supremo Líder. Ele continou:
— Me diga seu nome de família, Rey.
— Eu... Eu não sei. – ela foi completamente honesta dessa vez.
— Então vamos descobrir.
Sem dizer mais nada, Palpatine se aproximou e tocou sua testa. Ela imediatamente entrou em uma espécie de vórtice mental, uma epifania que fez seu estômago dar um nó e sua cabeça girar. Ela fechou os olhos com força para não vomitar e as memórias escondidas em seu subconsciente vierem á tona em uma enxurrada de visões.
Reconheceu sua mãe, uma mulher com o mesmo penteado de três coques e de pele bronzeada negociando com Unkar Plutt. Em mais um flash, viu a si própria com menos de cinco anos agarrando as vestes do pai, um homem de rosto quadrado e traços fortes, chorando e implorando para não ser deixada para trás. Ele apenas afastava sua pequena mão e tentava evitar contato visual – talvez por vergonha, talvez para não resistir a tentação de pega-la nos braços. Ouviu os dois conversando entre si, contando as moedas que sua venda havia proporcionado com certa alegria na voz. Lembrou-se dos seus nomes – Kyra e Richard Tarkin. Os mesmos nomes que Luke lhe contara a meses atrás. Mas com uma pequena diferença: os dois eram apenas sucateiros, assim como ela. Sem histórias mirabolantes de médicos e pilotos da Nova República.
Por fim, foi obrigada a reviver a fatídica visão da nave se afastando de Jakku e abandonando-a para sempre, o aperto de Unkar doendo em seu braço.
Quando Palpatine quebrou o contato, a garota puxou o ar e quase perdeu o equilíbrio. Piscou aturdida, enxergando um Kylo Ren impassível.
— Bom, nenhum nome que seja relevante lembrar, de fato. – havia certa decepção em sua voz, mas ele logo retomou a postura. – Não importa. A partir de agora o nome “Rey” ficará no passado. Você será conhecida como Darth Kaisah, ou “àquela que serve”.
Rey assentiu sem esconder a expressão atônita. Seus pensamentos ainda estavam no fato de que Luke havia mentido para ela, dizendo que seus pais foram importantes. E para que? Faze-la se sentir melhor?
— Vamos, minha cara. Precisamos terminar o que começamos.
Sua capa esvoaçou à suas costas quando Palpatine passou por ela a passadas largas. Rey o acompanhou em seguida, ficando logo atrás, sua cabeça trabalhando rápido em mil direções diferentes. Não podia deixar aflorar suas intenções com muita intensidade, ou ele perceberia sua traição. Ela ainda sentia muito medo – medo em perder Ben para sempre. Não sabia como faria para trazê-lo de volta, e precisava se concentrar para tentar buscar a resposta através da Força, ou intuição, ou qualquer coisa que pudesse iluminar seu caminho. O tempo estava demasiado curto fazia pressão na parte de trás da sua cabeça enquanto passavam pelos corredores escuros em um silêncio opressor. Seus passos ecoavam a medida que atravessaram o saguão e alcançavam a saída, o som da batalha cada vez mais evidente e angustiante aos seus ouvidos.
A garota tentava respirar fundo e acalmar seus pensamentos, tinha de achar uma solução que não fosse machucar o corpo de Ben. Seu coração acelerado a traía, ela mal conseguia sentir as próprias pernas. Palpatine marchava imponente em sua nova pele jovem e saudável, cortando a calorosa ligação que conectava a Jedi ao cavaleiro. Só agora a garota reparava em como isso lhe fazia falta – era uma sensação estranha, um vazio gélido em seu peito, como se parte de si tivesse sido arrancada. Como se Ben Solo não existisse mais.
A mera ideia fez sua garganta dar um nó. Ela quase soluçou, mas nesse momento o Supremo Líder abriu as grandes portas que davam acesso às ruas de Hanoon e parou em frente ao prédio, puxando o ar como quem deseja sentir o perfume de hortaliças em um jardim. A guerra parecia no fim, os poucos stormtroopers sendo esmagados pela Resistência, os caças zunindo por cima de suas cabeças como aves de rapina, os últmos AT-ST’s sendo derrubados pela artilharia de Leia. Nada disso pareceu diminuir o sorriso afetado que brilhava no rosto de Kylo.
— Observe bem, Kaisah. Dê uma boa última olhada na escória rebelde. – ele falou, os olhos varrendo cada perímetro da cidade. – Este é o início de uma nova era.
Não houve tempo para resposta. Rey foi obrigada apenas a assisti-lo erguer as mãos, fechar os olhos e gerar eletricidade que se aglomerou em suas palmas. Os raios azuis estalaram, cresceram e finalmente foram liberados de uma só vez em todas as direções, mirando certeiros na frota de Leia Organa. O som estourou como um trovão, cegando-a momentaneamente e derrubando as naves como pássaros abatidos. Os aliados que lutavam no chão pareciam perdidos, correndo por todos os lados sem saber o que fazer. Rey permaneceu imóvel, os lábios entreabertos, o pavor tomando conta dos seus nervos. Afundou as unhas nas palmas das mãos e olhou para Palpatine, mais poderoso do que nunca, mas enxergava apenas Ben Solo. Seus olhos foram para o sabre negro que estava atrelado ao cinto dele, tão próximo, tão fácil de ser utilizado naquele seu momento de distração... Apenas um golpe, e estariam livres.
Ela deu um passo em sua direção, mas se interrompeu mais uma vez. Se o cavaleiro ainda estivesse vivo de alguma forma, golpeá-lo mataria os dois. A pouca esperança que brilhava em seu peito seria completamente extinta. Ouviu os gritos de comando dos rebeldes ali próximos, em desespero, seu coração entrou em conflito. Não queria matá-lo.
“Mas você precisa!”
As lágrimas agora atrapalhavam sua visão, Rey soluçava. Deu mais um passo incerto, estava a alguns palmos de distância, o momento de usar a Força e chamar o sabre negro era agora. Ouviu as explosões das naves caindo e matando os rebeldes, pensou ter ouvido Finn gritando seu nome também, mas não dava para ter certeza. Os sons ficaram distantes. A luz fria do poder dele se assemelhava ao crepúsculo sem nuvens, o céu coberto pela energia imensurável do poder de Palpatine trazendo tudo a baixo. Iriam perder. Não conseguia suportar aquilo. A galáxia inteira dependia de si. Com uma dor que dilacerava cada centímetro do seu coração aflito, ela chamou o sabre e o segurou com as duas mãos, avançando contra seu inimigo ainda inconsciente do que se passava logo atrás de suas costas. Com as mãos trêmulas, acionou a arma escura como a noite.
XXX
Luke girava ferozmente seu sabre de luz contra os stormtroopers, rebatendo seus tiros de blaster e perfurando sua armadura como se fosse papel. Quando recebeu o alerta de R2-D2 da aproximação de dois soldados em speeders, usou a Força para derrubá-los de suas motos. Ofegante, sorriu quando percebeu que faltava muito pouco para ganharem a guerra. Finn comandava suas tropas a oeste de Hanoon com notável vantagem junto a Rose, Poe já elimnara as ameaças dos TIE Fighters e AT-ST’s com seu fiel BB-8 ajudando-o na navegação, e não havia linha de frente inimiga que resistisse ao pequeno grupo com Chewie, Leia e mais três soldados rebeldes perscrutando os hangares semi destruidos da Primeira Ordem. Até mesmo C3P-O tinha parado de lamentar seu sofrimento sem fim quando viu que, estatisticamente, eles já haviam ganhado.
O droid amigo de longa data de Skywalker apitou para alertá-lo de mais alguns deathtroppers no alto de uma torre de comando, e foi para lá que ele correu sozinho, pedindo para o robô esperar por seu retorno. Derrubou os soldados com um só golpe e hesitou quando um deles, de armadura diferente, ergueu as mãos em rendição. O mestre desligou sua arma com um estalido e viu a pessoa retirar seu capate. Uma mulher com seus trinta anos de idade lhe deu um sorriso meio zombeteiro e sua cabeleira loura caiu sobre os ombros.
— Oi. Eu sou Lyra.
— Olá, Lyra. Sou Luke.
— Eu sei. Eu conheço você e o seu sobrinho também.
— É mesmo?
– Mesmo. Pensei que se lembraria de mim.
— Eu...
Ele apertou os olhos, puxando da memória e falhando miseravelmente. Lyra revirou os olhos e continuou, irritada.
— Eu estive na sua academia. Fazia parte da turma não sensitiva a Força. Meus pais acharam que era uma boa ideia treinar meus valores com alguém como você. – então riu com desdém. – Claramente estavam errados.
Luke finalmente pareceu se lembrar, pois havia reconhecimento, surpresa e uma parcela de culpa em sua feição. Abriu e fechou a boca algumas vezes, e por fim suspirou.
— Eu lembro de você. Ficava sempre com o Ben nos intervalos, era a única amiga dele.
— Sim. Ele me contou que você ia matá-lo na noite em que atacaram a academia.
– Eu estava com medo e cometi um erro. Estou aqui para pedir desculpas a ele pessoalmente.
A garota deu de ombros.
— Eu não ligo mais. Ele se esqueceu de tudo que passamos juntos e se juntou com aquela sucateira. – Ela cruzou os braços, trocando o peso do corpo para a outra perna. Parecia tudo, menos indiferente. O Jedi não sabia o que dizer. – Enfim. Descobriu quem foi o responsável por destruir sua escola ?
— Snoke.
— Que?! – ela descruzou os braços, incrédula. — Não, você tá mentindo...
— Eu queria que fosse mentira, mas não é. Ele foi o culpado por tudo. Por bagunçar a cabeça do Ben desde criança, por destruir a academia com intuito de levá-lo para o seu lado, por toda essa guerra.
Ela apenas deu de ombros.
— Tá. Tanto faz agora.
— De qualquer forma, a Primeira Ordem caiu, a guerra está ganha. Se quiser se juntar a nós, será bem-vinda.
A mulher assentiu sem muita convicção. Luke lhe deu as costas com um sorriso educado. Quase no mesmo instante, previu o momento em que ela puxou o blaster escondido de dentro das vestes e atirou. Seu primeiro instinto foi defender-se com o sabre, o que resultou em um ricochete, acertando-a de volta na barriga. Lyra caiu no chão e arfou com desdém na voz.
— Escória rebelde... É por causa daquela Jedi que ele se voltou contra nós. Eu não acredito em uma palavra do que você diz.
O homem fez menção de ajudá-la, mas ela apontou a arma e atirou novamente. Dessa vez ele conseguiu desviar com um salto.
— Eu prefiro morrer a ficar do seu lado. Me deixa em paz.
Ele suspirou. Abriu a boca para argumentar, mas algo o impediu. Um peso característico de alerta em seu peito avisando que algo ruim aconteceria. Ouviu um trovoar desnatural vindo não muito longe dali e correu para o outro lance de escadas a fim de alcançar a parte externa da torre. Dali, teve uma visão privilegiada do terreno, mas o que chamou sua atenção estava no céu. Entre as nuves, testemunhou com grande horror a frota inteira ser atingida por inconfundíveis raios da Força, perdendo energia e despencando contra o exército. O imenso cruzador caia como se em câmera lenta, o bico apontado para o chão. Se aquela nave atingisse o solo, destruiria sua irmã e uma legião de soldados da resistência.
Imediatamente espalmou as mãos no ar e fechou os olhos. Toda a força que ainda lhe restava foi condicionada a fim de parar aquela nave. O suor escorria pelas têmporas enquanto a pressão do esforço estremecia os músculos de todo o corpo. A nave rangeu e diminui a velocidade, quase parando no ar. Luke ofegava, as veias do pescoço saltadas, a energia se esvaindo do seu corpo. Ele não aguentaria por muito mais tempo.
XXX
Ahsoka teve de apertar os olhos para entender o que se passava através daquele clarão de raios. Não muito longe de onde lutava, Rey estava paralisada, apontando o sabre negro para Kylo Ren, hesitando em atacá-lo. O neto de Anakin era a fonte de todo o caos que causava os panes da frota rebelde, e isso bastou para que a Togruta avançasse contra o inimigo, saltando por entre os soldados com uma determinação obstinada nos olhos verdes.
Rey viu apenas um vulto laranja surgir de repente dentre os escombros pelo outro lado e desferir um golpe feroz. Os dois sabres de Ahsoka desceram intrépidos em direção à Kylo, o som inconfundível do feiche de laser atingindo o alvo se elevando em meio a um arfar surpreso.
O ataque do Supreo Líder cessou.
XXX
Quando os raios finalmente pararam, o mestre Jedi arfou e caiu na plataforma de metal, sem forças. Conseguiu segurar o destroier, mas o destino de pelo menos sete naves foi o chão. Ao menos conseguiu salvar uma parte da frota aérea. Pensou em Poe e seus caças e desejou que estivessem bem. Se apoiou com dificuldade nas grades, colocando-se de pé. Usou o que ainda lhe restava de energia para localizar Rey, e quando encontrou a direção, tomou fôlego alguns segundos antes de tomar seu rumo para lá.
XXX
Ahsoka Tano caiu com uma careta de dor, o sabre negro atravessado em sua coxa. Ela o desligou na tentativa de se colocar de pé mais uma vez. Rey encontrava-se a poucos metros de distância, o braço ainda estendido no ar após o lançamento improvisado contra seu novo alvo. Ela não pensou quando atacou a Togruta; agiu pelo medo de perdê-lo para sempre. Intacto, Palpatine riu em aprovação.
— Bom, muito bom. Continue me dando cobertura, Darth Kaisah.
A Jedi não pôde fazer muito quando Palpatine manipulou o sabre a distância para que, dessa vez, ele perfurasse o estômago de Tano. Quando ela gemeu em protesto, ele imediatamente voltou sua atenção para os inimigos em terra que avançavam na tentativa inútil de pará-lo. A garota correu em direção a Ahsoka e se lançou ao seu lado, horrorizada com o buraco cauterizado abaixo de suas costelas, sem conseguir processar o que mais trazia sofrimento ao seu coração naquele momento.
— Ahsoka! Eu... Eu s-sinto muito, eu não queria... Por favor, não morra... Eu não podia deixá-la matá-lo, é Palpatine quem está no corpo de Ben!
Ela viu uma ligeira expressão surpresa surgir no rosto de Ahsoka, sussurrando em seguida.
— Os ancest... ancestrais...
Rey pensou em dizer a ela para não se esforçar em falar, mas a voz zombeteira de Kylo Ren cortou sua linha de pensamentos. ELa chegou aos seus ouvidos um tom mais aguda pela influência do Imperador.
— Ah! Luke Skywalker, enfim nos reencontramos!
Ela virou seu rosto e viu seu mestre aproximar-se do Supremo Líder, parecendo pálido e fraco. Isso a preocupou, mas não conseguia mais discerir quais eram suas prioridades ali. Acionou seu sabre azul e Kylo repetiu o gesto, causando tensão estática no ar. A troca de olhares não durou muito tempo e logo as lâminas chocavam-se entre si, ferozes, fazendo coro ao deslizar de pés contra o chão, como uma dança. Queria avisar ao mestre que aquele não era Ben Solo, mas antes precisava verificar como a Togruta estava. Voltou sua atenção para a amiga em seus braços mas, quando a chamou pelo nome, não obteve resposta. O brilho que outrora estivera presente nas íris cor de esmeralda de Ahsoka havia deixado de existir. O estômago da garota deu um nó, ela queria chorar de novo, mas engoliu em seco e puxou delicadamente suas pálpebras para baixo, fazendo-a parecer estar em um sono profundo.
A Jedi suspirou trêmula. Tinha de manter o controle e seguir as últimas palavras da Togruta para encontrar a resposta que procurava. Tinha de se lembrar do treinamento de Luke. Tentou ignorar o combate que acontecia não muito longe dali e fechou os olhos. Respirou fundo, expirou. Repetiu isso algumas vezes, o som da luta e dos raios de Palpatine cada vez mais distantes.
“Ancestrais. Ahsoka falou sobre ancestrais. Fiquem comigo, fiquem comigo, fiquem comigo..” Repetiu o mantra até que finalmente seu coração voltou a batidas normais e sua dor foi isolada para um canto da mente. Ouviu vozes tomando o lugar dos tiros de blaster ao seu redor, vozes de pessoas que ela nunca viu pessoalmente mas lhe soavam estranhamente familiares. Eles lhe sussurram instruções, uma após a outra, mas mais do que palavras – eles lhe mostraram. Como uma forte intuição que crescia em seu peito.
Quando a Jedi abriu os olhos, tudo parecia claro. Com a antiga chama de esperança ardendo novamente em seu âmago, ela se pôs de pé, sentindo-se mais confiante e menos dispersa. Viu Luke ser arremesado a muitos metros de distância, mas não permitiu se abalar com isso – tinha de manter o foco.
O Supremo Líder pareceu notar essa diferença, pois se virou para ela com as sobrancelhas arqueadas em uma feição nada típica do verdadeiro Ben.
— Isso está parecendo mesmo o que estou achando que é? Uma traição?
Rey acionou seu sabre, atenta às próprias batidas do coração, consciente de si mesma e do ser enigmático a sua frente sob o disfarce de Kylo. Por algum motivo, sentia como se algo – ou alguém – a ajudasse a manter-se focada. Talvez os ancestrais Jedi que sussurram a resposta para sua pergunta.
— Não seja burra, garota. Se tentar me golpear, ele quem sofrerá o dano.
— Tenho certeza que Ben Solo está disposto a fazer esse sacrifício.
Seu adversário explodiu em raiva – e isso foi materializado através dos raios que saíram das pontas de seus dedos. Rey foi rápida e ergueu o sabre a tempo de se proteger do ataque, atraindo a energia para sua lâmina dourada. Ela firmou o pé direito no chão e começou a empurrar, avançando devagar enquanto recebia a carga elétrica em sua arma. Palpatine gritou enfurecido, jorrando sua força com certa instabilidade ao vê-la cada vez mais próxima. Quando apenas alguns palmos os separavam, a garota chutou seu joelho para desequilibrá-lo, socando-lhe a face com o cabo do sabre logo em seguida. Atordoado, o então Supremo Líder não teve tempo para se recompor. A Jedi se posicionou com uma das mãos espalmadas, concentrou-se no que sua intuição lhe dizia e o congelou de joelhos no chão.
Ali, imobilizado com seu poder, ela viu medo em seus olhos. Rey se aproximou, respirou fundo e buscou a fonte certa de pensamentos e emoções para canalizar a Força para a ponta dos dedos. Concentrou-se no corpo físico do cavaleiro primeiro, e então em sua pele, depois em seus músculos e tecidos, veias e células. Identificou as que não pertenciam a Ben Solo, as células parasitas. Quando teve a certeza que as havia rastreado, tencinou os músculos da mão e as imaginou sendo destruídas. Ele começou a gritar de dor, e isso exigiu uma força de vontade absurda da Jedi em manter o foco e não se distrair. Uma a uma, sentiu-as serem esmagadas entre seus dedos, causando uma terrível dor em cada parte do corpo de Ren e, consequentemente, carregando-a de uma culpa que ela precisava camuflar para não perder a concentração.
Levou o que pareceu uma eternidade, e quando parecia ter terminado, era a vez do espírito de Palpatine ser removido dali. Sua energia vital, sua vida. A garota perscrutou a aura do homem em agonia a sua frente, sem saber o que realmente acontecia ao seu redor, com os olhos fechados para não se abalar com o que via; e encontrou. Forte, pulsante, carregada de Força obscura. O Supremo Líder conseguiu sussurrar com desespero na voz:
— Você v-vai matá-lo também...
A garota vacilou por um segundo. Um vinco se formou entre suas sobrancelhas, ele quase se libertou, mas ela respirou fundo duas vezes e retomou a concentração. Ele estava mentindo. Se fizesse da maneira correta, Solo não morreria. Começou a sugar sua energia vital, e os gritos foram mais altos dessa vez, um lamento longo e sofrido. Por mais que soubesse que estava machucando Palpatine, os gritos tinham a voz de Ben. E eram vívidos o suficiente para fazer grossas lágrimas salgadas escorrerem pela bochecha da garota, resistindo à tentação de parar. Exigiu toda a força que ainda restava em seu âmago para continuar com o processo e não interromper aquela angústia sem fim.
— Rey, Rey, pare! Por favor, eu imploro!
Ele quase chorava. Isso destruiu seu coração. Rey tremia da cabeça aos pés, mas não podia parar. Repetia a si mesma como uma mantra: Não é o Ben. Não é o Ben. Não é o Ben...
Mais súplicas. Quando isso ia acabar?
Então, ele silenciou.
A garota engasgou e abriu os olhos. O viu caído no chão, imóvel, e uma fonte de luz falha tremeluzindo ao lado e tentando alcançá-lo novamente. Gemia e se contorcia como se estivesse em agonia, mas não parecia físico. Talvez o que sobrara de Darth Plagueis, um espírito maligno ainda vivo. Sem pensar duas vezes, a garota chamou o sabre negro caído ao lado do corpo de Ahsoka, o acionou e com um grito de fúria partiu para cima da coisa imaterial que piscava em busca de um novo hospedeiro.
A lâmina atingiu seu alvo em cheio, e mesmo que a Jedi conseguisse ver através dele, sentiu o peso do sabre rasgando-a no meio e transformando aquilo em fumaça. Não reparou na pequena plateia que a assistia a distância com receio,- Fenrir entre eles — apenas correu na direção do cavaleiro inerte no chão.
Apoiou sua cabeça em seu colo e pressionou dois dedos próximos à clávicula de Ben. Houve um momento demasiado longo de silêncio e, como a garota tremia muito, foi difícil identificar se havia pulso ou não. Mas por fim identificou os batimentos: Fracos, mas ainda existentes. Ela respirou aliviada e acariciou seu rosto com o polegar, tirando alguns fios de cabelo da testa com carinho.
— Ben... ? Ben, acorde, por favor...
Levou algum tempo, mas ele finalmente abriu os olhos. Escuros, não azuis – e isso fez seu coração acelerar. Ele piscou, tentando manter a consciência, focalizando seu rosto devagar. Mas ela ainda precisava ter certeza. Colocou a mão em sua têmpora e procurou ali qualquer sinal de Palpatine.
— Rey... – a voz saiu fraca, mas em um tom que definitivamente parecia o de Ben. – Rey, você está bem?
Pela primeira vez naquele dia, ela riu com a mais pura alegria. Ben gemeu com o esforço em se colocar sentado, mas apesar de toda a dor que sentia, um sorriso genuíno brilhou em seu rosto machucado. Seu coração se aqueceu e acelerou quando Solo se deu conta de que não conseguiria mais viver sem ela. Toda a galáxia parecia reduzida à grãos de areia quando tudo que importava estava bem ali, recíproca ao seu amor. Ele acariciou o pescoço da Jedi com as duas mãos e, com sua testa colada à dela, perdeu-se no brilho que a janela de sua alma emitia. Aquela velha e tenra conexão voltou a preencher o espaço vazio do peito de Rey, fazendo-a suspirar.
— Eu to bem sim, Ben. – ela finalmente respondeu, não mais alto que um sussurro. — E você?
— Agora eu estou.
Ela tomou os lábios do cavaleiro com urgência, recebendo o mesmo fervor em resposta. Rey amava Ben Solo, mas ainda teria tempo para tomar coragem em lhe dizer isso com todas as letras.
Quando se afastaram, por mais que quisessem passar as próximas horas ali, sentados, trocando juras de amor e beijos apaixonados, ainda havia o mundo real. Ben de repente sentiu uma Força diferente da conexão com Rey e, com o coração acelerado, virou o rosto. Havia uma pequena plateia que se disperssava com a vergonha por ter presenciado algo tão intimo e, ali no meio, Leia Organa fitando-o como fazia quando ele era apenas um menino assustado.
Repleta de amor, alegria e culpa.
— Ben, meu filho...
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