Equilibrium

12 Não tenha medo. Eu também sinto.


Notas iniciais
Esse capítulo está cheio de tretas e fortes emoções! Segurem seus forninhos, pessoal ♥ haha

Rey não soube o que fazer. Soltou o ar trêmulo pelo nariz e simplesmente fechou os olhos, embalada pela energia súbita que os envolvia em harmonia. O estômago foi infestado por um reboliço de asas batendo assim que os lábios carnudos de Kylo moldaram-se aos seus, quentes e macios. Ela tencionou todos os músculos do corpo, recebendo o calor do cavaleiro graças á proximidade.

Sentia-se engolida por uma força maior. Como se caísse em um buraco negro, perdendo-se na imensidão do universo. Seus pensamentos cessaram, deixando apenas o vazio acalentador.

Céus, aquilo era bom...

Subitamente, ouviram passos. Alguém se aproximava do quarto. Foi neste instante que sua mente parou de rodopiar e finalmente lhe trouxe de volta á realidade, lançando um alerta. Rey se afastou de súbito, como se tivesse levado um choque. Levantou-se, dando alguns passos para trás. Seu coração ameaçou sair pela boca.

— Isso é errado... – a voz saiu trêmula.

— Apenas se você considerar como um erro. – estreitou os olhos, pondo-se de pé também. A diferença de altura era gritante, especialmente quando estavam tão próximos. – Deixar que as emoções sobreponham a razão nem sempre é um mau caminho.

Ele lhe lançou um olhar profundo, devorando sua alma. Antes que Rey pudesse retruca-lo, no entanto, a porta do quarto se abriu. Uma figura loura apareceu á entrada, seu belo sorriso marcante murchando para uma carranca de raiva. Kylo não moveu um músculo. Rey, por outro lado, teve um sobressalto e suas bochechas adquiriram um tom rosado.

O silêncio incômodo pesou sobre os três. Lyra fuzilava a Jedi com os olhos, como se fosse capaz de desintegra-la pelo poder do pensamento.

— O que ela está fazendo aqui...?

— Estamos apenas conversando. – Kylo foi enfático.

— É mesmo?

— Já estou de saída! – a Jedi se adiantou, se esgueirando pela porta á fim de alcançar o corredor. Tinha de pôr os pensamentos no lugar e se afastar o quanto antes. Não estava com cabeça para discutir.

Quando Lyra se voltou para o cavaleiro, fechou a porta atrás de si e cruzou os braços. Estava irritada. Ele apenas suspirou, iniciando o trabalho sistemático de guardar suas roupas no armário.

— Pelo visto eu atrapalhei algo importante.

— Pare com seus joguinhos e diga logo o que você quer.

— Vim te ajudar com esse seu rombo no ombro, é claro! Mas parece que a sucateira foi mais rápida. Ela faz de proposito...

— Não existe uma competição, Lyra.

— Ah, não. Existe sim. E pra mim está bem claro o motivo de ela estar conseguindo a dianteira. – murmurou entredentes, para logo em seguida explodir em um grito: — Por que está abrindo as pernas pra você!

— Basta! – seu tom grave reverberou pelo aposento, seguido por uma batida estrondosa da porta do guarda-roupa. Lyra recuou um passo, assustada. – Aprenda a controlar sua língua de uma vez por todas!

A loura engoliu em seco. Continuou em silêncio, observando-o com cautela enquanto Kylo recuperava seu autocontrole. Ele balançou a cabeça, arfante.

— Nós não dormimos juntos! Preciso dela para meus planos, não entende?!

— Eu entendo. Mas não acho justo. – lançou as palavras doloridas, as sobrancelhas franzidas em uma notável decepção. — Estou com você desde o começo, fiquei do seu lado antes de todos, por muito tempo. E agora, é como se nada disso tivesse existido. Parece que me esqueceu de uns dias para cá... E não me venha dizer que é coisa da minha cabeça! — acrescentou rápido, assim que o viu ameaçar interrompe-la.

Kylo suspirou, refletindo por alguns instantes. A mulher tinha uma parcela de razão. Sua súbita mudança de comportamento, aliada á falta de interesse pelas visitas noturnas diárias, a fez sentir ameaçada. E perder a lealdade de Lyra era algo ruim. Por isso, ele se aproximou, mostrando o costumeiro brilho vulnerável no fundo dos olhos. A voz saiu tenra e morosa:

— Você é, e sempre foi, uma parte importante da minha história. A primeira aliada na academia de Luke, a pessoa que sempre esteve ao meu lado por anos. Seu valor é inquestionável, não duvide disso. – Ela quase sorriu, hipnotizada pelas íris castanhas. Não deixava de ser uma verdade. – Mas não espere que eu demonstre algo além de apreço. Sabe que não sou capaz de amar. Tenho outras prioridades, outras preocupações.

— Eu sei. Respeito sua decisão, apesar de não concordar. Mas eu sinto que há algo a mais que você não está me contando. Kylo... – respirou fundo, tomando coragem para ouvir a verdade. — Olhe em meus olhos e me diga que não há nada mais entre vocês dois. Nada mais além do profissional. Preciso ouvir isso de você, por favor.

Ele a fitou. Intenso e voraz, como sempre, mas não proferiu palavra alguma – seu silêncio respondeu por si só. Não sabia ao certo o que acontecia entre ele e Rey. Seja o que for, era forte e irrefreável, como uma tempestade de areia. Não poderia lançar promessas vazias ao vento.

As feições dela novamente se fecharam. Engoliu a saliva junto com todo o orgulho ferido, procurando não sentir nada.

— Está bem. Já entendi.

Deu-lhe as costas, caminhando á passos largos até a porta, quando subitamente parou. Algo surgiu em sua mente, potencialmente promissor. O olhou por cima do ombro, lançando o questionamento com a sombra de um sorriso antes de partir para a cabine.

— Se eu fosse você, ficaria de olhos mais abertos. Fenrir e Rey parecem se dar muito bem, por algum motivo.

Kylo fechou as mãos em punhos enquanto ela sumia pelo corredor. Sentiu o sangue ferver sob a pele. Talvez fosse verdade, ou talvez apenas mais um joguinho dissimulado de Lyra.

Seja como for, ele averiguaria.

(...)

Quando chegaram á Hanoon, o sistema de defesa permitiu seu acesso após a verificação via satélite. As asas da nave se ergueram na vertical, unindo as pontas assim que adentrou as docas e tocou o solo. Mais uma missão bem sucedida, e os cavaleiros estavam dispensados para suas respectivas atividades – com exceção de um.

— Espere aqui. Quero falar com você. – Kylo se dirigiu á Fenrir sob sua máscara de metal, a voz robotizada soando fria como gelo. O louro obedeceu, aguardando novas instruções com as mãos atrás das costas. Sua mente trabalhou rápido em busca de algo que tivesse feito errado enquanto os outros saíram pela rampa de pouso.

Quando se viram finalmente sozinhos na cabine, o ar se tornou carregado. Algo estava errado, e não era preciso ser sensitivo á Força para perceber. O líder dos cavaleiros deu alguns passos, aproximando-se devagar como um lobo cercando a ovelha, chegando á meio palmo de distância.

— Vou lhe fazer uma pergunta simples. E você vai me dizer a verdade.

— Sim, senhor.

Ofereceu uma longa pausa, estudando as feições do subordinado. Quando voltou a falar, foi direto e sem delongas.

— Me diga qual sua relação com a Jedi.

Fenrir piscou algumas vezes, confuso.

— Perdão...?

— Quero saber qual seu envolvimento, histórico, relação, objetivo... – ele retrucou pausadamente, aproximando seu rosto mascarado á cada palavra. -... Com Rey. Responda.

— Eu não tenho envolvimento...

— Está mentindo. – Kylo o cortou, sem paciência. – Não me obrigue a retirar a verdade á força.

Fenrir respirou fundo, procurando acalmar o súbito nervosismo que fez as mãos suarem.

— Nos conhecemos no bar á uns dois dias. Ela estava perdida e nós conversamos um pouco... Algumas horas, na verdade. Rey inventou outro nome para que eu não a reconhecesse. Então dei carona até o castelo-forte e –

O cavaleiro não pôde terminar seu relato. Sentiu-se brutalmente lançado para trás, perdendo o fôlego ao bater as costas contra a parede metálica. Tentou se mover, mas não conseguiu. Focalizou Kylo com a mão destra no ar, fazendo pressão em seu peito sem realmente tocá-lo.

— Tem alguma noção do risco que colocou toda a missão?! – o líder se aproximou a passos pesados, mal contendo a ira por detrás da máscara. – Do que poderia ter acontecido se falasse demais?!

— Eu não falei nada... – Tentou se defender, mas foi em vão.

— Sua incontrolável mania de se intrometer onde não deve... Como sempre. – em um simples movimento com as mãos, transferiu a pressão do peito para o pescoço do homem. Ele começou a sufocar, sendo erguido a alguns metros do chão. – Eu vou lhe lançar apenas um único e último aviso. Nunca mais se aproxime de Rey.

Ele passava os dedos pela pele sensível com aflição, tentando se desvencilhar de algo que não era físico. A sensação de impotência o apavorava. Não entendia ao certo o motivo de estar sendo punido, e a única coisa que passava em sua mente era poder se ver livre do aperto. Quando Kylo finalmente baixou o braço, Fenrir dobrou os joelhos ao cair no chão, puxando o ar com força e tossindo por longos minutos. Ren lançou o último aviso carregado de rancor antes de partir e deixa-lo para trás.

— Não serei tão complacente se houver uma próxima vez.

(...)

No momento em que o sol se pôs por detrás dos prédios, nuvens carregadas lançaram seu aguaceiro sobre a cidade de forma impiedosa. A chuva ricocheteava contras as janelas da mansão, lançando luzes esporádicas dos raios que iluminavam os cômodos. Os trovoes retumbavam e tremiam o chão, fazendo coro á tempestade barulhenta.

Rey estava sentada na poltrona de couro da biblioteca, analisando o estranho objeto triangular sobre a mesa junto á dezenas de livros abertos. O pegou nas mãos pela milésima vez, procurando por algum detalhe ainda não percebido. Já havia pesquisado por quase duas horas sobre qualquer pista do estranho artefato Sith, mas não obteve sucesso. Largou-o novamente na mesa, afundando-se no sofá com um suspiro angustiado. Apertou a ponte do nariz com os dedos, fechando os olhos por alguns instantes á fim de clarear os pensamentos. A triste verdade era que estava apenas tentando ocupar a mente. Não poderia se perder em meio á lembranças s do que havia acontecido na missão àquela tarde.

O beijo de Kylo Ren. Suave, tenro, quase ingênuo... Tão diferente do seu temperamento explosivo, de uma forma surpreendentemente agradável.

Meneou a cabeça, encarando o teto abobadado enquanto balançava a perna esquerda em um tique nervoso. Odiou-se por ter aceitado aquele contato íntimo sem titubear. E o odiava ainda mais por ter feito aquilo. A lembrança dos males causados pelo cavaleiro ainda estava ali, bem vívida, amargando o céu da boca. No entanto, por alguma razão, Ren conseguia desarmá-la e confundir sua cabeça. Por algum maldito motivo, a mente insistia em voltar no tempo, onde a textura dos lábios de Kylo era tudo o que importava no universo.

Céus, o que estava acontecendo?!

Trancou a respiração quando a energia do local subitamente mudou. Estava se habituando cada vez mais á sensação morna e agitada de quando Kylo se aproximava. O sentiu adentrar a mansão no andar térreo e subir as escadas em sua direção, já sabendo exatamente onde acha-la. Rey se endireitou na poltrona, esforçando-se para não parecer desconfortável. Pegou um livro qualquer e se pôs a ler, forçando uma feição neutra no rosto. Permaneceu assim quando ele apareceu á entrada da biblioteca, segurando o capacete em uma das mãos e franzindo as sobrancelhas ao vê-la em meio á bagunça.

— O que está fazendo?

— Tentando entender o que é isso. – não desviou a atenção das páginas. – Mas parece que sua biblioteca não tem o que eu procuro.

Kylo se aproximou, analisando suas feições concentradas com afinco.

— Não vai encontrar a resposta aqui. É um holocron Sith, dificilmente aparece em registros. — Ela ergueu os olhos, interessada. O cavaleiro continuou o relato. – Trata-se de uma espécie de cofre. Os antigos Lordes Sith usavam para guardar artefatos raros e joias preciosas, dotados de grande poder obscuro.

Rey piscou algumas vezes, genuinamente curiosa.

— Tem que existir um jeito para abrir, então.

A sombra de um sorriso surgiu nos lábios de Kylo. Ele pousou seu capacete em cima da lareira e a respondeu em seguida.

— O poder necessário para que o holocron se abra deve ser igual ou superior ao do Lorde Sith que o aprisionou. Será mais simples se fizermos juntos.

— Está bem...

Rey respirou fundo, espalmando as mãos próximas ao objeto. O cavaleiro repetiu o gesto, completamente focado, franzindo de leve as sobrancelhas escuras. Ambas as forças trabalhando juntas, mesclando-se em uma só e agindo em harmonia para um único propósito.

Canalizou seus conflitos internos e permitiu que as ondas obscuras penetrassem suas células, devolvendo o poder com a mesma intensidade para desvendar o código da pirâmide. O núcleo por fim ascendeu, seu tom rubro contrastando contra a pedra escura. As pontas dos dedos formigaram, desarmando o labirinto de fechaduras com o auxílio de Kylo. A primeira, a segunda, a terceira trava destrancada... Quando chegaram á quarta, o brilho intensificou, banhando todo o aposento com sua cor de sangue. As peças começaram se mover, como um quebra-cabeça sendo desmontado.

Seus olhos brilharam ao constatar um pequeno cristal negro, refletindo sua luz escura á vários metros de distância. Ouviu as vozes chamando-a mais uma vez, sussurrando em seu ouvido, deixando-a hipnotizada. Kylo admirou a poderosa fonte de energia com interesse.

— É um cristal Kyber.

— Eu nunca havia visto um dessa cor...

— São muito raros. Diz à lenda que são mais fortes e podem destruir qualquer artefato mágico.

— É tão lindo... – ela ergueu o braço, ansiosa em tocá-lo. – Talvez devêssemos ficar com ele...

Kylo se atentou ao brilho estranho nos olhos da Jedi, como se ela estivesse enfeitiçada, e por isso a alertou.

— Rey, não toque nisso.

A garota o ignorou. No momento em que sua pele entrou em contato com a joia, sua mente escureceu. O corpo reagiu como uma descarga elétrica, lançando objetos pelos ares. Livros e vasos foram arremessados, espatifando-se contra a parede. Rey olhou ao seu redor de repente, parecendo confusa.

— É melhor eu ficar com isso. – ele apanhou o cristal, guardando-o entre as vestes com cuidado.

— O que aconteceu...?

—Sua luz deve ter entrado em conflito com a joia. É melhor que não se aproxime novamente.

— Não... Não foi isso. – ela pareceu ponderar, fechando as mãos em punhos. Suas pupilas se dilataram, tornando-se opacas e sem vida. – Você quer esconder o cristal de mim, por que sabe que eu posso ficar ainda mais forte com ele.

Algo estava errado. Ren notou suas feições frias e chegou á única conclusão plausível.

— Você está enfeitiçada.

— Me devolva o cristal, Kylo.

— Não. – foi direto, fuzilando-a com os olhos. — E eu não estou com paciência para lidar com mais um problema agora, então procure se controlar.

— É tudo por inveja, não é? Inveja do meu poder. Do que sou capaz. No fundo, sabe que sou mais forte que você. – a Jedi se pôs de pé, um meio sorriso malicioso brincando nos lábios. Aquela definitivamente não era Rey. – Você teme que Snoke te substitua por mim. O que, de fato, vai acabar acontecendo uma hora ou outra.

— Já chega. – Kylo também se levantou, verdadeiramente irritado. Usaria a Força para fazê-la desmaiar e acabar logo com aquilo. – Você está fora de si. Hora de dormir.

Assim que ergueu o braço, no entanto, Rey pegou em sua mão e a pousou sobre a própria cintura. Foi hábil ao pressionar o corpo longilíneo contra Kylo, que apenas a observou atônito. Ela ficou na ponta dos pés para murmurar, praticamente roçando seus lábios aos dele:

— Ou talvez seja só sua ânsia em esconder o que sente por mim. – ele ficou sem reação. Mergulhou nos olhos cor de avelã de Rey, sentindo ondas de calor lhe subir pelos quadris. – Todo esse desejo...

— Rey, você não está pensando direito —

Não tenha medo. Eu também sinto.

Ela soltou uma breve risada antes de enlaçar seu pescoço e beijá-lo. Sua língua acariciou o lábio inferior de Kylo, pedindo lascivamente por passagem. Naquele momento, o cavaleiro simplesmente se esqueceu do que pretendia. Esqueceu-se de que ela estava sendo influenciada pela joia. Esqueceu-se até do próprio nome. Todo o universo se reduziu a nada, e apenas os toques ansiosos de Rey existiam em seu mundo.

Sentiu as mãos pequenas da Jedi afundando em seus cabelos, arranhando a pele exposta da nuca. O cavaleiro tateava impetuoso pelas costas e quadris de Rey, apertando-a contra seu corpo em brasas. Os corações faziam coro em um ritmo frenético, causando reações adversas pelo ambiente – alguns enfeites de mesa trincaram, e pelo menos seis livros caíram das estantes sem ninguém toca-los. O sabor dela era viciante, embriagando-o como uma droga ilícita. A biblioteca tornou-se pequena demais para os dois, que embalados por um desejo irrefreável, deram alguns passos para trás sem realmente ver para onde iam. O cavaleiro sentiu o sofá logo atrás, e arfou surpreso assim que Rey espalmou as mãos em seu peito e o empurrou.

Nenhum pensamento soou coeso em sua mente naquele instante. Não conseguiria parar se dependesse das próprias forças. Ele a viu colocar um joelho de cada lado de cintura e se abaixar, apoiando as mãos em seus ombros. Os lábios foram mais uma vez selados, movendo-se em uma harmonia invejável. Kylo retirou as luvas de couro e passeou os dedos compridos por baixo da blusa da Jedi, em suas costas, sentindo a pele quente se arrepiar.

Foi neste momento que ela parou.

Ren a sentiu tencionar todos os músculos do corpo, e também interrompeu as carícias. A garota se separou do beijo, afastando o rosto devagar. Os olhos cor de avelã se encontraram aos castanhos, e lá estava o costumeiro brilho, em pupilas de tamanho normal, completamente atônitos. Ela estava arfante e piscou algumas vezes, passando de confusa para apavorada. Subitamente, saltou do colo de Kylo para se pôr de pé, sem entender direito o que acontecia.

— O que...?!

Olhou ao redor, para a mobília parcialmente destruída, e a percepção dos acontecimentos lhe aterrorizaram. Lembrou-se de cada toque, arfar e beijo, mas não tinha controle de seus atos. Kylo se levantou, controlando a própria respiração e passando a mão pelos fios escuros. Antes que pudesse falar, ela se pronunciou com evidente irritação.

— Você... Você me usou!

— Eu não te usei.

— Usou sim! Eu não conseguia me controlar, e você se aproveitou! É só o que tem feito desde que cheguei aqui! – ela explodiu em raiva, acusando-o com o dedo indicador apontado, os cabelos ainda desgrenhados. – Ao invés de ser o fantoche de Snoke, tenho sido o seu fantoche! Estou farta disso!

— Não se faça de vítima. Eu jamais te forçaria á algo que não queira.

— Eu estava sob o efeito dessa... Coisa!

— Ele só intensifica o lado obscuro de cada pessoa. Não cria vontades ou sentimentos. – ele a cortou de forma ríspida, gesticulando no processo.

Ela balançou a cabeça, apertando os lábios em uma careta desgostosa.

— Não... Você deveria ter me parado. Eu não sabia o que estava fazendo. – caminhou de um lado para o outro, enfurecida.

— Agora é tarde para se lamentar, não acha?

– Por que não me parou? Kylo, você não estava sob efeito algum de feitiço. Por que não impediu...?!

— Por que eu não consegui! – ele a cortou com um tom mais alto. Rey parou, fitando-o atônita. – Eu não tive forças para parar. Sabe bem que não sou bom em ouvir a voz da razão. Nunca fui.

Houve silêncio. Incômodo, pesado, carregado de significados. Eles se encararam alguns instantes, a face de Rey ainda corada, a roupa dele amassada. Ela respirou fundo, cravando as unhas contra as palmas das mãos, e soltou a frase sem convicção nenhuma antes de partir pelo corredor:

— Eu te odeio.

Deu-lhe ás costas com uma carranca e bateu os pés até seu quarto. Não ouviu quando Kylo suspirou um “Eu sei”, seguido por um leve sorriso de canto.

Notas finais
Não esqueçam de dizer o que acharam