Equilibrium
16 Distúrbio
Notas iniciais
Rey enrijeceu. O interrogatório que pretendia cuspir a respeito de Fenrir foi varrido de sua mente. Nunca o imaginaria em posição tão despretensiosa, tampouco que seu desalinho não afetava em nada a habitual elegância. Por mais que detestasse admitir á si mesma, a imagem lhe agradava bastante.
— Conversar sobre o que?
— Sobre o motivo de estar aqui. Estamos correndo contra o tempo. – ele tomou o restante do liquido âmbar e deixou o copo na mesinha ao lado, pondo-se de pé. — Precisa de respostas e eu preciso de você.
Por um segundo, o sentido ambíguo daquela frase fez seu corpo inteiro esquentar. Ficar sozinha em sua presença sempre a deixava desconfortável, mas agora era diferente – como se quisesse se afastar com a mesma intensidade em que o queria mais perto. Ren parou á dois palmos de distancia com um vinco se formando entre suas sobrancelhas, como se notasse algo errado. Reparou que ela segurava as sandálias nas mãos, tinha o rosto corado e as pupilas levemente dilatadas.
— O que houve com você?
A vermelhidão em suas maçãs do rosto se intensificou, abrangendo a ponta das orelhas.
– Nada.
— Não me parece nada.
— Só estou cansada.
Silêncio. Kylo tentava ler a garota, mas acabou se distraindo: Ela estava excepcionalmente linda àquela noite. As sardinhas finalmente ficaram mais evidentes sob a maquiagem que se desfazia, os olhos cor de âmbar brilhavam sob os cílios escuros e seu perfume floral o inebriava. O vestido de festa demarcava cada linha de seu corpo esguio, tornando difícil a tarefa de não admira-la por completo. Com um suspiro profundo, tentou se concentrar no mais importante.
— Certo. O que aconteceu depois que eu saí?
Rey lhe contou sobre sua nova posição entre os Cavaleiros de Ren e a conversa nada amigável com Hux, mas resolveu não mencionar Fenrir por enquanto. Isso poderia gerar uma discussão e fazê-lo desistir de conversar. Kylo ponderou alguns instantes e por fim cruzou os braços, reflexivo.
— Snoke fez o previsto, mas me preocupa o fato dele querer te expor dessa forma. Agora toda a galáxia sabe que esta, tecnicamente, do nosso lado. Qualquer deslize comprometerá sua posição aqui dentro.
— Não vou cometer deslizes.
— É bom que seja segura de si, mas não deixe que toda essa confiança vire um obstáculo. Esse é só o começo.
— Sei disso. Ainda bem que tenho sua preciosa ajuda. – ironizou, tirando os brincos dos orbes com cuidado e os guardando em uma bolsinha de mão. O homem franziu os olhos, tombando a cabeça para o lado como um cachorro curioso enquanto a observava.
— Você andou bebendo.
Ela de repente pareceu muito desconfortável. Abriu a boca algumas vezes, tornando a corar, e por fim o replicou irritada.
— Foram apenas duas taças de vinho!
— Não estou julgando. – ergueu as mãos no ar em forma de rendição, um meio sorriso zombeteiro brincando em seus lábios. – Só fiquei curioso. Nunca imaginei que você gostasse de especiarias.
— Ainda tem muito coisa sobre mim que você não sabe.
— Eu aposto que tem.
Eles se encararam em silêncio. Havia uma tensão diferente no ar, um leve distúrbio na Força que causava arrepios na pele. A animosidade se dissolveu e deu lugar á algo indecifrável, porém definitivamente melhor. Rey se viu mergulhar nos olhos castanhos e incógnitos de Ren, sentindo um estranho reboliço na boca do estômago. O efeito do álcool em seu sangue surtiu um efeito anestésico, extinguindo qualquer barreira que outrora pudesse erguer entre os dois. Foi com franqueza que desabafou o que pairava em sua mente naquele momento.
— Você parece uma pessoa completamente diferente quando estamos a sós. É muito confuso pra mim... Acabo me esquecendo de quem realmente é...
— Sou como você, de certa forma. – ele se aproximou mais, baixando a voz para um sussurro aveludado. – Um sobrevivente. Adapto-me para realizar o que desejo. Sou um assassino quando preciso, e uso a máscara para lembrar a mim mesmo o que tenho de fazer.
— E quando não a esta usando? – ao contrario do aviso claro em seu subconsciente, a Jedi não se esquivou do cavaleiro. Permaneceu estática, notando seu coração acelerar a cada passo que ele dava.
— Ainda não tenho certeza. Creio que seja apenas um homem fragmentado. Incompleto, cheio de dúvidas...
Ela trancou a respiração ao toque gentil da mão masculina em seu rosto, colocando uma mecha de cabelo dela para trás. Sua mente parecia uma mosca presa á uma teia grudenta de aranha que tentava a todo custo se desvencilhar, mas por fim voltava ao torpor. Não conseguia pensar em nada além da proximidade de Kylo e em como seu perfume amadeirado mesclava-se ao cheiro natural da pele dele – algo quente, semelhante ao couro que ele gostava de usar no uniforme de guerra. Era viciante.
— Eu esperava que você pudesse me fazer completo novamente. – a voz tenra chegou aos seus ouvidos como um veneno, paralisando os membros de seu corpo estranhamente quente.
O significado daquele pedido ficou no ar, porque Kylo simplesmente não conseguiu mais se controlar: precisava dela como um viajante no deserto sedento por água. Segurou seu rosto e finalmente a beijou, deleitando-se com a textura macia dos lábios pequenos de Rey. A Jedi hesitou em um primeiro momento, enrijecendo o corpo, mas logo acabou cedendo e se desmanchando por inteira. Sentiu a língua aveludada pedir caminho, buscando a dela e tocando-a com extraordinária calma. Ela espalmou as mãos no peitoral largo, sentindo o coração bater tão rápido quanto o seu, e sua mente se esvaziou como se um vento forte soprasse todos os pensamentos para longe.
Apesar da aparente serenidade, cada movimento eram calculadamente vagaroso e carregado de lascívia. De fato, nada nele era realmente suave. As mãos grandes fizeram uma excursão pelas costas desnudas da garota, apertando e deslizando com incrível habilidade. Rey agarrou sua camisa antes de soltá-la e percorrer seus dedos até a nuca dele, sentindo a maciez dos cabelos escuros. A sensação era a mesma quando meditava — estava leve, flutuando em outra dimensão, completamente á par do que acontecia ao seu redor. A única diferença era que, ao invés de atenuar suas emoções, seu peito estava praticamente em ebulição, jorrando adrenalina pelas veias e fazendo seu corpo entrar em chamas.
Ela gemeu em sua boca quando Kylo a apertou contra seu corpo. Ele era quente e seus músculos estavam evidentes mesmo sob o tecido da roupa, encaixando-se á ela como um quebra-cabeça. Ren temeu que a Jedi sentisse amedrontada pelo contato contra sua notável rigidez abaixo dos quadris, mas ficou ainda mais excitado quando a ouvir lamuriar em meio ao beijo como forma de aprovação. Gostaria de arrancar suas roupas e a toma-la ali mesmo, mas procurou controlar seu temperamento explosivo e ir com excruciante calma – passava as mãos pelos cabelos, nuca, costas e quadris da garota, deleitando-se com o leve tremor de seus músculos sob a pressão de seus toques certeiros. Ele era pura, delicada, como uma flor na primavera, e o mero pensamento de estar se entregando com tamanha facilidade o deixava extasiado.
O cavaleiro deu alguns passos para trás, guiando-a as cegas. Apoiou os quadris na escrivaninha, derrubando o copo e algumas folhas no chão, ficando na altura da garota. Afastou-se ofegante e antes que ela protestasse, começou a depositar beijos lascivos por seu pescoço e ombros. Ela ofegou novamente, as ondas de calor subindo por suas pernas como brasas. Rey não pôde ver, mas Kylo sorriu malicioso na curva de seu queixo quando sentiu as mãos trêmulas abrindo os botões de sua camisa e depois arranhando de leve o peitoral alvo.
— Você é linda. – A Jedi sentiu um forte arrepio quando o halito quente chegou ao seu ouvido junto á voz grave e rouca de Ren. O cavaleiro agarrou o lóbulo da orelha com os lábios, mordiscando e puxando, enquanto unia novamente seus corpos e sentia o bico dos seios dela enrijecidos sob o vestido. – Fica comigo essa noite.
O pedido veio com uma mistura de súplica e malícia. Rey finalmente o encarou nos olhos. Estavam mais escuros que o normal, brilhando de forma incandescente. Os lábios inchados entreabertos, as mãos fortes ainda apertando seus quadris. Ele a encarava como se fosse um monumento sagrado, algo de inestimável valor. Um bolo se formou em sua garganta, e mais uma onda de tremores percorreu seu corpo antes de responder, insegura.
— E-eu não... Eu nunca fiz...
— Eu sei. – seu tom foi tenro para tranquiliza-la. Mais uma vez, tirou alguns fios soltos com uma gentileza não compatível com o homem ali sentado. – Eu nunca farei nada que você não queira.
Desta vez, foi a vez dela tocar em seu rosto. O polegar passeou pela pele e alcançou os lábios cheios, lendo-o em um silêncio confortável. Kylo fechou os olhos por uns instantes, apreciando o contato sutil. Quando os abriu, não pareciam mais incógnitos e frios. Estavam quentes, receptivos, cúmplices. Rey se inclinou, roçando seus lábios nos dele como uma prévia do beijo que pretendia lhe dar em seguida.
— Eu —
Mas ela não completou a frase. Sentiu uma pressão súbita no corpo, como um punho fazendo força contra suas costas. O coração disparou, emitindo um alerta de perigo eminente. As extremidades formigaram, anunciando uma perturbação enorme na Força.
Pelo visto, ela não fora a única a sentir. Olhou confusa para Kylo, que já havia adotado uma postura completamente diferente. A habitual seriedade voltou á sua feição, e os olhos tornaram-se frios e distantes.
— O que foi isso?
— Uma perturbação grande demais pra ser normal. – respondeu enquanto se afastavam um do outro, procurando se alinhar da melhor forma possível. — Não parece ter vindo daqui...
Rey franziu o cenho assim que sentiu uma pontada em sua cabeça, parecendo uma enxaqueca repentina. Ouviu a voz arrastada de Snoke ecoar em seus ouvidos como se ele estivesse ali.
“Quero vocês na minha sala. Agora.”
Os dois se olharam cúmplices, num acordo mútuo de não falar sobre o que havia acabado de acontecer – pelo menos, não agora. Algo estava errado, e a situação exigia uma mudança rápida de comportamento. Kylo se colocou de pé com a postura rígida de um general, já caminhando até o corredor a passos largos. Ela o acompanhou, engolindo em seco.
— Não gosto da maneira como ele nos chama. Dá a impressão de que ele estava ali o tempo todo, nos observando. – a garota admitiu, fazendo uma careta de asco enquanto marchava ao seu lado.
— Não se preocupe. Se ele estivesse nos vigiando, nós saberíamos. Além disso, o Supremo Líder tem coisas mais importantes á fazer. – Apesar da confiança em sua voz, Ren parecia perdido em pensamentos. – Me encontre lá em baixo em cinco minutos.
Ela assentiu e tomou o rumo até seu quarto. Trocou de roupa e encaixou o sabre-bastão no coldre do cinto, encarando-se no espelho. Os lábios ainda estavam inchados, o rosto levemente corado. Balançou a cabeça, procurando esquecer os beijos e toques experientes de Kylo Ren que ainda queimavam em sua pele. Respirou fundo, saindo em direção ás escadas com a cabeça agitada. Quando passou pela porta da mansão, encontrou o cavaleiro terminando de calçar as luvas de couro e apressou o passo á fim de acompanha-lo.
Rey não pode deixar de notar em dois detalhes: Ele estava sem a máscara e, agora, seu uniforme possuía uma capa grande e escura que esvoaçava enquanto caminhava imponente pelos jardins. Queria alfinetá-lo por isso, mas decidiu deixar para outro momento. Quando chegaram ao speeder, ele ordenou ao motorista que os levassem até a torre central da cidade, partindo a alta velocidade pelas ruas movimentadas de Hanoon.
Os dois permaneceram em um silêncio profundo durante o percurso. Kylo parecia extremamente calmo, mas sua mente girava em um turbilhão de dúvidas. O que Rey pretendia dizer quando ele a assegurou que não faria nada que ela não quisesse? Aceitaria seu convite? Ela não parecia inclinada á negar. Estava inquieto, imaginando o que realmente aconteceria caso não fossem interrompidos. O sabor dos lábios de Rey ainda estava vivo em sua lembrança, assim como o tremor de seus músculos sob seu toque e os suspiros contidos de prazer. Afinal, ela sentiu prazer, e não foi preciso holocron algum para isso. O cavaleiro conteve um sorriso satisfeito e tentou focar na missão que teriam de realizar, mas a imagem de Rey se arrepiando com suas carícias insistia em retornar á sua mente...
— Chegamos, senhor.
A voz do motorista o despertou de seus devaneios. Já haviam estacionado em frente ao prédio. Desceu do speeder acompanhado pela Jedi e passou pelos guardas sem precisar se identificar. Enquanto passavam pelo hall de entrada requintado, a advertiu em tom sério.
— Apenas faça tudo o que eu fizer. Não é preciso interagir com ele.
Ela assentiu, sentindo o estomago embrulhar. Estava começando a ficar nervosa. Entraram em uma espécie de elevador e subiram por algum tempo, chegando finalmente ao destino final. Deparou-se em um pequeno hall vazio e, logo á frente, uma porta adornada de madeira que se abriu quando se aproximaram.
A grande sala oval parecia um local para reuniões. Havia uma mesa comprida no centro com cadeiras estofadas, poltronas dispersas, uma lareira em um canto e grandes janelas com vista para a cidade. Por algum motivo, Rey imaginava encontrar Snoke em um templo antigo e caindo aos pedaços, e não um cômodo moderno cheio de aparatos tecnológicos.
Por fim, avistou o Supremo Líder de costas próximo á janela, com seu habitual manto escuro e pesado arrastando no chão. Ele se virou quando os dois entraram, e seus olhos astutos correram de um subordinado á outro antes de falar.
— Imagino que tenham sentido o distúrbio na Força.
— Sim, senhor.
Era estranho ver Kylo submisso a qualquer outro indivíduo, mas ali estava ele, curvando-se para aquele ser enigmático. Seja quem fosse, ele o respeitava de verdade. A Jedi permaneceu em silêncio, encarando o tapete caro sob seus pés, e não viu que Snoke a observava na espera de uma resposta.
— Não tem nada para me dizer, criança?
Ela sentiu o estomago despencar quando se deu conta de que estava sendo questionada. Olhou de esguelha para Ren, que com um leve aceno da cabeça a encorajou a falar.
— Sim, senhor, nós sentimos.
Ele assentiu e se aproximou vagarosamente até a Jedi, deixando-a com uma sensação incômoda no peito. Passou muito perto, mas tomou seu rumo até a mesa.
— Meditei por um tempo e consegui identificar a origem dessa perturbação. – apertou um botão de um disco e procurou por algo em específico no pequeno painel. Por fim, um holograma surgiu, flutuando na frente deles na forma de um planeta envolto por uma nebulosa. – Planeta Geonosis, da Orla Exterior. Tínhamos uma base instalada lá.
O cavaleiro o fitou com as sobrancelhas franzidas.
— Tínhamos?
— Não sinto mais a presença de vida naquela área. Algo poderoso na Força os exterminou de uma só vez.
Um silêncio incômodo se instalou no ambiente. O que poderia ter dizimado uma frota inteira da Primeira Ordem sem dar sequer a chance de eles contatarem reforços? Não havia mais Jedi, e mesmo que uma pessoa tivesse a Força, não teria como usa-la dessa forma sem treinamento. Ao invés de medo, no entanto, desejou embarcar na primeira nave e checar o quanto antes a origem do problema.
— Essa é a missão de vocês. Encontrem a origem do problema e o exterminem. Sem prisioneiros dessa vez. – lançou um olhar afiado para Kylo, que não se abalou.
— Sim, mestre.
Com uma leve reverencia, Ren girou nos tornozelos e se dirigiu ao hall com Rey em seu encalço. Antes de entrarem, no entanto, a voz do Supremo Líder se fez ouvir novamente, cortante como uma faca de dois gumes.
— Rey. – eles pararam, virando meio corpo. Snoke estreitou os olhos e sibilou em seguida. –A vida das pessoas que ama depende da sua obediência. Meus cavaleiros estarão atentos aos seus passos.
Ela teve vontade de replicar. Com bastante ironia e acidez, de preferência. Mas lembrou do que Kylo disse, e reteve a resposta já na ponta da língua. Engoliu em seco, irritada, e assentiu obedientemente com a cabeça, tomando a frente do cavaleiro e saindo pela porta a passos firmes.
Com um ultimo olhar penetrante á seu pupilo, Snoke deu as costas e voltou a admirar sua cidade. Kylo se juntou á Jedi e por fim desceram os andares em silêncio, ambos perdidos em seus próprios pensamentos. Precisavam se concentrar para a missão, e os momentos prazerosos de poucos instantes atrás pareceu algo muito distante.
— Vá até a base e me espere na nave de comando. Vou convocar os outros.
xXx
As estrelas pareciam riscas brancas cortando o céu escuro. Não havia nada para admirar na velocidade da luz, mas mesmo assim, Rey olhava pela janela do caça com o queixo apoiado na palma da mão. Optou por um banco afastado dos outros para não ter o trabalho de interagir, e até agora vinha funcionando. Kylo estava absorto em seu próprio assento, analisando o que parecia ser a rota de um mapa em forma de holograma. Como comandante, sua posição estava em uma espécie de palanque elevado, e sua poltrona era a maior e mais bem equipada que as outras. Seu co-piloto não fazia parte dos cavaleiros de Ren, entretanto.
A Jedi suspirou e correu os olhos pela cabine. Já estivera ali uma vez, mas não podia se lembrar de nada – estava desmaiada, prisioneira de Kylo logo após seu ataque á Takodana. Agora, no entanto, ela podia analisar melhor a nave de fama vil: Se assemelhava muito á um Tie Advanced, porém mais arrojada e compacta. Perfeita para manobras evasivas e contra ataques, mas desconfortável para viagens longas. A garota se remexeu inquieta, sentindo uma dor incômoda nas costas. Já estavam ali á umas duas horas.
— Preparem-se. Chegaremos á órbita do planeta em cinco minutos.
A voz de Kylo cortou o silêncio. Um dos cavaleiros que cochilava despertou em um pulo, parecendo confuso. Os outros começaram a checar suas armas, calibrando pistolas e conferindo lâminas. O olhar de Rey se encontrou com o de Fenrir por um momento, e ela se sentiu abruptamente envergonhada. O que ele diria se soubesse o que ela e Kylo estavam fazendo antes de serem convocados por Snoke?
A nave por fim diminuiu a velocidade, trazendo a paisagem em foco. As riscas brancas sumiram, dando lugar ás estrelas pontilhando o véu negro do céu. Como um cobertor cheio de furinhos. Á frente, avistaram Geonosis.
Ou o que sobrou dele.
O planeta parecia, falando de maneira simplória, rachado. Havia fissuras e crateras por toda a superfície, além de rochas soltas que flutuavam em sua órbita, desprendidas do chão. Nuvens densas espiralavam no globo, como tempestades tórridas castigando o solo. Rey não se conteve em permanecer parada, aproximando-se do painel para enxergar melhor.
— Não me parece um planeta habitável. – Lyra lançou um olhar de esguelha para a Jedi antes de se pronunciar.
— Ele não era assim da ultima vez que estive aqui. – Um dos cavaleiros de barba escura a respondeu, abismado com o que via. – O que quer que tenha destruído nossa base, fez o mesmo com o lugar.
Rey não os escutava, entretanto. Estava de olhos fechados, o cenho franzido, uma das mãos erguidas no ar como se pudesse tocar algo invisível. Sentiu o pulsar distorcido no momento em que diminuíram a velocidade, mas parecia cada vez mais forte conforme se aproximavam. Kylo a observava com atenção, sem se dar ao trabalho de averiguar – sabia que ela não precisava de ajuda.
A Jedi respirou fundo, mergulhando nas entranhas do planeta. Sua mente vagueou pelo ambiente tórrido, acometido por uma chuva que parecia cair á muito tempo. Viu muita lama, abismos incomuns e corpos no chão. Entre os mortos, não apenas Stormtroopers, mas também animais que outrora habitavam Geonosis. Estranho.
Esforçou-se mais, o peso em suas costas voltando a dificultar sua respiração, trazendo certa dose de dor. A dificuldade em visualizar o que havia lá em baixo não era mera coincidência – algo, ou alguém, estava barrando seus poderes. Ainda assim, usou toda a sua concentração para se aprofundar na origem daquela perturbação sufocante. Atravessou destroços de naves contrabandistas, vulcões em ebulição e um penhasco árido. Os lapsos das imagens passavam rápidos pelos seus olhos, encaminhando-a diretamente á origem daquele caos. Encontrou uma fenda no chão ao lado de uma arvore ressequida a oeste do planeta, que levava a uma caverna oculta no subsolo. Algo ali parecia errado – as rochas flutuavam, batendo umas nas outras como bolas de sinuca. Só mais um pouco... Só mais um pouco...
Enxergou algo ao longe, como uma luz incandescente no fim do túnel. Lá, as rochas giravam como em um furacão, circulando uma forma de vida que Rey não conseguiu identificar. A ventania lançava as coisas para longe, e com um esforço descomunal, a Jedi usou suas ultimas forças para entender o que havia ali. Definitivamente, era uma pessoa. Parecia estar em posição de lótus. Mas não era humana...
Com um solavanco abrupto, Rey foi repelida de sua visão. Voltou á consciência na nave, arfante e trêmula. Tossiu, tendo de se segurar no banco de Kylo para não cair no chão. Fenrir fez menção de ajuda-la, mas ela se pôs de pé sozinha. Olhou para o cavaleiro, que ainda a analisava sem demonstrar a preocupação que o afligia ao vê-la naquele estado.
— É uma pessoa. Não parece humano. Mas sabe que estamos aqui, me repeliu. Acho que devemos –
Não conseguiu completar a frase, no entanto. As luzes da nave piscaram, fazendo cliques com picos de energia, e depois de poucos segundos se apagaram por completo. Todos os tripulantes se encararam, os corações bombeando adrenalina no corpo para a urgência do que estava por vir.
— O que está acontecendo? – Ren se pôs de pé, irritado. – Por que estamos sem energia?
— Não sei, senhor... Alguma coisa está interferindo... Parece que o sistema deu pane total, eu não entendo...
— Pois trate de concertar isso! Agora!
O co-piloto se levantou para tentar procurar a fonte do problema, mas um tranco na nave o fez cambalear e cair novamente no banco. Foi como se um objeto enorme tivesse colidido contra o caça, fazendo as pessoas se desequilibrarem. No entanto, não havia nada a vista.
“A não ser que nosso amigo lá em baixo queira uma visita...” Pensou Kylo, já de muito mau humor.
E então, antes que pudessem se recuperar do baque, a nave começou a despencar.
O desespero tomou conta da tripulação. Com um frio na barriga, sentiram ser sugados pelo campo magnético do planeta, sem qualquer meio de retorno. Rey e os outros olhavam para seu comandante na espera de uma solução milagrosa enquanto a nave rodopiava sem rumo, cada vez mais veloz. Por fim, Ren gritou para ser ouvido com clareza:
— Todos para seus lugares, agora! – Os cavaleiros obedeceram. Ele próprio voltou a sua poltrona e atrelou o cinto, aproveitando das emoções afloradas para canalizar seus poderes. Depois, acrescentou á si mesmo em um tom baixo: — Quer nos ver pessoalmente, então? Vai se arrepender, isso eu garanto.
Rey acabou em uma poltrona mais próxima, cravando as unhas no braço do assento. Seu coração batia nos ouvidos, ela olhava para Kylo de esguelha á espera de novas ideias. A feição em seu rosto parecia resoluta, então deveriam existir novas ideias... Precisava ter... Ou morreriam... Não poderia morrer assim, não desse jeito.
Pensou em seus amigos, em como não queria decepciona-los. Fechou os olhos com força e começou a repetir baixinho um mantra que não sabia conhecer, como uma reza em busca de esperança.
— Eu estou com a Força, e a Força está comigo... – giravam sem parar, caindo no abismo... — Eu estou com a Força, e a Força está comigo... Eu estou com a Força, e a Força está comigo.
“Eu não vou morrer. Não hoje.”
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