Equilibrium
4 A Resistência
Notas iniciais
Seus olhos estavam vendados. O sabre de luz rubro chiava possante em uma das mãos, vibrando como uma extensão do próprio corpo. Seu coração pulsava veloz dentro do peito, jogando cargas de adrenalina para mantê-lo em posição de ataque. Pernas espaçadas, respiração controlada. A raiva era seu combustível, aguçando seus sentidos e o envolvendo em uma áurea poderosa da Força. Ele estava concentrado, os músculos tensos e o sangue fervilhando em ódio.
Em um movimento gracioso, girou nos calcanhares. Seus instintos o induziram a levantar o sabre ao mesmo tempo, na altura dos olhos, e assim pôde sentir o tiro de blaster sendo rebatido pela luz letal de sua arma. Depois veio outro, e mais outro – de todas as direções possíveis. Kylo rodopiava e agitava a espada rubra para todos os lados, bloqueando os lasers mortais. Seus braços eram precisos e as pernas muito ágeis conforme ele dançava no saguão imenso. Snoke estava sentado em seu trono de pedra, observando atentamente ao pupilo.
Após alguns minutos, os tiros cessaram. O aprendiz rebateu a todos com maestria, sua respiração levemente alterada com o esforço. Era sua deixa para atacar. Com um impulso dos pés, saltou sobre os droids guerrilheiros e os atravessou com seu sabre, certeiro. Aniquilou dezenas deles em uma questão de segundos, em uma impetuosidade marcante. Seus movimentos fluíam ferozes, transformando os robôs de artilharia pesada em cinzas aos seus pés. Assim que terminou com o último droid, desligou sua arma e recompôs a postura, arfante.
— Muito bem. – a voz fria de Snoke ecoou entre as paredes após alguns instantes. – Tire a venda.
Kylo obedeceu. Retirou o pano dos olhos, guardando-o entre as vestes negras. Pequenas gotículas de suor brotavam de sua testa, logo enxugadas pelas costas de sua mão enluvada. Sua respiração normalizava aos poucos, acompanhando as batidas rápidas do coração. Estava treinando á horas, e o corpo protestava pela exaustão.
O supremo líder se levantou, aproximando-se vagarosamente de seu aprendiz. O lado negro da Força vinha em rajadas cálidas até o cavaleiro, pesando em seu âmago. Parou á sua frente, perscrutando-o com muita atenção.
— Sinto que algo o está incomodando. Diga logo do que se trata.
— É sobre a conexão com Rey. – Kylo foi direto ao ponto, sem titubear. – Luke não deixará que ela venha até mim por vontade própria, e esperar pela próxima conexão acidental é perda de tempo.
— Rey... – ele repetiu a palavra devagar, estreitando os olhos astutos para o aprendiz. Era a primeira vez que o ouvia chama-la pelo nome. — E o que você sugere?
— Deixe-me ir atrás dela. – sua voz soou neutra, mas em seus olhos havia um brilho voraz. – Será mais fácil convencê-la se estiver sob nosso domínio.
Silêncio. Ren aguardou pacientemente pela resposta de seu tutor, mantendo-se inabalável sob o olhar penetrante de Snoke. Ele o fitava de maneira ardilosa, estudando-o como um manuscrito antigo. Por fim, sorriu de canto, mordaz, lhe dando ás costas para se sentar em seu trono.
— Terá permissão para captura-la assim que Hux retornar de sua missão.
Kylo assentiu, inclinando-se em uma tênue reverência e expirando o ar que não percebeu ter prendido. Ele sabia que não levaria mais de alguns dias para que o general terminasse sua tarefa, por isso logo teria o que desejava. Girou nos calcanhares, pronto para sair, mas interrompeu o movimento ao ouvir seu nome ser chamado novamente.
— Espere. Quero que fique ciente das condições. – as palavras soaram frígidas. – Ela não será seu foco principal. Continuará em suas atividades, auxiliando a Primeira Ordem na conquista de territórios. E, se conseguir raptá-la, ela será minha propriedade. Não sua. Você não terá qualquer poder sobre a garota, e terá de seguir á risca as minhas instruções. Fui claro?
— Sim, mestre.
— Pode ir então.
O cavaleiro se virou, dirigindo-se até a saída com passos firmes. Algo beirando contentamento queimava em seu peito, oculto sob as feições sempre insensíveis do aprendiz. Planos de um futuro promissor permearam sua mente, causando-lhe um leve pulsar de ansiedade ao imaginar as possibilidades em ter Rey sob seu domínio. Ao mesmo tempo, Snoke já arquitetava suas próprias medidas, absorto em pensamentos obscuros e escondidos de seu pupilo.
(...)
Mestre e aprendiz estavam sentados no chão sob a sombra de uma palmeira, próximos á cabana de Luke. Pequenas peças de metal jaziam organizadas ordeiramente na grama, algo que Rey julgou pertencer á uma empunhadura de um sabre de luz. O mais velho ergueu o pequeno cristal contra o sol, analisando-o com afinco. Pesou o objeto nas mãos, apalpando sua textura singular, e fechou os olhos por alguns instantes para sentir a Força irradiando da joia. Assim que os abriu, viu Rey observá-lo em uma curiosidade mal contida. Sorriu por fim satisfeito, devolvendo-o á sua dona.
— Um cristal branco. Interessante...
— O que é interessante? – ela perguntou com interesse genuíno.
— Há muito tempo eu não via um desses. Eles geralmente são encontrados em Alderaan. Não é muito comum um Jedi utilizar um sabre desta cor.
— Por quê?
Rey notou a hesitação de seu mestre naquele momento. Ele a fitou por alguns instantes, ponderando se deveria dizer a verdade ou não. Por fim, suspirou e cedeu aos olhos brilhantes da aprendiz.
— Por que os cristais brancos normalmente eram utilizados pelos Cavaleiros Imperiais. Cavaleiros que juram lealdade ao Imperador. – ele notou o rosto de Rey se contorcer em espanto, então complementou em seguida. – Eles eram contrários ao Lado Negro da Força, assim como rejeitavam os dogmas do lado Luminoso. Eram imparciais.
— Não imagino como isso seja possível...
— São chamados Jedi Cinzas. Foram exilados ou se desassociaram do Conselho Jedi, e por isso permanecem imparciais. Eles não seguem qualquer doutrina ou regra, e cobiçam algo para si por impulsos egoístas.
Era a primeira vez que ouvia aquele termo. Notou que o assunto causava certo desconforto á Luke, mas ainda assim, precisava se certificar sobre o que se passava na cabeça do Jedi e tirar todas as suas dúvidas.
— Mestre, o senhor não pensa que eu possa virar uma... Jedi Cinza, ou algo do tipo, não é?
Ele riu. Uma risada breve e suave, acompanhada por um balanço negativo da cabeça.
— Não, Rey. Não tenho duvidas quanto a sua pureza. Além do mais, a cor de um sabre não define a personalidade do usuário. Claro que, historicamente, as cores remetiam á algumas classes de guerreiros ou clãs. Mas a regra não é fixa.
“Por exemplo, a cor azul é a mais comum entre os Jedi no geral. Já a verde, era comumente relacionada á Jedi consulares, enviados em missões diplomáticas da República. O amarelo pertencia às Sentinelas, aqueles que patrulham o universo e combatem injustiças. Os alaranjados são desse tom apenas pelo fato de serem extraídos de um planeta muito quente, e por aí vai.”
— Mas e os sabres vermelhos? Por que só os adeptos ao lado negro utilizam essa cor?
— Cristais vermelhos não são encontrados naturalmente em nenhum lugar conhecido do universo. Quando os Sith iniciaram sua jornada de destruição às fontes dos cristais, eles acabaram tendo de desenvolver um Cristal Sintético para a produção de seus próprios Sabres de Luz. Por isso adquirem esse tom.
— Isso soa muito errado...
— E é. Uma energia bruta, difícil de ser controlada, capaz de prejudicar o próprio usuário.
Rey lembrou-se automaticamente do sabre de Kylo Ren, chiando de forma disforme e lançando sua luz rubra sem precisão. A ferocidade da lâmina parecia fragmentada, refletindo a própria essência de seu usuário. Um frio percorreu sua espinha. Ela esperava que sua arma pudesse ser o oposto disso.
— Podemos montá-lo da maneira que desejar. Você usará a Força para unir as peças e ativar o cristal.
Rey analisou as pecinhas, pensativa, e por fim levantou os olhos como se lhe ocorresse uma ideia súbita.
— Posso fazê-lo como um bastão? Estou acostumada á esse tipo de arma.
— Eu imaginei que fosse pedir por isso. – Luke sorriu. – Sim, pode montar desse jeito. O cristal me parece forte o suficiente para ligar as lâminas de ambos os lados da empunhadura.
— Então, por onde eu começo?
(...)
A sala de comandos da Resistência mergulhou em profundo silêncio. Pilotos e rebeldes se entreolhavam hesitantes, seus semblantes carregados de aflição. Poe parecia reflexivo em seu uniforme chamuscado de cinzas, analisando a esmo os botões da mesa de hologramas. Chewbacca estava em um canto afastado, encarando o chão metálico. Finn prestava atenção á General do lado oposto do painel, preocupado com seu bem estar emocional. Ali, ela parecia nada menos que um grande soldado, otimista e inabalável em sua postura intacta. Entretanto, a aparente máscara de bravura escondia uma mãe desgostosa e uma mulher cansada de lutar. Ele sabia que cada ruga em seu rosto remetia á um cansaço extremo, causado por anos de uma batalha de poucos intervalos pacíficos. Obviamente, ela jamais deixava isso transparecer. Ele gostaria de ter a habilidade de transportar o fardo dos ombros da princesa para si, á fim de lhe dar um pouco de descanso, mas sabia que não poderia fazer muita coisa á esse respeito.
A infeliz notícia de que haviam perdido a batalha em Corellian os atingiu como um soco. Centenas de pilotos foram exterminados pela Primeira Ordem, e grande parte dos recursos bélicos da Resistência foram vetados por Hux. Sem a Nova República, a galáxia estava sendo tomada pelas tropas incansáveis de Snoke, e o pequeno grupo de rebeldes via-se cada vez mais encurralado. As poucas vitórias não se igualavam á supremacia das conquistas do Supremo Líder, o qual impunha seu regime militar pelo universo sem muitos obstáculos. Os planetas que apoiavam Leia e seus soldados se restringiam á poucas dúzias, e muitos ainda acabavam cedendo á ameaça da Primeira Ordem por não ver uma saída plausível, aliando-se ao inimigo por puro medo. A esperança estava extinguindo-se junto á democracia.
— Não podemos desanimar. – a voz de Leia finalmente ecoou pela sala, carregada de um falso otimismo. – Perdemos soldados, mas temos de dar a volta por cima. Sempre damos. A perda não será em vão. – Ela prolongou o olhar sobre Poe, o qual estava na batalha e escapou por pouco da chacina. Seus olhos pareciam turvos e distantes, como se apenas seu corpo estivesse presente. O piloto engoliu em seco. — Ainda temos o apoio de Adari. Não é em grande quantidade, mas vai nos ajudar. Nosso foco agora será restabelecer contato com novos aliados para a importação de recursos.
Os soldados assentiram sem qualquer animação. A notícia de fracassos vinha sendo cada vez mais frequente, e isso deteriorava a alma de qualquer bom guerreiro. Precisavam de um plano eficiente o mais rápido possível. Finn percebeu que necessitavam de alguma conquista – por menor que fosse – para recuperar a esperança. Então, pediu permissão para falar e sugeriu:
— Talvez seja a hora de buscarmos Luke e Rey.
Todos viraram seus rostos para o ex stormtrooper. Suas feições denotavam, em sua maioria, interesse. Alguns, incredulidade. Leia suspirou, apertando os lábios em uma linha reta.
— Não sei se é a hora certa para isso...
— Creio que seja a melhor hora, general. – de repente, sua voz adquiriu um tom determinado. Ele varreu os olhos brilhantes pela sala, e então retomou a fala, confiante. – Estive entre a Primeira Ordem quando boatos do despertar da força começaram. Vi com meus próprios olhos como isso abalou todo o sistema, e o quanto Kylo Ren enlouqueceu ao saber de uma garota sensitiva á esse poder.
“Hux tem um exército enorme e armas potentes, mas nada disso se compara á influência que o simples termo ‘Jedi’ exerce entre eles. Snoke teme que Rey e Luke acabem com seus planos, e fez de tudo para que ela não o encontrasse em seu exílio. Há um motivo óbvio para isso. Duvidei da Força por muito tempo, mas acho que está na hora de depositarmos nossa fé em algo superior á blasters e naves”. Neste momento ele fitou Leia, que o encarava com uma mescla de admiração e tristeza. “Podemos, e devemos, usar isso á nosso favor. Se até mesmo o inimigo acredita e estremece, por que nós não acreditaríamos?!”
Neste momento, Leia soube que Finn ganhou a confiança daquelas pessoas, enchendo-as de uma nova esperança. Um burburinho estourou pela sala, acompanhando por consentimentos animados. Ela pigarreou, e todos tornaram a se silenciar.
— Está bem. Você e Chewie podem embarcar na Millenium e partir em busca dos dois. Enquanto isso, pensaremos em alguma rota segura para buscar suprimentos, e assim que eles chegarem, montaremos um novo plano.
Houve uma concordância geral. Poe aproximou-se de Finn e lhe deu alguns tapinhas no ombro, encorajando-o em silêncio. Quando o antigo stormtrooper voltou a fitar Leia, ela lhe abriu um sorriso sincero, e seus olhos diziam algo como “obrigada por me lembrar do essencial. Eu não estou em minhas plenas faculdades mentais para liderar essa guerra sozinha”.
Entao, estava feito. Finn partiria em busca de Rey – e, se tudo desse certo, de Luke também. A batalha iria finalmente começar de verdade.
Fale com o autor