Equilibrium
26 A Guerra - Parte 2
Notas iniciais
Kylo já esperavaencontrar naves atacando Hanoon quando retornasse da desastrosa viagem. Era óbvio que a armadilha foi tramada pela rebelião, e esse seria o estopim para o começo da guerra. O que realmente o surpreendeu foi o tamanho colossal da frota permeando a órbita como uma nuvem de gafanhotos. Sua mãe pareceu ter construído um império bem debaixo do nariz da Primeira Ordem com notável maestria, mas isso de nada adiantava se não coneguisse alcançar seus inimgos. Pelo visto não contava com o escudo secundário de defesa, já que quase todo o exército ainda estava do lado de fora, impedidos de penetrar o planeta. Isso significava que ele também não conseguiria passar.
E ainda precisava suportar a luz tão familiar que o engolfava e lhe trazia lembranças da infância. Leia estava por perto.
XXX
Rey ajudou Finn a se soltar das ferragens do speedlander. Ele tossiu e tremeu, mas não parecia muito machucado.
— Vocês estão bem?
A Togruta que os ajudava se agachou ao seu lado, usando o transporte como escudo depois de ter matado pelo menos uns cinco soldados. Estava ofegante e chamuscada em algumas partes. O ex-trooper ascentiu com a cabeça e foi a Jedi quem respondeu.
— Sim. Obrigada, Ahsoka.
Olhou em volta e, no lapso desse segundo, viu apenas o caos. Os troopers da Primeira Ordem usavam toda a tecnlogia de armas que havia no arsenal para tentar conter a fúria dos rebeldes que passaram para o lado de dentro, mas ainda não era o sufciente. Havia corpos de ambos os lados pelo chão, fumaça densa e escura e uma cidade parcialmente destruída. O som de tiros de blaster, o zunido potente dos caças e os passos mecânicos dos AT-ST’s marchando contra seus amigos mergulhava o local em uma verdadeira zona de guerra. Apesar de tudo, estava esperançosa. Essa chama brilhante em seu peito que crescia e a motivava a continuar sempre em frente estava mais acesa do que nunca. Estavam em meio número, mais preparados, e só precisavam destruir o escudo reserva para ganhar aquela batalha. Ela voltou os olhos para a torre de comando, a poucos metros deles, e se pôs de pé.
– Eu vou até lá. Me deem cobertura.
Não esperou a resposta dos dois. Saltou de trás do speeder e avançou intrépida até a torre. Girou seu sabre bastão para eliminar os poucos que ficaram em seu caminho. Ouviu tiros, mas não olhou para trás.
XXX
Os minutos se arrastaram de maneira lenta e angustiante para Leia. O silêncio esmagava a tripulação, cortado apenas pelo som dos tiros das naves contra o escudo na esperança de abri-lo. Ainda não havia brechas. Sua esperança era de que os rebeldes que conseguiram passar pudessem abrir de dentro para fora. Não bastasse a pressão dos problemas, aquele vínculo natural e poderoso arrepiou os cabelos da nuca, em um sinal de Ben estava por perto. Ela buscou pelo filho no escuro do céu, mas não conseguiu vê-lo.
— Eles vão conseguir destruir os escudos, General. A senhora vai ver.
A voz de Rose quase a assustou, soando próxima e acalentadora. Ela sorriu para a menina, agradecida, e viu pelo canto do olho seu irmão de braços cruzados e corpo tenso do outro lado da cabine. Ela não precisava usar a Força para imaginar o que se passava em sua cabeça.
— Sim, nós vamos conseguir. Você –
Ela parou de falar quando, finalmente, a luz que projetava o escudo piscou, falhou e sumiu. O caminho estava livre. A comemoração da tripulação foi ensurdecedora, mas a frota só avançou quando a General deu o comando com a voz firme.
— Avancem!
XXX
Kylo foi o primeiro a avançar quando viu o escudo ceder. Sua pequena nave avançou sem problemas e pousou próximo ao hangar de cargas, evitando o fogo cruzado. Ele saltou depressa quando a portinhola finalmente se abriu, sentindo câimbra nos músculos da perna. Sem o capacete, olhou ao redor e acionou seu sabre de luz, dando passadas longas até a estrada principal, sem dar muita atenção para a chacina que acontecia ali. A cada dois passos era alvo de tiros, aos quais rebatia com a lâmina rubra como se afastasse moscas incômodas. Não tinha tempo a perder. Pensou em usar a Força para encontrá-la quando ouviu uma voz conhecida às suas costas.
— Da última vez que a vi, ela estava na Torre de Comando.
Fenrir estava mancando em sua direção depois de atirar em dois red troopers que não sabiam de sua traição. Ren apertou os lábios, ascentindo com a cabeça.
— Obrigado pela ajuda.
— Não fiz por você. – ele rebateu sem pudor. Kylo não se importou. – Deixei aquele sabre com ela.
— Sabe aonde está Snoke?
— Ainda não o vi. Provavelmente escondido naquela toca dele.
O cavaleiro lhe deu as costas para correr até Rey, não antes de ouvir o outro homem gritar.
— Vê se mata aquele desgraçado!
XXX
Rey estava tentando sair daquela Torre a uns quinze minutos. Os soldados simplesmente não paravam de vir. A cercaram na sala de comando e tentavam vencê-la pela exaustão, concentrando suas forças contra a Jedi. A garota os golpeava com destreza, saltando, bloqueando e os lançando pelos ares com o poder que emanava de seus poros; mas a técnica deles estava funcionando. Ela já havia levado um tiro de raspão no braço e uma coronhada na coxa. Havia uns 20 troopers a cercando quando ouviu gritos vindos do corredor e o chiado inigualável de golpes com sabre. Um sabre de energia desnivelada e imperfeita. Isso fez seu coração falhar uma batida, alegre demais para se conter. A fortaleceu o suficiente para derrotar meia dúzia de soldados de uma vez com um empurrão da Força, as armaduras quicando pelas paredes como bolas de gude. Quando Kylo surgiu na sala, feroz e determinado, os dois lutaram lado a lado com uma sincronia semelhante a uma dança. Baixo, cima, lado esquerdo e direito – eles nem precisavam pensar, apenas seguiam seus instintos. A Jedi usou as costas dele como apoio para chutar o ultimo soldado e lhe perfurar o peito com seu sabre-bastão.
A fumaça, o cheiro de carne queimada e a luz oscilante não impediu que a energia de Kylo e Rey se misturasse e tornasse aquele espaço pequeno demais para os dois. Quando se olharam nos olhos, entraram naquele universo paralelo que só pertence aos casais apaixonados, tornando todo o resto invisível e descolorido. A Jedi sentiu os olhos marejarem – a tensão pelo que ela lhe disse antes de Kylo partir recaiu sobre seus ombros em uma tonelada de culpa. Mas ela era orgulhosa. E custou longos segundos para finalmente decidir falar.
— Você está sangrando.
— Não é nada demais. – o timbre grave da sua voz lhe trouxe certo conforto, mas ela não admitiu isso. – Você está bem?
— Sim.
— O que houve na missão?
— Era uma armadilha. Só restaram doze sobreviventes. — Rey arregalou os olhos, estava prestes a lhe lançar uma enxurrada de perguntas, mas desistiu quando ele continuou. – Eu estou bem. Precisamos seguir com o plano.
Ela encurtou a distância entre os dois com um passo, visivelmente sem jeito. O tom dele não parecia rude ou frio, mas algo em seus olhos denotava mágoa.
— Olha, sobre o que eu te disse antes de você ir embora...
— Não precisa se desculpar.
— Ok. Bom, obrigada por poupar a vida do Finn, de qualquer forma. Não havia a necessidade disso para o plano e você fez mesmo assim.
— Só fiz por sua causa. – ele fez questão de frisar, dando de ombros.
— Eu sei. – ela deu mais um passo. Tirou o sabre negro de dentro das vestes e lhe entregou. – Aqui está. Prefiro que fique com você.
Ele não questionou. Aquele também era um sinal não verbal de confiança. Apanhou o objetivo e guardou consigo, perdido nas íris cor de avelã da Jedi. Rey murmurou algo sobre irem em busca de Snoke e se adiantou para a porta, mas Kylo decidiu pôr seu orgulho de lado e segurou seu braço. Quando a garota se virou, confusa, o cavaleiro segurou sua face com as mãos e a beijou. Era lento, intenso e apaixonado. A garota retribuiu e se desmanchou como areia, esquecendo do perigo que os aguardava pelo tempo em que esteve em seus braços.
Quando se separaram, ela levou um tempo para abrir os olhos. Queria guardar esse momento com todos os detalhes em sua mente. O cheiro dele, o calor do seu corpo, os lábios quentes e úmidos do beijo. Quando finalmente o encarou, ele parecia quase devoto. Sussurrou as palavras seguintes enquanto acariciava seu rosto com o polegar.
— Espero que um dia possa me perdoar por tudo o que fiz.
— Eu já perdoei .- ela sorriu fracamente. – E a resistência também fará o mesmo quando isso tudo acabar.
Ele se permitiu dar uma risadinha pelo nariz, em um dos raros sorrisos genuínos sem resquícios de sarcasmo.
— Gosto da sua ingenuidade. Não deixe ninguém te mudar.
Ela se afastou finalmente, um tanto aborrecida.
— Está falando como se fosse uma despedida.
Ele deu de ombros.
— Estamos no meio de uma guerra. Eu só quero lembrar de bons momentos antes de irmos até o ápice ela, por precaução.
— Então vamos logo terminar com isso.
XXX
Foi Luke quem viu Kylo Ren e Rey atravessarem a avenida principal em um speeder em direção à maior e mais luxuosa construção de Hanoon. Ele se distraiu e quase levou um tiro de um stormtrooper se não fosse o aviso desesperado de RD-D2. O robô apitou várias vezes como se lhe desse uma bronca por isso, mas Skywalker o ignorava. Sentia alívio e culpa ao mesmo tempo, sabendo que os dois pareciam estar trabalhando juntos – ao menos a garota não havia desistido de Ben Solo. Mas não havia muito tempo para analisar isso agora, seu foco pertencia à batalha. As ameaças aéreas já haviam sido todas eliminadas graças ao esquadrão de Poe, e as tropas em terra estava perto de terminar seu trabalho, focando sua atenção no enorme . Dessa vez, eles fariam tudo certo. O Jedi sentia que podia morrer em paz quando soubesse que haviam ganhado a guerra, e isso parecia muito próximo de acontecer.
Leia conseguiu convencer o irmão a também participar da luta, mas ele impôs a condição de que ela seria escoltada por pelo menos seis dos melhores soldados da resistência, Chewbacca entre eles. C3P-O insistiu que queria continuar a lhe fazer companhia e, para não decepcionar o robô tagalera, a general concordou – contanto que ele parasse de falar. Ela avançava devagar, mas com grandes reflexos e uma mira impecável. Alieníginas de todas as espécies lutavam lado a lado em busca da liberdade, e essa história seria contada por gerações como forma de prevenir o universo de cair nas mãos erradas novamente.
XXX
Os redtroopers estavam em frente aos grandes portões para proteger o Supremo Líder. Ao menos duas dúzias deles cercavam o local com seus blasters apontados. No momento em que Kylo e Rey desceram do speeder, lado a lado e de sabres ligados, apenas quatro deles atiraram – o laser ricocheteando e voltando contra eles próprios no mesmo instante. Ninguém mais ofereceu resistência aos dois, entretanto. Eles ainda tinham algum juízo.
Kylo já havia perdido a conta de quantas vezes havia passado por aqueles corredores. Na maioria delas, machucado e desgastado do treinamento de Snoke. Em quase todas, humilhado de alguma forma. Em seu íntimo, ele desejava que essa fosse a última vez que precisasse percorrer aquele labirinto infernal. Pelo canto do olho, Rey marchava com firmeza ao seu lado. Isso lhe rendia a força que lhe faltava para acabar de vez com aquilo. Estava confiante, mas só se tranquilizaria quando visse o corpo sem vida de Snoke aos seus pés.
Quando chegaram ao portal do grande salão, a Jedi estranhou a ausência dos guardas reais.
— Ele sabe que passaríamos por eles de qualquer forma. – o cavaleiro comentou, adivinhando seus pensamentos. — Me parece que ele realmente quer que cheguemos até ele.
— Eu não estou sentindo sua presença. Acha que fugiu ?
— Algo me diz que não.
Rey empurrou as portas com força e fez posição de ataque assim que entrou o salão. Estava pronta para avançar, mas parou quando não o viu em lugar algum, como previsto. Kylo se aproximou devagar e analisou o ambiente.
— Ele deve estar no subsolo.
— Subsolo?
— É um local privado, só ele tem acesso. – apontou para um ponto específico da parede e a garota chutou que seria uma especie de porta secreta. — Eu nunca entrei lá.
— Então ou ele é um covarde, ou isso é uma armadilha.
— Eu diria que são as duas coisas. Vamos.
Eles tiveram de usar a Força em conjunto para abrir a passagem escondida. Um bloco da parede deslizou para o lado quando espalmaram as mãos no ar e se concentraram, revelando uma entrada de paredes rochosas. Avançaram cautelosos, o brilho branco e vermelho dos sabres lançando luzes bruxeleantes contra a escuridão. Andaram por pelo menos cinco minutos em silêncio, ouvindo apenas o som da própria respiração e dos passos contra o piso. Alcançaram um hall espaçoso com tochas e runas antigas na porta de madeira. Desta vez, os dois sentiram aquela energia pesada do ancião esmagando suas costelas. Trocaram um breve olhar determinado, empurraram a porta com brusquidão e se lançaram para dentro, em posição de ataque.
Levou alguns segundos para se acostumarem com a luz forte e incandescente do que parecia ser um grande hospital ou laboratório. Tudo era muito branco e limpo, com grandes colunas sustentando a estrutura, macas, prateleiras com livros e instrumentos cirurgícos. Havia um computador no centro e uma longa mesa com tubos de ensaio, líquidos coloridos e fumaça branca. Muitas páginas com rabiscos por todos os lados e maciças “gaiolas” de vidro com água borbulhante dentro. A Jedi pensou ter visto a sombra de alguem flutuando la dentro, mas não dava para ter certeza. No final desse espaço enorme, ao longo do corredor, Snoke injetava um líquido âmbar no braço através de uma seringa. Esse cenário completo conseguiu desestabilizar a garota por um momento, sentindo muito mais medo que outrora.
— Olá, crianças. Estava a sua espera. Aproximem-se.
Kylo Ren foi o primeiro a se mover, seguido de perto por Rey. Eles avançaram devagar por entre toda essa quinquilharia com o cenho franzido, atentos para qualquer movimentação estranha. Pareciam estar a sós. Quando pararam a uma distância segura, observaram o ser misterioso em frente a uma câmara de vidro com uma lâmina de aço no meio, ligada à tubos grossos de borracha. Os recepcionou com um sorriso macabro e uma mãos postas atrás do corpo.
— Lealdade é algo difícil de conquistar hoje em dia, não concorda? – ele se dirigiu a Kylo, que apesar de tenso, não movia um músculo. – Nós cuidamos e nutrimos por toda uma vida, damos o nosso melhor, mas a nossa natureza é a de ingratidão. Nada nunca é bom o suficiente. Sempre queremos mais, e mais...
— Você sabia da minha traição a quanto tempo?
— Desde que a Jedi chegou. O que é uma pena, já que você poderia ter sido grandioso, Ben Solo. – suas palavras saíam susurradas como veneno. — Você jogou fora todo o tempo, dedicação e treinamento que eu lhe dei esses anos. Você foi ingrato.
— Desista. – ele o cortou, tentando ignorar os comentários de seu mestre. — Os rebeldes estão lá em cima ganhando a guerra. Sua tropa foi dizimada, a Primeira Ordem acabou. Nem mesmo Hux está mais entre nós para ser seu cachorrinho.
— Você quer dizer a sua mãe que te abandonou naquela academia e o seu tio que tentou te matar? O que acha que vai acontecer se me vencer, acha que vão dar as mãos e ser uma família feliz novamente? Além do mais, eu sei o que você quer. Bem no seu íntimo, eu sei que você ainda sente fome de vingança e quer ter o poder de controlar as pessoas que te maltrataram. Já contou isso para a amiguinha Jedi?
— Ele está mentindo. – ele se dirigiu à Rey, cuja respiração ficava cada vez mais ofegante. – É só o que fez a vida toda.
— Oh, você quer me dar lição de moral! Isso sim é engraçado. Matou o próprio pai em busca de poder e reconhecimento, e acha que é diferente de mim!
— Fiz porque você me manipulou por todos esses anos! Fez lavagem cerebral em uma criança, usou meu medo contra mim. – ele tentou maner a voz firme, mas Rey identificou ali certo tremor. Queria segurar sua mão, mas sabia que ele não queria ser visto como fraco naquele momento. — Você não passa de um covarde com medo da morte.
Snoke riu.
— Bom, são pontos de vista. Minha influência te tornou mais forte, te deu um rumo. Você queria ser igual ao seu avô, e eu tentei te transformar nele. Mas não há como mudar as pessoas. – A Jedi podia sentir sua raiva crescendo e nublando a visão de Kylo. Ela queria alertá-lo e até tentou apaziguar sua mente, mas foi expulsa no mesmo instante. Se ele perdesse o controle, tudo estaria perdido. — Você sempre foi, e sempre vai ser, aquele menino abandonado pelos pais , fraco e sozinho.
— Está enganado! – a garota tentou intervir, mas o Supremo Líder a ignorou.
— Você nunca será amado de verdade. E nunca será igual ao seu avô.
Ela previu que algo aconteceria, mas não imaginou exatamente aquilo. Viu a mão de Kylo se erguer no ar e lançar uma espécie de energia elétrica, azul e branca, atingindo o inimigo em cheio. Ele estremeceu, curvou suas costas para trás e seu grito de dor ecoou estridente pelo laboratório. O cavaleiro parecia cego ao que estava acontecendo ao seu redor, toda a sua concentração voltada para matar o ser que transformou sua vida em um inferno. No entanto, a garota viu com horror os berros agonizantes se transformarando aos poucos em uma risada medonha, como se gostasse da dor que aquilo provocava. Isso estava bem longe do plano que eles reparassam durante meses em segredo. Vendo que ele parecia aos poucos tomar controle dos próprios músculos sobre aquela carga insana de energia, a Jedi puxou o sabre negro das vestes do cavaleiro, o acionou e avançou contra o Supremo Líder. Aquele era o momento. Apenas um golpe, e estariam livres para sempre.
Por um momento, viu a feição surpresa em seu rosto deformado. Mas não durou mais que um segundo. O Supremo Líder teve reflexo suficiente para saltar para trás e sentir apenas a ponta da lâmina cortar seu antebraço. A ferida que se abriu ali começou a sangrar abundantemente e pareceu putrefar pela região de maneira anormal. Isso foi o que bastou para ele se enfurecer. Kylo não aguentou por muito mais tempo e, com um gemido cansado, parou de lançar os raios. Snoke se aproveitou disso e congelou os dois no ar, como se fossem vítimas de carbonita.
— Basta! Você vai pagar pelos seus crimes, Ben Solo! – com um movimento violento, o jogou para dentro da câmara de vidro, trancando-o ali. Ele chutou, socou,usou a Força, tentou aproximar seu sabre, mas nada deu certo. A garota continuou prisioneira dos próprios músculos, sendo obrigada a apenas contemplar o que se passava a sua frente.
— É chegada a hora. – o ancião continuou, acionando algo no computador e ele mesmo entrando na outra parte da câmara. – Anos de estudo e, finalmente, a recompensa.
O cavaleiro continuou lutando para se libertar, sem sucesso. Rey queria gritar, mas sua voz não saiu. Uma fumaça branca saiu dos tubos ligados à prisão de vidro e uma corrente elétrica começou a passar pela lâmina de aço que separava Snoke de Kylo Ren. Ofegante, o cavaleiro afastou o cabelo molhado de suor da testa e franziu os olhos para o que acontecia ao seu redor.
— Qual é seu verdadeiro nome? – ele perguntou, parecendo assustado de verdade.
— Eu tenho muitos nomes, garoto. Já fui Darth Plagueis, Palpatine, Darth Sidious... Agora você pode me chamar de deus.
— Ben!
Rey gritou com toda a sua força, libertando-se do aprisionamento de Snoke sobre seu corpo, e correu até o painel de controle. Apertou todos os botões, socou o computador, se desesperou quando viu que o sistema exigia uma senha. O barulho que a câmara fazia era semelhante a um motor entrando em funcionamento, cada vez mais alto, cada vez pior. As luzes piscaram. Ela chamou seu sabre com a Força, as mãos trêmulas pelo pânico quase o derrubaram, e sem saber o que fazer, enfiou a lâmina ali, destruindo metade do aparelho. Nada aconteceu. A fumaça branca engolfou os dois na câmara, ela avançou contra o vidro e o golpeou diversas vezes, mas nada surtia resultado. O barulho começou a diminuir, a fumaça a assentar. Viu a sombra das duas pessoas ali no chão, parecendo sem vida. Ela não sabia o que estava acontecendo, rodeava a câmara em busca de algum ponto fraco para abri-la, até que a porta simplesmente deslizou por conta própria. A garota correu para onde Ben estava e se ajoelhou ao seu lado, apertando seu braço com cuidado, tirando os fios escuros do seu rosto.
— Ben, por favor, responde... – ela colocou o dedo em sua jugular, respirando aliviada quando sentiu batimentos cardíacos. Fracos, mas presentes. – Acorda, temos que –
Ela levou um susto quando o cavaleiro puxou o ar de repente, tossindo e engasgando como se tivesse mergulhado e parado de respirar por alguns minutos. Ele se sentou, exasperado, e a Jedi tentou acalmá-lo segurando sua mão.
— Calma, ta tudo bem, eu estou aqui...
Ele virou o rosto para ela, que já sorria aliviada, mas seu coração escapou uma batida quando o fitou nos olhos. Havia algo terrivelmente errado. No lugar das piscinas escuras de suas íris, um azul celeste havia tomado seu lugar. Confusa e em choque, a garota não conseguiu falar nada. Soltou sua mão devagar e sentiu um calafrio subir pela espinha quando Ben lhe deu um sorriso nefasto.
— Oi, sucateira.
Era a voz de Ben. O corpo dele. Mas não era ele quem estava ali. Ela sentiu o chão sob seus pés se derreter, mas ainda assim reuniu forças e se levantou em um salto, colando as costas no vidro, tateando pela saída. O cavaleiro se levantou e, antes que pudesse reagir, sentiu uma pressão invisível apertar sua garganta e sufocá-la. Kylo – ou Snoke, ou seja lá quem estivesse lá – ergueu a mão em forme de C e se aproximou devagar, deleitando-se com o sofrimento da Jedi.
— Você tem duas opções, menina. Ou sai daqui comigo e luta ao meu lado, ou morre. É sua escolha.
Afrouxou o aperto e a viu cair no chão quando suas pernas cederam em fraqueza. Ela tossiu, estremeceu, sentiu os olhos marejarem. O cabelo caia sobre o rosto e escondia sua feição a beira do desespero. A sua frente, via as botas escuras do seu antigo amante. Mas não ia chorar. Não fazia ideia do que tinha acontecido á alma de Ben, mas não podia quebrar agora. Enquanto estivesse viva, havia esperança. Apertou os olhos, respirou duas ou três vezes. Seu inimigo aguardava paciente. Ela levantou o rosto, que agora adquiria uma feição neutra. Fitou os olhos claros e frios como gelo, tornando seu Ben uma espécie de aberração, e apesar do ódio crescendo em seu peito, ela reuniu toda a convicção que tinha no peito e sua voz saiu surpreendetemente firme.
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