Entre o rio
20 Sensações
Notas iniciais
Abandonei minha vida na pulsante São Paulo pouco depois que meu casamento terminou. De uma maneira que tento esquecer.
A oferta de trabalho numa cidadezinha no meio do nada veio na hora certa. Enxerguei nela um recomeço e a oportunidade de me distanciar. O cargo de delegado estava vago e eu necessitava de exílio.
Às pressas, providenciei minha mudança e peguei a estrada, deixando meu passado tumultuado para trás.
Não esperava sofrer o acidente. Tampouco conhecer alguém por causa dele. Muito menos que fosse me sentir tão diferente desde então.
O rio mexeu comigo. Angela mexe ainda mais. Sinto-me inexplicavelmente conectado aos dois, como se ambos significassem algo maior.
Sei que não faz sentido, mas essa sensação tem se intensificado a cada dia que esbarro com Angela pelas ruas de Boa Esperança. E a cada sonho maluco que tenho ora com ela, ora com o rio, ora com cenas confusas que não consigo enxergar claramente.
De repente, percebo que o jantar puxativo que preparei não tem o menor sabor em minha boca. Estou inquieto demais para conseguir saboreá-lo de verdade.
Deitado no tapete próximo da porta, Besante me encara com seus olhos castanhos.
— Você está certo, amigão. Eu preciso investigar.
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