Entre o céu e o inferno
10 O destino dos Santos
Notas iniciais
No ano 2.020, os anjos enviaram três bilhões de espíritos da Terra para outros mundos, num trabalho muito mais insano do que o do ano “0”, depois da morte de Jesus.
Afinal, os demônios dos Avernos perderam duas “grandes guerras mundiais”, e seus projetos para acabar com a saúde do planeta não deram certo. Numa guerra invisível, Aurora matara, além de Lúcifer, a Belfegor, Abadon, Mamon, e a toda a plana maior dos Infernos, só com o pensamento. E Ador, Osiris e os Santos conseguiram implantar governos de luz em todos os cantos da Terra. Lideraram revoluções e venceram os inimigos para sempre.
Conforme o último senso dos anjos, havia 70% de pessoas boas, pois, os demônios não passavam de 30%, uns mais ruins do que outros. Com essa estatística, conforme os registros carmicos, a Terra saia definitivamente da classificação de “Mundo Inferior” e entrava para os livros como “Planeta em transição”. Satã, e sua turma dos Infernos, foram expatriados de vez. Todas as cavernas do mal foram esvaziadas, e os capetas foram levados para encarnar em outro planeta quais trogloditas cabeludos.
Em seguida, como reconhecimento, enviaram os Santos para dimensões maravilhosas. Já Aurora e Ador receberam condecoração máxima, e promoção para o centro do Universo junto com o filho Osíris.
E os destinos da Terra ficaram em mãos de Salina e Belzebu, e de gênios como Gioconda e Leonardo, e de todos os homens de preto. Gênios maravilhosos, que iniciariam uma nova era de paz, amor e sabedoria. Dos homens condenados que chegaram um dia junto com Ador, metade partiu com Satã, metade ficou na Terra, na espera do fim do castigo de 200.000 anos.
Remígio, Adelaide, e todos os Santos que lutaram contra o exército das trevas, os quais foram premiados com a remoção para um paraíso celestial bem longe da Via Láctea, depois de chegar ao destino viram que esse planeta era bem diferente da cultura terrestre. Era uma civilização onde os homens viviam em meio de uma selva cheia de jardins coloridos, rios cristalinos, caminhos de grama miúda, e quase nus. Havia aqueles que construíam casas no cimo de árvores. Outros moravam em malocas de palhas e barro, ou numa tenda de tecidos de linhagem, e tinha aqueles que deambulavam pelo mundo em busca de aventuras, dormindo ao relento, pois nenhum animal os agredia. Eram vagabundos civilizados. Preguiçosos de profissão. Inúteis eternos, pois ninguém ligava para isso. Não era crime não trabalhar, aliás nesse mundo não existia afazer algum.
De tempos em tempos, a civilização vinha visitá-los. Naves espaciais gigantescas flutuavam no ar, e todos os jovens eram levados para estudar, nas 5 Luas desse planeta. Eram nessas Luas onde se aprendia a ler, escrever, fazer contas matemáticas, e seguir carreira superior. Quem se apaixonava pelas ciências, ficava vivendo nas cidades lunares fazendo pesquisas, construindo edifícios, ou naves, ou curando doentes. Quem desprezava o saber, regressava ao planeta e retomava a rotina, feliz de estar mais uma vez com a família e os amigos, sem obrigação alguma, além de desfrutar do bom viver.
E todos os Santos encarnaram um dia. Nasceram de pais amorosos, que os cuidaram desde bebezinhos.
Gotardo, Abílio, Remígio, Dalmácio, Benildo, Marçal, Caemon, e Cassiano, amaram esse mundo, pois para eles tudo isso era o Paraíso. Eles aprenderam, com os irmãos mais velhos, a fazer corridas entre as trilhas do mato, subir nos cavalos e galopar na beira dos rios, escalar montanhas íngremes com cordas, num mundo onde nenhum bicho atacava os homens. Sequer as pulgas, ou piolhos, ou mosquitinhos. Não conseguiam os pungir, pois a pele desta vez era a prova contra picadas. Duríssima. Também nasceram com ossos de metal. Fortíssimos. Ninguém que caía de uma montanha quebrava o pescoço, ou uma perna. E se acontecesse, os médicos da Lua faziam cirurgia de ressurreição. Podia-se morrer durante toda uma vida, quantas vezes se quisesse.
Mas, para as Santas da Terra, como Demétria, Adelaide, Rosalina, Gaudência, e Calínica nascer lá foi um terror desde a infância. Elas viviam assustadas, agarradas nas saias das mães, ou no colo dos pais, pois as pessoas corriam tão velozes, que mais pareciam gazelas. Pulavam tão alto, que conseguiam puxar cocos das palmeiras num salto.
Mas o grande desafio dos terráqueos chegou durante a adolescência.
Gotardo e Rosalina começaram a namorar desde a infância. Beijavam-se e andavam abraçados em todo lugar, e nunca, jamais, um adulto lhes impediu o chamego. Quando perderam a virgindade, escondidos no matagal, sequer a mãe de Rosalina deu bronca. Ela só lhe disse: — Seu namorado está estéril, então pode fazer amor sem preocupação, pois só vai ter filhos depois do casamento. Seja feliz, minha filha, pois encontrar o amor é uma bênção.
Mas se Rosalina vivia imune a paqueras, pois tinha seu homem, as outras terráqueas viviam fugindo para dentro de casa, assustadas, pois os machos desse mundo jamais cortejavam uma mulher solitária. As raptavam em meio da noite, ou as pegavam na corrida, subiam-nas num cavalo, adentravam no mato e as seduziam sem pena. E isso era algo tão natural, tão próprio dos homens dessa civilização superior que não adiantavam lágrimas e choros de guria nem de rapaz. As dores do amor faziam parte do amadurecimento e da formação do carácter naquele mundo.
Mas se as Santas da Terra viviam entocadas em casa com medo do assédio dos rapazes, os homens Santos sequer sabiam o que fazer enquanto a namoro. Nessa sociedade, não raptar uma mulher era sinal de fraqueza. Não se era “macho”. Afinal, os homens nem sempre se davam bem. Havia as fêmeas que se defendiam com patadas, socos, arranhadas, ou tinham um cão de estimação. Um animalzinho que caía com os dentes nas nádegas de qualquer paquerador indesejado. E em conversas só de machos, Cassiano soube que também havia fêmeas que se transformavam em “ovos”. Abraçavam-se a si mesmas, joelhos, cabeça, como um ovo. Não havia o que fazer. Como as beijar ou acariciar.
Em frente ao temor dos rapazes, os adultos se divertiam com todas as histórias. Só davam conselhos aos filhos quando os jovens eram tímidos demais. Quando eles envelheciam olhando para as moças de longe, sofrendo com dor de cotovelo e depressão. E se os conselhos paternos não solucionavam, telepaticamente pediam para os médicos da Lua para cuidar desses homens, com tratamento psicológico.
Mas Cassiano e os Santos da Terra haviam enfrentado os homens das trevas. Abusar de uma mulher não podia ser tão terrível assim. E como quem não quer nada, se deambulava de aldeia em aldeia, em busca de mulher solteira, solitária, e sem nenhum cachorrinho ao lado.
E um dia, Cassiano encontrou Demétria como num sonho.
Demétria e Adelaide estavam abraçadas, cochichando entre elas, sentadas no chão, cabeça baixa, cabelos além das nádegas, roupa mínima, flores na cabeça, olhando em redor como quem tenta descobrir o próprio capeta encarnado. E ele caiu na gargalhada. Sentou-se no chão empoeirado, ficou seminu, mostrando toda a beleza de seu tórax musculoso, comeu uma maçã, bebeu água de coco, sem parar de olhá-las. Logo estava ao seu lado Remígio que olhava mais além a Galínica, como hipnotizado. E por último, sentou Benildo, que estava examinando as pernas da Adelaide. Depois chegou junto todo mundo, Dalmácio, Abílio, Marçal, Caemon, que para tirar a timidez do corpo, começaram a beber suco de uvas fermentadas.
Assim que a festa em redor de uma fogueira começou, as Santas da Terra correram para se esconder. Outras solteiras mais experientes puxaram o sutiã, rebolaram, pois, provocar os homens lindos também se fazia nesse mundo. Uma mulher começou a dançar em redor de Abílio, o homem mais belo que havia chegado nesses cantos, provocando-o, enquanto outros casais pulavam como índios, gritavam, beijavam-se, bebiam, riam, pois, a vida nesse planeta selvagem era apenas isso, comida e namoro entre homem e mulher. Só. Um paraíso. A vida que todo homem sonha encontrar um dia. Em pouco tempo, Dalmácio, Benildo, e todos os homens da Terra se deixavam seduzir, e ficavam rebolando ao som dos tambores, bebendo e rindo, pois, a vida estava sendo maravilhosa.
Mas Cassiano saiu dali de fininho, pois era a Demétria sua escolhida, e mais ninguém. E começou a esperar por ela. Escondeu-se na mata espessa, e quando ela saiu de casa cedinho, andando nas pontas dos pés, a caminho do lago, ele sequer respirou. Rastejou como cobra entre o matagal, e viu a coisa mais arrebatadora que vira na vida. Ela estava entrando nas águas, a caminho de uma cachoeira maravilhosa. A roupa molhada deixava notar toda a exuberância de um corpo perfeito.
Demétria nadou, depois ficou sentindo cair a água sobre ela, abriu os olhos, e viu o homem mais esplêndido desse mundo, fitando-a, tonto, sem saber o que fazer. E Demétria lembrou as sábias palavras de sua mãe: — Quando o homem de seus sonhos aparecer, pare de fugir. E dê para ele a virgindade, se ele pedir. Exclua, para sempre, a palavra não de sua boca. E deixe que ele lhe ensine tudo.
Mas Demétria sabia também que se fazer de difícil, fazia parte do jogo.
Sentou com as pernas abraçadas, e falou um: — oi -. Depois o sentiu chegando junto, e dando-lhe um beijo no rosto. A seguir foi na orelha, pescoço, enquanto as mãos dele desciam a palpar seu corpo. E pouco a pouco, Demétria seguiu os conselhos de sua mãe ao pé da letra. Amar era sublime, e ser desejada por um homem perfeito era sem dúvida um prêmio, por algo muito bom que ela fizera em vidas passadas. Só podia ser.
Cansados de fazer amor, cochilaram sobre a areia, e quando acordaram Cassiano falou-lhe:
— Vamos casar? Hoje?
— Mas a gente nem se conhece...
— Rosalina falou isso para Gotardo, depois do primeiro beijo. Só não casaram, pois ela ainda não menstrua...
— Mas eu já menstruo... E minha resposta é sim...
— Mas vai contar para todos que eu a estuprei como um cão. Com muita dor.
— Amor... Neste mundo não se pode mentir... São todos telepáticos...
E começaram a gargalhar.
Depois subiram num cavalo, e Cassiano se perdeu ao galope pelo mato com sua amada, à procura de um casamenteiro. Um sujeito que os faria jurar em frente aos amigos que nunca olhariam para outro homem, nem para outra mulher, e que seriam para sempre uma pessoa só. Um ser completo, metade homem e metade mulher.
Afinal, essa sociedade era esquisita. Podia-se deflorar uma mulher solteira. Mas cobiçar a mulher casada com outro homem era tão grave, que a pena por isso era a extradição para um mundo inferior. Um lugar como a Terra.
E nenhum Santo, que nasceu nesse planeta, desejava regressar.
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