Entre o céu e o inferno
11 Catástrofe no ano 8.953
Notas iniciais
Aqui na Terra, no ano de 8.953, um grupo de cientistas estava sendo julgado por crime contra a humanidade.
O primeiro engenheiro, que subiu para o palanque dos réus, foi Belzebu. Ele escutou como num pesadelo as palavras: — Assassino destruidor da vida humana- e riu com ele mesmo. Ele havia vivido na terra 1.204.000 anos, havia se redimido lutando a favor da justiça social, e agora por causa de um erro de cálculo, estava condenado, como nunca antes o fosse. Ele era apenas um criador de robôs. De máquinas que faziam o trabalho pesado na sociedade, e davam conforto às famílias.
Só que o último achado havia ocasionado eventos catastróficos.
Belzebu, na frente de sua equipe de gênios, tinha desenhado e construído um robô para desintegrar edifícios velhos, para derrubar árvores do mato, para remover rochas grandes, com capacidade de 001 megawatt. Mas, Belzebu tinha escrito o número 100, em lugar do número 001. E ninguém, mais ninguém de sua equipe descobriu a falha. Ou seja, um número pulara de lugar, mudando a vida dele e seus gênios. Os robôs destruíram 20 cidades completas. Mataram 5.000 pessoas nos desmoronamentos, incendiaram 40 bosques de araucárias milenares, haviam poluído o ar com a fumaça e o fogo, e para destruir os robôs tiveram que usar “armas de museus”. Bazucas. Tanques. Morteiros. Aviões de combates.
Salina, entre o povo ouvinte, sentada ao lado de seu filho Antônio, quando escutou o veredito “expatriado”, não derrubou sequer uma lágrima. Sentiu apenas que seu peito se partia em dois. Antônio, ao contrário, chorou por ambos. Ele estava apenas com 17 anos. Como é que ia viver, sem seu pai? E se abraçou em Salina, aos berros.
Salina saiu com ele fora desse Fórum, enquanto mais um condenado enfrentava os juízes. Sentaram nos jardins externos, e quando Antônio estava mais calmo, ela falou-lhe:
— Sinto muito, meu amor... Mas eu vou com ele... Você vai ter que continuar sua vida, com seus avós...
Antônio parou o drama de vez.
— Mas... Isso é impossível... No que é, que você está pensando, mãe?
— Que você vai me ajudar a fazer isso... Você é um ótimo hipnotizador... Vai ter que hipnotizar os juízes... Olhe bem para a Gioconda, ela não se parece comigo? Ah? Leonardo não vai suportar a partida dela... Eu vou trocar de lugar com ela na hora de subir nas naves... Vai ter uma baita confusão de famílias chorando, berrando, e isso vai distrair os juízes...
— Hum... O cabeludo do Sérgio... Acha que com uma peruca como a dele, eu poderia ir junto?
— Seu bandido, você está de olho numa condenada... São todas mais velhas do que você, sabia? Quer mesmo fazer isso?
— Eu não vou ser feliz sem vocês! Impossível! E o velho vai precisar de mim...
Belzebu entrou na cela dos condenados indiferente. O desterro num mundo primitivo não era tão ruim assim. Sua equipe de inventores levantava uma cidade, num piscar de olhos, em qualquer lugar do Universo. Mas, como é que ia viver sem Salina nem Antônio? Nunca iria conhecer seus netinhos. Escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar. Afinal, todos os homens sofriam tanto quanto ele. Era uma dor sem fim. E Sérgio, noivo de Carmen, com data marcada para o casório, estava derrubado pela dor. Chorava como um bebezinho.
Nos dias seguintes, a Terra viveu os dias mais tristes desse século.
Metade do mundo chorava pela morte das pessoas, nos desastres com os robôs. Mas, já outros choravam pelos que partiam. As maiores cabeças do planeta haviam cometido um pequeno erro. E abandonariam a Terra, numa nave interespacial, sem nada além das roupas do corpo. Deixavam para trás suas famílias, pois as leis do futuro eram rigorosas. Um ataque à natureza era punido com rigor. E matar semelhante era algo que não ocorria desde o século XXI.
Enquanto isso, Salina e Antônio tiveram um trabalho danado.
Junto com Leonardo e Carmen, planejaram essa troca minuciosamente. Afinal, eles teriam que desaparecer também, com Gioconda e Sérgio e mudar os nomes. Esconder-se-iam por enquanto numa ilha. Providenciaram para a fuga um avião, provisões, e teriam que ajudar Salina e Antônio no dia dessa viagem. Examinaram o mapa do edifício onde estavam os condenados e concluíram que o melhor lugar para se esconder eram os banheiros do Fórum. Salina e Antônio deviam fazer isso durante a noite. Assim que os condenados caminhassem pelos corredores, teriam que sair dos banheiros, empurrarem Gioconda e Sérgio para fora, entrar na fila, e substituí-los. Ia ter gente em redor, fazendo escândalo. Ia ser fácil. Costuraram roupas de presidiários, compraram perucas, e esperaram pelo grande dia.
E finalmente, eles partiram.
Assim que os condenados subiam nas naves, um raio de luz os paralisava. Depois eram carregados por robôs para uma câmara fria, e encostados à parede. Quando o último condenado subiu, a nave fechou as portas, deixando embaixo centenas de pessoas aos berros. Ninguém percebeu que quatro pessoas saíram de fininho, com uma capa com capuz, em direção a uma nave doméstica, e desapareceram com rumo desconhecido. Leonardo mal conseguia pilotar, pois Gioconda chorava abraçada ao seu pescoço, enquanto atrás deles dois noivos beijavam-se, sem parar.
Após 500 anos de viagem entre as estrelas, a nave dos condenados finalmente chegou ao seu destino. Os robôs deixaram cair a carga, num planeta relativamente perto da Terra, e regressaram imediatamente. Ficaram estendidos no chão, em meio de uma selva exuberante, 90 mulheres e 90 homens, dormindo, descongelando, acordando de uma hibernação longa.
O primeiro a recuperar a memória foi Antônio.
Ele abriu os olhos numa selva tropical quente, fumarenta, e tirou as roupas, ficou só de sunga, pois o calor era de matar. E como não viu ninguém, começou a percorrer o mato aos gritos.
Belzebu fez o mesmo. Despertou, ficou de cuecas, caminhou, respirou fundo, pois o ar tinha tanto oxigênio, que parecia ter cheiro. Delicioso. Examinou a terra, riquíssima, cheia de componentes químicos. Cheirou-a, sentiu o aroma do ouro, da prata, das pedras preciosas por ali perto, na verdade estava um homem rico. Tudo isso era dele. Imaginou fundindo metal para fazer as bases de uma construção, desenhou na terra, fez cálculos, enquanto a imagem da família chegava a enevoar seus pensamentos, atormentar sua alma, e deixá-lo louco de saudades.
O primeiro grito que saiu de sua garganta foi de Antônio, depois de Salina, mais tarde eram berros, como alaridos de lobo em noite de Lua cheia. E começou a bater a cabeça contra o chão. Tinha vezes que sentia os gritos de “PAAAIIII” no ar. Estava tão desesperado que começava a ouvir a voz de seu filho. Sentou tonto no chão, sem atinar com nada, e viu desde longe Sérgio, seu melhor amigo, acenando para ele. Estranho! Ele pulava e ria, gargalhava, e nada de lágrimas pela sua noiva. Com certeza havia enlouquecido de vez. Fechou os olhos, e sentiu algo estranho. Perfume de mulher. Uma voz suave. Com certeza era de Gioconda. Coitadinha. Abriu os olhos para dar consolo, e os fechou. Não! Estava mesmo endoidando. Gioconda era Salina. Sérgio era Antônio. Seus olhos o estavam torturando. Sua mente estava toda louca.
E escutou uma voz:
— Amor... Somos nós... Vamos, abra os olhos... Você acha que ia deixar você para outra? Pirou?
— Pai, sou eu... Sérgio ficou na Terra com a Carmen...
E Antônio puxou a cabeleira, mostrando seus cabelos dourados e encaracolados, rindo, gargalhando, pois, Belzebu não sabia se chorava, ou ria, pois de sua boca não saía nada. Mal conseguia respirar.
E caiu para trás, pois Antônio e Salina pularam por cima dele, numa farra sem fim. Belzebu entre beijos e abraços falava:
— Malucos... Graças às estrelas, que eu tenho uma família doida...
Quando Belzebu e Salina começaram seus beijos mais longos, Antônio os deixou a sós.
E adentrou no mato gritando, porque todos os engenheiros tentavam se achar uns aos outros. Casados, só havia seus pais. O resto estava desquitado, sofrendo com as lembranças de quem deixara na Terra. E os solteiros, eram a maioria homens como ele, em busca da desquitada mais linda para consolar. Nossa! Havia 90 mulheres para escolher entre 30 e 80 anos. Concentrou a mente, hipnotizou os machos num raio de mil metros e começou a examinar as fêmeas que foi achando. Viu Anahí, uma recém-casada, desprezada pelo marido, ignorada pela família, e por quem só uma pessoa chorara com sua partida. Sua mãe. Sequer seu pai havia-a visitado na cadeia.
Apanhou a mão dela, tirou-a da hipnose, e deu-lhe um suave beijo na boca.
E Anahi não resistiu à beleza desse garotão.
Se estivessem na Terra, seria presa e condenada por sedução de menores. Mas, estavam na terra de ninguém. Correram de mãos dadas em busca de um rio, ou lago, pois o calor estava demais, e quando o acharam pularam nas águas cristalinas, rindo, se beijando, tocando-se mutuamente aos poucos, sem presa para nada, pois viveriam uns 300 anos só de amor naquele novo planeta.
E um a um, casais tímidos começaram a pipocar. Ninguém tinha pressa em levantar uma cidade, nem em trabalhar. Um ar de preguiça reinava no ar. Os homens só queriam namorar, e as mulheres nunca fugiam aos apelos. Elas também desejavam engravidar e povoar esse novo mundo, com os homens mais inteligentes de uma civilização, que ficara para trás.
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