Notas iniciais
Mas na sua vida solitária, ele tinha no seu dormitório, na sala, e na cozinha, telas grandes ligadas ao computador, nas quais podia apreciar, a toda hora, mulheres maravilhosas. Leonardo estendia-se onde fosse, as contemplava, e se perguntava se algum dia encontraria uma mulher que batesse na sua porta. Afinal, ele nunca saia para ir num bailado onde as pessoas se conheciam. E fazer amor solitário olhando para essas mulheres passou a ser sua rotina diária.

Leonardo nasceu no início do século XX, no cerne de uma família muito humilde. Trabalhou desde menino, e assim que terminou a primeira série começou a ajudar seu pai num pequeno negócio de frutas. Carregava pesadas caixas nas costas, varria o chão, e ao meio-dia depositava os lucros numa pequena poupança da família, ou, pagava as contas do dia a dia. Desta forma ajudou seu pai a comprar uma casa, dar conforto à sua cansada mãe, e viu seus irmãozinhos irem para a escola de segundo grau, em lugar de fazer trabalho pesado.

Foi com 16 anos que Leonardo começou a estudar novamente, sempre às noites. Fez supletivo, em seguida completou os estudos de Ensino Médio, e um dia prestou Vestibular para Informática. Nessa altura, ele já estava com 25 anos. Fez Universidade à noite, pois durante o dia continuou trabalhando nos negócios de seu pai.

No dia em que se formou como diagramador e programador de Sistemas de Informática, ele era considerado dentro e fora da Universidade um gênio. Antes mesmo de se formar recebeu uma generosa oferta de emprego. Era tanto dinheiro que dava para pagar um funcionário que cuidasse da tenda da família, e comprar seu primeiro apartamento.

Aos 35 anos, Leonardo trabalhava como escravo.

Chegava tarde em casa, e tinha vezes que os patrões o tiravam da cama em meio da noite, para solucionar todo tipo de problemas com as máquinas de computação. Ele mal repousava, comia em restaurantes, e dormia pouquíssimas horas. Aos fins de semanas, nos dias de folga, visitava a família para desfrutar dos sabores caseiros da comida materna, dos abraços carinhosos de seu velho, e das brincadeiras com os irmãos.

Mas na sua vida solitária, ele tinha no seu dormitório, na sala, e na cozinha, telas grandes ligadas ao computador, nas quais podia apreciar, a toda hora, mulheres maravilhosas. Leonardo estendia-se onde fosse, as contemplava, e se perguntava se algum dia encontraria uma mulher que batesse na sua porta. Afinal, ele nunca saia para ir num bailado onde as pessoas se conheciam. E fazer amor solitário olhando para essas mulheres passou a ser sua rotina diária.

Gioconda alugou o apartamento vizinho, um dia qualquer.

Ela era mais velha do que ele, recém-desquitada, e uma advogada de grande sucesso. Rica! Bem vestida, elegante, e quando se cruzavam nos corredores, ela sorria-lhe com rosto de anjo, como invitando-o ao chamego. Afinal, Leonardo era alto, musculoso, belíssimo, e caminhava com passos sensuais e elegantes. Ela se perguntava porque motivo um homem como ele era ainda solteiro. Para ela, foi amor à primeira vista.

Como nesta vida Leonardo era tímido de doer, Gioconda começou a aparecer na sua porta com desculpas esfarrapadas. Um dia levava um bolo de presente, outro lhe dava uma sobremesa, e tinha as vezes que pedia para fosse no seu computador, no seu apartamento.

Um dia, tarde da noite, Leonardo entrou em casa tão cansado que se jogou no chão, sentado sobre sua alfombra da sala. Ligou a televisão, fez funcionar seu vídeo, fechou os olhos e estendeu a cabeça para trás. Nem percebeu quando Gioconda entrou de fininho, de camisola, e começou por um beijo no pescoço, nas orelhas, enquanto suas mãos mexiam seus cabelos. Era como se as imagens da televisão saíssem da tela para fazê-lo feliz. Quando abriu os olhos, parou de pensar. Beijou Gioconda com fúria, e fizeram amor até cansar.

Ao raiar do Sol do dia seguinte, Leonardo preparou um café suculento, e levou para sua amada maravilhosa numa bandeja. Comeram entremeados de beijos, e continuaram com o chamego, sem tempo para acabar. Leonardo puxou a tomada de seus telefones, e nas suas telas de televisão colocou imagens de mundos selvagens. Animais correndo, comendo, ou fazendo que nem ele, amor com uma fêmea no cio. E Gioconda, tinha cio um eterno. Dormiram até o meio dia, e nenhum deles foi trabalhar. Foi uma greve improvisada, pois a paixão não dava trégua. Era um desejo de fazer amor, misturando cochilos breves, comida na cama, fugidas furtivas ao banheiro, e chamego sem fim.

Depois desse dia inolvidável, Leonardo procurou outro emprego.

Desta vez, chegava cedo em casa e colocava os filmes românticos em todo lugar, cozinha, dormitório, sala, para entrar no clima do eterno romance. Gioconda entrava em cena, sem falar nada. Braços para cima, boca pronta para o beijo, e uma energia que incitava ao exercício físico do amor febril.

Após um ano de fazer amor, ambos chegaram à conclusão que eram espécies únicas e raras no mundo. Não conseguiam viver longe um do outro, e eram fieis até no pensamento. Leonardo só pensava nela, só olhava para ela, e era feliz amando-a a toda hora. Gioconda o amava mais ainda, adorava sua boca sensual, seus olhos que brilhavam e suas palavras que eram de um tom másculo profundo, que só falava elogios sem fim.

Gioconda passou a trabalhar em casa, e antes do marido chegar ela tomava um banho perfumado e lhe preparava um banquete. Geralmente de algum restaurante vizinho, pois ela não era muito chegada a cozinha. Esfriava um Champagne, ascendia uma vela na mesa, toalhas cheias de bordados, pois enfeitar o banquete sabia fazer muito bem. E o jantar acontecia depois de fazer amor, assim que ele entrava pela porta.

Leonardo não a deixava trabalhar, e muito menos sair da cama nos fins de semana. Pediam banquetes pelo telefone, e comiam sobre os lençóis, olhando para um filme na televisão. Dormiam a sesta, e ao anoitecer pediam mais um lanche pelo telefone, colocavam mais um filme na televisão, e abraçados a noite os encontrava fazendo esse ritual de sempre. Eram duas pessoas confinadas dentro de 4 paredes sem fazer nada além de se dar amor um ao outro, pela eternidade das horas e dos dias.

E um dia, Leonardo levou-a a conhecer a família.

Todos estavam curiosos em avaliar a mulher que furtara e enfeitiçara o filho, pois Leonardo mal aparecia uma vez por mês, sempre às pressas. Depois Leonardo viajou a conhecer a família de Gioconda, numa cidade longe, em meio da neve.

Depois que se aposentaram de seus empregos, viajaram pelo mundo, correram pelas areias do deserto, nadaram em praias paradisíacas, e não tiveram filhos porque se conheceram na maturidade. Afinal, eles estavam se casando pela sétima vez, desde o dia que chegaram — durante a Idade das trevas — para iluminar os homens da Terra.

Notas finais
Leonardo não a deixava trabalhar, e muito menos sair da cama nos fins de semana. Pediam banquetes pelo telefone, e comiam sobre os lençóis, olhando para um filme na televisão. Dormiam a sesta, e ao anoitecer pediam mais um lanche pelo telefone, colocavam mais um filme na televisão, e abraçados a noite os encontrava fazendo esse ritual de sempre. Eram duas pessoas confinadas dentro de 4 paredes sem fazer nada além de se dar amor um ao outro, pela eternidade das horas e dos dias. E um dia, Leonardo levou-a a conhecer a família.