O dia do anúncio foi marcado por uma pompa que Astúria não via há gerações. As escadarias do Palácio de Cristal estavam lotadas; o povo se espremia nas praças, enquanto o Parlamento e o Clero aguardavam, impacientes, nos assentos de carvalho do grande salão. O burburinho era de que a linhagem Heraldrick estava, finalmente, assegurada, mas ninguém esperava a magnitude da notícia.


​Gaspar entrou no salão trajando sua capa de arminho, mas seu passo não era o de um monarca rígido, e sim o de um homem transbordando triunfo. Ao seu lado, Claire caminhava com uma mão protetora sobre o ventre, ainda plano, mas que já carregava o futuro da coroa. Logo atrás, Richard e Katrina seguiam o protocolo, trocando olhares de cumplicidade que não passaram despercebidos pelos nobres.

​Gaspar subiu ao estrado, mas não se sentou. Ele olhou para os parlamentares e para o Cardeal Malachi, que observava tudo com uma curiosidade cautelosa.

​— Nobres de Astúria, representantes do povo e ministros da fé! — a voz de Gaspar ressoou, poderosa e vibrante. — Há um ano, este salão estava mergulhado em incertezas e sombras. Falavam em esterilidade, em substituição e no fim de uma era. Hoje, eu os chamei aqui para silenciar esses sussurros para sempre.

​Ele pegou a mão de Claire e a elevou.

​— A Rainha Claire, minha esposa, carrega o herdeiro legítimo deste trono. O filho que Roma tanto exigia nasceu do amor que vocês tentaram proibir!

​Um grito de celebração começou a subir das galerias, mas Gaspar levantou a outra mão, pedindo silêncio. O sorriso em seu rosto tornou-se ainda mais largo, quase desafiador.

​— Mas a benção sobre esta casa não parou por aí. Como sabem, meu irmão, o Príncipe Richard, e sua esposa, a Duquesa Katrina, são pilares desta nação. E é com a alma cheia de orgulho que anuncio: Astúria não terá apenas um herdeiro para proteger seu futuro. Teremos dois! Katrina também espera um filho de Richard!

​O salão explodiu. Nobres que antes tramavam contra os casais agora se levantavam para aplaudir. O Cardeal Malachi permaneceu sentado, atônito, percebendo que a estrutura de poder que ele tentara controlar agora estava mais forte e unida do que nunca. Dois berços reais significavam uma dinastia inabalável.

​O Confronto de Richard e o Parlamento

​Após o anúncio, um dos líderes do parlamento, o Conde de Valmor, levantou-se.

— Majestade, é uma notícia gloriosa! Mas como ficará a sucessão? Dois príncipes de linhagens tão próximas...

​Richard deu um passo à frente, sua voz calma e estratégica cortando a dúvida do conde.

— A sucessão seguirá a ordem natural, senhor Conde. O filho do Rei será o herdeiro do trono. Mas o meu filho... ele será o general, o conselheiro e o escudo do seu primo. Criaremos nossos filhos não como rivais por uma coroa, mas como irmãos de alma, assim como eu e Gaspar aprendemos a ser.

​Gaspar abraçou o irmão pelos ombros, olhando para o parlamento.

— Astúria não será mais um reino dividido por intrigas de alcova. Teremos uma linhagem dobrada, uma força que nenhum inimigo ousará testar.

​A Celebração Popular

​Lá fora, quando os arautos levaram a notícia ao povo, a festa começou. Fogueiras foram acesas e o vinho correu livre. Claire e Katrina aproximaram-se da sacada real.

​— Você ouviu o povo, Katrina? — Claire sussurrou, observando a multidão lá baixo. — Eles estão felizes por nós.

​— Eles estão felizes porque viram que a vida venceu a regra, Claire — Katrina respondeu, segurando a mão da rainha. — Nossos filhos nunca saberão o que é o exílio ou o medo que nós passamos.

​Gaspar e Richard juntaram-se às suas esposas na sacada. Sob o céu de Astúria, os quatro observavam o horizonte. O reino não tinha apenas dois herdeiros a caminho; tinha, finalmente, uma liderança que não temia o futuro, pois o haviam conquistado com sangue, exílio e, acima de tudo, uma lealdade que nem mesmo Roma pôde quebrar.