Entre o Dever e o Desejo

32 O Nascimento de uma Nova Astúria


O destino, que tantas vezes jogou contra os Heraldrick, resolveu selar a paz definitiva com uma coincidência que paralisou o reino. No auge da primavera, enquanto os jardins de Astúria explodiam em cores, os gritos de vida ecoaram simultaneamente pelas alas do palácio.


​O corredor que separava os aposentos da Rainha e da Duquesa estava em um silêncio tenso, interrompido apenas pelos passos nervosos de Gaspar e Richard. Os irmãos, que já haviam enfrentado guerras, exílios e tribunais, agora pareciam dois rapazes vulneráveis diante das portas fechadas.

​De repente, o choro agudo e forte de um bebê rompeu o silêncio vindo do quarto de Claire. Segundos depois, como um eco perfeito, outro choro, mais grave e insistente, veio dos aposentos de Katrina.

​As portas se abriram quase ao mesmo tempo.

​A Herdeira do Trono

​Gaspar entrou nos aposentos reais e encontrou Claire exausta, com os cabelos grudados na testa pelo suor, mas com um sorriso radiante. Em seus braços, envolta em seda dourada, estava uma menina de pele alva e olhos que já prometiam o brilho desafiador do pai.

​— Uma princesa, Gaspar... — Claire sussurrou, as lágrimas de alívio correndo pelo rosto. — A nossa Aria.

​Gaspar ajoelhou-se ao lado da cama, tocando a mãozinha minúscula da filha. O rei, que nunca se curvara a ninguém, curvou-se diante da herdeira de Astúria.

— Ela é perfeita, Claire. A futura Rainha deste reino.

​O Duque de Valmor

​Enquanto isso, Richard entrava no quarto de Katrina. Ela segurava um menino robusto, que já demonstrava a força da linhagem Heraldrick. Katrina parecia uma força da natureza, cansada, mas com o olhar vitorioso de quem havia cumprido sua maior missão.

​— Veja, Richard — Katrina disse, apresentando o pequeno. — O seu general. O seu filho.

​Richard pegou o menino nos braços com uma reverência que nenhum título poderia descrever.

— Ele se chamará Caelum. O Duque de Valmor. O homem que guardará as costas da prima e a honra desta família.

​O Encontro no Salão das Tapeçarias

​Horas depois, contrariando as ordens dos médicos que exigiam repouso, as duas mães pediram para se encontrar. No centro do salão, Richard e Gaspar carregavam seus respectivos filhos.

​Gaspar: — Olhe para eles, Richard. Nasceram com minutos de diferença. O mundo dirá que é coincidência, mas nós sabemos que é um pacto.

​Richard: — (Sorrindo enquanto observa Caelum tentar segurar o dedo da pequena Aria) — Eles já estão se reconhecendo. Ela terá a coroa, e ele terá a espada para defendê-la.

​Claire: — (Sentada em uma poltrona, segurando a mão de Katrina) — Você consegue acreditar, Katrina? Depois de tudo o que passamos... a masmorra, o navio, o medo... aqui estamos nós.

​Katrina: — O círculo se fechou, Claire. Nossas crianças não herdaram apenas títulos. Elas herdaram a verdade que nós lutamos para viver.

​Gaspar aproximou Aria de Caelum. A pequena princesa soltou um murmúrio baixo e o pequeno duque apertou sua mãozinha. Foi o primeiro ato oficial do novo reinado: uma aliança de sangue e lealdade que nenhum parlamento ou clero jamais conseguiria desfazer.

​Lá fora, os canhões de Astúria dispararam vinte e um tiros, mas para os quatro dentro do salão, o único som que importava era o da respiração tranquila dos dois bebês que, no mesmo dia, haviam transformado um reino de sombras em um império de luz.