Entre feitiços, muito cocô, e um Borela.
14 Uma surpresa sujinha
— Você disse que não deveria ter criaturas nessa parte da floresta! — disse Pedro exasperado a Lucas, logo que o quarteto deixou para trás os três monstros abatidos pelo acidente calculado de Pedro.
— Eu disse que poderia não haver. — sublinhou Lucas. — De qualquer modo, achei que pelo menos o cheiro do Gabi iria afastá-los.
Ao chegarem em um barranco agourento coberto pela luz azul e névoa da floresta, viram, ao longe, se destacando entre o chão negro, uma cabaninha de madeira aconhegante, cujas janelas brilhavam em uma luz bruxuleante que vinha de dentro.
Gabriel sabia que seria um lugar muito confortável para viver se não fosse a localização, e, é claro, o fato de haver, dentro dela, um bruxo que se cagava, e outro que escrevia "Meu nome é Ishiro (Ishiro)".
— É ali. — disse Lucas, vacilante.
O cheiro estava demasiado forte. Gabriel conseguiu ver a ponta das sobrancelhas de Pedro faiscando, como se estivessem na presença de gás muito inflamável.
O Hobbit agarrou a varinha com força, sentindo os dedos formigarem. Iria encarar Gabi e Borela ao mesmo tempo. Sentiu suas pernas tremerem, e seu primeiro pensamento foi dizer que Lucas deveria ir sozinho, enquanto ele ficaria ali com Pedro e Ysa, esperando.
Era o mais correto, pensou ele. Pois toda essa situação se formou unicamente por causa dele. Mas era tarde demais para começar a apontar o dedo. Gabriel podia estar mais temeroso em relação a abrir a porta e ver os dois no mesmo campo de visão, do que ser sentenciado a câmara da Morte, mas ficar ali e correr o risco de ser atacado por outras criaturas, parecia, por mais incrível que fosse, mais mortal.
— Eu não vou entrar aí! — ouviu-se a voz de Pedro. Gabriel virou-se para ele. — Desculpa, mas é demais pra mim. Prefiro ficar aqui e esperar vocês voltarem.
— Não pode estar falando sério! — sibilou Lucas. — Já chegamos até aqui. Você teve oportunidade de voltar.
Pedro puxou a varinha e apontou-a para Lucas, que arregalou os olhos e recuou alguns passos.
— Você causou tudo isso.
— Eu sei! — disse Lucas, fazendo a menção de também pegar a varinha, mas sua mão vacilou a voltou ao ponto inicial. Gabriel soube que era porque sabia que Pedro tinha um poder de ataque muito superior. — Mas prefere mesmo ficar aqui e ser atacado de novo? Você só consegue estuporar quando está zangado.
Gabriel trocou olhares com Ysa, que estava sem saber o que fazer. O garoto pensou no que dizer, para convencer Pedro.
— Olha — começou ele, lentamente, os olhos dos amigos perscrutando-o. -, todos sabemos que o Lucas é um grande cuzão. Mas todos estamos envolvidos nisso. Todos. Desde que pegamos a Stelfart. Se você não for conosco... — e olhou para um Pedro que mais parecia um Big Lakitu -, temos todas as razões do mundo para te denunciar ao Snape.
A respiração dos três amigos parara de chofre. Pedro e Gabriel se encaravam, antagônicos.
— Por que não fica aqui também? — perguntou o gordo. — Foi esse animal quem nos botou nisso. — e fez um gesto com a varinha para Lucas.
— Porque eu sei que também estou metido nisso. — respondeu Gabriel, com dureza. — Apesar de concordar com você, em partes, não sou injusto.
Pedro deixou o olhar resvalar para o chão, ao mesmo tempo em que a varinha recuava, como uma serpente que fora intimidada.
— Calmo? — perguntou Lucas a Pedro, que, embora o tenha retribuído com um olhar escaldante, fez que sim.
— Ótimo. — E Lucas olhou para o casebre novamente. — Vamos.
Mas, conforme se aproximavam, a atmosfera parecia ficar mais densa.
O cheiro era forte demais. Os quatro estavam quase tendo de se arrastar pelo chão sujo, porque seus corpos não aguentavam tamanha pressão. Gabriel jurara ter visto a silhueta de Alexia contra as sombras, mas logo se deu conta que era uma miragem, uma muito semelhante a que as pessoas têm antes de morrerem.
— Eu não posso morrer assim. — guinchou Pedro, que já estava de joelhos. — Eu ainda nem comi uma buceta.
— E nem vai. — Lucas, que não estava muito melhor que Pedro, não perdeu a oportunidade de fazer uma piada. — Você só vai comer uma se ela for negra e conseguir ser mais feia que a Inês.
— Ah... vai... à... merda. — E Pedro desabou no chão, fazendo todo o planeta estremecer com um lamurio de dor.
— Mamute da Terra-Média! — Ysa gritou a Pedro, com o resto de voz que ainda tinha.
Lucas puxou a varinha e apontou-a para Pedro. O braço tremendo, e Gabriel notou que seu rosto estava empapado de suor.
— Wingardium Leviosa! — bradou ele, a voz quebrando.
Mas apena uma das mãos batatudas do gordo se levantou.
Lucas não tinha força o bastante. A visão de Gabriel estava turva e embaçada. A cabana parecia ainda tão longe. Quando se deu conta, seu joelho tocara o chão, seguido do outro. O cheiro era tão forte... Tão lúgubre... Tão nocivo...
Iria morrer assim? Asfixiado pelo cheiro das necessidades de Gabriel Stumpf? Ele então puxou a varinha com destreza, apontou-a a tremedeiras para Pedro e murmurou:
— Wingardium Leviosa!
E o gordo flutuou a poucos centímetros do chão.
Os poderes de Gabriel e Lucas combinados, ainda assim, não eram o bastante para levitar Pedro.
O braço esticado de Gabriel parecia que ia quebrar, foi quando viu, através dos borrões que eram as imagens captadas por sua visão agora, a giganta apontando a varinha para o gordo também. Gabriel não chegou a ouvir Ysadora murmurando o feitiço, mas ela com certeza o fez, pois o gordo agora estava decentemente acima do chão.
— Vamos usa-lo de escudo. — sugeriu a voz arrastada de Lucas. — Coloca-lo a nossa frente, pra bloquear um pouco do cheiro.
Gabriel não sabia se estava demasiado abatido para contestar, mas nada disse. Apenas moveu o gordo junto aos amigos para sua frente. Os três agora seguiam em frente, caminhando com os joelhos, e um desacordado Pedro como um escudo flutuante, com o óculos enviesado na têmpora sardenta. O Hobbit jurou escutar a música tema de "2001: Uma odisseia no Espaço" enquanto seguiam.
Ao chegarem perto o bastante da cabana, deitaram Pedro no chão coberto de névoa, e tentaram se pôr de pé, o que conseguiram com muito esforço. Gabriel sabia que não teriam conseguido se não fosse pelo Pedro-escudo.
Lucas entortou o dedo para bater na porta com o nó, mas parou abruptamente. Os olhos esbugalhados, como se tivesse comido uma cueca de Gabi. Gabriel se aproximou, o cheiro ardendo em seu nariz como se tivesse aspirado litros d'água.
— O que foi....
Mas a resposta veio inesperadamente.
Ouviu, vindo de dentro da casa, um som que não se extinguiria de suas memórias nem em cem anos.
— AINNNNNNN — era a voz de Gabi. — ISSO SEU RATO! ME COME!!! AIEEEEEENNNNNNNNNN. ME CHAMA DE ISHIRO, SEU CACHORRO PELUDÃO!!!! AI, QUE PAU É ESSE???!!!!! PARECE UM POLEGAR MAS É TÃO GOSTOSO!!!! VAI PITBULL!!!!
Gabriel não conseguiu conter o vômito que subiu por sua garganta.
Derramou-o todo sobre a barriga volumosa de Pedro, com os olhos espremidos, com os gemidos de prazer de Gabi ao fundo.
— Isso não pode estar acontecendo. — disse ele, voltando a si, limpando o vômito dos lábios com a manga.
Lucas estava com os olhos fechados e a boca entreaberta, crispada em um trejeito de nojo e indignação.
Ele bateu na porta com uma expressão de quem chupa limão, e imediatamente o som da trepada violenta dos dois se calou.
— Mas que m... — ouviu-se a voz de Borela sussurrando.
— Shhhh. Calma lobão. Eu vou ver quem é.
E a porta se abriu.
Foi como se um vento que mesclava o cheiro de todos os vasos sanitários entupidos do mundo, soprasse no rosto deles. Gabriel tonteou. As cenas ao seu redor refulgiram em um festival de cores e figuras, era como se tivesse tomado algum alucinógeno.
Quando retomou a visão, viu, diante dele, um Gabi emaciado, os cabelos oleosos colados em um rosto suado, a calcinha de renda que usava era a única peça de roupa em seu corpo, escondendo quase que com perfeição o volume microscópico entre suas pernas. Ele estava escorado na batente da porta, como uma meretriz que recebe um cliente.
— Lucas! — disse ele, feliz. — Ysa e Gabriel também! O que fazem aqui? — Ele então olhou para Pedro estirado no chão, coberto por vômito e pela névoa que se esgueirava por entre as dobrinhas de carne em seu uniforme da Sonserina. — E o leitão!
Lucas se segurou na madeira, e Gabriel notou que ele estava prestes a desmaiar. O amigo da Sonserina se recompôs o mais rápido possível e falou a Gabi, como quem suplica.
— Eu tenho... uma ideia... para você voltar à casa da Corvinal.
E Gabi sorriu.
— Mas por que eu iria voltar?
Foi aí que um Borela trajando apenas uma cueca preta se colocou ao lado de Gabi, pegando-o pela cintura.
— Eu moro com o machão dos meus sonhos aqui; não tenho que seguir regras; trepo todo o tempo em que não estou nas aulas e ele aprova minha cagança. — ele disse o último item enquanto Borela lhe mordia o pescoço.
— Adoro. — confirmou Borela, metendo a mão na parte traseira da calcinha de Gabi, e tirando um maço de cocô líquido.
Gabriel, sem pensar, pegou a varinha e transpassando Lucas, apontou-a para Gabi.
— Escuta aqui, sua piranha cagona. Passamos o inferno para que esse plano desse certo, e não vou permitir que tudo tenha sido em vão. Você vai vir conosco, nem que eu tenha que enfiar minha varinha nesse cu sujo.
— Adoro. — disse Gabi, com um sorriso libertino.
— CRUCIO! — berrou Gabriel sem pensar.
No instante seguinte, Gabi estava no chão, se contorcendo como lagartixa com cãibra enquanto disparava jatos de cocô nas paredes, que rasgavam a renda da calcinha.
Depois de muita discussão e uma tentativa patética de Borela de salvar sua putinha, Gabi concordou em ir.
Gabriel, Lucas, Ysa, Gabi, Borela, um Pedro, ainda desacordado, sendo levitado pelos demais, deixaram a floresta, seguiram para o castelo aparentemente quieto, e subiram até a sala de Flitwick.
— Você lembra do plano perfeitamente? — perguntou Lucas. — Não se esqueceu do conteúdo das cartas?
— Não. — respondeu Gabi. — Tem certeza que ele vai me admitir de volta na Corvinal?
— Claro. — mentiu Lucas. — Agora vai!
— Boa sorte, meu viadinho cagão. — disse Borela, dando um beijinho em Gabi, antes do primo de Lucas entrar na sala do professor.
Gabriel e os outros ficaram ali fora, atentos à conversa entre Gabi e Flitwick. Acontece, que havia mais alguém na sala.
— O que o senhor faz aqui? — ouviu-se a voz de Gabi, surpreso.
— Ele estava me contando sobre como entregara a poção a seu primo, sr. Stumpf. — respondeu a voz de Flitwick.
Lucas, Gabriel e Ysa trocaram olhares espantados, as bocas se abrindo, e Lucas, ao invés de esperar algum nome ser mencionado, abriu a porta fugazmente, foi aí que todos viram, na presença de Gabi e Flitwick, professor Alvo Dumbledore.
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