Notas iniciais
Seguindo o baile.. Boa leitura!!

— Eu não sei — murmuro e Carlos me olha um tanto desconfiado.

— Como assim " não sabe"? — o mesmo me olha com a sobrancelha arqueada — As únicas pessoas que eu aconselharia a senhorita a confiar, somos nós que servimos ao país e ao governo.

— Governo? — eu bufo, revirando os olhos — Venhamos e convenhamos, o governo não é bem um exemplo de confiança e justiça, certo? — sinto que falei demais quando os dois se mexem um tanto desconfortáveis na cadeira e Fernando passa a mão livre pela barba. — Olha, se isso for mesmo de verdade, até pessoas da polícia estão envolvidas, sei como é isso, não é um crime bobo, é pesado. — falo com um tom ameno para tentar relaxar a situação anterior.

— O que importa, — Fernando começa em um tom baixo e firme — É que as investigações já começaram. Na verdade, achamos uma pista importantíssima agora e finalmente o caso está andando, e nada, ouça bem Senhorita Maya, é que ninguém vai nos impedir de chegarmos aos principais mandantes, seja eles quem forem. Entendeu? — não consigo fazer outra coisa a não ser assentir, sinto medo da sua fala e sinto medo por toda a situação em que eu fui distraidamente inserida — Devo dizer que acredito em você, só não sei se é porque meus intuitos de policial ainda trabalham muito bem ou porque você mente muito bem, mas ainda assim vou lhe dar um voto de confiança.

Respiro aliviada com suas palavras e talvez com esse discurso eu também possa depositar um pouco da minha confiança nele, mesmo sabendo da fama de policiais nesses casos. Eu não tenho outra alternativa a não ser aceitar seu voto e ficar muito contente com isso, considerando que sou a responsável pela empresa que está diretamente ligada a essa montanha de crimes e só de pensar, tudo isso me enoja.

— Tudo bem — falo baixo tentando passar uma segurança, que claro, não é verídica — E o que posso fazer?

— Nada. É melhor... só ficar fora disso, não atrapalhar as investigações também ajuda — Carlos diz e eu o olho com os olhos arregalados com tamanha prepotência.

— Ah..com licença — sorrio de lado — A minha empresa, a empresa que eu conheço desde que nasci, que meu pai deixou em minhas mãos, está implicada em tráfico de mulheres! Acham mesmo que vou ficar parada vendo vocês trabalharem durante, sei lá, anos? Fui eu quem descobriu a lista e quem sabe pode achá-la novamente, afinal, sou a dona, a única pessoa que tem acesso a tudo desse lugar! — sei que perdi um pouco o controle ao elevar a voz com dois policiais, mas estou desesperada e eles não param de me olhar, parecem repensar minha fala e eu sinto medo dessa parte.

— Quer mesmo ajudar? — Fernando pergunta e eu assinto desesperada como uma criança que quer doce — Tudo bem, vamos te manter a par das circunstâncias e você, vai fazer o mesmo... — ele é interrompido por meu celular que toca insistentemente. Alcanço o celular em uma pressa desnecessária, mas sorrio ao ver que é chamada de Dante e esqueço um pouco os policiais ali.

— Oi amor — cumprimento levemente.

— Baby, tá tudo bem? Te mandei trocentas mensagens e você não me respondeu nenhuma. Não sabia se estava em alguma reunião, por isso resolvi esperar um pouco para ligar. Está tudo bem? — ele desata a falar, me deixando sem chance de responder.

— Calma, to bem sim — consigo ouvir sua respiração aliviada e sorrio — Só aconteceram algumas coisinhas aqui na empresa. — sento no sofá e seguro uma mecha do meu cabelo.

— Que bom! Fiquei preocupado, você nunca some assim. Não estou sendo possessivo, estou? — ele pergunta e eu rio alto.

— Claro que não!

— Ótimo, queria passar na sua casa hoje, pode ser? — estou prestes a responder quando ouço um pigarrear atrás de mim, levanto de súbito quando lembro dos federais ainda a minha espera na minha sala. Sorrio sem graça e volto minha atenção ao celular.

— Dante, eu vou ter q desligar agora tá bom? Mas vai lá pra casa sim! — ouço ele se despedir rapidamente e me volto para os policiais — Desculpe, eu me distraí. Onde estávamos?

— Namorado? — Fernando pergunta e eu assinto.

— Com certeza é uma ótima ideia manter uma pessoa mais distraída que um gato, a par de toda a complicação — Carlos ri ironicamente da minha cena e eu só consigo pensar que ele nunca teve um Dante na vida dele. É. Acho que não.

— Eu vou tentar não levar isso como uma ofensa, oficial — reclamo e ele dá de ombros — Prometo que vou tentar conseguir informações, também quero que isso acabe. — Fernando assente.

— Ótimo. — eles caminham para a porta, mas Fernando para na porta e se vira — Não pense em viajar ou fazer algo do tipo enquanto isso não for resolvido, entendido?

— E se for algo da empresa? Eu preciso fazer algumas viagens de vez em quando, não seria melhor continuar com o desempenho normal dos negócios? — Carlos bufa.

— Entendo a ajuda, mas a senhorita não é a versão feminina do James Bond e isso não é um filme de espiões. — Carlos pontua — Vai fazer somente o que falamos. Não vai querer ir contra a lei, senhorita Maya. — e com essa fala os dois partem, me deixando só e com uma grande confusão em minha cabeça. Agora que eles saíram, parece que tudo pesou, inclusive o meu medo e sinto que posso ter um ataque de pânico agora mesmo, não foi isso que imaginei quando assumi a empresa, pensei em todos os tipos de problemas e nenhum envolvia um crime tão hediondo e a polícia federal. Com certeza não. Estou prestes a perder o ar quando lembro de como meu coração se aqueceu e como eu me acalmei ao ouvir a voz de Dante. Pego o telefone num rompante e disco seu número com meus olhos já lacrimejando.

— Oi, conseguiu um tempinho aí? — só de ouvir sua voz sinto segurança e deixo escapar um leve soluço, mas que não passa despercebido por ele, que se cala de imediato. — Ei, o que houve? Tá chorando? Quer que eu vá até aí? — ouço uma movimentação do outro lado da linha.

— Não, foi só alívio — tento sorrir em meio ás lágrimas.

— Alívio por que? Maya, fala comigo, o que houve?

— Os federais estiveram aqui — silêncio — É isso mesmo Dante, a Nóbrega está super no meio daqueles crimes horrorosos e eu deixei tudo acontecer! Eles vieram aqui e estão desconfiando de todo mundo, inclusive de mim e do Ramírez! Claro que seríamos os principais suspeitos, somos os responsáveis! — solto tudo de uma vez, numa tentativa de fazer aquilo sair da minha cabeça e espero sua resposta.

— Calma — sua voz começa baixo — Eles foram até aí? E o que você disse?

— Disse a verdade, claro! Disse que não sabia de nada e que descobri aquela lista também e de lembrar daquele homem sendo preso na TV. Fiz errado? — respiro mais calma, depois de ligar para ele.

— Não, acho que não. O que eles sabem sobre voc... — sua voz some um pouco e eu não entendo o que ele diz.

— Dante? — a ligação continua ligada, mas sua voz não sai — Amor? Ainda está aí? — ouço pessoas conversando e estou prestes a desligar quando sua voz chega aos meus ouvidos.

— Maya, oi, você falou sobre sua vida? Digo, eles fizeram perguntas íntimas? — ele volta como se nada tivesse acontecido.

— Não, quer dizer, isso é algum problema? É em relação a nós? — me preocupo com sua fixação.

— Claro que não meu amor! Mas esses federais estão sempre achando que estão acima da lei e passando dos limites. Só... não confie tanto neles, nesse tipo de coisa, eles estão sempre envolvidos.

— Sim, eu sei. Só contei mesmo porque não tive muita escolha, eles me pareceram ser de confiança, espero não estar sendo tola.

— Não está, se acalma. Fez o certo. Então, eu vou pra uma chamada de emergência agora, tá bom? Beijo, daqui a pouco nos falamos — nos despedimos e eu percebo o quanto somente sua voz me dá uma esperança de que tudo isso vai passar sem muitos danos. Resolvo ir pra casa e tirar o resto do dia de folga, deixo o mesmo com Alice, a coitada ainda está um pouco nervosa com o tempo que a conversa durou e me agradece de todas as formas quando a deixo de folga. Penso em ligar para Jorge, mas a essa hora, deve estar com algum dos seus namorados passeando ou fazendo sei lá o quê, o melhor mesmo é ir pra casa e esperar o Dante chegar para dissiparmos essa nuvem grega que está rondando minha cabeça.

Quando chego, Fred se joga em mim e me faz sentar no sofá, pondo sua cabeça em meu colo num pedido de afago. O cão fica comigo me aquecendo e me olhando com aqueles olhinhos fofos, como se soubesse que estava estressada ele vem todo para o meu colo e põe sua cabecinha no meu ombro, o abraço o mais forte que posso e ele apenas fica ali, me acalentando. Depois de um tempo vou tomar banho e ver se faço algo para comer, algo leve de preferência, de pesado, já basta o clima que ficou.

Notas finais
Obrigada!!