Entre duas paixões (Pausado)
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Liguei para Dante uma hora atrás e ele nada de atender, pelo visto, não sou só eu que estou com problemas essa noite. Saio da banheira tanto enrugada que pareço ter 90 anos, acho que não foi uma boa ideia passar quase 2 horas lá dentro, mas quando se tem música relaxante e vinho, o tempo passa tão rápido que é impossível senti-lo. Fred está no tapete deitado mas não para de mexer o rabo ou se assustar com qualquer barulho, até mesmo de fora do apartamento, essa inquietação não é comum, não dele, preciso levá-lo no veterinário e agora já temos outra coisa com o que se preocupar. Ótimo!
Saio da banheira com água morna e uma taça de vinho na mão, quando ponho meus pés em cima do tapete felpudo brando do banheiro, soa um ruído de buzina na rua e nesse momento, Fred se joga contra minhas pernas fazendo com que eu me assuste e derrame vinho no tapete.
— Merda! Fred! O que tá acontecendo com você garoto? — olho pro cãozinho agora com os olhos baixos, lambendo as gotículas de água em minha panturrilha — Ei! — ele me olha mas continua encolhido e isso me preocupa muito. Agacho e lhe faço um carinho no pelo tentando amenizar sua angústia com o motivo ainda desconhecido. Pego uma toalha, me enrolo e o levo no meu colo até a cama, onde ele sempre acha a minha calça velha que ama morder, sorte que eu já não a vestia mais. Me olho no espelho e avalio a situação do meu corpo enrugado e pálido de tanto ficar na água, rio quando lembro daquele convite de ser modelo plus size, nem morta pisaria numa passarela ou algo do tipo.
Depois de pronta, decido por fazer um sanduíche para comer, já que é bem mais prático e eu não estou afim de ficar perdendo tempo com isso, coloco um filme bem romântico na TV para esperar Dante, melhor opção não há. Sensacional como nos filmes de romance sempre tem o casal apaixonado que antes da pessoa escolhida aparecer, parecem levar uma viada entediante, as pessoas nunca estão felizes consigo, ou até acham que estão mas é visível a qualquer um que essa felicidade é uma mentira. Por que as pessoas não podem estar bem e a outra aparecer apenas para acrescentar? Mas não, tem que estar "faltando" algo, isso é tão doentio, acaba com minha cabeça, é muita hipocrisia da minha parte falar que não sei o que é isso se senti a mesma coisa depois que Dante entrou em minha vida. Parece que tudo vai ficar bem se ele estiver comigo, tudo é mais, é melhor e isso me causa medo, essa dependência não deveria ser saudável, mas é isso que colocam nesses filmes e nos faz querer para nós.
Não sei por qual motivo eu ainda assisto esses filmes se sempre termino chegando a esses pensamentos, agora que sei o que é isso fico imaginando nós dois na história. Menos a parte do drama, aí eu imagino outra coisa, porque o que esses filmes tem de romântico, tem de dramático onde é posto á prova o amor do casal principal. Enxugo as lágrimas quando o filme termina e vou no banheiro para jogar uma água fria, quando vejo a hora no relógio de parede. Já se passaram duas horas e ele não chegou ainda, nenhuma mensagem, nenhuma ligação, começo a me preocupar e ligo novamente. Não demora nem 2 minutos e diz que o celular está desligado, tenho certeza que ele esqueceu de carregar e agora está desesperado sem o mesmo, vou escolhendo palavra por palavra do meu discurso de como não preocupar sua namorada, quando Fred novamente pula em cima de mim, tão ansioso quanto eu pela chegada dele.
— Você também sabe que Dante está chegando? — ele continua agitado e quando pronuncio seu nome, só piora a situação e ele passa a latir também em direção a porta — Ei calma! Assim vou achar que gosta mais dele que de mim! Eu que te alimento e me espremo na cama, para o senhor ficar confortável! — vou para o quarto com ele me seguindo e pego meus fones, preciso ouvir umas duas músicas que Jorge me enviou antes que ele acabe comigo. Me acomodo com Fred ao meu lado no sofá e ponho a primeira, é um tanto sensual e ficaria ótima em uma sexlist, a cara dele mesmo.
Não sei quando ou como, mas acordo num pulo me dando conta de que ainda estou no sofá com meu pequeno companheiro de sempre, olho no relógio quando noto o silêncio absoluto e vejo que passa das 2h da manhã, meu coração aperta quando noto que Dante não veio, pego o celular e não vejo nenhum aviso, nada que indique o motivo de não ter aparecido ou algo do tipo. Ligo pra ele mais uma vez e nada, ele arranjaria um jeito de recarregar o celular para me avisar, eu sei que sim. Meu coração dói só de imaginar o que pode ter acontecido, me preocupo e tento ligar para o Leandro, um amigo dele do hospital e só faz chamar, ninguém atende também. Num ato de desespero ligo pra Jorge, que como já era de se esperar, também não atende, penso em pegar o carro e ir até o apartamento dele ou até o hospital para saber dele mas nem sei se conseguiria dirigir até lá. Mesmo assim, pego as chaves do carro que graças aos deuses, já está comigo e vou pra a porta, mas meu celular toca antes de abri-la.
— Dante? — atendo sem ao menos ver quem era.
— Não, é o Leandro. Maya, não é isso? — ouço a voz masculina e meu coração pula de ansiedade.
— Isso, desculpa te ligar essa hora, mas... sabe... Sabe dizer do Dante? — indago um tanto receosa pela resposta. Silêncio. — Ainda está ai?
— Estou sim. Ele saiu um pouco mais tarde hoje do...hospital, disse que estava atrasado. Por que?
— Não consigo falar com ele, marcamos de nos encontrar e.... me preocupei.
— Ele não apareceu aí?
— Não, esse é o problema e o celular está desligado. — espero uns segundos pra ver se ele me dá uma luz.
— Olha, só sei disso mas espera amanhã, aposto que ele deve ter pego no sono quando chegou em casa ou algo do tipo, não precisa se preocupar. Vou tentar falar com ele e qualquer coisa, eu te aviso, tudo bem? Mas se eu fosse você, eu dormiria e amanhã encontraria ele, certo? — eu já não tinha muito o que fazer e concordei com ele, depois de nos despedirmos ele desligou e eu fui para o quarto. Sentei na cama com Fred ao meu lado e tentei ser racional para chegar em alguma conclusão, pode realmente ter acontecido o que o Leandro disse, não é? Vai ver ele chegou muito cansado e pegou no sono, ou... ou... não sei. Sei que não vou conseguir dormir desse jeito e pego uma antigo remédio para dormir que eu utilizava quando meu pai morreu e eu tinha insônia, tomo dois de uma vez e me enrolo na cama, esperando fazer efeito.
Já acordo com o celular na mão e tentando ligar de novo para ele, dessa vez chama mas ninguém atende, deixo um milhão de mensagens em sua caixa postal na esperança dele responder alguma e vou me arrumar para ir a empresa.
— Alice bom dia, preciso de você na minha sala, por favor. — passo pela mulher, que me segue prontamente.
— Bom dia Maya, algum problema? — ela olha para os lados como se fosse contar um segredo — É com os policiais?
— Não, quer dizer, não é com eles. Preciso que tente localizar uma pessoa pra mim, tudo bem? Ligue para aquele seu amigo, preciso de umas informaçõezinhas — ela assente e sai da sala, mas assim que se vai, fico pensando se não é loucura o fato de estar procurando ele dessa forma. Que se dane, estou preocupada e é isso que vou fazer. É mais difícil do que se imagina tentar me concentrar em algo, quando essa angústia não sai do meu peito, procuro alguma novidade referente a lista mas as coisas não mudaram, continuam na mesma e eu me jogo na cadeira, parece que as coisas resolveram não facilitar pra mim. Tomo um susto quando Jorge entra na minha sala quase arrombando a porta.
— Me ligou ontem 2h da manhã, o que houve?
— Que susto caramba! — me recomponho — Desculpa, eu estava desesperada, na verdade, ainda estou — ele me olha atento sentando numa cadeira de frente a minha mesa — Dante sumiu. Ele disse que iria a minha casa ontem depois que saísse do hospital, mas não foi e seu celular ou está desligado ou chama e não atende.
— Brigaram?
— Não! Nem perto disso, ontem estávamos bem, ele até me acalmou depois de tudo e agora...
— Depois de tudo o que?
— Os federais vieram ontem aqui — ele arregala os olhos.
— Ai meu Deus Maya! Os federais? O que eles vieram fazer aqui?
— A história do tráfico, lembra? — ele assente — É verdade, a Nóbrega realmente está ligada com tudo e vieram tirar algo de mim, mas acho que acreditaram que eu não sei de nada mesmo. Sou tão inocente quanto os outros e quero achar o responsável igualmente. Droga! — me jogo na cadeira — Parece que tudo resolveu desmoronar agora! Tinha que dar errado não é?
— Ei gatinha, calma! Enxuga essa lágrima e vem comigo — ele me puxa e só nessa hora sinto que algumas lágrimas saltaram dos meus olhos. Ele me puxa em direção ao sofá e me faz deitar em seu colo — Olha, aposto que o Dante vai dar uma explicação pra isso, com certeza não foi nada de mais e você está se preocupando á toa com os nervos á flor da pele! — assinto enquanto ele mexe em meus cabelos. — E sobre a empresa... Não está tudo se resolvendo? Então... só deixar nas mãos dos federais que eles dão um jeito.
— Tem certeza? — ele sorri com minha pergunta.
— Claro que tenho! Já menti pra você alguma vez? — eu nego — Então. Já foi no apartamento dele?
— Não..
— E por que não? — ele pergunta e eu não acho a resposta pra isso. Salto do seu colo e resolvemos ir até lá, na verdade, eu resolvo, já que ele fica no meio do caminho para resolver algumas coisas. Chegando lá, a resposta é a mesma de todas, parece não ter ninguém em casa. Vejo o senhor da casa ao lado sair para jogar o lixo fora e caminho até ele.
— Oi, com licença — ele me olha — Poderia me dar uma informação? — ele assente simpático.
— Sabe dizer se o seu vizinho, Dante, esteve aqui ontem á noite? — ele parece pensar pra falar.
— O rapaz moreno, forte não é? — eu confirmo — Olha, geralmente eu vejo quando ele chega porque fico aqui na porta até tarde, mas ontem não vi não. Só se ele chegou bem cedo, mas a noite não foi. — o que já estava confuso, agora piora, nem para casa ele veio. Ninguém sabe, ninguém viu, como uma pessoa simplesmente some desse jeito? Ele não iria embora do nada, iria?
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