​A tempestade lá fora era um reflexo exato do que acontecia dentro da sala de jantar. O som do granizo batendo contra as janelas altas era a única trilha sonora. Julian estava sentado à cabeceira, a postura rígida, os olhos fixos em um relatório que ele não estava lendo de verdade. Do outro lado da mesa, Isadora brincava com o vinho na taça, observando-o por cima da borda do cristal.

​— O silêncio combina com você, Julian — disse ela, com a voz suave como veludo. — Mas me faz pensar o que você está tentando calar aí dentro.

​Julian nem sequer levantou o olhar.

— Coma seu jantar, Isadora. Já passa das dez.

​— E o que você vai fazer se eu não comer? Vai me colocar de castigo? Vai ligar para o meu pai na Sicília e dizer que a "menininha" dele está sendo desobediente? — Ela se levantou, contornando a mesa devagar até parar logo atrás da cadeira dele.

​Julian sentiu o calor do corpo dela antes mesmo que ela encostasse em seus ombros. O perfume de jasmim agora era uma arma de guerra.

​— Isadora, volta para o seu lugar — ordenou ele, com a voz baixa, carregada de um aviso que ela simplesmente ignorou.

​— Você está tremendo, Julian — sussurrou ela, inclinando-se até que seus lábios estivessem a milímetros da orelha dele. — O grande Julian Vane, o homem que não teme nada, está com medo de uma garota de dezoito anos. Ou será que tem medo do que sente quando eu te toco assim?

​Os dedos dela deslizaram pelo pescoço dele, roçando a cicatriz na têmpora. Num movimento tão rápido que fez o vinho dela entornar na toalha branca, Julian se levantou e segurou os pulsos dela com força, prendendo-a contra a mesa.

​O olhar de Julian era puro fogo. A distância entre eles desapareceu. Ele conseguia sentir o coração dela batendo contra o seu peito, e a respiração dele, pesada e errática, se misturava à dela. Por um segundo eterno, o desejo venceu a honra. Ele fixou os olhos nos lábios vermelhos dela com uma fome que o assustou.

​— Você não tem noção do que está provocando — ele rosnou, com o rosto a centímetros do dela. — Acha que isso é um jogo? Acha que eu sou um daqueles garotos da sua faculdade que você manipula com um olhar? Se eu te deixasse ver o que eu realmente estou pensando agora, você fugiria desta casa gritando de medo.

​Os olhos de Isadora brilharam — não de medo, mas de triunfo.

— Então me mostra, Julian. Deixa eu ver.

​A percepção do que ele estava prestes a fazer atingiu Julian como um soco. Ele a soltou bruscamente, como se ela fosse ferro em brasa. O nojo de si mesmo o inundou instantaneamente. A máscara de gelo voltou, mas desta vez tingida por uma fúria cruel.

​— Sai daqui — disse ele, dando as costas.

​— Julian...

​— SAI! — Ele se virou, e a expressão em seu rosto era de puro desprezo. — Olha para você, Isadora. Está tão desesperada por atenção que está tentando seduzir o melhor amigo do seu pai? É esse o seu nível?

​As palavras atingiram Isadora como uma chicotada. O sorriso dela sumiu na hora.

​— Você não passa de uma criança fútil brincando com coisas que não entende — ele continuou, avançando sobre ela com uma frieza cortante. — Acha que é mulher? Uma mulher sabe o valor da lealdade. Você é só um capricho, um erro que eu estou sendo pago para vigiar. Nada mais.

​— Você está mentindo! — gritou ela, as lágrimas de raiva começando a queimar nos olhos. — Eu vi como você olhou para mim! Você me quer tanto quanto eu te quero!

​Julian soltou uma risada seca e sem alma.

— Te querer? Eu sinto pena de você, Isadora. Sinto pena do Marco por ter uma filha que se oferece ao primeiro homem que impõe limites a ela. A partir de amanhã, você não sai do seu quarto sem autorização. Vou te tratar como a criança mimada que você provou ser.

​— Eu te odeio! — ela gritou, pegando a taça de vinho e atirando-a contra a parede, onde o vidro estourou em mil pedaços. — Eu preferia que meu pai tivesse deixado um estranho qualquer aqui do que um hipócrita como você!

​— Ótimo. O ódio é muito mais seguro para você do que qualquer outra coisa que possa imaginar — respondeu Julian, com a voz gélida, embora seu interior estivesse em cinzas. — Agora, vá para o seu quarto. E não se atreva a cruzar o meu caminho de novo esta noite.

​Isadora saiu correndo do salão, o som de seus soluços abafados se perdendo no trovão lá fora. Julian ficou sozinho entre os restos de vidro e vinho espalhados pelo chão. Ele olhou para as próprias mãos — elas ainda tremiam.

​Ele tinha vencido a batalha, tinha afastado a garota com o seu veneno. Mas, ao olhar para a porta por onde ela tinha saído, Julian soube que a traição já estava consumada. Ele já a desejava mais do que a própria vida, e a raiva era a única coisa que o impedia de cair de joelhos e implorar pelo perdão dela.