Entre a honra, o desejo e a traição - Os Vanne Ros
4 Capítulo 3: O Gelo que Queima
A manhã seguinte na mansão Rossi não trouxe o perdão, mas um tipo de silêncio muito mais perigoso. Julian estava na sala de jantar desde as sete da manhã, esperando o confronto, esperando os gritos ou o choro. Ele tinha preparado um discurso rígido sobre regras e limites, uma armadura para esconder a culpa que o corroera durante a madrugada.
Mas, quando Isadora desceu, ela não era a garota impulsiva da noite anterior.
Ela entrou na sala usando um conjunto de alfaiataria impecável, o cabelo loiro perfeitamente alinhado e os óculos de leitura no lugar. Ela sequer olhou para a cabeceira da mesa.
— Bom dia, Isadora — disse Julian, a voz mais rouca do que ele pretendia.
Ela não respondeu. Isadora pegou apenas uma maçã e um tablet, sentando-se longe dele e começando a ler algo com total interesse.
— Isadora, eu estou falando com você — ele insistiu, a irritação começando a borbulhar sob a pele. — Sobre o que aconteceu ontem...
— Desculpe, você disse algo? — Ela finalmente levantou os olhos, mas não havia fogo neles. Havia um vazio educado, o tipo de olhar que se dá a um estranho em uma fila de banco. — Eu estava distraída com o cronograma de estudos que meu pai enviou.
Julian travou a mandíbula.
— Eu disse que precisamos estabelecer os horários em que você sairá de casa.
— Não precisa se preocupar com isso, senhor Vane — ela respondeu, voltando os olhos para a tela. — Decidi que não vou sair. A casa é grande o suficiente e prefiro evitar interações desnecessárias. Se o senhor puder apenas garantir que o café seja servido às oito, eu agradeço.
"Senhor Vane". As palavras soaram como um tapa. Por anos ele foi o "Julian", o herói, o protetor. Agora, ela o tinha rebaixado a um funcionário doméstico com apenas duas palavras.
— Isadora, pare com esse joguinho — ele rosnou, levantando-se e caminhando até ela.
Desta vez, ela não recuou e nem o provocou. Ela simplesmente bloqueou o tablet e o encarou com uma expressão de tédio.
— Jogo? Não tem jogo nenhum. Você deixou claro ontem à noite o que eu sou: uma obrigação de trabalho. Estou apenas facilitando a sua vida. Você fica aí no seu canto, fingindo que é um homem de honra, e eu fico no meu, fingindo que você não existe. Parece um acordo justo, não?
Julian sentiu uma urgência violenta de segurá-la pelos ombros, de sacudi-la até que aquele olhar de indiferença sumisse e o desejo — ou até o ódio — voltasse. Mas ele não podia. Ela estava agindo exatamente como ele ordenara: como uma pessoa civilizada.
O dia seguiu como uma tortura lenta. Isadora circulava pela mansão como um fantasma elegante. Quando ele entrava na biblioteca, ela saía sem dizer uma palavra. Se ele tentava puxar assunto sobre o Marco, ela dava respostas curtas e formais: "Sim", "Não", "Trate disso com o meu pai".
Ao entardecer, Julian estava no escritório, mas não conseguia se concentrar em nada. O silêncio dela estava fazendo mais barulho do que o grito da noite anterior. Ele se pegou andando pelos corredores só para ver se a encontrava.
Ele a viu no jardim de inverno, lendo sob a luz alaranjada do pôr do sol. Ela parecia tão intocável, tão distante. Julian entrou na sala, e o cheiro de jasmim o atingiu como um soco no estômago.
— O jantar será servido em breve — ele disse, parado na porta.
Isadora virou uma página do livro, sem desviar os olhos da leitura.
— Pode pedir para servirem no meu quarto? Não quero perder o apetite tendo que olhar para um "hipócrita".
Julian deu três passos rápidos e fechou o livro dela com força, forçando-a a olhar para ele.
— Já chega disso! Prefiro você gritando e jogando taças em mim do que agindo como se eu fosse invisível!
Isadora deu um sorriso lento, quase cruel, e se levantou. Ela ficou tão perto dele que Julian pôde ver o reflexo da própria frustração nos olhos azuis dela.
— Sabe o que é, Julian? É que a raiva exige que eu me importe. E eu percebi que você não vale o esforço. Você quer ser o guarda? Guarde. Você quer ser o funcionário? Obedeça. Mas não peça para ser notado. Para mim, você morreu naquela sala de jantar ontem à noite.
Ela passou por ele, o ombro dela roçando no braço dele — um toque frio, sem a eletricidade de antes.
Julian ficou ali, sozinho no jardim que escurecia, sentindo o controle escorregar por entre seus dedos. Ele percebeu, com um pavor crescente, que Isadora tinha descoberto a arma definitiva: ela não precisava seduzi-lo para destruí-lo. Ela só precisava deixá-lo sozinho com os seus próprios desejos.
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