Entre Reis e Piratas
10 Capítulo 10
Observo as trancinhas que enfeitam o cabelo crespo de Yva, admirando-as enquanto terminamos de guardar as taças nos armários de mogno.
— Gostou? – Ela pergunta, passando a mão pelos fios curtos, contente – Eu que fiz.
— São lindas!
— Posso fazer em você mais tarde, se quiser. – Ela oferece, fechando a porta do armário.
— Eu adoraria.
Percebo quão fácil é conversar com Yva e desejo que possamos nos tornar amigas. Quando morava em Montanhas Altas tive apenas dois amigos próximos: Evan e Gisa. Após a morte precoce de Gisa, toda minha atenção se voltou para Evan.
Eu gostava dos desafios que ele me dava, das aventuras que vivíamos. Com ele, eu não precisava temer por ser eu mesma, uma menina de cabelos sempre bagunçados que topava as mais insanas apostas.
Com Evan, eu me esquecia dos problemas de minha família, do fardo do meu trabalho e da possibilidade de um noivado com Victor.
Eu era apenas eu e por expor tão francamente minha essência, acabei destroçada quando ele partiu.
— Moças! — O chamado de Margareth me tira de meus devaneios, fazendo com que minha atenção retorne – O jantar terminou e foi um sucesso. Bom trabalho.
Solto um suspiro de alívio e observo as mulheres baterem palmas, contentes pelo trabalho concluído. Algumas me olham de esguelha, curiosas com minha presença.
— Terminem de limpar a cozinha e estarão liberadas.
— Sim, senhora. – Respondemos em uníssono, dirigindo-lhe um aceno respeitoso.
Margareth se retira e apenas alguns poucos minutos depois todas começam a conversar ao mesmo tempo, eufóricas ao se verem sem supervisão.
— Ainda bem que falta pouco para acabarmos. – Yva comenta, parecendo ansiosa para ir dormir. Eu não me sinto diferente; minhas pálpebras caindo de cansaço – Vamos só guardar aquelas louças e pronto.
— Sim. – Sussurro após um bocejo, pegando a escada para alcançar os armários de cima.
— Soube que seu irmão foi preso.
Eu hesito antes de pegar os pratos de suas mãos, sem me sentir confortável com o assunto.
— Você sabe o que ele fez? – Ela me encara com seus olhos enormes, curiosa.
— Não. – Minto rapidamente, sabendo que não seria sábio de minha parte lhe contar a complexa história que me fez parar aqui – Nós não conversamos ainda.
— Espero que isso não te prejudique. – Ela me entrega mais uma leva de louças e então segura a escada que estou em cima, me dando mais apoio. – Gostei de você.
Eu sorrio brevemente, sem saber se devo ou não confiar em suas palavras.
O tempo passa e nós terminamos nossa parte do serviço em silêncio. Pego as roupas que Glicon me deu e deixo Yva me guiar pelos corredores, me conduzindo ao nosso dormitório.
As paredes vão deixando de ser sinuosas enquanto caminhamos, passando de dourado para um cinza escuro. Das cores da realeza para as cores dos serventes.
— Você pode ficar aqui. – Yva abre uma das muitas portas, revelando um quarto pequeno com duas camas. Uma está forrada com uma manta colorida de retalhos, um desenho de flores pendurado ao seu lado. A outra tem um tecido de linho escuro por cima, parecendo intocado.
Uma cômoda de madeira escura com muitas gavetas complementa o cômodo, algumas velas posicionadas acima dela.
— É aqui que eu durmo. – Ela diz, se jogando na cama de lençol colorido – Minha colega de quarto, Ágatha, saiu daqui há algumas semanas.
— Foi demitida? – Pergunto, querendo saber se demissões são comuns por aqui.
— Não, foi transferida. – Yva apoia a cabeça com o braço, deitando de lado para me encarar. – O rei tem um palacete de verão e às vezes precisa de mais gente por lá. Margareth fica furiosa com isso porque a governanta do palacete exige a transferência de algumas meninas daqui o tempo todo.
— Por que isso?
— Ela e Margareth têm uma rixa desde sempre e costumam se vingar infernizando uma a outra.
— Não me parece muito profissional da parte delas. – Observo, experimentando meu novo colchão.
— Porque não é. – Yva responde rindo, virando pra olhar o teto – As duas são malucas.
Deito para sentir melhor a maciez da cama e bocejo sem querer.
Yva ronca bem alto, de repente, e eu não contenho um sorriso, surpresa com a velocidade de seu sono.
— Boa noite. – Lhe desejo baixinho, encarando o teto enquanto penso que tudo isso é real.
Estou em Karinus, meu irmão foi preso, o rei me defendeu, trabalho no palácio e tenho uma colega de quarto.
Muita coisa em pouco tempo.
Amanhã preciso me informar sobre Alexander e seu futuro julgamento, escrever para mamãe e descobrir onde minhas coisas, que vieram comigo durante a viagem foram parar.
E, é claro, não pensar na ausência de Evan Gruger.
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