Entre Reis e Piratas
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Um arrepio gelado percorreu o corpo velho de Delphine, fazendo — a aproximar-se mais do fogo que crepitava em sua lareira. As cartas de Evan sempre lhe causavam certa pertubação e inquietude.
Ele lhe contara sobre seus triunfos orgulhosamente, sem remorso algum pelas vidas ceifadas por sua ambição.
A morte de Tobias lhe trouxe muito poder, todos os navios lhe foram deixados como herança. O homem amava Evan e por mais que insistisse no casamento dele com sua filha Sophie, Delphine sabia que nem mesmo a recusa do sobrinho seria capaz de diminuir o sentimento de paternidade que ele nutria por seu sobrinho. Evan, no entanto, não se mostrara muito afetado com o falecimento de Tobias, afinal, sua mente estava sempre em seu desejo de vingança e poder.
Ele contava na carta, sem muitos detalhes, que havia encontrado nos subúrbios de Karinus alguns dos homens que serviram seu pai, Dario Mares e havia os convencido a o servirem também.
Em pouco tempo, ele já usara suas frotas para impedir o comércio real de Karinus, afundar os navios do rei, derrubar suas cargas no mar, subornar soldados no portos e ameaçar vilarejos inteiros.
Delphine suspirava a cada página, assustada e temerosa que o futuro de Evan fosse impedido por seu desejo de vingança. Seus pais tiveram as vidas ceifadas pelo antigo rei de Karinus, Tayron, e Delphine sofria todos os dias pela forma cruel pela qual sua irmã fora morta. Ela sabia que Evan também sofria, mas nele, o sofrimento se convertera em algo sombrio e gélido, fora de controle.
Ele queria a cabeça do filho de Tayron numa badeja e o poder de Karinus em suas mãos.
Os valores piratas de honra, bravura, vingança e possessividade já estavam impregnados no sobrinho quando ela o acolheu em sua casa modesta no topo de Montanhas Altas. Alya, sua irmã, havia se envolvido com Dario, o mais poderoso pirata de seu tempo, engravidando dele, sendo obrigada a mudar-se o tempo inteiro, fugindo dos inimigos de seu marido.
Evan vira o pai diversas vezes até os dez anos de idade, sendo doutrinado por este, aprendendo desde cedo como se tornar seu sucessor. Ele o amava e admirava como nenhum outro.
Certo dia, Alya, teve um pressentimento tão ruim que a encorajou a tomar a decisão mais difícil de sua vida: Enviar o único filho para longe, num lugar remoto, nas montanhas, onde ninguém pudesse descobrir a origem do garoto. Ela sempre soube que deveria ter feito isso logo que ele completasse um ano, mas faltou-lhe coragem para privar o menino de seu convívio e o do pai. Dias depois, ela foi descoberta pelos oficiais reais como esposa de Dario. Tayron fez questão de tortura-la em frente ao esposo até extrair dele as informações sobre Suprema e seus tesouros, matando os dois em seguida.
A história fazia o estômago de Delphine doer. Sua irmã jamais merecera um fim tão severo.
O ódio de Evan, acumulado ao longo dos anos, estava explícito em cada linha, exceto no final de sua carta, onde ele perguntava sobre Susana. Ele a chamava de sua mulher e exigia ter novas notícias dela.
A cada nova carta o nome de Susana se repetia mais e mais vezes. Ele estava obcecado e cheio de saudade, disso Delphine não tinha dúvidas.
Evan havia dado dinheiro e terras para tia e a pedia que entregasse quantias fartas a moça, para mante-la em sua ausência.
Delphine não lhe contou sobre a tristeza que apossara Susana quando ele se foi e o quanto ela fora massacrada socialmente por terem dormido juntos. Mas ele sabia, com certeza.
Chamavam-na de bruxa sedutora pelas costas, cortando as chances dela de convívio com alguém que não fosse sua mãe Tania. Esta, orgulhosa como sempre fora, jamais aceitou nenhum centavo oferecido por Delphine a mando de Evan.
— Senhora? — Com um susto, Delphine notou Fiorence, sua criada, parada na soleira da porta, esperando ser notada — Deseja alguma bebida?
— Não, obrigada. — A mão da jovem tocou a maçaneta, prestes a se retirar quando a mais velha a interrompeu — Espere.
— Sim?
— Tens alguma notícia de Susana Ducan?
A moça fofoqueira abriu um sorriso sagaz.
— Minha querida vizinha partiu com o irmão há três dias para Karinus.
O coração de Delphine parou, sua respiração cortada pelo choque.
— O que?!
— É isso mesmo. Ninguém imaginava que ela algum dia sairia daqui, mas mesmo assim foi embora de manhã bem cedo sem despedir de ninguém. De qualquer maneira, não é como se alguém se importasse.
A mais velha praguejou alto, as mãos tremendo aos segurar as folhas da longa carta. Fiorence estava terrivelmente engada, alguém muito importante se importava com aquela notícia. Alguém capaz de derramar o tanto de sangue que quisesse para tê-la de volta, presa em sua casa miúda, longe de qualquer perigo.
— Senhora! — Fiorence tocou seu braço, ajudando- a a sentar na poltrona de couro as suas costas. — Ficou pálida de repente...
— Traga Tania Ducan para mim. Agora!
A moça a olhou com estranheza, afastando-se minimamente.
— O que digo a ela, senhora? Já é tarde da noite.
— Diga que sua vida está em perigo.
Fiorence viu a patroa pôr a mão sobre a testa com expressão de luto, as sobrancelhas franzidas de tensão e correu porta a fora, pegando sua capa e avançando em direção a terra dos Ducan.
Mais de uma hora depois, Delphine tinha Tania a sua frente, com o rosto zangado e ressentido.
— O que você quer? — Pergunto-lhe com rispidez, os braços cruzados sobre o peito. — Está tarde e sua criada acordou-me com gritos agudos na janela de meu quarto.
Fiorence havia deixado o aposento e Delphine agradecia por isso, sabendo que moça seria incapaz de manter-se calada diante de seu comentário ácido.
— Eu lhe alertei, Tania. Como pôde deixar sua filha ir embora?
A mulher riu com sarcasmo, raiva brilhando em seus olhos castanhos.
— Susana passou tempo demais trancafiada por causa do seu sobrinho maldito. Já estava na hora dela viver a própria vida, de recomeçar em um lugar diferente.
— Ela não pode, Tania.
— Claro que pode! — Retrucou com ira.
— Ele não permitirá! — O grito escapou da garganta de Delphine, aflita demais para impedi-lo. Tania não entendia, Evan jamais perdoaria aquilo. — Ele irá atrás dela até os confins da Terra!
A face de Tania empalideceu, seu rosto mostrando o temor pela filha.
— Ele deve ter outras garotas por todo o reino, arranjará uma para substitui-la.
Delphine quase chorou diante daquela frase, tamanho o engano da outra.
Evan escolhera Susana como mulher e não havia mais retorno. Para ele, ela sempre o pertenceria.
— Corrija isso, Tania. — Com os lábios trêmulos e os olhos ardendo, Delphine quase podia sentir o gosto de sangue em sua língua. Os piratas tinham seu próprio modo de resolver as coisas e sempre havia morte nisso. A misericórdia não era bem-vinda nunca. — Corrija antes que ele venha e seu ódio recaia sobre todos nós.
— Não vou mandar minha filha voltar apenas para satisfazer os caprichos de seu sobrinho!
— Então espere que a desgraça assole você e toda essa vila porque enquanto ele não a tiver sob seu controle, ninguém será poupado de sua ira.
—
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