Entre Reis e Piratas
9 Capítulo 9
Notas iniciais
— A senhorita pode usar estas roupas. – Glicon me entrega uma pilha de vestidos brancos. São uniformes de empregada. Eu sorrio levemente, ansiosa para tirar o vestido de seda que o rei mandou que me vestissem.
Após nossa breve conversa no quarto, Máximos se retirou para receber algum convidado importante. Segundo os cochichos que ouvi em frente ao dormitório, o ilustre convidado é um monarca.
— Obrigada, senhor. – Quando estive no quarto com o rei, pude notar como ele confia nesse homem. Isso me acalma.
— Por nada, querida. – Glicon aperta meu ombro de leve, o que me lembra meu pai. Ajeito a postura rapidamente, tentando me livrar da sensação de proximidade. Caminhamos até a cozinha e ele me apresenta a uma mulher chamada Margareth.
— Esta é Susana. Ela é de Montanhas Altas e precisa de uma função aqui no palácio. Pensei que a cozinha seria bom, já que um banquete se aproxima.
— Sim. Estamos precisando de ajuda. – A voz da mulher soa um pouco desesperada e observo garotas correndo de um lado a outro com panelas e talheres em mãos. Margareth ajeita uns fios rebeldes dentro da touca antes de apontar para uma porta. – Pode trocar de roupa ali. Já vamos começar.
Glicon se despede de mim com um aceno e eu vou me trocar rapidamente. Fico contente por ser útil e trabalhar. Margareth diz que sou aprumada o suficiente para servir pratos e bebidas. Ela gosta de escolher as garotas mais jovens para fazer isso. Diz que somos melhores visualmente.
Tento não revirar os olhos diante de sua fala já que a razão de ela escolher moças jovens para servir é unicamente para exibir-nos para homens ricos e políticos. Apesar de achar seu posicionamento ridículo, não discuto. Tenho um emprego e preciso ajudar mamãe.
— Oi. – Sinto um toque em meu braço — Meu nome é Yva, e o seu? – Uma garota de pele negra e cabelos escuros me pergunta. Fico um pouco nervosa. Ela parece ser divertida, alegre; não acho que irá gostar de mim.
— Susana. Susana Ducan.
— Você é nova, não é?
— Sim. Estou começando agora.
— Faz um mês que cheguei aqui. – Aceno positivamente, tentando ser simpática. Espero estar dando certo. – Quem a indicou ao cargo?
— Alexander. – O nome de meu irmão faz os pelos da minha nuca se eriçarem. Preciso de mais informações sobre ele e o julgamento.
— Ah. – Ela sussurra e parece desconfortável.
— Você o conhece?
— Ahn... Acho que todas as garotas daqui o conhecem... se é que você me entende. – Imagino Alexander cantando cada garota do palácio, se aproveitando seu cargo elevado para fazer suas piadinhas. Duvido que haja alguém tão galinha quanto ele.
Margareth me entrega uma garrafa de vinho e cálices de prata sobre uma bandeja para Yva. Faço uma trança rápida enquanto ela nos dá instruções como: Servir primeiro o rei e depois seus convidados, da direita para esquerda, ter cuidado na hora de servir e nunca conversar ou sorrir para ninguém da mesa.
Aceno e somos liberadas para a sala de jantar real. A mesa se encontra coberta de vários tipos de iguarias e um porco enorme com uma maçã na boca, no meio. Minha respiração fica entrecortada quando vejo Máximos sorrir para um de seus convidados. Ele tem carisma e gesticula enquanto fala. Todos parecem encantados com ele.
Tento controlar o rebuliço em meu estômago e a animação incomum que sinto ao ver Max. O que há de errado comigo?
Yva posiciona um cálice à frente do rei e venho logo atrás, enchendo-o de vinho. Minha perna roça na sua levemente e eu me afasto de forma abrupta. Se Máximos não tivesse segurado meu braço, eu teria derramado o líquido sobre a mesa.
— Obrigado. – Ele dá um aceno respeitoso para mim e Yva. Parto para o próximo convidado, me sentido mais desastrada que nunca.
— Nós de Euralya, estamos muito contentes com o seu convite, Rei Máximos. Sabemos que o desemprego em Karinus tem sido preocupante. — Um homem de olhos puxados e turbante na cabeça, diz. Parece ser parte da majestade de Euralya.
— Agradeço a sua prontidão e a de seus homens. Karinus tem passado períodos duros, mas iremos supera-los.
— Sem dúvida alguma. E o problema com os piratas?
Noto de esguelha a postura de Máximos ficar tensa.
— Temos reforçado nossa costa, mas é um trabalho árduo. Os ladrões tem muitos navios e muitos homens. Seu líder é determinado e ambicioso. Parece que o filho do homem que matou meu pai tem assumido a frente deles. – O tom sombrio em sua voz faz com que minha mão trema um pouco e eu me esforço para não molhar a mulher a meu lado.
— Entendo. Que bom que ficamos na divisa por terra, não é mesmo? Sem mar ou piratas para nos atrapalhar.
Todos riem na mesa como se ele tivesse dito algo engraçado. Reviro os olhos. Bando de puxa-sacos.
— É claro. – Máximos pousa sua taça com elegância e eu sinto seu olhar sobre mim por um momento enquanto tento não derrubar a garrafa de vinho, seguindo Yva para não fazer algo errado — Enviei uma carta aos piratas hoje. Quero propor um acordo ao líder deles. Se não conseguir, terei que partir para a força bruta. Preciso dos seus homens para isso.
— E o que ganho em troca?
A mesa fica em silêncio, esperando a resposta do rei de Karinus. Eu o olho de esguelha.
— Um terço da produção pesqueira por cinco anos.
Arfo em surpresa. Isso é muita, muita coisa. Definitivamente uma proposta ambiciosa.
O rei de Euralya ajeita seu turbante enquanto finge pensar na proposta. Todos sabemos que ele irá aceita-la, seria tolo se não o fizesse. A fome de seu povo é urgente e precisa ser aplacada.
— Acordo feito. – Ele aperta a mão de Máximos enquanto sorri. Seus dentes são amarelados e compridos, dando um toque assustador ao seu sorriso.
Yva coloca a última taça em frente a um homem barbudo e eu a encho, tentando controlar minha curiosidade e não olhar os reis novamente.
Eles continuam a falar, mas agora praticamente sussurram. Seus olhares irradiam poder e noto que há uma batalha silenciosa ocorrendo ali. A amizade entre os dois é apenas uma farsa para manter os negócios.
Eu e Yva finalmente saímos do banquete e eu solto um suspiro pesado ao chegar do lado de fora.
— Uau. – Ela diz, com os olhos meio arregalados – Não via a hora de sair de lá. Nunca estive num lugar tão tenso.
Aceno em concordância.
— A maioria das conversas do rei devem ser assim.
— Ainda bem que não estou na pele dele. – Yva diz, afobada e eu concordo novamente. Não deve ser fácil estar na posição de Máximos; milhares de vidas dependem de duas decisões e capacidade de negociar.
Entramos na cozinha e Margareth nos manda limpar uma pilha de taças. Nós a obedecemos, tentando trabalhar da forma mais rápida possível.
— Andem logo, moças. – Apressa Margareth, com as mãos na cintura rechonchuda.
Enquanto limpamos, ela manda outras moças servirem as mesas. Pergunto a Yva a razão do revezamento.
— Ela faz isso para demonstrar que o rei tem muitos servos a seu dispor. É uma maneira de mostrar poder.
— Ah. – sussurro. Dinheiro e poder. Parece que o mundo gira em torno disso.
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