Entre Reis e Piratas
3 Capítulo 3
Quando percebo que Evan não me segue, respiro fundo e volto a caminhar normalmente, segurando minhas lágrimas. Paro em frente a casa de Victor, encontrando-o a cortar lenha com mais força que o necessário.
Seus braços musculosos se sobressaem sob a camisa. Ele enxuga o rosto com as costas da mão, ignorando-me por completo. Abraço meu próprio corpo, sentindo um frio repentino.
— Me des...
— Não se desculpe — Ele me corta e eu ergo meu olhar, a culpa espalhando calafrios pelo meu corpo. — Você não é minha mulher, sequer minha noiva oficialmente falando. Não me deve fidelidade ou coisa semelhante.
Surpresa, noto a sinceridade em seus olhos, misturada com irritação e com algo que me incomoda: pena.
— Por que me olha dessa forma?
— Porque não gosto de ver alguém tão jovem destruir a própria vida. — Um peso se aloja em meu coração e sinto minha garganta se fechar. — Não sei porque adiei tanto essa conversa. — Ele ergue as mangas da camisa, pronto para dar um ponto final em algo — Susana, a razão de eu querer casar-me contigo foi Flin. Você sempre se deu bem com ele e parecia a pessoa perfeita para diminuir o vazio deixado por Gisa. Fui tolo ao exigir algo tão grande de uma garota de dezessete anos. Mas você está livre agora para tomar suas próprias decisões.
Não sei como reagir a isso; minha boca fica seca. Por anos suprimi meus sentimentos e vontades, achando que meu destino era cuidar da família de minha melhor amiga. Por anos me senti culpada por sequer cogitar um fim diferente. Lágrimas escorrem por meu rosto, mas não me sinto liberta.
— O que você quis dizer sobre... eu destruir minha vida?
Victor suspira, mas me olha nos olhos.
— Eu sou pai, Susana, e é como pai que lhe adverto. Cuidado com Evan. A forma como ele a olha, como fala sobre você... não é saudável. Sei que se Gisa estivesse aqui, acharia a mesma coisa.
Penso em que momento da vida eu não percebi isso. Fico confusa. Evan e eu sempre fomos amigos, melhores amigos e apesar de seu ciúme, nossa história permanecia viva pela infância que compartilhamos
— Não posso convencê-la. — Victor retruca, como se lesse meus pensamentos — Só espero que perceba a verdade antes que seja tarde demais.
Ele voltar a cortar a lenha em toras, claramente me dispensando. Caminho até em casa, como em um transe. Falo com minha mãe brevemente e ela comenta algo sobre eu ter deixado nossas roupas abandonadas no leito do rio. Peço desculpas e me tranco em meu quarto. Tiro meu vestido grosso e o mais fino e úmido que fica por baixo. Enrolo-me num cobertor e deito na cama, sem ter a menor ideia de como lidar com meus sentimentos.
***
No meu vilarejo, a cerimônia de maioridade é uma tradição. Todas as garotas prestes a completar dezoito anos usam roupas chamativas e demonstram seus talentos para os homens solteiros. No final, as garotas mais jovens dançam e tem um pequeno espaço de tempo para atrair atenção de um homem que esteja disposto a esperar que completem a maioridade e assim estejam livres para o matrimônio.
Hoje é um desses dias e não me sinto nada animada para festejos e danças. Principalmente quando sei quem estará lá.
— Nenhuma daquelas garotas é páreo para você. Quando estiverem dançando em volta da fogueira, mova os quadris como só você sabe e terá todos os homens dessa vila aos seus pés. — Mamãe diz pela segunda vez só hoje. Suspiro e esmigalho meu pão. — Não faça essa cara, Susana. Se quiser ter algum pretendente decente, precisa impressionar esta noite. Esse seu jeito moleque e esses seus passeiozinhos com Evan lhe reduziram consideravelmente as opções e...
Minha mãe continua a falar, mas não ouço. Não quero pensar em me comprometer com algum homem rico de minha vila, mas saber que o casamento é uma obrigação e necessidade para uma garota pobre como eu faz com me sinta deprimida. Se o meu pai estivesse vivo, ele nos manteria e eu não precisaria me humilhar pra ganhar migalhas para lavar cestos enormes de roupa da casa de Sophie. O salário que ganho só cobre os custos de alimentação e eu sei que não posso viver assim para sempre. E depender de alguém para ter uma vida digna me faz querer gritar de indignação.
Despeço-me de minha mãe quando já não aguento mais ouvir suas lamúrias. Ao sair de casa passo por várias garotas de minha idade que sussurram animadamente. Algumas andam de mãos dadas e parecem cada vez mais ansiosas pelo que virá. Eu me mantenho sóbria e caminho arrastadamente até a barraca das solteiras. Fica no meio da floresta, bem escondida e é usada pelas garotas a partir dos dezesseis anos que participarão da cerimônia. O foco de todas está em Danille e Fiorence, já que são as únicas a completar dezoito anos.
Algumas mulheres mais velhas ficam entre nós, consertando vestidos, pregando miçangas e preparando coisas pra passar em nosso rosto. Parecem contentes com o crescimento de suas meninas e sussurram palavras de benção numa língua morta. Sento num tronco de árvore, um pouco afastada das outras e cogito a possibilidade de me esconder.
Delphine, tia de Evan, se aproxima e para em minha frente de forma abrupta com uma tigela de barro em mãos. O conteúdo verde dentro dela não parece muito agradável, muito menos sua posição autoritária.
— Sou eu que irei ajudá-la hoje. — Sem mais explicações, ela enche a mão direita da coisa verde e passa na minha cara — Isso serve para limpar seu rosto.
— Não preciso de ajuda. — Reclamo, afastando-me de seu toque.
— Não é isso que sua aparência diz. Agora sente e me deixe terminar de cuidar de você. Ao final disso tudo, você estará linda como uma gazela.
A possibilidade de parecer uma gazela não me parece muito excitante, mas permito que Delphine continue o que está fazendo. O troço verde já está em meu rosto e eu estaria mentindo se não dissesse que estou interessada a respeito dos resultados disso.
Ela esfrega uma espécie de esfoliante em mim e mais algumas pastas que não sei pra quê servem. Meu cabelo é desembaraçado e corberto pela polpa de alguma fruta.
— Por que está me ajudando? — pergunto, curiosa. Delphine nunca foi prestativa ou caridosa.
— Não é óbvio?
Evan. Só ele pode ter pedido algo assim a tia. De repente quero recusar sua ajuda, mas Delphine esfrega alguma coisa nas minhas costas e eu desisto. Já faz algumas horas que estamos no mesmo processo. Ela passa coisas em mim e depois tira com água quente. As outras meninas parecem tão assustadas quanto eu e também tem pastas verdes na cara. Sophie grita de indignação do outro lado da tenda e eu quase rio.
A tarde chega e minha mãe me traz algo para comer. Saboreio em silêncio, um tanto distante das outras meninas. Depois da morte de papai e de Gisa foi muito difícil pra mim fazer amizades. Eu perdi o interesse de me conectar com outras pessoas, principalmente quando eu já tinha um melhor amigo navegante.
Estou enrolada em um pano branco quando Delphine me dá uma roupa estranha. As outras também começam a se vestir e o farfalhar de tecidos soa com clareza.
— É muita gentileza sua dar a ela algo para vestir. — Minha mãe agradece Delphine, que a cala com um aceno. Insisto em usar a roupa que mamãe me deu, mas ela me chama de tola por querer trocar os trajes ricos nas mãos Delphine pela simplicidade dos seus. Visto a roupa a contragosto. Sei que não é um presente de Delphine, e sim, de Evan. Ele me deu um vestido dessa mesma cor há dois meses e disse que adora me ver com cores quentes. Trata-se de uma parte de cima curta que deixa meu umbigo a mostra e aperta meus seios. Em baixo, uma saia brilhante e vermelha com algumas contas aplicadas sobre a seda fina. Encolho-me na roupa, desconfortável.
— Você está linda, Susana. — Danille me elogia com um sorriso. Para meu alívio, a roupa das outras garotas são tão exibidas quanto a minha.
— Obrigada. Você também está. — Respondo meio sem jeito. Minha mãe passa uma cor rubra em meus lábios antes de eu entrar na fila de garotas ansiosas e seminuas. Suspiro e penso em um par de olhos brilhantes e sedentos.
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