Entre O Amor E A Guerra

46 Capítulo 46 - Anseios e medos...a vida engana.


Notas iniciais
Aproveitando uma brechinha do dia para postar...a noite volto para responder os comentários!! Bjs no coração! Lu

Santana saiu da sala de Marcos pensativa, seguiu o chefe para conhecer seu novo espaço de trabalho, assim como suas novas atribuições, mas a cabeça dava mil voltas ao mesmo tempo. Sabia que aquela era a chance de sua vida e queria agarrá-la com unhas e dentes, mas tinha dúvidas se realmente daria conta...será que era competente o suficiente para aquele cargo? Será que seu amor por Brittany era tão forte a ponto de mudar toda a sua vida por ela? Por alguns segundos se lembrou de Emily, da situação vivida com a garota no dia anterior; sabia que Emily era uma furada, que a vida que ela poderia lhe oferecer era “fim de carreira”, mas ainda assim trouxe-a em seus pensamentos. A sensação que tinha era de que vivera por tanto tempo sendo “quase nada” que agora talvez fosse mais cômodo recuar e se satisfazer com tão pouco...o medo de crescer começava a lhe causar calafrios. Já Brittany foi para casa pensando no sermão do pai...ele tinha razão quando dizia que ela só queria ser administradora porque já tinha um patrimônio sólido e garantido, mas, de fato, qual era o seu verdadeiro sonho de realização profissional?! Lembrava dos primeiros anos na escola, da época em que participava da escola de dança com Rachel na infância e na adolescência...era sua paixão, mas aos poucos foi deixando de lado, afinal sua mãe sempre dizia que dançar não era futuro promissor e que ela tinha um patrimônio para cuidar; e agora, o que fazer com aquelas lembranças que insistiam em permear seus pensamentos?

Na favela Quinn se remoia lembrando daquele senhor que conhecera na festa de Rachel...havia perguntado para a garota se ela o conhecia, descreveu a fisionomia e o porte do homem, mas Rachel não se lembrava de ninguém que pudesse conhecer com aquelas características. Lembrava sim, de um homem diferente na festa com as mesmas descrições que a namorada lhe passou, mas não sabia quem era ele. Quinn tinha certeza que aquele homem sabia de toda sua vida, mas como?! Ficou horas pensando em sua palavras, especialmente quando ele disse que talvez ela precisasse se despir da armadura de “traficante do mal” para ter futuro; mas como se despir da única identidade que tinha? Como pensar em outro rumo para sua vida, se cresceu seguindo em linha reta, sem entender que a vida poderia ter curvas e sinuosidades? A verdade é que tanto ela quanto Santana enfrentavam o dilema de sair do lugar cômodo de meras expectadoras de suas vidas para o lugar de agenciadoras de mudanças...será que conseguiriam?

A tarde veio e Santana retornou para casa com milhões de pensamentos pairando em sua mente. Não ligou para Brittany, embora a loira tenha tentado falar com ela várias vezes. Subia a morta distraída, pensando na vida quando foi abordada por Emily que apareceu do nada. A menina trazia nas mãos alguns papéis, e logo parou a morena para conversar.

- Desculpa te parar aqui na subida do morro, sei que deve estar cansada mas é importante Santana. Falou Emily com um enorme sorriso no rosto.

- Tudo bem Emily, realmente estou um pouco cansada e pensativa, mas nada que não possa parar um pouquinho com você aqui. O que é tão importante que está despertando esse sorriso enorme em você?

- Então San, se é que posso te chamar assim. Nos últimos dias tenho tentado organizar algumas ações para melhorar a vida dos moradores aqui do morro; coisas como regularização das escrituras das casas e dos terrenos, solicitação do carro de coleta de lixo para a comunidade, estruturação da unidade de saúde, assim como a iluminação, que sabemos que é precária em todo o morro. Como tenho alguns contatos fora do morro consegui algumas coisas, entre elas a possibilidade de regularização das casas, o que é algo muito esperado por todos os moradores daqui. Como sei que você é ligada ao movimento comunitário e estava também nessa luta antes da invasão, queria dividir com você o que avançou, e também te contar que uma das primeiras casas que vamos conseguir a escritura é justamente a da sua mãe.

Santana não se conteve e deu um pulo de alegria no pescoço da garota. Eram anos de luta da comunidade pelo direito de ser dono de sua própria casa, uma luta que passou de sua avó para sua mãe, e de sua mãe para ela; a felicidade era tanta que Santana não se deu conta do jogo que Emily fazia, usando uma de suas paixões para se aproximar, uma de suas lutas para se aproveitar. Ficaram ali abraçadas por alguns segundos, Emily quase inebriada pela situação, que por pouco não deu o vacilo de beijar Santana...sabia que não podia, afinal agora que estava conquistando a confiança da menina não podia cair nesse erro.

- Emily você não tem noção do quanto a comunidade lutou por isso, o quanto nós sonhamos com o dia em que poderíamos ter finalmente documentado o um direito que já é nosso desde que construímos os primeiros barracos...é uma conquista que não é só da minha geração, mas da geração dos meus avós, da geração da minha mãe. Tem noção do que você está fazendo pela comunidade? Como você conseguiu esse milagre que tentamos por anos?

- Não tinha noção de que era uma luta de tanto tempo minha morena, muito menos que era algo tão importante para você. Mas te confesso que se soubesse teria tentado isso desde que cheguei aqui. Na verdade tenho alguns contatos com amigos importantes do “asfalto”, que de alguma forma me ajudaram a conseguir as escrituras, uma história longa que posso te contar se você quiser me ajudar a catalogar todos os moradores, preciso correr com esses dados, assim com a documentação de todos eles. O que você acha? Falou Emily, com os olhos brilhando com a jogada de mestre para maior aproximação da morena.

- Claro que pode contar comigo. Vou mobilizar todo mundo, é só você me dizer quais documentos e o que as pessoas precisam fazer, logo eu te ajudo a organizar isso...é uma questão de honra para mim ver isso aqui nas mãos de seus verdadeiros donos.

- Ok então. Como sei que trabalha durante o dia, podemos marcar a partir de amanhã a tardinha, nesse mesmo horário, na minha casa. Separo tudo hoje e amanhã já começamos, pode ser? Disse Emily, levando a mão ao rosto de Santana e fazendo um leve carinho em seus cabelos.

- Pode ser sim, amanhã assim que eu chegar começamos. Falando isso a latina deu um abraço em Emily e continuou subindo a ladeira, absorta nos pensamentos de como a comunidade ficaria feliz com aquela novidade. Emily, por sua vez, voltou para casa pensando em como tinha sido esperta em pesquisar um pouco da história de Santana, assim como de sua família e da comunidade; não que estivesse infeliz por ajudar a comunidade, mas a felicidade maior era porque finalmente atingira o ponto fraco da garota...a paixão pelo São Jorge. Sentia o cheiro de Santana no corpo e imaginava como seria ter a morena só para ela, e assim se intensificava ainda mais a obsessão que Emily nutria...uma história, que embora Santana não soubesse, vinha desde que a morena ainda era namorada de Kitty, quando se apresentava com grupo de dança em vários bailes em outras comunidades. Emily era “frente” em uma das comunidades que Santana havia se apresentado anos atrás, e nessa noite quis ficar com a morena, que negou-se, afirmando ter namorada. Desde então Emily sabia de todos os passos da garota...onde morava, o que fazia da vida, sua rotina...tudo; um dos motivos que nutriu o desejo em invadir justamente o Morro do São Jorge em Emily era porque além do morro ser um inimigo no tráfico de drogas, o fato da latina residir lá.

Chegando em casa a latina encontrou Quinn na varanda, ainda pensativa. Conversaram um pouco sobre amenidades, até que Santana contou a novidade sobre as escrituras que Emily conseguira. Quinn em um primeiro momento ficou curiosa, queria saber quem tão influente que a garota conhecia para conseguir algo que a comunidade buscava durante tantos anos. Depois a curiosidade deu lugar a desconfiança, afinal era bom demais para ser verdade aquele “interesse” todo de Emily no bem estar dos moradores.

- Santana você tem certeza que isso não é uma jogada dessa louca? Isso me cheira a armação e tenho certeza absoluta que Brittany não vai gostar nada de saber que você vai para a casa dessa psicopata a noite para resolver assuntos da comunidade. falou Quinn, já preocupada com os desdobramentos da nova situação.

- Certeza eu não sei Quinn, mas sei que é algo muito bom para eu pensar em jogo, armação. É tudo que o morro todo sempre sonhou, e agora uma pessoa de fora conseguiu. Não vejo motivos para Britt ter ciúmes se meu envolvimento com ela será estritamente voltado para o bem de todos do São Jorge. Disse Santana, convicta de que Emily não estava armando nada e de que Britt entenderia os motivos pelos quais iria estar com a garota por algumas noites.

Quinn duvidou muito que Britt entenderia, mas não comentou, afinal deixaria a latina se entender com a namorada. Conversaram um pouco mais sobre o dia, suas angústias em relação o futuro, as novidades da promoção de Santana e dos pensamentos de Quinn em relação ao futuro...a amizade parecia mais forte que nunca, o que fazia Quinn ter ainda mais medo da aproximação de Emily. Enquanto isso, na Zona Sul Brittany conversava com Rachel sobre a dura conversa com o pai na empresa...

- Acha mesmo que eu devo fazer novas escolhas em relação a minha vida profissional Rachel? Meu pai falou com tanta firmeza das minhas incertezas que acabei ficando confusa sobre o que quero para o futuro.

- Sinceramente Britt nunca achei que você gostava do que fazia, e só se envolvia para fazer as vontades da sua mãe. Acho que deve se perguntar o que gosta realmente, qual é sua paixão..e ir atrás dela. Como os meninos lá do morro disseram...se jogaaaaa gata!!! Falou Rachel sorrindo e se lembrando do bonde.

- É...acho que é isso que vou fazer. Pensei muito e quero voltar a dançar...era a minha paixão e só larguei pois minha mãe falava que não teria futuro com a dança. Mas se fecho os olhos e penso em algo que amo...isso é a dança, só a dança! Falou Brittany, com os olhos cheios de lágrimas só de pensar o tempo que perdera por ouvir os devaneios da mãe.

- Eu te dou todo o apoio para recomeçar loira, e sei que seu pai também dará. A única coisa que ele quer é te ver feliz, se não fosse assim não teria feito o que fez em relação a Santana, que por sinal deve estar muito apreensiva em relação ao novo cargo.

- Deve mesmo, tão apreensiva que não atende meus telefones...as vezes sinto que ela é minha de corpo e alma Rachel, mas as vezes acho ela tão distante. Hoje depois que saímos da sala do meu pai senti que ela estava confusa, mas não teve coragem de falar nada, muito pelo contrário, foi embora sem falar nada comigo.

- Ela deve estar ansiosa e com medo Britt, tente entendê-la e dar espaço para que ela possa ficar um pouco sozinha, pensar no que quer para a vida, para o futuro. Embora seu pai não tenha dito com todas as palavras, pelo que você falou ele está apostando todas as fichas na San...ela deve estar se borrando de medo! Disse Rachel sorrindo e tentando fazer a amiga ser compreensiva.

- Deve ser isso mesmo Rachel, vou dar um tempo para ela...dar um refresco para não sufocá-la...amo tanto aquela latina marrenta que não saberia mais ficar sem ela. Disse Brittany, lembrando do quanto amava Santana. Sem perceber o tempo que pensava dar a latina poderia ser o tempo que Emily precisava para conquistar espaço, e quem sabe o coração de Santana...

Notas finais
Esse capítulo é um dos que penso ser mais reflexivos em relação as escolhas...especialmente em relação aos nosso medos. Leiam com carinho, afinal fiction também é para pensar na vida!!!!kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk