Entre O Amor E A Guerra
2 Capítulo 2 - O início de uma guerra
Notas iniciais
Eram quase oito da noite e Santana nem mais se lembrava das entrevistas do dia. Dormiu um pouco, foi ao salão e ainda deu uma volta pela comunidade. Encontrou uns amigos de infância pelas vielas da favela, armados até os dentes, pois tinham se tornados soldados do tráfico. O respeito com os moradores ainda existia, e Santana percebia isso quando os encontrava: alguns deles cumprimentavam, outros brincavam com Gabriel, que estava com ela, e outros acenavam de longe. Mesmo sabendo que eles seguiram um caminho sem volta, Santana tinha carinho por aqueles que cresceram junto com ela, que brincaram, correram pelas escadarias e foram seus companheiros de trolações.
Seu amor e respeito eram especialmente pelos irmãos Quinn e Puck. Tinham a idade próxima de Santana, 23 anos, e eram conhecidos como “os irmãos da quebrada”. O morro todo tinha medo dos dois, pois quando se irritavam ficavam violentos e sem controle. Mas Santana, que cresceu com eles, tinha uma mistura de pena e compaixão: sabia que eles seguiram um caminho complicado, mas não conseguia ter raiva, pois foram abandonados muito cedo pela mãe, que sumiu no mundo, e o pai, que era um alcoólatra violento, só sabia explorar e espancar os dois. Quinn era mais arredia e só falava com Santana o necessário, pois ainda nutria uma paixão da adolescência pela latina. Puck tinha Santana como uma irmã mais nova, vivia indo a sua porta saber como ela estava, levava presentes roubados e comidas compradas com dinheiro do tráfico. Santana se recusava a receber, com jeito para não magoar o amigo, e tentava convencê-lo a sair daquela vida, o que nunca surtia muito efeito. Enquanto Quinn ostentava um cordão de prata no pescoço com a inicial de um S, que dizia ser do nome da mãe — Suely, Puck tinha o símbolo de um coelhinho da playboy, pois era o garanhão da comunidade.
O fato era que a quebrada estava toda empolgada com o baile daquela noite; o melhor MC da cidade iria estar presente, além de vários grupos de dança. Santana estava empolgadíssima, pois nas horas vagas ensaiava com um grupo de dança chamado “As poderosas”, e iria se apresentar. As dez já estava pronta para arrasar: vestia uma calça preta colada em suas curvas maravilhosas, uma blusa também coladíssima, com um decote que deixava o colo de seus seios a mostra. O salto fazia com que a latina parecesse mais alta, o que a deixava ainda mais linda. Ao se perfurmar, por alguns instantes lembrou do dia, da entrevista na Zona Sul, e da patricinha nojenta com a qual esbarrou...Brittany. Lembrou dos olhos lindos cor de mar, mas logo fez uma cara de nojo ao relembrar da atitude da loira. Deixou os pensamentos de lado e foi atender a porta, pois alguém batia quase a derrubando. Logo percebeu que era Kitty, sua namorada há pelo menos dois anos.
Kitty era daquelas meninas que causam enjôo a primeira vista: possessiva, agressiva e de poucos amigos. Jurava para Santana que não tinha envolvimento com o tráfico, mas no fundo a latina sabia que sua namorada fazia parte do “grupo da baixada” que tomava conta do tráfico da parte baixa do morro. Era um grupo que, embora não fosse rival do grupo de Puck e Quinn, não se misturavam. Cada um tomava conta da sua parte do morro, sem declarar guerra uns aos outros, mas no fundo viviam sonhando em tomar o espaço uns dos outros.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Brittany também terminava de se arrumar. Usava uma calça branca que acentuava seu corpo escultural, e uma blusa vermelha, que mal tapava seus seios. Havia marcado com um grupo de três amigos para ir à inauguração da uma nova boate na parte rica da cidade. Mercedes era filha de um rico industrial, dono de uma empresa de petróleo, Rachel era herdeira de uma grande herança, que recebera depois da morte de seus pais em um acidente, e Kurt era um playboyzinho rico, que não se assumia homossexual, mas que adorava se divertir com garotos as escondidas de seus pais, donos de um dos maiores shoppings da cidade.
Era quase meia noite e meia, o baile bombava no alto da comunidade, enquanto a boate lotada fervia do outro lado, onde a galera da favela chamava de “asfalto”. Santana já havia se apresentado e discutia com Kitty no canto das caixas de som. A loira dava chiliques por causa das roupas da latina, reclamava do assédio de outras garotas e garotos e dava pequenos apertos no braço da menina. De longe, Quinn assistia a tudo, louca para acertar o nariz da oponente, no tráfico e no amor da latina. Do outro lado da cidade, Brittany se amassava com um garoto loiro e de boca enorme, conhecido como Sam, embora não tirasse os olhos de uma garota que tinha lhe dado o telefone no banheiro; embora se pegasse com meninos, Brittany também se sentia atraída por meninas, e adorava flertar e se divertir nas noitadas regadas a muito wisque e energético.
Tudo transcorria bem, kitty já havia bebido bastante e se acalmado, Santana se divertia ouvindo o MC tocar, quando de repente o som parou e uma correria generalizada começou. Eram tiros vindos de todos os lados, pessoas sendo pisoteadas, pessoas ensangüentadas pelo chão e a sensação de uma guerra sem fim. Kitty correu e sem perceber deixou Santana para trás, fato que fez a latina entrar em pânico. Ao olhar para o lado viu um dos meninos do tráfico, Rory, todo ensangüentado e pedindo ajuda; tinha só dezessete anos e seu destino já tinha sido traçado, pois saia sangue por todos os lados, e Santana viu que não poderia mais fazer nada para salvar o menino, correu então para tentar escapar dos tiros, mas seu salto quebrou, o que a fez torcer o pé...era só o início da invasão do morro.
Do outro lado da cidade Brittany já tinha bebido tanto que não lembrava nem do próprio nome, e ainda insistia em continuar com o copo de wisque na mão. Sam preparava-se para levar a loira para uma festinha particular com mais dois playboys. Fatalmente aquela não seria uma boa experiência para uma jovem bêbada e sem condições alguma de se defender. Sem perceber, Santana e Brittany, em situações diferentes, corriam riscos de nunca entrarem uma na vida da outra...
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