Entre Fachadas
13 Quando o Silêncio Pesa Menos
A casa estava quieta demais para quem tinha acabado de sobreviver a um matadouro.
Loid percebeu isso antes mesmo de checar o relógio de pulso. A madrugada avançava arrastada, densa, e o apartamento parecia congelado em um intervalo estranho, como se as paredes ainda estivessem decidindo se o perigo real tinha mesmo ficado do lado de fora ou se a calmaria era só um blefe da noite.
Ele estava sentado no sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar fixo em um ponto qualquer da parede da sala. Não estava mais pensando em Adrien Keller. O cara já era passado. Sua mente insistia em focar no depois. No que aquela quebra de protocolo significava para o futuro deles.
O som quase imperceptível de pés descalços no piso de madeira o tirou do transe. Foi um estalo leve, macio.
Yor surgiu na entrada do corredor. O cabelo estava solto, caindo desalinhado pelos ombros, e ela usava uma roupa de ficar em casa simples demais — um contraste bizarro para quem, poucas horas antes, tinha fatiado drones e neutralizado um alvo com uma precisão cirúrgica de dar medo.
— Você também não conseguiu pegar no sono? — ela perguntou bem baixinho. A voz saiu quase num sussurro, como se falar alto pudesse quebrar a paz do apartamento.
Loid virou o rosto devagar, ajeitando a postura no sofá.
— Achei melhor ficar acordado um pouco — ele respondeu, com a voz ligeiramente rouca, fazendo um gesto vago com a mão. — Para processar os dados do que aconteceu.
Yor cruzou a sala a passos lentos. A hesitação dela estava na postura, no jeito como os braços estavam colados ao corpo. Ela sentou no sofá, bem do lado dele. Não colou de imediato; deixou uma distância de três ou quatro dedos entre eles, mas aquele espaço vazio parecia carregar uma estática pesada, um calor que nenhum dos dois sabia como ignorar.
Por alguns segundos, nenhum dos dois abriu a boca.
Só que era um silêncio diferente de tudo o que já tinham compartilhado. Não era o silêncio estratégico de dois mentirosos dividindo o mesmo teto, nem o gelo de um clima desconfortável. Era um silêncio cheio de coisas não ditas, de adrenalina baixando e de pele quente.
— Quando ele escapou no depósito… — Yor quebrou o gelo. Seus dedos se apertaram contra o tecido do vestido. A voz era firme, mas tinha um tom de vulnerabilidade que Loid raramente ouvia. — Eu senti medo. E não foi por mim.
Loid girou o corpo no sofá, mudando o ângulo para sustentar o olhar dela. Na penumbra da sala, as pupilas de Yor estavam dilatadas.
— Eu sei — ele disse, com a voz mansa. — Eu também senti. No segundo em que vi as saídas trancadas, a minha primeira reação foi tirar você dali.
Yor engoliu em seco, olhando para as próprias mãos cruzadas em cima do colo.
— Você chegou lá primeiro. Naquele corredor principal. Se você não estivesse na retaguarda, se as coisas tivessem saído um milímetro do previsto…
— Você teria dado um jeito nele de qualquer forma, Yor — Loid cortou, sem hesitar. Ele olhou para as mãos dela, mãos que carregavam uma força destrutiva inacreditável, mas que agora tremiam de leve. — Você é a pessoa mais forte que eu já conheci. Cada decisão sua sob pressão foi cirúrgica.
Yor deu um sorriso de canto, meio sem jeito, olhando para os próprios pés.
— Talvez. Mas ver você ali, saindo daquela sombra… foi diferente.
Os olhos de Loid ficaram mais expressivos. Não era aquela frieza de espião; era uma atenção total, focada só nela.
— Você foi perfeita lá dentro — ele disse, com sinceridade na voz. — Cada movimento, cada decisão na hora do aperto. — Ele deu uma pausa, engolindo em seco. —Eu confiei a minha vida às suas costas sem precisar pensar duas vezes.
Aquelas palavras pareceram dar um nó no peito de Yor. Ela ergueu os olhos, encarando-o de frente. O rosto dela estava perto o suficiente para Loid sentir o calor da respiração dela.
— Eu senti isso — ela confessou, com os olhos brilhando na meia-luz. — Quando os drones atacaram, eu não precisei olhar para trás. Eu sabia exatamente onde você estaria cobrindo o meu flanco. Como se a gente fizesse isso a vida inteira.
A atmosfera da sala mudou por completo, ficando mais densa, mais íntima. O ar parecia faltar.
Loid se moveu primeiro. Foi um movimento puramente instintivo, quebrando qualquer regra de distanciamento que o Twilight tinha criado nos últimos anos. Ele esticou a mão direita devagar. Os dedos dele tocaram a bochecha de Yor com uma leveza extrema. A ponta do polegar roçou a pele macia do rosto dela, subindo devagar para afastar uma mecha de cabelo escuro, prendendo-a atrás da orelha.
Yor prendeu a respiração de uma vez. O contato elétrico da mão dele fez um arrepio subir pela espinha dela, e suas bochechas começaram a corar.
— Loid… — o nome dele saiu num sopro.
Ele não respondeu com palavras.
Loid reduziu o espaço final e a beijou. O toque dos lábios começou devagar, uma aproximação cuidadosa, quase um pedido de permissão. Mas quando Yor soltou um suspiro contra a boca dele e cedeu, o beijo se aprofundou. Não tinha nada a ver com o beijo técnico ou ensaiado de uma missão; era um toque carregado de alívio por estarem vivos, de uma necessidade urgente de proximidade.
Sem que nenhum dos dois percebesse a transição, as mãos de Loid desceram para a cintura de Yor, os dedos se firmando sob o tecido fino da camiseta dela, puxando o corpo dela para si. Yor respondeu ao puxão de forma fluida. Ela mudou de posição no sofá e, num movimento natural, acabou sentando parcialmente no colo dele, com os joelhos dobrados de cada lado das coxas de Loid.
O resto do apartamento, a WISE, a Garden, o mundo lá fora — tudo simplesmente evaporou.
A respiração dos dois ficou curta, misturada. Em um gesto involuntário, a mão direita de Loid subiu pela lateral da coxa dela, um aperto firme e possessivo através do tecido, como se ele estivesse testando a realidade, se certificando de que ela estava ali, inteira, quente e segura. Yor enterrou os dedos nos ombros dele, agarrando o tecido da camisa com força, os nós dos dedos brancos enquanto ela se entregava ao ritmo do beijo, que ficava cada vez mais quente e urgente.
O peito de Loid subia e descia com força contra o dela. Por um segundo longo e perigoso, a mente dos dois flertou com o absoluto. Eles sabiam exatamente para onde aquela tensão estava caminhando. O sofá parecia pequeno demais.
E, num entendimento mudo, as bocas se separaram devagar.
Não foi por falta de desejo. Foi uma pausa necessária para recuperar o oxigênio e o controle. Yor apoiou a testa na dele, de olhos fechados, tentando desacelerar o coração que parecia querer pular do peito. O rosto dela estava completamente vermelho, a pele quente contra a dele.
— Isso… não é mais por causa da vizinhança, não é? — ela sussurrou, a voz trêmula, os dedos ainda cravados na camisa dele.
Loid soltou o ar pelo nariz, um meio sorriso genuíno e cansado surgindo nos lábios. A voz saiu mais baixa e rouca que o normal:
— Com certeza não tem nenhum vizinho olhando pela janela agora, Yor.
Os dois soltaram uma risadinha curta. Um riso abafado, nervoso, mas que carregava uma cumplicidade que eles nunca tinham tido antes.
Yor se afastou só o suficiente para conseguir olhar nos olhos azuis dele. Ela mordeu o lábio inferior, hesitando, antes de criar coragem para falar o que realmente queria.
— Você… — a voz dela quase sumiu. — Quer dormir no meu quarto hoje?
Loid piscou uma vez, pego totalmente de surpresa. O analista impecável tinha sido completamente desarmado pelo olhar dela.
— Dormir…? — ele perguntou, a mente tentando processar a transição.
Yor arregalou os olhos, o rosto parecendo que ia explodir de tão vermelho, e começou a gesticular rápido com as mãos, desesperada.
— Só dormir! Quer dizer… deitar na cama! — ela corrigiu, gaguejando. — É que… depois de tudo o que aconteceu no depósito, e com aquele homem indo atrás da Anya… eu só não queria passar o resto da noite sozinha no escuro.
Loid olhou para ela. A agitação dela, o jeito protetor e ao mesmo tempo vulnerável. Ele relaxou os ombros, a expressão ficando extremamente suave. Não tinha falsidade ali.
— Tudo bem. Vamos — ele disse, segurando uma das mãos dela para acalmá-la.
Eles se levantaram do sofá e caminharam lado a lado pelo corredor escuro até o quarto dela. Aquele cômodo que sempre tinha sido um território estritamente pessoal e trancado de Yor, agora parecia aberto e acolhedor.
Deitaram na cama de casal, sob o lençol macio. No início, o corpo de ambos ficou meio rígido. Mantiveram uma distância respeitosa de alguns centímetros, olhando para o teto escuro, ouvindo a própria respiração. Era como se estivessem cruzando uma fronteira invisível e perigosa.
Passaram-se alguns minutos em silêncio.
Até que o cansaço físico e o instinto falaram mais alto. Yor rolou de lado na cama e, de forma quase tímida, se aproximou. Ela encostou a cabeça no peito de Loid, aninhando-se contra o calor do corpo dele e puxando a coberta até os ombros.
Loid encarou a penumbra do teto por uma fração de segundo. Suas regras de espião diziam para manter o distanciamento, para não criar laços. Mas o Twilight não estava no controle ali.
Ele virou de lado, passou o braço esquerdo por baixo do pescoço dela e o outro por cima, puxando-a para um abraço apertado, colando o corpo dela ao seu. O queixo dele repousou suavemente no topo da cabeça de Yor, sentindo o cheiro familiar do xampu dela.
Era só para dormir.
Mas quando o corpo de Yor relaxou por completo contra o dele, perdendo a tensão muscular de combate, e a respiração dela foi se tornando lenta, pesada e perfeitamente segura, Loid sentiu uma clareza desarmante.
Ele tinha passado anos acreditando que aquele apartamento era apenas o cenário onde ele protegia sua farsa para salvar o mundo. Mas ali, com o peso de Yor em seus braços, ele entendeu o oposto: no meio de uma vida feita de mentiras e guerra, os braços dela eram o único lugar no mundo onde ele também se sentia protegido.
E, pela primeira vez na vida, aquela sensação foi mais do que suficiente.
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