WISE

A ameaça existiu de verdade.

Esse era o único ponto em comum entre todos os relatórios que cruzavam as mesas da inteligência. Um caçador de recompensas de atuação internacional, especializado em alvos que normalmente nem entravam em planilhas comuns. Um profissional caro e letal.

Depois disso, o relatório virava um deserto.

Nenhuma movimentação financeira nas contas fantasmas. Nenhum registro de deslocamento em aeroportos ou fronteiras. Nenhuma tentativa de contato com quem o contratou. Era como se Adrien Keller tivesse sido apagado do mundo com um borrão cirúrgico.

— Caras como ele não se aposentam do nada — disse um dos analistas, encarando os gráficos na tela. — Ele nunca deixou um trabalho pela metade antes.

A Handler manteve os olhos fixos no monitor, a expressão fechada de sempre.

— Pessoas assim não desaparecem por escolha própria — ela respondeu, a voz firme. — Alguém escolheu por ele.

Ela girou a cadeira de couro e fixou o olhar no homem de pé no canto da sala.

— Twilight.

Loid deu um passo à frente. A expressão era uma folha em branco, a postura impecável de um soldado que não tinha nada a esconder.

— Sim, Handler.

— Você teve qualquer envolvimento com esse indivíduo nas últimas setenta e duas horas?

A pergunta veio direta demais para ser um mero protocolo de rotina.

— Não — Loid respondeu, sem piscar. — Minhas missões recentes foram estritamente focadas na Operação Strix. Nenhuma envolveu caçadores de recompensas.

— Nenhum confronto direto? Nenhuma batida de frente nas rotas de fuga?

— Nenhuma.

A Handler sustentou o silêncio por alguns segundos que pareceram uma eternidade, tentando pescar qualquer microexpressão no rosto do seu melhor agente. Não encontrou nada além de uma calmaria profissional.

— Esse Keller era extremamente competente — ela disse por fim, soltando o ar pelo nariz. — Bom o bastante para causar um estrago sério nos nossos planos se quisesse.

— Então é um alívio ele ter sumido do mapa — Loid comentou, com um tom de voz casual.

No fundo da sala, alguns analistas se entreolharam e franziram a testa, achando a coincidência conveniente demais.

A Handler continuou observando Loid com atenção, procurando aquela faísca de segredo que o Twilight sempre conseguia esconder no fundo da retina.

— É… — ela concordou, dando-se por vencida. — É um alívio.

Ela fez um gesto curto com a mão, dispensando-o.

— Pode ir. Volte para o seu posto.

Assim que a porta pesada de metal se fechou, um dos agentes deu um passo à frente e murmurou perto da mesa da chefe:

— Você acha que foi ele, Handler?

Ela demorou para responder, batendo a caneta de leve na mesa.

— Se foi ele — disse por fim, olhando para a porta fechada —, nós nunca vamos conseguir provar. Ele é bom demais para deixar rastros.

Ela fez uma pausa, o olhar ficando ainda mais preocupado.

— E se não foi… significa que existe alguém lá fora operando no exato mesmo nível que o Twilight.

Nenhuma das duas opções a agradava nem um pouco.

Garden

Na sede do Garden, a informação chegou ainda mais limpa, sem nenhum detalhe desnecessário. Apenas o essencial para o negócio.

Um caçador. Uma ameaça em potencial para a ordem do país. E agora, um silêncio absoluto na frequência dele.

Yor permanecia ajoelhada no chão de pedra diante do Jardineiro. A expressão dela estava tranquila, a respiração perfeitamente controlada, com as mãos repousadas sobre as coxas.

— Esse indivíduo não deixou nenhum vestígio para trás — o Jardineiro disse, caminhando lentamente entre as mudas de plantas. A voz dele era mansa, quase um sussurro em meio ao som das tesouras de poda. — Nenhum rastro de sucesso. Nenhum rastro de fracasso. Apenas uma ausência completa.

— Entendo — Yor respondeu, mantendo o tom neutro.

— Você teve algum contato direto com ele, Thorn Princess?

— Não.

A resposta veio firme, reta. Uma honestidade impecável no que dizia respeito ao trabalho do Garden. Ela não tinha agido em nome da organização.

O Jardineiro parou de andar, a silhueta recortada pela luz fraca do ambiente.

— Homens como esse Keller não somem por mágica — murmurou, limpando a lâmina de uma tesoura com um pano. — Eles são removidos do tabuleiro.

Ele deu alguns passos e parou bem na frente dela, olhando-a de cima.

— E remoções desse nível sempre deixam marcas. Alguém teve muito trabalho para limpar aquela escada de incêndio.

Yor manteve o olhar baixo, fixa nos detalhes do piso.

— Talvez… — ela disse com muito cuidado, escolhendo cada palavra — alguém tenha apenas impedido que ele chegasse perto demais do que não devia.

O Jardineiro a observou por um tempo longo demais, um silêncio desconfortável que faria qualquer agente comum suar frio. Mas Yor continuou imóvel.

— Talvez — ele finalmente cedeu, voltando a se afastar. — O Garden não agiu nessa operação. Isso está muito claro nos nossos registros.

Ele parou de costas para ela.

— Mas quem agiu… usou uma precisão totalmente compatível com a nossa.

Yor inclinou a cabeça, fazendo uma reverência respeitosa.

— Entendido.

Ao se levantar devagar, ajeitando a saia do vestido, ela sentiu aquele peso conhecido no meio do peito. Mas não era culpa por ter mentido, e muito menos medo de ser descoberta. Era algo bem mais silencioso. Uma cumplicidade secreta.

A caminhada de volta para o apartamento no fim de tarde tinha o mesmo ritmo de sempre.

Loid e Yor se encontraram por acaso na calçada da esquina, como se estivessem apenas voltando de mais um dia comum de trabalho no hospital e na prefeitura. Ele carregava uma sacola de compras com ingredientes para o jantar; ela trazia o sorriso gentil de sempre no rosto.

Quando abriram a porta de casa, o caos aconchegante da rotina os recebeu de braços abertos. Anya estava deitada de barriga para baixo no tapete da sala, com os pés para o ar, assistindo ao desenho do Bondman na TV enquanto tentava equilibrar o chaveiro do Franky no nariz. O cachorro Bond soltou um latido abafado e correu para balançar o rabo perto das pernas de Loid.

— Papa! Mama! O Bondman salvou a princesa de novo! — Anya exclamou, sem tirar os olhos da tela, mas com um sorriso enorme no rosto.

Loid olhou para a filha, depois desviou os olhos para Yor, que já guardava o casaco no armário da entrada. Os dois trocaram um olhar rápido, um semicerrar de olhos que carregava o peso de tudo o que tinha acontecido naquelas últimas noites.

O mundo lá fora podia continuar tentando decifrar o mistério do desaparecimento de Adrien Keller. A WISE e o Garden podiam continuar procurando fantasmas.

Ali dentro, entre o cheiro do café e a risada alta da Anya, a matemática mortal do submundo simplesmente perdia o sentido. Eles tinham feito a escolha deles. E enquanto aquela sala continuasse barulhenta e segura, o segredo deles estaria muito bem guardado.



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