Entre Brindes.

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No dia seguinte, eu não recebi nenhuma ligação ou e-mail do Roderich e comecei a me assustar. O jovem mestre me contatava regularmente, incluindo datas nas quais era trabalhoso encontrar uma desculpa para isso, portanto eu tive que me preocupar quando ele não quis falar comigo sobre o ensaio dele.

Nem uma mensagem com reclamações sobre o salão de festas que eu aluguei ou palavras rabugentas sobre a noite passada, chegou a mim.

Como um conforto, eu tentei me convencer de que… Ei, não deixe o aristocrata distorcer a sua noção da realidade. Normalmente, clientes não contatam seus cerimonialistas todos os dias. Não fique nervoso por conta de um dia em que ele deixou de ligar. Certo, foi um dia super-importante, mas foi um dia. Quem sabe ele esqueceu de pagar a conta de energia? Ele odeia pagar contas. Quem sabe ele esqueceu o telefone em casa?

Depois que terminei de resolver meus problemas no trabalho, eu fui para o meu apartamento, pedi uma pizza grande e iniciei uma partida de videogame com os meus amigos online. Com menos de duas semanas para o casamento, havia mais a se aguardar do que a se resolver, portanto eu possuía mais tempo livre em minhas mãos e, cara, eu iria usufrui-lo totalmente. A minha manhã estaria livre, no outro dia, o que significava na prática: oportunidade de uma maratona noturna de "Dead Island". Seria bom esquecer um pouco esses assuntos de casamentos e de jovens mestres com mudanças drásticas de temperamento para me descontrair com uma matança geral de zumbis em uma ilha.

Uma garrafa de seiscentos mililitros de refrigerante, quatro pedaços de pizzas e três dezenas de zumbis depois, o meu interfone começou a tocar, deixando-me um tanto desconfiado e deveras espantado, visto que, com exceção à pizza que estava ao meu alcance, eu não havia pedido outra comida. Eu me despedi rapidamente dos meus amigos e me levantei para atendê-lo, desviando de almofadas espalhadas pelo caminho.

– O que é? – eu perguntei impaciente no interfone.

– Boa noite. Há uma visita para você, senhor Beilschmidt.

– Quê?! Visita?! – eu estranhei e posso ter gritado alto demais por não estar nem um pouco preparado para aquilo. – Eu não estou esperando nenhuma visita!

Eu ouvi, ao longe, o meu porteiro avisando “Ele disse que não está esperando nenhuma visita!” e a resposta igualmente distante do meu visitante, gritando algo como "Isso é absurdo! Deixe-me subir imediatamente! Que parte minha sugere que eu sou um assaltante?".

Eu cobri o meu rosto com a palma da minha mão. Eu não necessitava de uma imagem ou de um som familiar para reconhecer a identidade do meu visitante. Dentre os meus conhecidos, só havia uma pessoa que lançaria uma resposta como aquela…

– Eu devo mandá-lo embora, Beilschmidt?

Adeus, noite tranquila. Eu mereço essa.

– Não, não. Espera. Eu acho que conheço essa pessoa. — eu suspirei, pressionando o centro da minha testa e agitando minha cabeça para os lados. – Pode autorizar a entrada dela.

– Como queira. Boa noite, senhor Beilschmidt.

– Boa noite, cara, e boa sorte no seu turno.

Como eu tinha 91% de certeza, quanto a identidade de quem estava subindo, eu concluí que a minha maratona de jogos chegara ao seu fim. Eu me despedi do pessoal, guardei a pizza na geladeira, acumulei as almofadas em cima do sofá, escutei a campainha e fui à porta.

Pelo olho mágico, eu pude enxergar o jovem mestre. Para o meu alívio, ele parecia “normal” de novo. Nada de olhos fixos no chão, respiração acelerada e uma desconcertante expressão inquieta. Só o bom e velho Eldestein com sua forma (comicamente) estoica de sempre. Ao vê-lo de volta ao normal, eu pus a mão no peito e soltei todo o ar dos meus pulmões pela boca. Ufa.

– O que você veio fazer no meu apartamento às onze da noite, Rod? – eu perguntei, ao abrir a porta, usando meu braço para bloquear a entrada dele.

– Esse não é o modo certo de se receber uma visita. — foi a resposta dele, abaixando-se e se desviando de mim, para se encaminhar ao interior da minha casa e se instalar no meu sofá. Como nas suas idas ao meu escritório para solicitar meus serviços, os seus movimentos evidenciavam uma despreocupação e casualidade totalmente irritantes.

– Esse não é o modo certo de se fazer uma visita! – eu exclamei espantado e acusatório. – Eu chequei o meu e-mail e o meu telefone o dia inteiro e estou 124% seguro de que você não me informou que vinha para cá, aristocrata!

– Como eu não dei notícias o dia inteiro, não seria inferível que eu viesse de noite? – ele indagou, como se esse raciocínio fosse perfeitamente lógico.

Caramba. O jovem mestre era mesmo alguém especial. Das piores e melhores formas possíveis. Simultaneamente.

– É impressionante que alguém como você exista! – eu abri extensamente a minha boca e os meus olhos. Não vou negar, eu estava parcialmente maravilhado com a postura dele. – Fique sentado no meu sofá e espere aí!– eu me rendi, movendo meus ombros para alongá-los, e me encaminhando para o balcão da minha cozinha.– Eu vou preparar duas xícaras de cappuccino. Se nós vamos conversar no meio da noite, nós precisaremos de um pouco de cafeína primeiro.

– A garrafa vazia de Coca-Cola não me sugere que você necessita de outra dosagem de cafeína. — ele apontou, inclinando as pálpebras com um pouco de censura.

Que irônico da parte dele, reclamar da minha quantidade de cafeína, considerando-se que ele era a razão pela qual eu precisava de muito, muito mais daquela substância em meu sangue.

– Bom, jovem mestre, consome muita energia ser tão incrível o tempo todo! – eu rebati, girando um pouco a minha cabeça para relaxar a tensão no meu pescoço. – Eu não sei quanto a você, mas eu preciso de um cappuccino agora!

Houve uma breve pausa silenciosa, antecipando o que eu sabia que o Roderich responderia.

– Eu também quero um. — ele me pediu em um volume baixo.

– Conte-me uma novidade. — um sorriso escapou pelas bordas da minha boca. – Jovem mestre, você é o maior fã de café que eu conheço. Você deseja que eu coloque Nutella nas bordas da xícara?

Outra pausa de hesitação previsível.

– Por favor.

Eu soltei um pequeno suspiro e tornei a sorrir.

– Ei, Rod. Eu estou ciente de que você odeia gastar dinheiro e tal, porém não entendo como você não possui uma máquina de café decente. — eu comentei, apanhando os sachês para pôr na máquina. – Digo, custa menos comprar café instantâneo e prepará-lo do jeito comum, mas eu sei que não dá para comparar um desses cafés, com um feito com grãos, em uma máquina decente. Você tem pilhas de dinheiro. Por que você não para de ficar alugando uma estátua de gelo em cada casamento seu e compra uma máquina dessas? Se você quer ser mesquinho, aristocrata, é importante que você estabeleça as prioridades certas.

– A sua opinião é tendenciosa. — ele bufou, cruzando os braços. – Você sempre teve uma intriga com as minhas estátuas de gelo.

– Pfff. Verdade. — eu ri, balançando levemente a cabeça. – De qualquer forma, você gosta do café que eu preparo, não é? Arranje uma máquina igual e faça os seus. Eu nem gosto tanto de café e tenho uma dessas.

A julgar pela forma desafetada como ele me observou por cima das lentes dos seus óculos, o jovem mestre não ficou muito impressionado com os meus argumentos.

– Você também possui um chapéu que serve como guarda-chuva, o qual você nunca usou, um colar feito de parafusos que você só utilizou em uma festa de Halloween, e um isqueiro que brilha no escuro, embora você não fume… — ele enumerou em uma suave voz crítica. – Se comprar dez mil itens por impulso, alguns deles, evidentemente, serão úteis. Quantos objetos seus foram parar na minha casa nos últimos seis anos?

– Melhor para você! – eu revidei, arqueando minhas sobrancelhas e mal contendo a minha vontade de rir. – É uma economia!

– Eu não posso ver como eu economizei ganhando três pandas da sorte. — ele curvou os lábios em desaprovação.

– É claro que você não consegue ver! Se eles dão sorte, o seu ganho foi indireto! – eu abri meus braços, sorrindo por um dos cantos da minha boca. – Simples, simples, jovem mestre.

Foi aí que aconteceu um daqueles momentos raros e únicos, cuja mera existência era inacreditável.

– Você é terrível, Gilbert. — ele falou com a sombra passageira de um sorriso em seu semblante.

Eu me distraí tanto com aquela visão que quase deixei nossas xícaras transbordarem. Então, realizando que algumas gotas estavam caindo na minha perna, eu acordei e desliguei rapidamente a máquina. O susto apressou os meus movimentos e eu terminei de colocar a Nutella nas xícaras em tempo recorde.

– Aqui está o seu cappuccino. — eu apanhei nossos copos e fui para o meu sofá, sentando-me logo ao lado do jovem mestre. O meu sofá tinha três lugares. O Roderich estava no meio, então eu fiquei à sua esquerda, no lado mais próximo à cozinha. – Tome cuidado porque está quente, ok? – eu alertei ao passar a xícara para as suas mãos.

– Obriga… Ah!

Avisar ao Rod que ele deveria tomar cuidado porque a bebida estava quente, foi como avisar ao fogo que ele deveria parar de se espalhar pela floresta porque ele queima. Inteiramente inútil.

Assim que ele encostou a ponta dos dedos na porcelana da xícara – por que ele não pegou na alça dela como uma pessoa normal?, não me perguntem. — ele imediatamente a soltou, como se houvesse levado um susto com a temperatura, e saltou para o outro lado do sofá, deixando que ela caísse no chão e despejasse seu conteúdo no azulejo e em parte das almofadas. Se eu não tivesse saltado para bem longe do sofá, uma das minhas pernas seria atingida também. Felizmente, como o jovem mestre havia recuado para outra extremidade do sofá e estava mais são e salvo do que a maioria das pessoas do planeta, não havia necessidade de que eu contornasse o meu aborrecimento para me focar em uma emergência, e assim, eu pude me autorizar a ficar irritado quanto a esse ocorrido. Que droga, aristocrata!

– Eu acabei de falar para você tomar cuidado, Rod! – eu berrei indisfarçavelmente chateado. Aquelas almofadas tinham sido lavadas há poucos dias!

– Eu não imaginei que estivesse tão quente! – ele protestou(!). – A culpa é sua!

Sério?! Ele ia colocar a culpa em MIM?!

– Minha?! Eu avisei que o copo estava quente!

– S-Sim, mas você não… deveria ter me entregado uma xícara tão quente, para começo de conversa!

Assim que ele terminou de falar, os nossos olhos se encontraram e, pouco a pouco, os meus foram se enchendo de deboche e os dele de defensividade. Nós dois sabíamos muito bem que aquela desculpa havia sido horrível.

– Oh, Rod. — eu sorri de modo expansivo e puxei de leve uma das bochechas dele. Pfff! Elas esticavam tanto!

– Pare com isso. — ele murmurou pelos cantos da boca, dando um relance lateral aborrecido e ligeiramente embaraçado.

– Bom, nós tivemos sorte. — como o meu humor, naquela noite, estava fantástico, eu busquei ser otimista. – A sua xícara não quebrou. Eu vou limpar essa bagunça e preparar outra para você. — eu decidi, batendo as palmas das mãos na minha calça e me dirigindo à cozinha para apanhar um pano de chão que pudesse secar a minha mobília e o chão. – Foi um erro legítimo entregar uma bebida tão quente para você! – eu me lembrei de comentar, detendo-me por um segundo, na cozinha, para sorrir amplamente para o aristocrata, com uma expressão de piedade e simpatia tão, tão, tão intencionalmente falsa que seria desapontador vê-la confundida com uma verdadeira. – Dessa vez, eu me encarregarei de soprá-la e servi-la pequenas colheradas para você, e quando você estiver mais velho, eu vou ensiná-lo sobre o uso de talheres e outros…!

– Eu compreendo, Gilbert! – ele me interrompeu. Elevando a voz com impaciência em um primeiro momento, o que, devo constar, foi muito mais hilário do que intimidante. Em seguida, como se houvesse se assombrado com a sua própria alteração, ele mudou seu posicionamento no conflito, tornando-se um pouco mais cordial e resignado durante meu retorno para a sala, no qual eu estive ocupado e concentrado na limpeza dos meus móveis. Possivelmente, ele desejava manter seu orgulho e, como diz o ditado, se você não pode vencê-los, finja que não queria vencê-los de qualquer modo e que disputas são demasiadamente selvagens para que os membros mais respeitáveis da sociedade tomem parte delas. – Pois bem! Eu não vou me opor ao seu hábito de implicar comigo. — ele bufou de um jeito esnobe. – Por um cappuccino de qualidade, mesmo esse terrível cenário hipotético que você propôs se torna relativamente aceitável.

– “Hábito de implicar com você”, huh? – eu repeti, ajoelhado perante o sofá ao limpar os últimos vestígios do capuccino derramado, achando graça naquela escolha de palavras. – Eu não planejo me defender. — eu me levantei e dei de ombros com um meio-sorriso. – A sua cara se torna extremamente engraçada quando você está envergonhado a ponto de transmitir a sua culpa para os outros. E eu fico feliz em ouvir você assumindo diretamente que gosta do meu cappuccino mais do que qualquer coisa nesse universo, portanto eu terei o cuidado de adicionar canela por cima dele.

Com essa deixa perfeita, eu me dirigi de novo à cozinha, com a intenção de jogar o meu pano sujo na pia e de preparar um novo capuccino para o Roderich. Eu executei essas tarefas, distraído, e somente voltei a prestar atenção no Rod após encerrá-las. Eu havia acabado de apanhar a minha xícara negligenciada no balcão para beber seu conteúdo, enquanto a minha máquina de café completava seu trabalho, quando me deparei com algo que me confundiu por um momento.

Com os olhos perdidos em um ponto muito distante, situado do lado contrário em relação a mim, o Rod estava envolvendo seus braços contra o seu corpo e encolhendo-se timidamente no seu canto do sofá. Havia certa vulnerabilidade nessa postura. Era como se ele não realizasse que eu estava logo ali. Eu me perguntei se ele estava com frio.

Nah. Não podia ser. Desde quando o Roderich não reclamava quando estava se sentindo incomodado? Se ele desejasse um cobertor, ele o exigiria de mim, era a minha opinião.

… A menos que ele estivesse embaraçado por estar com frio? Ele estava com medo de que eu risse da fragilidade térmica dele ou algo do tipo? Que estranho. Vindo do jovem mestre, seria mais normal que ele reclamasse do péssimo aquecimento do meu apartamento e me cobrasse um cobertor como se fosse uma dívida minha para o Estado. Ele estava ocultando uma queixa? O Roderich “eu-transmito-as-minhas-culpas-e-responsabilidades-aos-outros-para-obter--o-que-quero-como-se-eles-não-estivessem-fazendo-mais-do-que-a-sua-obrigação” Eldestein? Ocultando uma queixa?!

Quando finalmente notou o meu olhar avaliativo, ele corrigiu a sua posição de imediato e tornou-se muito desperto, defensivo e consciente da minha presença… Suspeeeeito. O que ocorreu na mente dele? Hmpf. Quem poderia adivinhar? Como falou o velho Shakespeare, há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, e o fluxo de pensamentos do aristocrata, com certeza, é pelo menos 1/3 desses mistérios.

Sorte dele que um capuccino quente estivesse prestes a chegar, quaisquer que fossem as suas condições, e que eu ainda estivesse muito apreensivo quanto à noite passada, para me arriscar a pressioná-lo em relação a um problema sobre o qual ele não estava disposto a comentar.

– M-Mudando de assunto, eu posso começar a tratar do tema que me trouxe aqui? – ele passou a me fitar de lado, com certa cautela e desconfiança, não movendo muito o seu rosto.

Ah, sim. A razão da visita dele. Eu ainda estava ocupado, preparando mais uma xícara de capuccino para ele, contudo eu não vi problema em discutirmos o assunto. Eu bebi o conteúdo do meu próprio copo em minha espera que o dele ficasse pronto.

– Claro, manda. — eu falei, com a minha boca imersa parcialmente na xícara.

– É sobre a minha valsa…

Eu tomei um pouco da minha bebida. O sabor doce e quente me conferiu mais ânimo.

– Bem lembrado! Como foram os ensaios? – eu perguntei, terminando logo o meu gole.

– Péssimos. — ele disparou de imediato.

– Nossa. — eu pisquei rapidamente, atordoado com a velocidade e segurança daquela resposta. – Você não cogitou em eufemismos.

Subitamente, uma vaga intuição de que eu necessitaria de muito mais cafeína para me preparar para aquele diálogo, surgiu em mim, causando uma aceleração drástica na velocidade dos meus goles que foram de um “Glup…Glup…Glup” para “Glup, glup, glup”.

“Que péssimo pressentimento é esse?”, eu me questionei, um tanto espantado com essa sensação inexplicável. Como eu estava sendo exagerado. O que poderia ser tão ruim, tratando-se de um simples ensai…?

– Nós ficamos no salão de festas por horas e não pudemos selecionar uma música.

Eu quase cuspi o capuccino da minha boca.

– Sério?! – eu gritei, assim que consegui engolir. – Caramba, quando você falou que havia sido péssimo, eu pensei que vocês tivessem dançado mal por serem dois retraídos! Vocês sequer escolheram a música?! A orquestra vai me matar!

Não há prós sem contras. Essa é uma das leis do mundo. Eu havia preparado uma surpresa magnífica para o aristocrata e as minhas ações mereciam infindável reconhecimento. Em compensação, elas custaram o seu preço e traziam seus riscos. A orquestra ficou furiosa comigo, quando eu informei que eles somente teriam duas semanas para se prepararem para a valsa dos noivos. Eu os apaziguei, afirmando que o jovem mestre solicitaria um dos clássicos que eles haviam tocado dezenas de vezes e prometendo que eu iria contratá-los para mais eventos se eles concordassem com os meus termos nesse único caso. No fim, eles os aceitaram. Com um imenso desprazer.

Eu estava completamente despreparado para uma notícia dessas e, por consequência, eu levei o capuccino do Roderich à minha mesa de centro com um andar um tanto desorientado e com a cabeça abaixada, murmurando, para mim mesmo, sentenças como “Eu preciso ligar para o maestro.”, “Qual será o tempo mínimo que eles necessitam?”, “Eu tenho condições de alugar outra orquestra decente se eles cancelarem comigo?”, “Será que eles podem me processar?” e, principalmente, “Pense, óh, incrível e magnânimo Gilbert Beilschmidit! Pense!”, muito concentrado em formular como eu poderia consertar o estrago dos meus clientes para impedir que os meus pensamentos escapassem pela minha boca.

Eu ainda estava no meu modo “profissional”, quando sentei ao lado do Roderich, no meu sofá manchado. Lamentavelmente, o meu capuccino havia terminado, assim como a minha lembrança de que eu deveria estar implicando com o jovem mestre pela forma receosa como ele observou a xícara cheia que coloquei sobre a mesa, junto ao meu copo vazio.

Eu culpo esse meu estado de distração pelo meu reflexo de sentar no meio do sofá, não em sua outra extremidade, a despeito do lugar do meio estar um pouco úmido e com um aroma que misturava café, chocolate e produtos de limpeza.

– Oras, Gilbert. — comentou o aristocrata, mantendo a sua xícara intocada, por precaução, e as suas mãos no seu colo. – Por que você supôs que eu não saberia como dançar? Esse é um engano incompreensível. Você assistiu à valsa de dois casamentos meus.

Uh… Sobre isso… Hm.

Eu estive no salão de festa durante os dois casamentos do Rod? Sim. Eu assisti às valsas dele? Não. Nas duas ocasiões, eu não estava em um dos meus melhores dias e não tive condições de ficar assistindo o jovem mestre rodopiando com os seus pares.

Esse era um detalhe a ser ocultado, claro. Como se eu pudesse admitir aquilo para ele.

– Desculpe-me, aristocrata. — eu dei de ombros, forçando um tom de descaso. – Eu não estava prestando muita atenção nas suas danças, pois estava muito ocupado, evitando que a sua dama de honra se banhasse na sua fonte de chocolate. — uma meia-verdade não conta como mentira, certo? – Nos dois casamentos, ainda por cima! Alguém deveria controlar melhor a dieta dessa garota.

– Nessa última observação, eu não discordo de você. — ele agitou o rosto para os lados, bastante sério. – Então… — ele inspirou fundo, apanhou a sua xícara com máxima cautela e imergiu seu olhar no interior dela. Muito atentamente. — … você não observou a minha valsa, nos meus dois últimos casamentos.

Eu engoli em seco e soltei um riso mais nervoso do que gostaria.

– Sim, jovem mestre. — eu revirei os olhos e brinquei – Só porque eu sou seu cerimonialista, não quer dizer que eu tenha que prestar atenção em você o tempo todo.

O Roderich não achou o comentário engraçado. Nem um pouco engraçado.

– Eu estou ciente disso, Beilschmidt. — ele falou em um tom glacial.

… Ultimamente, estava sendo mais difícil acompanhar as oscilações de humor do Roderich. Há poucos instantes, ele aparentava estar tão bem! E agora ele estava agindo como se nós fôssemos inimigos mortais! “Eu estou ciente disso, Beilschmidt” ~ Ele só me chamava de Beilschmidt quando eu errava feio. O que eu havia feito agora?

Quer saber? Era melhor deixar para lá aquela discussão. Experiências pessoais me ensinaram que existem certas coisas que são mais fáceis de lidar quando ignoradas.

– Huh… Certo, retornando ao assunto principal! – eu juntei as palmas das minhas mãos e subi minhas sobrancelhas, exibindo minha melhor postura de “Ao trabalho!” – Vocês não escolheram a música… Por quê?

– O meu noivo, infelizmente, não possui muito gosto pelas artes. — ele lamentou, tomando um gole longo de capuccino para prosseguir com sua explicação. Voltado para frente, ele fitou a minha televisão desligada de um modo reflexivo e distante, como um poeta contemplando a lua. Pois é. O Rod e a suas formas de expressar sentimentos… – Ele não se importa muito com a valsa e me conferiu total liberdade nessa decisão. Todavia, porque ele não se importa com ela, eu não pude me sentir encorajado a selecionar uma.

É, eu suponho que deve ser chato mostrar o seu interesse principal a alguém e receber apenas tédio como resposta. Bom, mas foi o Rod que escolheu aquele cara para se casar. Ele devia possuir outros critérios.

– E o que você pretende fazer, jovem mestre? – eu apoiei meus cotovelos nos meus joelhos e a minha cabeça entre as minhas mãos.

– Eu vim para requisitar a sua opinião. — ele declarou, tomando outro gole longo em seguida. Eu estava começando a desconfiar seriamente que ele estava buscando criar uma atmosfera de suspense com aquelas pausas. Ai, ai. Roderich Eldestein… Que indivíduo sedento por uma vida cinematográfica. – Você certamente possui seus conhecimentos sobre o tema, embora insista em apreciar as excentricidades da arte moderna.

– Ei! Eu gosto das vanguardas européias do início do modernismo! – eu me defendi abrasivamente – Não do desvirtuamento delas nas obras pós-modernas! Digo, o dadaísmo foi bom em seu tempo, pois ele era coerente com o contexto histórico de um período em que a Europa estava miserável, por conta da primeira guerra mundial, e não havia tempo ou espaço para a arte. Nesse período, apontar a ideia de que a arte parte essencialmente da atribuição de um valor a objetos foi brilhante. Lamentavelmente, usaram e desgastaram demais essa significação nos dias de hoje. Como diria o velho Freud, um charuto pode ser apenas um charuto.

– Essa preferência é mais perdoável, contudo eu não posicionaria as vanguardas na frente dos verdadeiros clássicos. — ele lançou de modo desafiador.

– Oh, jovem mestre! Não tente bancar o renascentista! – eu comecei a rir porque, vamos lá, ele queria mandar uma dessas em cima de mim? – Você não é um fã fervoroso das Gnossienes do Satie e das Miroirs do Ravel?

Ah, foi saboroso ver como os olhos do Rod se tornaram mais abertos e contrariados.

– E-Eu estava me referindo ao universo das pinturas!

– Mesmo assim! – eu continuei rindo – Vai me dizer que você prefere um Cabanel e um Botticelli a um Van Gogh, um Munch ou um Monet!

– Obviamente! É necessário muito talento para criar imagens tão próximas da realidade. — ele argumentou teimosamente. – Ademais, há um claro esmero nas obras desses pintores, as quais não são evidentes nos traços rudimentares das pinturas de vanguarda.

– Certo, vamos ignorar o fato de que essas tais obras tããão próximas da realidade apresentam um bando de ninfas, deusas e querubins, além de várias mulheres seminuas em pleno século 16. — eu escarneci, revirando os olhos e sorrindo discretamente. – Qual é a graça da realidade se você não conferir interpretações a ela ou concebê-la como um conjunto variado de percepções? Se você procurar simplificá-la, ela está na nossa frente o tempo todo. Principalmente nos dias de hoje! Talvez você não esteja informado dessa tecnologia avançada, jovem mestre, mas se eu quisesse registrar uma imagem realista, bastava pegar uma câmera e…!

– Gilbert!

Por mais que fosse divertido levar o Senhor Compostura a gritar com impaciência, eu tinha um ponto a apresentar e concluí minha linha de raciocínio.

– O meu ponto, meu caro aristocrata, é que as vanguardas nos conduziram a uma nova forma de perceber a realidade e colocá-la em telas, o que é totalmente incrível. Pena que as pessoas estejam usando em excesso os princípios básicos delas, a ponto de esgotar todo o seu sentido e originalidade.

– Céus. Eu estou começando a recear que você recomende algo excêntrico, como o “Rito da Primavera”, para ser minha dança de casamento. — ele suspirou fundo, com a sua seriedade contaminada por um teor parcialmente sarcástico. – Eu espero que a minha primeira dança de casado com o Vash não seja baseada no ritual de sacrifício de uma jovem para um deus-pagão da Rússia.

Pfff! Não posso negar que essa foi uma imagem mental super-engraçada e até um pouco tentadora…! Stravinsky em um casamento? E se eu trocasse…? Bah! Não. Seria engraçado, mas não.

– Não, não. Eu posso gostar de inovações, entretanto, uma das minhas inúmeras qualidades é a minha versatilidade. — eu assegurei, com os olhos fechados e um sorriso de “Oh-Rod-seu-ser-inocente”. – Existe um lado romântico meu, jovem mestre!

– Eu duvido profundamente disso. — cada palavra dele foi salientada com muita convicção.

Ele me encarou, por cima das lentes dos óculos, de um modo tão exageradamente cético, que beirava o cômico. Desde quando ele se havia se tornado tão descrente quanto ao meu romantismo?

– Quão insensível, aristocrata! Esse “profundamente” era necessário? – eu ri brevemente, forjando ofensa. – Esquece, esquece! – eu sorri com bom-humor, agitando minha mão em um gesto dispersão, antes que ele pudesse me responder. – Quais são as valsas que você tem em mente, Rod?

– Eu estava pensando em Tchaikvosky. Os dois Strauss foram usados nos meus outros casamentos. Neste, eu desejo uma variação mais original.

– Hmm. Tchaikovsky, eu reconheço, é menos clichê. — eu pus uma mão em meu queixo, fazendo uma postura reflexiva no melhor estilo de “O pensador”. O velho Michelangelo ficaria orgulhoso de mim. – Não por muito, entretanto, está dentro dos seus limites do possível. Seria demais pedir que a primeira dança de vocês fosse um “Stairway to Heaven”.

– Eu estou contente em não ter compreendido ao que você se refere. Pelo que conheço de você, deve ser um rock dos anos setenta e oitenta que nunca poderia ser dançado pelos meus avós ou o fundo sonoro de um filme pornográfico.

Eu quase me engasguei com ar puro. Só de imaginar um pornô com o fundo sonoro de “Stairway to Heaven” ou o Led Zepellin tocando o fundo sonoro de um pornô, lágrimas vinham aos meus olhos. Ah, aquele jovem mestre. Ninguém conseguia me fazer rir tanto quanto ele.

– Eu usarei Tchaikovsky e estou em dúvida entre três opções. — ele declarou, quando os meus risos foram atenuados, fitando-me com um pouco de aborrecimento.

– Certo. — eu estava enxugando as lágrimas dos meus olhos. – Eu estou ouvindo.

– A Valsa das Flores é uma delas.

– Tsk, tsk, tsk. Se você está procurando escapar do clichê, essa não é a melhor escolha. Ela é popular demais. Acredite.

– A Valsa Sentimental?

– Certo, é uma escolha mais original e ela seria perfeita se não tivesse sido a abertura de um dos filmes do Drácula.

– Verdade? – ele piscou os olhos com curiosidade.

– U-hum. Você pode selecioná-la, caso a sua intenção seja propiciar que os seus convidados se sintam em um baile vampírico. Não deixa de ser verdade, considerando-se a quantidade de milionários na sua festa.

Seguindo-se à minha fala, eu detectei um traço sutil de diversão se revelando por acidente no semblante dele, que me agradou profundamente. Pena que ele tenha sido tão discreto e passageiro.

– Hmpf. Sendo assim, eu ficarei com a minha terceira escolha.

– Qual é?

– A Bela Adormecida.

– Pfff! A música do filme da Disney?!

– C-Como?! Eu não compreendo ao que você está…!

Evidentemente, eu conhecia a versão original do Tchaikovsky e estava ciente de que o Roderich estava pensando nela ao selecionar essa música. No entanto, eu nunca perderia a oportunidade de extrair boas risadas daquela situação. O Rod havia selecionado uma música utilizada em um filme da Disney! Essa era uma ocasião única! Como eu cogitaria em desperdiçá-la?!

– Deixe de mentiras, jovem mestre. Você precisaria viver mais mil anos para enganar alguém com uma percepção aguçada como a minha. — eu me inclinei na direção dele, apanhando a mão dele e iniciando uma imitação exagerada da princesa Aurora — “Sabe, eu não deveria estar falando com estranhos, mas já o conheço!”.

– O quê…? – ele franziu as sobrancelhas.

– “Foi você… O sonho bonito que eu sonhei!”. – eu cantei em um falsete alto e arrebatado.

– Essa é a melodia, entretanto, não foi meu intento usar…!

– "Foi você! Eu lembro tão bem você na linda visão!". — agora, eu estava balançando a mão dele junto com a melodia.

– Será que você pode parar?

– “E me fez sentir que o meu amor nasceu entãão!”. — quanto mais ele reclamava, mais eu me atirava na minha interpretação.

– Essa provocação é ridícula e você está completamente fora do tom.

– "E aqui está você! Somente você! A mesma visão!".

– Gilbert…

– “Aquela do sonho que eu sonheeeei!”.

– Certamente, você consegue perceber que a cada verso que você canta, você está delatando que memorizou a música inteira…?

Eu estava atingindo o meu objetivo de irritá-lo moderadamente, mas ainda não havia obtido a reação que eu realmente aguardava. Ele permanecia controlado e sério, o que não era tão legal de se observar, e eu precisava tirá-lo da sua guarda para que ele mostrasse a sua porção espontânea. Com esse objetivo, eu interrompi o jovem mestre, usando a sua mão para puxá-lo e reduzir drasticamente a distância entre nós. Os olhos dele ficaram a poucos centímetros dos meus. A sua boca entreabriu-se com o choque.

– O-O que você está…?! – ele começou a recuar com uma expressão transtornada e ligeiramente constrangida.

– “Queira perdoar-me, eu não quis assustá-la!”. – eu falei, mudando radicalmente meu tom de voz, para imitar o príncipe Philipe. Foi uma entrega de linha perfeita.

Ele não pôde mais suportar. O jovem mestre cobriu a boca com sua mão livre e riu. Riu quase silenciosamente, ficando com falta de ar, movendo involuntariamente os seus ombros – enquanto eu me sentia como um imperador observando o retorno do seu exército vitorioso. Sim, ele era capaz de rir e era a cena mais incomum e fascinante do universo. Sabem aqueles cientistas que passam meses na Antártida para filmarem uma foca por quarenta minutos? A minha convivência com o Rod era algo assim.

Eu não pude deixar de rir com ele.

Nós nos acalmamos aos poucos. Não havia pressa para que nós dissipássemos aquela atmosfera descontraída e nos centrássemos em assuntos profissionais. Nós tínhamos a noite inteira para escolhermos uma valsa. Era tempo mais do que suficiente.

Os nossos risos foram se esgotando aos poucos e se tornando lentas inspirações necessárias para a recuperação do nosso fôlego.

– Se quer minha opinião, eu acredito que essa é uma excelente escolha para vocês, jovem mestre. — eu sorri sinceramente, pousando um olhar brando sobre ele.

– Verdade? – ele indagou, revelando novamente o seu rosto, o qual já não possuía as marcas do seu raro instante de espontaneidade, com exceção a um vestígio de rubor.

– Óbvio. — eu ri um pouco, revirando meus olhos e soltando gradualmente a mão dele. – Eu não sairia cantando a música de uma princesa Disney à toa.

Todo o semblante do aristocrata caiu e obscureceu de repente.

– Certo… — ele murmurou, abaixando os olhos com amargura. – Eu a utilizarei, então.

Ele poderia estar menos empolgado? O jovem mestre concordou com a minha sugestão como uma criança desolada aceita meias de presente de natal.

– O que foi? – eu franzi minhas sobrancelhas e adotei uma expressão séria.

– Hm?

– Você não me parece super-feliz com a sua escolha, jovem mestre. — eu constatei desgostoso.

– Eu não me recordo de uma ocasião em que eu possa descrever meu estado como “super-feliz”. — ele respondeu de forma bem neutra.

– Argh! Você entendeu o que eu quis dizer! Nós estávamos rindo aqui e você murchou de repente! Os meus palpites são preciosos como esmeraldas, jovem mestre, contudo ninguém é obrigado a segui-los sempre. Não se sinta pressionado a ficar com essa música, caso não seja a sua vontade.

– Não é isso, seu tolo. Eu não tenho nenhum sentimento de obrigação em seguir os seus conselhos.

Wow. Eu podia ter dormido sem essa. Não, literalmente, eu podia ter dormido sem essa. Fui eu que concordei em deixar o Roderich subir para o meu apartamento no meio da noite.

– Caramba, Rod! – eu exclamei justificadamente indignado. – Valeu pela consideração!

– Na verdade, eu estou refletindo sobre o jantar de ontem…

Essa frase bastou para que todo o meu corpo entrasse em alerta. Oh…Hm. “O jantar de ontem”… Eu realmente estava ansiando que nós ignorássemos aquele assunto.

– Ah, aquilo? – eu passei a bater as minhas mãos de leve nas minhas pernas em um ritmo constante e ininterrupto. Foi automático. – Jovem mestre, eu não quis…

Como será que eu encerraria aquela sentença? Eu não quis provar que conheço você melhor do que seu futuro marido? Eu não quis criar um clima desconfortável na mesa? Eu não quis provocar o seu noivo e me vingar de vocês por me excluírem da conversa? Eu não quis decorar todas essas informações sobre você e parecer um garoto de doze anos obcecado por um astro do rock?

A minha única certeza quanto ao que eu não queria era pouco útil como pedido de desculpas. Eu não queria magoar o Rod ou irritar o Vash de verdade. The End. O resto… Eu não podia desmentir parte das intenções que mencionei acima.

Mas um “Eu não queria magoar você!” não adianta nada, quando nós não reconhecemos a nossa culpa. Eu precisava de um pedido de desculpas melhor.

Eu estive tentando me preparar para todos os possíveis caminhos desastrosos daquele diálogo. Como eu havia, em outras datas, aborrecido o Roderich com muito menos do que ocorrera na noite passada, seria deveras estranho se ele houvesse, de fato, superado o seu rancor com tamanha velocidade e facilidade. Uma parte minha, no fundo, esteve suspeitando que ele não deveria estar 102% nesse espírito de “Esqueça o passado! Carpe diem!” e que ele traria aquele tópico à tona quando lhe fosse conveniente.

Como se aquele rancoroso do aristocrata pudesse passar por cima de um incidente como o da noite passada. Naquele tempo todo, ele esteve me parecendo normal, mas essa podia ser apenas uma fachada para que eu o ajudasse a resolver o seu novo problema quanto à organização do casamento. Ele devia estar ciente de que ninguém nesse mundo concordaria em dar um aconselhamento profissional no meio da noite para alguém com quem está intrigado. Transcorrido o seu empecilho, ou seja, a sua dúvida em relação à sua valsa, ele podia começar a despejar o seu mau-humor sobre mim, como, provavelmente, almejou desde o princípio.

E eu tinha que aguentar. Por mais manipulativa que essa conduta fosse, eu não estava em posição de reclamar. A despeito do meu índice de acertos estar muito acima da média global, era um fato que eu havia feito uma grande besteira na noite passada. Se eu a consertei… Ok, fantástico. Mas isso não significava que eu havia realizado mais do que o meu trabalho. O Rod possuía o direito de ficar chateado comigo.

Eu, honestamente, pensei que ele estava prestes a me criticar e estava totalmente pronto para suportar todas as queixas dele…

– Eu não estou certo de que sou compatível com o meu futuro marido, Gilbert.

… menos essa.

O mundo congelou de repente.

Cada segundo ficou equivalendo a um minuto. Cada minuto ficou equivalendo a uma hora.

Ei, eu sei. Matematicamente, isso não faz sentido algum, mas o que diabos fazia sentido naquela cena? “Eu não estou certo de que sou compatível com meu futuro marido, Gilbert.”… Aquilo não podia ser real. Faltavam menos de duas semanas para o casamento do Roderich. Ele estava em uma relação tranquila e promissora com o seu noivo....

… Em síntese, as circunstâncias não condiziam MINIMAMENTE com a linha dele.

A minha sensação era a de que o nosso mundo estava se colidindo com as camadas de um universo alternativo. Afinal, de onde aquilo teria surgido? Sim, ocorreu uma turbulência na noite passada, porém a culpa havia sido minha, como nós havíamos estabelecido e solucionado. “Eu não estou certo de que sou compatível com o meu futuro marido, Gilbert”. Afirmar algo assim.. Só podia ser uma piada.

Então por que o Roderich transparecia absoluta seriedade? Eu captei errado o significado daquelas palavras? Eu estava aumentando a proporção de uma declaração simples? Ele estava apenas despejando uma reclamação casual sobre o seu noivo? Realizando a típica queixa à toa “Às-vezes-eu-não-sei-como-posso-amá-lo-tanto” de casais bem estabelecidos? O que estava havendo ali?

O eco daquelas palavras ressoou nos meus ouvidos, pelo que me pareceu uma eternidade. Era como se um sino estivesse badalando a todo volume dentro da minha cabeça.

Notas finais
Continua...