Entre Brindes.

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– Como assim? – eu pisquei, sentindo dificuldade em me manter naquele plano de conversa. Era difícil me manter conectado com o presente, quando a minha mente estava girando como um tornado.

– Eu supunha que as nossas personalidades similares poderiam resultar em um relacionamento equilibrado. No entanto, eu estou perdendo minhas crenças nisso. — ele declarou em puro desânimo. Aquela reação era sincera. O Roderich era um péssimo ator. Ele nunca seria capaz de, propositalmente, externar um sentimento que não era seu. Eu estava cada vez mais perturbado com o comportamento dele.

Como assim “perdendo as crenças nisso”? O que estava acontecendo? O que ele estava dizendo?!

Ele não podia estar sendo sério! Se estivesse sendo sério, então ele estava prestes a cometer um ato tão extraordinariamente estúpido que era algo além das minhas forças aceitar que isso fosse possível! Se ele estivesse pregando uma peça em mim, aquilo já havia ido longe demais e ele devia se mancar que ele tinha que parar logo!

– Do que diabos você está falando? – eu perguntei, e a minha voz, por muito pouco, não delatou o meu estado de alteração atual. Por sorte, ela conseguiu soar mais surpresa do que agressiva.

Essa a hora em que o Roderich deveria notar que eu estava atribuindo uma interpretação extremamente incorreta às suas palavras e começar a gaguejar, hesitar, recuar ou criar algum mecanismo involuntário de defesa. Ele tinha que realizar quão errada era a impressão que as suas palavras provocavam ou quão estressante era aquela piada para os outros.

Porque era isso que estava acontecendo, certo???

A qualquer momento, ele se corrigiria e pediria desculpas por me assustar assim! Há, há! Muito em breve, nós estaríamos dando risadas daquele mal-entendido. Ou melhor, eu estaria dando risadas e implicando com o jovem mestre, falando algo como “Você tem sorte em estar conversando com um mestre da retórica, Rod! O seu noivo estaria chorando se escutasse isso!”, e ele reagiria com azedume e alegaria que não era culpa dele se eu havia conferido um tom dramático e absurdo à sua fala.

Esse me parecia o único desfecho possível para aquela conversa.

…Todavia, quanto mais eu procurei por sinais de ansiedade e confusão nele, mais eu me deparei com um indivíduo calmo e eloquente que ostentava confiança no que afirmava. Assim, eu fui forçado a reconhecer, aos poucos, que o único cara ansioso e confuso, naquela sala, era eu. O Rod? Fossem quais fossem os sentimentos dele, confusão e incerteza não estavam entre eles… Diferente de mim. Eu estava inteiramente submerso nos oceanos profundos da mortificação e sabia que não alcançaria a superfície tão cedo.

– Eu percebi que nunca me sinto à vontade quando estou perto dele. — ele iniciou sua explicação muito seguramente, enquanto eu prendia a minha respiração sem perceber e fechava o meu rosto em concentração absoluta, apoiando a minha testa com os dedos da minha mão. A minha cabeça estava pesada e doendo um pouco. Era difícil acompanhá-lo e ele não reduzia o ritmo para me ajudar.– Eu posso ter meus instantes de entretenimento com ele, porém não consigo imaginar passar uma vida inteira ao seu lado. A companhia dele retira as minhas energias. Eu estou sempre me forçando a escutar sobre temas, os quais não me importam remotamente, e disfarçar múltiplas facetas da minha personalidade… Pelo visto, as nossas similaridades não se estendem aos pontos fundamentais. — ele suspirou, com os olhos fechados, e agitou o rosto em desapontamento. – Nós não possuímos gostos semelhantes ou qualquer compatibilidade de espírito. Ademais, foi um golpe ver o meu receio de peixes sendo abertamente debochado. Eu não sou capaz de vislumbrar meu futuro com uma pessoa assim.

A cada sentença que o jovem mestre lançava, maior era a minha dificuldade de pensar de forma racional e me manter calmo.

Cada frase dele tinha o efeito de uma bomba explodindo atrás de mim, deixando um zumbido insuportável na minha cabeça.

Como o cerimonialista do Roderich e como um cara que o conhecia há seis anos, eu estava em uma posição terrível. Eu havia sido, repentinamente, transportado para uma zona de perigo e estava perfeitamente consciente sobre a relevância do que eu falaria… Consciente e desconfortável.

Grandes poderes trazem responsabilidades insuportáveis.

Por que o Rod estava comentando aquilo comigo? Por quê? Ele estava querendo somente desabafar? Receber um pouco de encorajamento? Um ombro amigo?

Seja lá o que ele estivesse procurando, a minha resposta só poderia ser uma

Eu tinha que manter a situação sob controle.

Eu estava me exaltando. Desse jeito, eu acabaria permitindo que o Roderich fosse longe demais em suas especulações pessimistas. Era preciso manter a calma e adotar uma atitude profissional. Aquele não era o primeiro noivo assustado, prestes a cometer uma grande besteira a poucas semanas do seu casamento, com o qual eu havia tido que lidar. No caso mais extremo, eu fui até a casa de um deles, no meio da cerimônia, e fiquei gritando com ele, por quinze minutos, para persuadi-lo de que se ele não fosse para aquela maldita igreja, a noiva dele nunca mais olharia na cara dele e ele desperdiçaria uma das melhores chances da sua vida. Um pouco de insegurança, alguns dias antes do casamento, não era nada que eu não pudesse resolver.

Tudo que eu tinha que fazer era mostrar para o jovem mestre que ele estava passando por um drama muito comum e exagerando nas suas críticas em relação ao Vash.

– Ei! É verdade que não foi um gesto legal, mas não seja tão severo com ele. — eu busquei encorajá-lo, dando um tapinha no ombro dele. O nervosismo estava afetando o meu sorriso, mas eu persisti em oferecê-lo. Eu precisava convencer o Roderich de que aquela situação era perfeitamente normal e que ele estava se preocupando com bobagens. – O seu medo não é muito comum! É natural que ele tenha brincado com isso!

Você não brincou. — ele retorquiu no mesmo instante e, considerando-se o que havia nessa sentença, eu estranhei como ela havia soado hostil.

????????????????

Só para começar, como eu havia entrado na conversa?! Desde quando eu servia como modelo de comparação para o Roderich?! Onde ele estava querendo chegar com isso?!

– Er.... Sim, eu não brinquei. — eu concordei titubeante, abaixando a minha cabeça e deixando a minha boca entreaberta com um pouco de recuo e atordoamento. Eu nunca, nunca pensei que ele fosse trazer essa comparação à tona. Ela me pegou 100001% desarmado! Como se reage a uma fala dessas? Eu nem podia compreender qual era o ponto que ele estava tentando demonstrar! Agitado, eu tossi secamente, buscando ganhar tempo para pensar nas minhas próximas palavras. No fim, eu optei por comentar muito sério, ainda esquivando o meu rosto para não encarar o Roderich diretamente – Você sabe que eu nunca brincaria com algo sério para você e que você sempre pode me alertar se eu for longe demais, por acidente.

Eu não tinha noção alguma do que ele estava esperando com todas essas declarações, mas esse era o ponto que EU queria deixar muito claro. O jovem mestre podia confiar em mim e contar comigo. Era necessário que eu enfatizasse isso! Não só por mim, como pelo Zwingli! Que créditos os meus conselhos teriam se o Roderich não confiasse em mim? Eu não falei aquilo por falar!

Entretanto, aquele tipo de frase, na prática, não estava ajudando muito o Vash, então visando conduzir o Rod de volta aos trilhos certos, eu ri e falei, parte sério, parte brincando:

– Mas nós estamos falando sobre mim e você não pode comparar todos os caras comigo ou sofrerá decepções eternas.

Eu estava sendo amistoso, caloroso e compreensivo. Pela minha experiência, agir assim era imprescindível, nas nossas circunstâncias. Eu precisava animar o Roderich! Todavia… Como eu posso explicar?

Era como se a minha alegria e tranquilidade estivessem o tornando gradativamente mais impaciente. Eu resolvi ignorar isso, pensando que deveria ser só uma impressão minha, contudo eu estava adiando o inevitável.

Finalmente, nós atingimos um ponto, no qual ele quis se expressar da maneira mais direta possível:

– Gilbert, você não entende. — ele foi mais incisivo e irascível. – Como eu posso me casar com um homem que me conhece menos do que o meu cerimonialista?

Essa última linha foi um soco no estômago. Cara, ela doeu. Fisicamente.

“Um cerimonialista”, huh? Bom, esse era o meu papel. Eu apenas não esperava ouvir o aristocrata jogando isso na minha cara com toda força.

– Escuta, Roderich. — eu pus uma mão na testa e senti linhas profundas e desordenadas se formando nela. Estresse, estresse, estresse. Eu tinha que contê-lo. – Você está se precipitando… Faltam menos de duas semanas para o seu casamento. — eu inspirei fundo. Eu tinha que me manter calmo. Eu tinha que me manter calmo. Era o meu trabalho. O aristocrata estava contando com a minha opinião profissional.... Inconscientemente. – Você está cansado e ansioso, então é normal que você se sinta assim. É a típica tensão pré-nupcial. Daqui a poucos dias, você verá como esses receios todos parecerão bobagens.

– Eu não estou sendo precipitado. — ele pronunciou com ferocidade.

Enquanto nós conversávamos, uma tempestade estava ocorrendo na minha cabeça.

– Roderich, escute… — eu movi minhas mãos para abradá-lo e procurei me manter controlado. Calma, Gilbert. Não pule para conclusões extremas. Seja a pessoa razoável dessa conversa. Você sabe como essas coisas funcionam. Você é um cerimonialista há doze anos. – Você está confuso e assustado. É normal. — eu fiz outra tentativa de confortá-lo. Dessa vez, de um modo mais pessoal e caloroso.

Ao motivá-lo, embora ainda estivesse mastigando com dificuldade o súbito distanciamento profissional que ele impusera entre nós, eu estava expressando os meus sentimentos mais sinceros e queria expô-los devidamente.

Eu havia alcançado uma conclusão.

Na minha opinião profissional, uma das oito melhores opiniões do planeta, eu tinha que visualizar o comentário do Roderich de outra forma.

Digo, nós temos que ignorar parte das linhas que são ditas em uma briga, correto? Não havia como o aristocrata considerar a nossa ligação como algo tão insignificante. Nós conhecíamos os hábitos e gostos um do outro. Em diversas ocasiões, o Roderich conversou sobre assuntos que não possuíam nenhuma ligação com o casamento dele. Ele podia ser um tanto frio e acomodado, mas tenham dó. O nível de insensibilidade dele era alto, mas ele não chegaria ao ponto de ficar tomando os cafés com nutella de uma pessoa no seu apartamento e não desenvolver qualquer conexão pessoal com ela. Ele só estava se exacerbando. Se eu o levasse a perceber isso, definitivamente, eu poderia conferir mais credibilidade às minhas opiniões.

E como alguém que mantinha uma ligação um tanto pessoal com ele, eu estava confiante de que o nosso atrapalhadamente romântico e bastante esforçado Guilhotina era um belo par para ele, então eu recomendei com um terno sorriso sincero:

– Não deixe a ansiedade te controlar. Eu estou falando isso porque eu conheço você e eu sei que será ótimo para você ficar com um cara como o Vash.

– Sim, pois é o seu trabalho me conhecer, não é?!

Eu fui tomado de surpresa pelo tom de acusação naquelas palavras.

– Huh?

– Não aja como se possuísse alguma autoridade quanto às minhas decisões. — ele atacou repentinamente. – Como você comunicou ao meu noivo, os seus conhecimentos a meu respeito não se estendem além do imprescindível para o seu trabalho. Não me trate como se me conhecesse melhor do que eu.

– Você estava escutando?! – as minhas sobrancelhas subiram de uma vez. – E você está chateado com o que eu falei?!

Eu havia me esquecido de que o jovem mestre podia detectar a nota errada de um instrumento, no meio da chuva de sons de uma orquestra. É lógico que ele poderia escutar, à curta distância, uma conversa em um volume normal, no meio de um restaurante silencioso. O banheiro era relativamente próximo da nossa mesa, agora que eu pensava nisso.

O que era mais impressionante não era a capacidade do Rod em nos ouvir, mas a forma como ele estava reagindo ao que escutou. Digo, pelo que eu me lembro(e a minha memória é exemplar), a nossa conversa se constituiu em um pedido de desculpas meu e um reconhecimento do Vash de que ele ainda tinha muito o que aperfeiçoar no trato com seu noivo. Se ele ouviu a nossa conversa, ele não deveria estar feliz??? Eu pedi desculpas, o seu noivo esclareceu que não guardava desconfianças dele e, para completar a festa, o Artilharia também revelou um desejo sincero de melhorar a relação dos dois! Qual foi a parte da nossa conversa que provocou tamanha piora no humor do aristocrata?!

– Não, eu não estou chateado. — ele declarou, placidamente, no mais resplandescente e mortificante dos cinismos. – Pelo contrário, eu concordo plenamente com as suas colocações. Você é o meu cerimonialista e está sendo pago para atender às minhas vontades. Não para opinar sobre a minha vida pessoal como se possuísse autoridade sobre mim.

Pronto. Aquele foi o meu limite. Eu havia tolerado o suficiente para uma única noite.

– Eu acho que está na hora de você voltar para casa, Rod. — eu falei em tom grave, erguendo-me apressadamente do sofá. – Vamos.

Sem hesitação, eu apanhei o pulso dele, obrigando-o a se levantar, e comecei a carregá-lo para a saída do meu apartamento.

O meu movimento foi tão repentino e agressivo que fez com que o líquido restante em sua xícara caísse. Com um andar cambaleante, ele fez uma atrapalhada tentativa de botá-la sobre minha mesa de centro, contudo também a deixou cair e rolar até a borda.

Ao contrário do Roderich, a lei da inércia não falhava.

Aliás, o que ele estava fazendo? Eu estava prestes a jogá-lo para fora do meu apartamento e a primeira atitude dele era colocar minha xícara no lugar. A xícara que eu poderia apanhar, por conta própria, quando eu bem quisesse. O seu primeiro impulso não foi me pedir desculpas, perguntar o que ele havia feito errado ou se eu estava chateado, demonstrar preocupação, nem nada do gênero. Nããão! Foi colocar a xícara em cima da mesa para não manchar seus trajes monárquicos!

Eu sei, eu sei. Pode parecer que eu estou dando muita intensidade dramática a um gesto razoável e comum, mas vocês precisam entender que o primeiro impulso de uma pessoa mostra muito do que ela realmente sente. Qualquer um, na minha posição, esperaria que ele houvesse ao menos demonstrado algum atordoamento ou alarme, primeiro, no lugar daquele ar casual de “pois-bem-deixe-me-colocar-essa-xícara-aqui”! Que tipo de preocupação imediata era aquela? Não era como se eu fosse mandá-lo para casa, junto com o meu copo, caso ele não o pusesse logo em algum canto!

Urgh. Por mim, aquela xícara poderia explodir! Nós estávamos tendo um momento sério ali. Caramba, as prioridades do Rod nunca estavam no lugar certo!

Arrastá-lo foi mais fácil para mim, e mais constrangedor para ele, do que nós presumiríamos. Por ser esguio e bastante inexperiente com brutalidades, o aristocrata não estava obtendo muito domínio sobre os próprios movimentos. Em fatos, ele estava praticamente caindo em cima dos próprios pés, e sim, eu estava ciente disso, mas francamente? Eu não dava a mínima para o modo agressivo e rude, como estava arrastando o Roderich para a minha porta. Eu estava cheio e não possuía a menor paciência para gentilezas que ele não merecia.

Não que eu planejasse ter um rancor eterno dele. Não vamos exagerar. Se aquela fosse uma noite ruim, da qual ele se arrependeria em um futuro próximo, fantástico. Esses incidentes podem ocorrer antes de casamentos. Nós nos conciliaríamos em outra data. Todavia, por hora, eu havia percebido que não aguentava mais lidar com ele e não queria dar a oportunidade para que ele dissesse mais um comentário estúpido e acabasse me levando a ações das quais eu iria me arrepender.

Era um plano perfeitamente sensato, logo o Roderich tinha que estragá-lo.

Ele pôde, por fim, resistir e me deteve no meio do caminho. Fixando-se em um ponto no chão, puxando o meu braço com força e me obrigando a encará-lo. Eu senti o desprezo estampado no meu rosto quando nós nos confrontamos.

– É impossível assimilar por que você está me desencorajando tanto a contestar o meu casamento! – ele exclamou, e eu não pude acreditar que a confusão dele fosse genuína. Não podia ser! Ninguém era tão estúpido! – Nós temos um contrato, portanto o seu salário será pago em qualquer desfecho!

Salário?! SALÁRIO?!

Eu senti algo explodir dentro de mim.

– Certo! Você quer jogar esse jogo?! – eu gritei na cara dele, fazendo com que os olhos dele se arregalassem com o susto. O Roderich havia me visto frustrado, aborrecido e cheio. Nunca enfurecido. Eu tentei controlar a situação, tentei ser compreensivo, tentei ser diplomático… Agora, eu não estava tentando nada. Eu estava berrando o que vinha a minha mente e soltando, como em uma erupção, tudo aquilo que estive guardando com prudência dentro de mim, por sabe-se lá quanto tempo. – Nesse caso, eu vou ser franco com você! Roderich, eu não sei o que você espera de mim! Eu, legitimamente, não sei! Você quer um conselho?!– eu arqueei uma sobrancelha de forma interrogativa, sentindo a minha face se retorcer em indignação. – Palmas?! Um abraço?! Por que você veio, no meio da noite, para me falar que está inseguro com o seu casamento que sequer foi realizado?!

– Não seja absurdo! – ele retorquiu ofendido. – Eu vim para conversar sobre a minha valsa!

– Há! Como se fosse! – eu disparei de modo agressivo. Em minha irritação e escárnio pela cara-de-pau impressionante dele, os meus dentes estavam aparecendo como se eu estivesse sorrindo. O que eu não estava. – Roderich, será que você pode parar com o cinismo?! Você não veio aqui para falar da sua maldita valsa! Que droga, Roderich! Qual é o seu direito de me cobrar algo além do meu trabalho?! Como você pode me fazer uma visita, no meio da noite, e dizer “casualmente”… — eu enfatizei essa palavra, alongando as suas sílabas, balançando o rosto, pondo os olhos para cima e criando, no geral, um exagerado ar de falsa inocência que evidenciava o quanto eu estava cético em relação a essa desculpa. – … que está pensando em desistir do seu casamento, e depois falar que eu não devo interferir nas suas decisões porque eu sou o seu cerimonialista?!

Eu estava gritando tão alto que algumas gotas de saliva estavam saindo da minha boca e batendo no rosto do Eldestein.

No entanto, a nossa briga era tão séria que ele não comentou nada sobre isso e, tampouco, deslocou-se um milímetro de onde estava; exibindo assim a mesma determinação e intensidade que eu… Nem isso provocou uma redução no meu volume. Hoje, eu acredito que os vizinhos só não interfonaram para reclamar porque pensaram que eu destruiria o apartamento de quem ousasse nos interromper. Eles estavam certos.

Não havia nada com capacidade de me segurar agora. Os meus vizinhos, o aristocrata, o nosso contrato, o meu bom senso… NADA. Eu realmente estava no meu limite. Não somente em relação àquela noite ou àquele trabalho. Oh, não. A minha briga com o Roderich foi a última gota restante para que uma piscina de conflitos transbordasse.

Permita-me explicar melhor.

Pode parecer algo digno de surpresa, mas o fato de que eu havia empurrado um universo de dúvidas, frustrações e outras emoções turbulentas, para baixo de um tapete de profissionalismo, naqueles anos posteriores ao meu primeiro encontro com o Roderich, esperando que elas fossem deixadas ali e se apagassem com o tempo, não era ignorado por mim.

Era uma medida provisória. Algo similar a uma faxina improvisada quando você recebe de última hora a notícia de que os seus sogros estão vindo te visitar. Como você está apressado, não dá para deixar a casa completamente limpa, portanto é necessário improvisar e apenas ocultar a bagunça, no lugar de corrigi-la. Quando eles saírem, aí sim, você obterá tempo e espaço para uma faxina decente.

O problema é que, no meu caso, eu nunca tinha condições de limpar a porcaria que estava debaixo do meu tapete, pois toda vida em que eu pensava que “os meus sogros” haviam, finalmente, saído, surpresa!, eles apareciam de novo e eu tinha que cancelar de novo a minha faxina, além de incluir, na montanha abaixo do tapete, a bagunça que se acumulou enquanto eles estavam comigo.

Imagine como é ter que empurrar mais e mais poeira para baixo do tapete. A sensação de pôr as mãos nos produtos de limpeza e ouvir a campainha tocar de novo. Como não existe um buraco-negro debaixo do seu tapete, se você ficar acumulando e acumulando o que quer ocultar debaixo dele, haverá um ponto em que se formará uma montanha impossível de se ignorar. Haverá um ponto no qual você começará a ansiar, com todo o seu coração, que os seus sogros, por mais adoráveis e charmosos que sejam, saiam logo e de uma vez por todas. É ridículo que uma colina de pó esteja tão alta. Como ela pôde se acumular tanto? Inevitavelmente, você é tomado pela necessidade de limpá-la, e com urgência, pois ela está deixando você extremamente desconfortável.

No início, pelo menos, você era capaz de fingir que ela não existia! Todavia, como ela está em evidência, você não pode mais se impedir de encará-la pelo canto dos olhos ou de se sentir profundamente inquieto com a sua presença… E o pior? Você não consegue parar de ser consumido pela ansiedade que traz a pergunta: como diabos os seus sogros não estão enxergando uma montanha óbvia e constrangedora como aquela?!

Pois é. Essas eram as minhas emoções.

Todas elas estavam presentes, quando gritei com o Roderich, apontando para o peito dele:

– Você tem que parar de ser tão exigente, casar com o Vash e encarar as suas escolhas, aristocrata!

– Qual é o seu direito de me cobrar algo assim? – ele questionou com irritabilidade.

Cara, eu possuía, praticamente, uma legislação para cobrar algo assim. Principalmente, caso uma possibilidade em particular que estava me atormentando, com uma intensidade cada vez maior no avanço daquela discussão, se confirmasse.

Que possibilidade era essa? Bem… Embora eu tivesse, com uma boa quantia de esforço, reprimido e ignorado a existência dela, uma certa ideia surgira em mim há tempos.

Não era um questionamento recente, surgido com o calor do momento. Era uma antiga teoria indigesta, sobre a qual eu nunca gostaria de refletir, e que busquei continuamente apagar dos cômodos da minha consciência.

Como outros pensamentos e sentimentos ignorados, ela nunca despareceu por completo e ficou como uma espécie de elemento intuitivo que podia me acertar, em certas ocasiões, mas nunca chegava a se enraizar dentro de mim.

Entretanto, quando a minha paciência com o aristocrata se esgotou, os meus bloqueios foram destruídos, e esse pensamento, uma vez revelado para mim, não parou de fervilhar na minha mente.

Eu odiaria que ele fosse confirmado, mas, com tudo à solta, era inevitável que ele se mostrasse em evidência diante de mim e, agora, enxergando-o em detalhes, eu estava me apavorando com quão tangível ele aparentava ser.

Era uma ideia simples e esmagadora que poderia ser resumida na seguinte linha:

Se a montanha debaixo do tapete é visível para o morador da casa, os sogros, definitivamente, não poderiam deixar de notá-la.

– Ah! Eu tenho todo o direito possível! – eu berrei, apertando, com toda a força, o punho que não estava cercando o pulso dele. Uma barragem foi aberta dentro de mim e eu não podia mais impedir. Eu havia ido longe demais. Eu não poderia mais fugir. Eu tinha que perguntar…! Eu tinha.. Urgh! Eu tinha que saber! – Você faz ideia de como eu me sinto quando organizo cada casamento seu?!

– Gilbert… — a inspiração dele se tornou funda.

– Não é uma pergunta retórica!

Estava feito. O tempo não retornaria.

Ao terminar de gritar essa sentença, eu passei a respirar de forma acelerada. Ela foi basicamente instintiva e eu ainda estava controlando a onda de adrenalina que me levou a jogá-la para fora.

A minha mão diminuiu a pressão aplicada no pulso do Roderich e começou a tremer. Nós observamos os rostos um do outro com concentração máxima. A fina camada de ar e espaço que nos separava, por um momento, transformou-se em uma muralha intransponível.

Subitamente, as cartas estavam na mesa, e eu queria ouvir a resposta dele tão ansiosamente quanto queria sair correndo daquela sala para não escutá-la. Um segundo de silêncio era uma tortura e um alívio. Eu nem sei que expressão o meu rosto adotou naquele momento, pois cada milímetro da minha concentração estava voltado exclusivamente para o Eldestein, evitando que eu prestasse atenção em mim mesmo. Os meus sentimentos eram como vetores indo para direções diversas, que estavam se misturando de forma caótica, assim como os sonhos e a realidade, quando nós estamos prestes a adormecer. De tudo que ocorreu comigo naqueles silenciosos instantes de espera, só existe uma coisa que eu posso garantir:

Eu estava desesperado.

Então, após uma infinidade de segundos, o Roderich se pronunciou.

– Sim. — ele falou com muita tranquilidade e segurança, abaixando um pouco a sua cabeça. – Eu sei.

Por um momento, eu quis acreditar que ele estava respondendo “Eu sei” ao meu “Não é uma pergunta retórica”. Eu quis aguardar pelo resto da resposta.

No entanto, eu olhei para o rosto do Roderich e não pude escapar da dura e terrível verdade. O meu estômago ficou embrulhado quando eu passei a perceber que aquilo era real. A minha temperatura descia mais e mais, acompanhando a minha realização do que ele havia acabado de admitir. O meu coração estava batendo de uma forma progressivamente mais dolorosa e pesada ao assimilar o significado daquela admissão. Ele sabia. Droga. Ele sabia.

– Eu não acredito nisso. Que piada. Esse tempo todo e você… — eu soltei um riso seco e ferido, colocando uma mão sobre a minha testa, com os olhos arregalados e um sorriso inquieto. Que situação patética. Eu estava me sentindo ridículo.– Roderich, escute. — eu suspirei profundamente. Eu não possuía energias sequer para brigar com ele. – Eu quero que você volte para casa e, de agora em diante, caso apareça qualquer contratempo relativo ao meu trabalho, deixe o seu noivo se resolver comigo. Eu preciso de um tempo para espairecer.

Então, para o meu estranhamento, o Roderich finalmente passou a ser afetado pela nossa briga. Ele começou a piscar e os seus olhos se encheram de um brilho inocente e horrivelmente desnorteado. Como um animal perdido da matilha, realizando o seu inevitável triste fim.

– Eu não compreendo… — ele praticamente murmurou.

– Aristocrata, você está confuso. — eu expliquei, esforçando-me para ser paciente, embora, para ser honesto, eu não estivesse estável o suficiente para isso. Eu estava me sentindo péssimo. Péssimo.

Para descrever melhor as minhas emoções, eu fui tomado pela contraditória sensação de que, naquele momento, eu poderia destruir uma parede com as minhas mãos e também de que se eu me deitasse em um sofá, eu não me levantaria nunca mais.

Enfim… Pelo lado forçadamente otimista, nós finalmente estávamos cientes um sobre o outro. Não era um conhecimento muito agradável, mas a verdade raramente é prazerosa. O suspense e os mistérios chegaram ao seu fim. Eu podia reconhecer os nossos problemas e trabalhar internamente com eles. Eu podia solucionar minhas verdadeiras pendências com o aristocrata. Era doloroso, mas também era um alívio ter uma resposta para uma dúvida, com a qual eu duelei por tantos anos para evitar. Foi como arrancar um objeto afiado do corpo.

Eu falei muito do que eu estava sentindo em geral, mas ainda falta dizer o que eu estava sentindo em relação ao Roderich.

Espantosamente, o meu sentimento não era de raiva ou rancor… Não o maior deles, pelo menos.

Após a minha aceitação dos fatos que eu lutei tanto para contornar, eu estava adquirindo a capacidade de pensar com maior clareza e perceber que as razões que desencadearam nosso conflito não eram totalmente culpa do Roderich.

Não era como se ele agisse assim por mal. Ele estava vivenciando um período complicado na sua vida e, por acidente, arrastando pessoas inocentes com ele. Alguém que estava no seu terceiro casamento em seis anos, evidentemente, não estava bem o bastante para saber como lidar de forma cuidadosa com os sentimentos alheios. Ninguém contrata um cerimonialista em três ocasiões situadas em um período de poucos anos, tendo consciência sobre os sentimentos dele quanto à organização do seu casamento, a menos que possua sérios problemas internos para resolver.

Eu não estava desculpando o Roderich, mas… De que adiantaria brigar com ele? Ele estava mais perdido do que eu.

Argh. Por que o meu espírito precisa ser tão nobre e complacente? Seria bem mais fácil lidar com o Eldestein se eu simplesmente ficasse com raiva dele, pensasse “Céus! Que imbecil!”, e o atirasse para fora do meu apartamento com grande satisfação. Por que eu tinha que compreender o que ele deveria estar passando ou me preocupar com o ponto de vista dele? Que inveja das pessoas mais egoístas e irracionais. Ser compreensivo pode ser um grande saco.

– Você está desorientado, nessa sua jornada de autoprocura, ou alguma coisa desse tipo… E eu não pretendo ficar no meio disso e ser a sua válvula de escape. — eu admiti exausto, pressionando o centro da minha testa. Se nós precisávamos nos distanciar, eu planejava deixar ao menos uma crítica construtiva para ele. Alguém tinha que ajudá-lo a deter o ciclo destrutivo, no qual ele estava envolvido, e por mais que eu não estivesse em quaisquer condições de assumir esse papel, eu desejava empurrar o Roderich na direção certa. Apesar de todos os bilhares de pesares, eu me importava com aquele aristocrata individualista. Com esse propósito, eu coloquei de modo bem direto, olhando dentro dos olhos dele, muito sério – Eu só vou aconselhá-lo a buscar considerar minimamente os sentimentos das pessoas a seu redor e parar de usá-las como testes das suas hipóteses, Eldestein.

Ao dizer isso, eu o observei com tanta intensidade que ele recuou um passo de modo instintivo, como se eu houvesse feito um meneio de bater nele. Excelente, aquilo devia atingi-lo mesmo.

Eu não usaria códigos ou delicadezas. A minha mensagem nunca causaria um impacto real se eu não a empurrasse contra ele da forma mais severa e franca que pudesse. Ele necessitava compreender com exatidão como ele estava agindo e quais eram as consequências disso.

O aristocrata contornava o egoísmo das suas ações, colocando-as em termos lógicos e as contemplando com distanciamento emocional. Tudo bem. Bom para ele se ele podia sentir tanta indiferença quanto ao término dos seus relacionamentos. Como comprova “Romeu e Julieta”, essa reação é melhor do que sofrer insuportavelmente no fim de cada relação.

O problema é que não era assim que as outras partes envolvidas deviam enxergar o compromisso dos dois. Eu aposto que ninguém se casou ou noivou com o Roderich pensando “Vamos averiguar se a nossa relação é conveniente o bastante para que ela dure. Se encerrarmos esse casamento, nós procuraremos por outras pessoas, utilizando diferentes critérios.”.

O Eldestein estava convencido de que ser governado pela razão era a melhor atitude em um relacionamento, e essa ideia em si não era um problema. Já o modo como ele não enxergava e, portanto, não se importava com o fato de que nem todo mundo pensava do mesmo jeito que ele… Provavelmente, era a origem da maioria dos seus males.

Os subterfúgios racionais que ele usava para se esquivar da culpa eram tão convincentes que, por muito tempo, eu não havia sequer considerado sobre o fim levado pelos seus ex-parceiros. Quando ele se explicava, tudo parecia tão empírico… Eu só pensava em mim mesmo, forçado a realizar cerimônias desgastantes, e pensava no aristocrata, cujas exigências elevadas poderiam destiná-lo a um fim solitário. Eu nunca havia parado para pensar quão difícil o término deveria ter sido para o Tonio e, principalmente, para a Lizzie.

O preocupante é que esse meu lapso não foi acidental. Eu não havia pensado sobre essa questão, pois o Roderich formara uma perfeita linha de defesa para escapar das responsabilidades emocionais que estavam presentes em um relacionamento. Ele era efetivo em nos convencer de que um divórcio era uma experiência unilateral e pragmática porque ele havia, legitimamente, convencido-se disso. A ponto de ser necessário que alguém, literalmente, berrasse com todas as letras o que havia de errado nas suas ações.

Essas defesas eram tão fortes que mesmo que eu estivesse sendo o mais direto possível, a expressão dele ainda mostrava profundo atordoamento.

– Sentimentos doem, Roderich. — eu falei, desviando o meu rosto para o outro lado. Caramba, como era difícil falar algo assim. A minha voz estava saindo estrangulada. Havia um teor pessoal naquelas linhas que quase forçava a minha garganta a se fechar. Essa opinião estava longe de ser imparcial. – Porque eles não doem para você, não significa que eles não doam para outras pessoas.

Eu creio que ele notou perfeitamente todas as implicações da minha última frase, visto que, ao recebê-la, ele arregalou ligeiramente os olhos e abriu um pouco a sua boca, mas não emitiu um único som.

Ele não conseguiu me responder.

Por mais algum tempo, nós permanecemos calados. Eu acho que nós aguardávamos por algo um do outro…Todavia, não importando quão excruciante que tenha sido a espera, esse “algo” não veio de nenhuma das partes.

Eu mordi o interior da minha bochecha, resignado.

Novamente, eu tornei a levar o aristocrata para a porta e, mais uma vez, ele puxou o meu braço com força e me obrigou a parar e a voltar meu rosto na direção dele.

Ele não parecia mais ofendido ou aborrecido. Simplesmente amedrontado.

– Da próxima vez, eu pagarei mais a você! – ele se apressou em me informar em uma voz alterada e muito mais alta do que eu estava acostumado a ouvir dele. – Eu me programarei com mais antecedência e…!

– Roderich, você está escutando o que está dizendo?! – eu exclamei perplexo. – Você está falando do seu próximo casamento quando você ainda nem se casou com o seu noivo atual! O que há de errado com você?!- em meio à minha raiva, eu não busquei disfarçar o horror com o qual eu disparei essa última questão, e percebê-lo em tamanha evidência, foi um golpe repentino que feriu severamente o Roderich.

Mais do que eu queria. Eu nunca havia enxergado uma dor tão óbvia nos olhos dele.

Novamente, eu respirei fundo e deitei o meu rosto na minha mão livre. Droga.

Não existia sentido em permanecermos ferindo um ao outro. Independentemente do que ocorresse, o fim estava próximo. Ele se casaria em menos de duas semanas e tudo seria concluído. Com os cuidados certos, nós ainda podíamos nos afastar em bons termos.

Nós mantivemos um bom relacionamento por anos. Seria insuportável encerrá-lo daquela forma.

Pensando nisso, eu reuni todas as minhas forças restantes e me empenhei em ser o mais paciente possível:

– Olha, jovem mestre, eu não posso mais lidar com essa sua busca impossível. É melhor nós nos afastarmos um pouco. — ele ia falar alguma coisa, mas eu o interpelei logo e forneci um sorriso vazio. – Não se preocupe. Nada vai mudar em relação ao planejamento do seu casamento. Ele será o melhor casamento organizado por mim. Tente aproveitá-lo e iniciar seu novo casamento com o Vash sob uma perspectiva diferente dos anteriores. Ele é responsável, honesto e se parece muito com você. Vocês serão… — eu mordi o meu lábio inferior asperamente e me corrigi – Vocês são um ótimo casal.

Eu voltei a me dirigir a porta e o meu braço foi agarrado mais uma vez. Aquilo me irritou profundamente. Eu pensei que o Roderich insistiria nos seus argumentos absurdos sobre “profissionalismo”, então me virei para o lado dele, com extrema impaciência, prestes a gritar com ele.

No entanto, a minha boca se fechou.

A minha pouca diferença de altura com o Roderich nunca ficou tão evidente quanto naquele instante. Os olhos dele estavam logo abaixo dos meus e tão próximos que eu podia sentir fisicamente a pressão deles. Com o rosto tão próximo do meu, ele estava expondo uma porção inesperadamente vulnerável sua. A sua palidez, a sua respiração agitada, aquele brilho peculiar que raramente perturbava as suas íris…

Quando ele havia se aproximado tanto de mim?

Eu estava tão imerso naquela figura à minha frente, que não reagi quando ele agarrou a gola da minha camisa. Eu presumi que ele iria apenas gritar de novo na minha cara e estava totalmente pronto para isso. Todavia, quando ele me puxou para baixo, o seu movimento não foi violento ou incerto.

Ele inclinou o seu rosto para o lado e, em um movimento fluido e preciso, ele me trouxe até que os meus lábios se encontrassem com os seus.

O meu corpo recebeu informações demais ao mesmo tempo. A textura dos lábios do Roderich, o gosto de café e de chocolate reminiscente em sua boca, as inspirações e expirações rítmicas dele.

Essa série de sensações traduziu-se em uma corrente elétrica tão intensa passando por mim que fui incapaz de processar o que estava acontecendo e de ter outra reação além de pôr os meus braços em volta da cintura dele para conseguir me suportar… Porque se não estiver claro, o que é possível tendo em conta que eu não queria deixar claro nem para mim mesmo, e sempre me esforcei para fugir, ignorar, contornar, desprezar esse fato… Eu era completamente, desesperadamente apaixonado pelo Roderich.

Eu amava o Roderich. Amava. Amava. Amava. Então sentimentos que passei quase seis anos buscando apagar e evitar, porque eram dolorosos demais, de repente, acertaram-me com toda a força.

Ele estava me beijando. Ele estava me beijando. Ele estava me beijando. A consciência dessa ação era como um buraco negro no meu interior, sugando toda a minha alma, concentração e sentidos.

O Roderich estava pressionando sua boca contra a minha com um desespero inexplicável. Franzindo as sobrancelhas, com os olhos firmemente fechados, como se não tencionasse desperdiçar nenhuma sensação daquele contato. Ele preservou uma das suas mãos na minha camisa e pôs a outra na parte de trás do meu pescoço e as subidas e descidas dela, enroscando nos fios da minha nuca, geraram os arrepios mais torturantes que já experienciei.

Uma parte minha estava gritando quão errado era tudo aquilo e outra parte estava desorientada com quão certo nós sentíamos que era. Um "finalmente" parecia ser emanado por todo o meu corpo, como se fosse uma substância pulsando nas minhas veias. Anos e anos de entrelinhas, voltas e negação, não puderam nos impedir de chegar ali. Nós finalmente estávamos nos beijando. Céus, como eu estava ficando louco, ansiando esse momento.

Nobreza de espírito à parte, realizar os preparativos necessários para que a pessoa por quem você está apaixonado seja feliz para sempre com outra… Dói. Eu não queria admitir o que estava sentindo, embora fosse óbvio para todos que conviviam comigo, pois eu sempre tive consciência de que aquele era um sentimento sem chances de retorno. O meu consolo máximo era a minha certeza de que eu o tornaria feliz, planejando um casamento formidável para ele.

Inconscientemente, eu me empenhei mais nas festas dele do que me empenhava nas outras. Era como um mecanismo de defesa. Em uma porção silenciosa da minha mente, residia a certeza de que se eu organizasse um casamento perfeito para o Roderich, esse seria um grande presente de despedida e, ao mesmo tempo, uma forma de me colidir com a realidade. Em um casamento ideal, você é capaz de enxergar as promessas de amor eterno entre os recém-casados, de sentir a ligação entre eles… e eu precisava ter aquilo esfregado na minha cara para conseguir superar o que eu sentia pelo aristocrata.

A minha afeição pelo Roderich era extremamente simples e espontânea. Eis porque ela era tão difícil de se escapar. Qualquer fogo teria se apagado com os baldes de água fria constantes que eram os casamentos dele. Infelizmente, o que eu sentia não era ardente e vulnerável como o fogo. Era sólido como uma pedra teimosa. Eu não amava o Roderich por razões específicas e não tinha expectativas precisas sobre o nosso futuro. Eu não sabia quando ou como eu havia começado amá-lo e ele, definitivamente, não era a minha imagem ideal de parceiro. Entretanto, eu possuía uma facilidade natural em me apegar aos detalhes que o construíam, em rir e me sentir à vontade com a presença dele, e antes que eu me desse conta, um sentimento profundo havia se desenvolvido dentro de mim, por aquele indivíduo com todos os seus defeitos e qualidades, manias e peculiaridades, sonhos e medos. Não era algo que eu controlasse, quisesse ou premeditasse. Os meus sentimentos vinham como a minha respiração. Droga, havia momentos em que eu não mal podia olhar diretamente para ele, sem sentir uma afeição tão forte que comprimia o meu coração e, certamente, provocava um efeito estranho no meu rosto, o qual eu me esforçava para disfarçar olhando para qualquer outro lado. Eu dava os meus sorrisos mais idiotas na direção do Roderich. Ele me transformou em um daqueles idiotas sentimentais que acordam e dormem com uma pessoa em mente.

Em resumo, desde o início eu estive completamente ferrado, e agora eu estava mais ferrado do que nunca.

Eu não correspondi o Roderich, ainda que os movimentos da boca dele sobre a minha fossem exigentes e ávidos. Em compensação, eu não consegui afastá-lo de mim. Eu simplesmente não tinha forças para isso.

Eu era louco pelo Roderich há anos e agora ele estava me beijando como se aquele fosse o último beijo das nossas vidas. Desculpem-me, sim?! Apesar dos pesares, eu sou o humano! Não havia jeito de eu tomar a iniciativa em afastá-lo. Eu fechei os meus olhos e prendi minha respiração, apertando o corpo dele contra o meu, em um instinto assustado.

Eu estava paralisado. Eu não pude retribuir o Roderich ou lutar contra ele. Não me restou outra opção, além de ficar completamente petrificado, sentindo o meu coração pulsar com toda força.

Após os quarenta segundos mais longos da minha existência, houve um certo ponto em que ele teve de abrir a boca para respirar melhor e essa foi a oportunidade que estive aguardando para escapar. Eu tentei dar um passo para trás e me separar do Roderich, contudo ele me deteve e praticamente rosnou, com a boca aberta sobre a minha, e os seus lábios perpassando perigosamente pelos meus, na pronúncia de cada letra:

– Durma comigo.

Eu nunca, nunca, nunca, nunca havia imaginado que, após uma experiência como aquela, as primeiras palavras do Roderich seriam essas.

–…O quê?! – eu gritei chocado.

– Durma comigo. — ele insistiu, pondo as duas mãos no meu rosto. Não havia uma sombra de hesitação ou ironia no seu semblante.

O meu coração estava a mil. A minha série de batimentos cardíacos estava tão acelerada que eu podia senti-la no meu pescoço. Batendo. Batendo. Batendo.

Diante de mim, estava a pessoa por quem eu estava perdidamente apaixonado há anos. Ele estava logo à minha frente e com os lábios intencionalmente ao meu alcance. Praticamente exigindo que eu o devorasse

Se a situação fosse um pouco mais simples… Se eu fosse dominado pelo meu desejo, eu provavelmente sentiria vontade de corresponder ao que ele me pediu. Derrubá-lo no meu sofá, colocar as minhas mãos possessivamente nos seus quadris e beijá-lo até roubar todo o ar dos seus pulmões. O que eu faria com ele seria tão intenso que o termo “dormir” seria um péssimo eufemismo para descrever a nossa experiência. Danem-se as consequências ou algo assim. Seis anos era um tempo longo demais.

Entretanto, eu não “desejava” o Roderich. Eu o amava. De verdade. E por isso, quando ele me fez esse pedido, no lugar de um desejo animalesco, eu senti… tristeza.

Oras, eu não era estúpido. Eu estava consciente que ele só estava querendo dormir comigo porque estava confuso, carente e assustado. Ele não queria perder a minha companhia e procurou recorrer aos seus últimos meios para me manter. Por isso, eu estava arrasado. Porque era terrível realizar que mesmo estando mais próximo do Roderich do que nunca, ele continuava inalcançável para mim.

A aliança na mão dele era uma prova disso.

A aliança! Subitamente, a sensação do ouro e do diamante – duros e frios, contra a minha pele – me remeteram de quão insensível o Roderich estava sendo, transformando a minha mágoa em fúria.

Como o Roderich tinha coragem de trair alguém como o Vash? Eles dois estavam prestes a se casar! O Vash estava investindo tanto naquele relacionamento! Ele não merecia ser golpeado dessa forma. E quanto a mim?! Como ele podia tratar os meus sentimentos com tanto desleixo? Ele possuía a mínima noção do quanto ele estava me ferindo com aquela proposta de sexo casual?!

Eu amava o Roderich, mas eu não podia deixar de enxergar que ele estava sendo um grande sacana e se ele pensava que eu não o confrontaria, ele estava tão enganado.

– Roderich, você…! Que droga, Roderich! – eu o afastei, empurrando-o pelos ombros e o encarando com uma mescla de forte assombro e indignação. – Você está noivo! Como você pode me propor uma coisa dessas?! O Vash não merece o que você está fazendo! Eu organizei o casamento de vocês, lembra?! Eu sei do empenho que ele aplicou nessa festa! Eu sei o quanto ele se esforça para ser romântico, mesmo que vocês sejam péssimos nisso! Eu não vou permitir que você traia um cara desses, Eldestein!

– Então você quer que eu desfaça todo o meu noivado por conta de uma única noite? – ele pôs as mãos nos quadris e soou bastante ofendido. Pela primeira vez, em todos aqueles anos, eu não vi graça alguma no descaramento dele. – Que eu desfaça os meus planos, por conta de algumas horas de…?

Não, não, não, não. Ele só podia estar de palhaçada comigo!

– Não! Não é isso que eu quero! Você não escutou nada do que eu estava GRITANDO NA SUA CARA?! – nesse ponto, eu me encontrava, igualmente, perplexo e indignado com ele. ARGH. Era impossível decidir se eu deveria me sentir mais ofendido ou abismado com a interpretação que ele atribuiu às minhas palavras. Eu estava gritando, mas não estava sendo escutado! Aguentar as traduções completamente erradas dele era tão frustrante! Como ele podia moldar tanto o que eu estava falando para se acomodar ao que lhe era conveniente?! Droga, então ele não conseguia saber o que eu queria?! Pois bem! Eu diria EXATAMENTE o que eu queria! – Roderich, eu quero que você tenha um casamento fantástico e descubra seja lá o que for o objeto da sua eterna procura no Vash! Eu quero ouvir notícias suas, daqui a cinco anos, e descobrir que você ainda está feliz com a pessoa que você escolheu! Eu quero que você se torne uma lembrança engraçada dos velhos tempos! Eu não quero ser a sua noite de impulso! – ele abriu a boca para retrucar, mas eu me antecedi a ele, não tendo paciência alguma para ficar me esquivando da verdade com eufemismos, desculpas e racionalizações – Sim, uma noite de impulso. Vamos ser francos, aristocrata, eu não me encaixo em qualquer um dos seus parâmetros. — quando disse isso, eu estava sorrindo com escárnio agressivo, mas a minha visão estava turva, denunciando as lágrimas que estavam começando a se acumular e arder nos meus olhos. Argh. Era só o que me faltava. Eu devia estar parecendo um completo idiota.– Eu não pretendo sustentá-lo, bajulá-lo ou mudar minha personalidade para me assimilar a você. Eu não hesitarei em confrontá-lo quando você agir de maneira errada e sempre serei alguém com uma personalidade oposta à sua. HÁ! Eu poderia estar mais longe da imagem de conveniência e conforto que você esteve procurando? Nós dois temos plena consciência de que a única razão pela qual você está agindo dessa forma comigo é porque você está inseguro e quer seguir a rota mais fácil de escapismo. Para você, talvez seja cômodo me colocar nessa posição, jovem mestre, mas eu estou no meu limite. Eu não vou mais ser o seu estepe emocional. Eu só quero que você se case e aprenda a se contentar com aquilo que tem em mãos. — eu suspirei, cerrei meus punhos e acrescentei com dificuldade – Nem todos possuem a sorte de poder estar com as pessoas que querem, Eldestein. Tenha um casamento fantástico e duradouro com o seu noivo. Finja que eu não existo e que nada disso aconteceu.

“Nem todos possuem a sorte de poder estar com as pessoas que querem”… Bom, essa era uma declaração que eu poderia assegurar com confiança.

Falar aquilo exigiu um esforço adicional da minha parte, mas eu esperava que esse fosse o choque de realidade que ensinaria uma lição ao Roderich em definitivo.

Quanto ao resto do que eu falei, não creio que exista algo a ser explicado. Se o Roderich se casaria de novo ou não, não era um conhecimento ao qual eu tivesse acesso, no momento, mas aquele era o último casamento que eu planejaria para ele.

Eu me afastaria dele, encerraria o meu trabalho e pronto. Os nossos caminhos seriam separados.

Era o melhor para todas as partes envolvidas.

Estranhamente, ao ouvir o meu pedido, ele mostrou uma reação mais branda e suave do que eu imaginava. Ele não se espantou, indignou ou se entristeceu com o que eu falei. Ele apenas encolheu seus ombros e conferiu um ar um pouco mais sério e grave ao seu semblante, com o tolerável grau de decepção de uma pessoa descobrindo que o seu cereal preferido deixou de ser fabricado. As palavras dele também não foram bem o que eu esperava.

– Não, você não está sendo sincero. — ele declarou com a voz e os olhos baixos. – Esse não é o seu desejo.

Eu comecei a rir secamente e a erguer uma sobrancelha como quem dissesse “Nenhum-pouco-convencido-de-que-é-o-dono-da-verdade-não-é-Rod?”. Eu pretendia desmenti-lo, mas, quando observei a expressão dele, eu notei que aquilo não adiantaria nada. O Roderich tinha total consciência dos meus sentimentos. Há muito tempo.

– De fato. — eu suspirei, encobrindo os meus olhos com uma mão e os enxugando com a outra. – Sabe o que eu quero? – eu mudei a direção dos meus planos – Eu quero sair completamente da organização do seu casamento, Roderich, e nunca mais encontrar você no meu escritório, pedindo que eu seja o seu cerimonialista. Não se aproxime mais de mim, certo? É sério.

– Você não pode se demitir! – ele exclamou estarrecido com a minha decisão. – Seria muito antiprofissional da sua parte!

– Profissionalismo?! – eu me sobressaltei violentamente. – Roderich Eldestein, nós estamos tão longe da linha do profissionalismo que precisaríamos de um navio para chegarmos lá! – eu berrei, abrindo ao máximo o meu braço, em um gesto bastante enérgico, e apontando para a parede à minha direita, como se indicasse nosso meio de transporte imaginário.

– Gilbert…

Quando eu passei a noticiar indícios de piedade na forma como ele disse o meu nome, a despeito da raiva ardente que eu estava expressando, eu concluí que eu não podia suportar um segundo a mais daquela discussão.

– Eu vou pedir para a minha secretária resolver a transferência de vocês. — eu informei em tom mais profissional – Se quiserem me processar, mandem uma mensagem por ela, e eu conversarei com o meu advogado.

Dessa vez, eu não precisei levá-lo à porta. Eu caminhei até lá e fiquei apenas o aguardando. Ele só precisou pôr os olhos no meu rosto para saber que eu não aguentaria outra resistência da sua parte. Não que ela fosse me levar ao auge da fúria ou algo assim. Ela apenas me destruiria por dentro. Nada mais, nada menos.

Foi humilhante convencer o Eldestein a sair da minha casa, não por ser intimidado pela minha autoridade ou por temer a minha retaliação, mas por querer poupar os meus sentimentos frágeis.

Quando ele atravessou a minha porta e ficou no corredor, houve um breve instante de medo, dúvida e silêncio entre nós, o qual impediu que eu a fechasse de imediato.

Quando nós trancamos nossos olhos um no outro, angustiados por diferentes razões, eu fui tomado pela dolorosa realização de que “Nossa, isso realmente está com cara de uma despedida final.” e tive uma momentânea dificuldade em concluir aquele momento. A realização de que aquela era a última vez que eu fecharia a minha porta para o Roderich me deteve no meio desse gesto, prolongando aquela silenciosa cena de encerramento.

Mas ela era inevitável.

– Adeus, jovem mestre.

Assim que eu tranquei a porta, os meus joelhos perderam a força e eu caí no chão. Eu levantei as minhas mãos e reparei que elas estavam tremendo. O meu coração estava batendo com tanta força que era possível senti-lo em todas as áreas principais do meu corpo. Pelo que me lembro, a pior de todas as sensações estava no meu peito. Ele era uma espécie de epicentro da dor. Eu tinha a sensação física de que alguém havia atirado um arpão contra as minhas costas que havia acertado em cheio o órgão próximo ao meu pulmão esquerdo.

Droga. Droga. Droga.

Eu afundei o meu rosto nas minhas mãos e comecei a inspirar pelo nariz e expirar pela boca. Inspirar pelo nariz e expirar pela boca… Aquilo não estava ajudando. A minha respiração perdia facilmente seu controle e eu estava somente adicionando “falta de ar” aos meus problemas. Os meus pulmões estavam pesados o bastante.

Eu nem tive o conforto de conseguir chorar.

Eu olhei para o meu teto longamente e me deitei no chão da minha cozinha, consumido por um cansaço inimaginável, mas não consegui chorar. Por outro lado, eu não pude fugir daquela inquietação e angústia ou dos pensamentos que as geravam. Para ignorar as dúvidas sombrias, previsões alarmantes e memórias insuportavelmente felizes de tempos que não retornariam, além da consequente dor física e inflamada que elas infligiam no meu peito, eu pus as mãos no meu tórax e busquei me concentrar no modo como o meu diafragma se enchia e esvaziava de ar. Enchia… e esvaziava… Enchia… e esvaziava… Repetitivamente. Eu fiquei contemplando o teto e observando cada detalhe insignificante nele. As lágrimas não saíram. Aquela escuridão e aquele peso ficaram presos dentro de mim, debatendo-se nos meus órgãos internos em pancadas violentas.

_____________________________________________________________

No dia seguinte ao da minha briga com o Roderich, eu recorri aos favores que uma amiga me devia e transferi meu trabalho com a organização do casamento para ela. Ela ficou mais do que feliz em aceitar. Tudo estava praticamente pronto e ela receberia a maior porcentagem dos meus ganhos. Quem recusaria uma oferta dessas? Para completar, eu passei o meu celular de uso profissional para ela, então se o Roderich ao cogitou em me ligar para discutirmos sobre a transferência, os planos dele falharam instantaneamente.

Eu não tinha mais o que discutir com ele.

Espantosamente, ninguém recriminou a minha decisão de transferir tudo para outro cerimonialista de última hora. Pelo contrário. As pessoas passaram o tempo todo me fazendo visitas, enviando doces, recomendando grupos de ajuda para superação de relacionamentos e se oferecendo a me apresentar pretendentes. Argh. Em certos aspectos, essa piedade coletiva era pior do que seria lidar com os gritos deles.

As duas semanas que antecederam a data do casamento do Roderich foram as mais longas e emocionalmente desgastantes da minha vida.

Eu não consegui obter forças ou motivação para trabalhar, então decidi dar um tempo e ficar no meu apartamento, buscando curtir as coisas boas do cotidiano de um solteiro. Eu podia jogar videogames o dia inteiro, organizar minha pirâmide alimentar por sabores de pizzas e assistir os pornôs que eu quisesse. Eu iria reler todas as obras da Jane Austen e todos os volumes de Harry Potter. Assistir os filmes da Marvel e reclamar deles. Estar sozinho podia ser bom. Estar sem aristocratas manipuladores era incrível.

Eu organizei até uma programação especial específica para a data do casamento do Roderich.

Para começar, de manhã, eu pediria panquecas e assistiria os três primeiros filmes de X-Man junto com um dos caras com quem estavam querendo me arranjar. Eu não pretendia cogitar em romance por um looongo tempo, mas quer saber? Nada me impedia de fazer amizade com essa pessoa de extremo bom gosto que estava (sensatamente) interessada por mim. Se mais tarde, nós nos apaixonássemos e tal, ótimo. De outro modo, amizades também eram fantásticas, logo não me parecia haver perdas em nenhum dos cenários.

De tarde, eu me despediria do meu suposto pretendente e iria ao cinema, assistir a um desenho animado com o Lud e com a esposa dele. Curtir um tempo em família seria legal.

Por fim, durante a noite, eu iria beber até perder completamente a noção da realidade. Era o horário do casamento do Roderich e eu não precisaria lidar com isso, caso estivesse inconsciente. Eu arrastaria o Francis comigo, e se eu ligasse bêbado para o Roderich, nós riríamos dessa cena, superando o drama com bom-humor.

Como veem, a minha programação era simplesmente brilhante e parecia à prova de falhas.

Então, de manhã, eu arrumei a minha sala, liguei para o local em que vendiam as melhores panquecas da cidade e fiquei aguardando pelo cara que um dos fotógrafos da minha equipe havia me arranjado.

Por enquanto, tudo aparentava estar se encaminhando bem. Exceto pelo fato de que o interfone tocou bem mais cedo do que eu previa.

– Sim?

– Um cavalheiro diz que veio visitá-lo, senhor Beilschmidt.

Eu estranhei aquilo, pois quando escutei o interfone tocando naquele horário, eu só pude concluir que eram as panquecas que haviam chegado. Afinal, essa era a única explicação razoável para que ele estivesse tocando tão cedo. Um cavalheiro, huh? Ele queria dizer… O meu convidado? Que deveria chegar em mais de uma hora?

– Ah, pode deixá-lo subir. — eu consegui responder, meio que por reflexo e desliguei o meu interfone do mesmo modo. Eu passei a bagunçar os meus cabelos com a mão e sentir as minhas sobrancelhas se franzirem ligeiramente com preocupação. Para um primeiro encontro, era um tanto alarmante que o meu convidado houvesse chegado com esse nível de antecedência.

Eu sei, eu sei! Seria muito rigoroso da minha parte exigir de pobres indivíduos comuns uma pontualidade precisa como a minha, mas calma aí. Nós havíamos combinado que ele chegaria daqui a uma hora e meia!

Uma hora e meia.

Eu compreendo que existem pessoas que preferem se adiantar a se atrasar, mas aquele era um extremo tão ou mais inaceitável do que a postura de um convidado que só aparece no final da festa. Às vezes, quando nós queremos evitar um atraso, nós podemos chegar dez minutos mais cedo. Meia-hora mais cedo em ocasiões mais importantes. Mas uma hora e meia? Ele não estava indo para um show do Paul McCartney. Cara, não havia um fragmento de necessidade que ele chegasse tão cedo.

Eu estava começando a me questionar se esse encontro daria certo.

Não me entendam errado. Essa coisa toda de ter que esperar tantas horas para ligar, tantos encontros para beijar, tantas semanas para dormir com alguém… Era uma fórmula estúpida e desnecessária que eu nunca me importei em seguir. Eu não sou um desses idiotas que apreciam jogos em um relacionamento. Eu não vou pensar que um cara está muito desesperado porque ele respondeu minha mensagem na mesma hora ou julgar uma pessoa porque ela quis fazer sexo no nosso primeiro ou no centésimo encontro.

Todavia, quando alguém que você não conhece, chega uma hora antes do combinado na sua casa sem ter avisado nada sobre essa mudança de planos, inevitavelmente, você começa a se preocupar. Não é uma questão de encontros, flertes e relacionamento. É uma questão de segurança pessoal! Mais precisamente, uma questão de “que-tipo-de-pessoa-eu-estou-deixando-entrar-na-minha-casa”. Eu assistia o Investigação Discovery e estava detectando alguns traços alarmantes de similaridade por ali!

Urgh! Sério??? Caramba, o que havia de errado comigo?

Eu nem havia visto a cara do meu pretendente e já estava o comparando a um psicopata? Que diabos. Eu não me lembro de ter sido tão severo quanto aos meus parceiros antigos! De onde surgiu aquela defensividade? Eu não costumava ser assim. Será que as minhas fantásticas habilidades românticas estavam ligeiramente enferrujadas? Faria algum sentido. Há quanto tempo mesmo eu não ia em um encontro? Uns seis, sete anos?

…Oh.

Então era isso.

A luz do esclarecimento pairou sobre mim e me deixou extremamente indignado comigo mesmo.

Droga. Eu estava me sabotando. Só porque o meu visitante não era a pessoa com quem eu verdadeiramente ansiava ter um encontro, eu já estava buscando motivos para reprová-lo, ainda que isso não trouxesse nenhum benefício prático para mim. Eu não podia sacrificar algo tangível, por uma idealização impossível, mas quem poderia convencer o meu bendito inconsciente disso? Ele estava montando armadilhas na minha frente para que eu atrapalhasse meus próprios planos de superação, pois a parte mais estúpida do meu cérebro se recusava a assimilar o fato de que, se almejasse encontrar o amor, era necessário que eu conhecesse novas pessoas e que eu não possuía motivo algum para me manter preso ao passado. Se eu realmente tivesse que fazer comparações com o passado, o futuro deveria estar na liderança, pois eu não tinha o dom da clarividência, mas tinha memória suficiente para lembrar quão bem as coisas acabaram quando eu me apeguei ao passado.

Bom, agora que eu sabia o que estava acontecendo comigo, eu teria que me persuadir disso, o que seria um processo bem mais árduo, avaliando minhas antigas experiências. Enxergar o perigo era algo que eu sempre consegui rapidamente. Convencer-me de que ele era super-hiper-mega-preocupante e de que eu deveria fugir o mais rápido que pudesse? Nem tanto.

Como não havia tempo para uma sessão de hipnose, eu bati as palmas das minhas mãos, nos dois lados do meu rosto, para me tornar mais desperto e dei um sermão impaciente na parte dentro de mim que estava sussurrando “Talvez esse encontro não dê certo! Talvez nenhum outro encontro dê certo! De que adianta tentar um encontro se a pessoa em questão não é o…?”. Sério, que essa parte do meu cérebro calasse a boca e ficasse quieta no seu canto. O incrível eu estava muito acima desse tipo de autosugestão maligna. Eu não iria estragar um encontro que sequer havia iniciado.

Assim, quando a campainha tocou, eu fiz um esforço consciente para relaxar e não me afetar com temores exagerados. Podia ter acontecido um desentendido. O meu fotógrafo podia ter passado a hora errada para um de nós. Um contratempo podia ter surgido. Talvez ele precisasse chegar mais cedo, por ter que sair mais cedo. Ele podia ter aproveitado a viagem para resolver algo que ficava no caminho, para vir logo ao meu apartamento. Eu não dispunha de um motivo racional para estragar a perspectiva de um encontro que ainda nem havia ocorrido.

Decidido, eu abri a porta sem ao menos verificar a aparência da minha visita pelo olho-mágico, para não ser influenciado por desconfianças prévias. Era agora ou nunca. Eu enchi o meu rosto de energia e carisma, jurando silenciosamente que se eu fosse morto por um serial-killer, o meu espírito atormentado perturbaria o fotógrafo da minha equipe e as suas três gerações seguintes.

– Ei! Você chegou mais cedo do que eu…!

Assim que eu me deparei com o meu visitante, eu congelei e o meu sorriso foi desmanchado.

O tal “cavalheiro” não era um estranho. E quando eu digo “estranho”, eu não estou me referindo um “tipo estranho”, mas a um “desconhecido”. Pelo contrário. Eu era excessivamente familiarizado com aquela face não-metafórica da indiferença.

Logo à minha frente, estava Roderich Eldestein, o cara que eu decidi evitar pelo resto da minha vida. Roderich Eldestein, o cara que havia ignorado os meus sentimentos por, aproximadamente, seis anos. Roderich Eldestein, o cara que se casaria, naquela noite, em uma festa magnífica que eu projetei. Roderich Eldestein, o cara que deveria procurar algum aconselhamento psicológico, o mais breve possível. Roderich Eldestein, o cara que eu amava perdidamente.

Não. Aquilo não deveria estar acontecendo.

Eu fechei os olhos com força e os reabri de uma vez, intimamente esperando que aquela imagem fosse sumir. Como se fosse uma miragem. Naturalmente, ela não sumiu. Oh, não. Aquilo não era um pesadelo. Era pior.

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– Você estava aguardando outra pessoa? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha. Os seus olhos tiveram a audácia de transmitirem certa irritabilidade.

– Não é da sua conta. — eu me limitei a comentar, prestes a fechar a minha porta na cara dele. Eu só ansiava encerrar logo aquele momento para fingir que ele nunca havia acontecido. Quanto mais rápido eu o concluísse, mais fácil seria encará-lo como uma ilusão passageira. – Tchau, Roderich.

Eu havia colocado um ponto final na minha relação com o Roderich. Ele não deveria estar ali.

… Eu pensava no nosso relacionamento como uma bomba-relógio que explodiu na noite da nossa briga. O maior problema em uma bomba-relógio é a aproximação iminente do impacto. No entanto, depois que ele ocorre, o mal está feito, não é? Ninguém esperaria uma segunda explosão, uma semana após a primeira, em uma bomba já usada! É completamente absurdo!

Eu tinha que expulsá-lo, trancar a porta do meu apartamento e persuadir a minha mente a apagar os últimos minutos de seu registro. Da mesma forma como uma criança se esforça para se convencer de que o monstro no seu armário não é real.

Ignore o que aconteceu, ignore o que aconteceu, ignore o que aconteceu.

Eu estava de tal modo resoluto a finalizar aquela conversa, que nunca poderia contar com o fato de que o Roderich estava igualmente determinado a continuá-la.

– Eu não posso receber a oportunidade de me expressar?! – ele retorquiu mais agressivamente do que eu poderia prever, deixando-me, por um momento, um tanto desarmado. Ele se aproveitou da minha distração para tentar abrir caminho para o meu apartamento e os meus reflexos não agiram rápido o suficiente para deixá-lo trancado do lado de fora. Eu só consegui utilizar o meu corpo para bloquear a sua passagem. Ei, eu não tive culpa por essa falha na minha destreza! Eu nunca, nunca imaginei que o Roderich fosse me enfrentar fisicamente(!) para poder conversar comigo!

Francamente! O que ele estava fazendo agora?! “OPORTUNIDADE DE ME EXPRESSAR”?! Que piada era essa?!

– Não, não pode! – foi tudo que eu pude gritar, aplicando esforços em empurrar o braço dele para longe da minha porta.

– Isso é muito indelicado da sua parte! – protestou o Senhor Delicadeza, ainda se empenhando para invadir a minha casa. – Eu não vim até aqui para ser expulso dessa forma!

– Você veio aqui por conta da sua própria teimosia! – eu fiz questão de constar, pondo nessa simples linha que soltei entredentes, toda a raiva que eu acumulara nos últimos dias. – Eu avisei que nunca mais queria vê-lo no meu escritório, pedindo para conversar sobre o seu casa…!

Essa frase foi engolida pela minha garganta, quando um flash de irritação se acendeu nos olhos do Roderich e ele levantou a sua mão de supetão, colocando tanta força nesse movimento que, por um segundo, eu só pude concluir que ele estava prestes a me dar um tapa. Um senhor tapa, ainda por cima.

Existem certos momentos na vida de um ser humano no qual ele é conduzido puramente por instinto, o que pode resultar em uma reação que ele nunca conceberia. Em um assalto, por exemplo, há pessoas que correm, pessoas que gritam, pessoas que ficam paralisadas e pessoas que agem calma e friamente, mas o que existe de comum em todas essas pessoas, seria como elas tomam essas decisões no automático. Da mesma forma, quando eu notei a mão do Roderich vindo com tudo para cima do meu rosto, eu não fui capaz de pensar e controlar as minhas ações.

Instintivamente, eu fechei meus olhos e aguardei pelo golpe.

Ele não veio.

Pouco a pouco, eu fui levantando minhas pálpebras e noticiando que uma forma irregular estava logo diante delas. Quanto mais a forma ganhava contorno, mais o meu nível de confusão subia. E diferente do que se presumiria, perceber o que eu estava vendo não esclareceu nada. Em fatos, as minhas dúvidas se estenderam ao infinito e além.

Uma mão estava na minha frente. Uma mão sem aliança. Uma mão direita sem aliança.

– Huh? – o braço que protegia a minha porta, assim como as minhas outras defesas, despencaram por completo.

Aproveitando-se disso, o Roderich passou por mim e se pôs de pé na minha cozinha, com os braços cruzados.

– Nós não estamos no seu escritório, eu não vim para contratá-lo como meu cerimonialista e não pretendo ser expulso ou ter meus sentimentos ignorados novamente. — ele anunciou. Eu fiquei perdidamente dividido entre a raiva e o assombro com o nível de confiança que ele estava emanando.

– Sentimentos ignorados? – eu ri desdenhosamente – Você?

Um brilho peculiar passou rapidamente pelas suas íris gélidas, mas nenhuma manifestação maior de choque surgiu nele, e ele pôde retorquir de imediato:

– Bom, de acordo com as minhas recordações, não foi você que teve todas as suas opiniões descartadas e classificadas como um ato de confusão. — ele observou reprovativamente.

Ah, não. Eu não ia aguentar essa transferência de culpa.

– Não tente bancar a vítima, Eldestein. — eu interferi impaciente.

– Oh. Eu certamente não sou uma vítima, Gilbert Beilschmidt. — ele concordou muito tranquilamente. – Entretanto, se você pensa que é o único indivíduo que foi atingido com o que houve naquela noite e em todos esses anos, esse é um engano seu.

Oh, sim. Porque foi tããão terrível para o Roderich se utilizar dos meus sentimentos para ser incessantemente bajulado e me forçar a trabalhar muito mais do que eu deveria. Ele era um verdadeiro sobrevivente. Como as pessoas não haviam criado uma estátua em homenagem a esse mártir da humanidade?

– Mesmo? – eu subi uma das minhas sobrancelhas e soltei um riso agressivo, pondo as mãos na cintura e erguendo o meu queixo desafiadoramente. – Então eu posso saber como você foi atingido?!

Fui eu que lancei a pergunta, mas eu já podia assistir ao filme das suas próximas frases na minha cabeça, ao vivo, em cores, em 3D e com uma trilha sonora da Adelle. Ele reclamaria do quão difícil foi suportar a minha falta de profissionalismo em todos esses anos, sobre o incômodo causado pela troca repentina de cerimonialista e comentaria sobre o jantar que eu quase estraguei algumas noites atrás. Ele reclamaria do meu péssimo comportamento como seu funcionário, e de toda a bagunça que eu juntei no apartamento dele… Enfim, ele faria todas as reclamações de um pobre cliente vitimizado, desconsiderando inteiramente os meus sentimentos, pois ele gostava de ser super-profissional quando lhe convinha.

Tão previsível. Que irritante. Ele não podia ir embora logo?

Ele pôs os olhos no chão e fez um estalo aborrecido na boca.

Que o show começasse.

– Eu terminei o meu noivado com o Vash.

“…”

Eu não me lembro do que eu pensei quando ele falou isso. Eu não me lembro se eu cheguei a abrir a boca para fazer uma questão, se o meu queixo caiu, se eu arregalei os olhos, se eu ri… Eu não me lembro se eu fui tomado por ceticismo, susto, confusão, revolta ou outro sentimento específico. Eu só me lembro de um grande, grande branco.

Como se a minha mente houvesse entrado em pausa.

– Na noite em que nós discutimos, eu fui para a casa dele e nós conversamos. — eu me recordo de escutar o Roderich comentando, após um tempo de silêncio, cuja duração poderia ser tanto de três segundos, quanto de três minutos, na minha perspectiva ofuscada. A voz dele parecia distante, embora ele estivesse a poucos metros de distância. Eu não sei se a voz dele estava baixa, se eram os sons que estavam abafados para mim ou.... – Ele lidou surpreendentemente bem com a minha decisão. Especialmente para um noivo que teve seu compromisso desmanchado após todos os preparativos do seu casamento. Sabe por quê?

Essa questão conseguiu acender o meu cérebro.

Normalmente, eu teria me concentrado em quão surreal e absurda a estória do Roderich soava e a minha primeira reação teria sido um chocado “Você cancelou o seu noivado do Vash?!”. Entretanto, essa seria a minha atitude como cerimonialista, uma relação que eu não possuía mais com o Eldestein. Como Gilbert Beilschmidt, a primeira coisa que me ocorreu foi uma raiva inteiramente pessoal que eu não restringi por um único segundo.

– Você não vai me dizer algo do tipo "Porque diferente de você, ele é tão maduro e parecido comigo e blá, blá, blá!", não é?! – eu me adiantei a ele, lançando um olhar carregado de rancor efervescente, em uma voz carregada de um tom de “não-se-atreva!”. – Porque eu juro, Roderich, que eu não tenho a menor…!

– Ele me falou que esteve se preparando para esse momento, depois do nosso último jantar.

Uma interrupção, em um instante desses, seria como lançar gasolina no fogo da minha ira.

No entanto, ela foi eficaz em me calar.

Eu percebi que aquela era uma interrupção com um teor diferente do resto da nossa discussão. Ela não era rancorosa ou acusatória. Não, de jeito nenhum. Para ser exato, ela era recolhida, assustada e visivelmente temerosa. Essa foi minha razão para ficar tão atento a ela.

Anos de convivência me ensinaram que os momentos nos quais o Roderich era espontâneo e sincero quanto aos seus sentimentos, eram os mais brandos e quietos.

Ele estava prestes a me falar algo muito importante. Eu enxergava com nitidez o esforço que havia em cada uma daquelas palavras ditas tão suavemente pelo Roderich. Sendo assim, como eu poderia não escutá-lo?

Embora esse algo tão relevante não tivesse nenhuma relação comigo, considerando-se que eu não estava mais trabalhando para o Eldestein, era algo além das minhas forças ignorá-lo quando ele estava daquele jeito.

A experiência do término dele com o Vash devia ter culminado em alguma realização dele sobre sua própria personalidade, a qual ele desejava me apresentar como pedido de desculpas ou como um necessário desabafo. Fosse o que fosse, ele precisava que eu o ouvisse e eu não podia ponderar em outro caminho quando aquilo mostrava tamanho grau de importância para ele.

Por conta disso, apesar de saber que a estória não tinha nada a ver comigo, eu coloquei as mãos na cintura, abaixei minha cabeça, ergui meus olhos e selei a minha boca. Bom… Eu estava esperando.

Ele deu um suspiro e umedeceu seu lábio inferior.

– Segundo ele, naquela data, alguém teria que ser um idiota para olhar o meu rosto e não realizar que eu estava apaixonado por você.

Hã?

– Hã?

– O que comprova a minha opinião de que a sua estupidez é profunda e incorrigível. — ele agitou sua cabeça para os lados, como se me considerasse um caso perdido.

Espere… Eu havia escutado algo que eu simplesmente não poderia ter escutado.

Era impossível. Eu devia estar me confundindo.

Só podia estar havendo um desencontro. Uma falha de comunicação.

Afinal, eu tinha escutado algo absurdo demais para ser real! Há, há!

Há, há, há, há, há, há! Ah…!

Eu não sei por que eu estava com vontade de rir. Não é como se eu estivesse achando aquilo engraçado. Essa vontade provinha mais de um reflexo nervoso do que qualquer coisa.

– Você está…? – eu pus uma mão em um dos lados da minha cabeça e apontei para ele com a outra. Completa e intensamente perdido. – Digo, você estava…? Quê?

Era impossível.

A minha única porção que ainda conservava alguma consciência estava aguardando o tempo todo que, em um determinado instante, o aristocrata falasse algo como “Gilbert, que expressão é essa? Não me diga que você acreditou em um blefe tão óbvio. Agora que eu capturei o seu interesse será que nós podemos tratar de questões profissionais?”. Eu estava ciente de que mesmo o jovem mestre não alcançaria esse nível de maldade, mas… O que mais poderia justificar o que eu ouvi?

Eu nunca considerei que ele pudesse prosseguir com essa linha de argumentos. Quanto mais que ele pudesse se constranger com o que havia dito, uma vez que ele, evidentemente, não poderia ter dito o que eu pensei que ele havia dito ou falado aquilo da forma que eu interpretei. Há, há! Impossível!

No entanto, desafiando toda a minha noção do que era real ou não, e aniquilando todos os vestígios de pensamento coerente na minha mente, quando noticiou quão escancaradamente estupefato e boquiaberto eu me encontrava, o Roderich tornou-se tímido.

Tímido.

Eu conhecia aquela cara aborrecida e ligeiramente corada. E eu nunca poderia imaginar que ela surgiria naquele cenário. Se eu pensava que aquela cena não poderia se tornar mais surreal, eis a prova de que eu estava inteiramente enganado. O Roderich estava constrangido. Um meteoro caindo do meu telhado teria me espantado menos.

A minha boca estava completamente seca.

Ele cruzou e descruzou os braços sobre o peito, incapaz de decidir a posição na qual deixá-los, e começou a dar voltas pela minha cozinha, sempre olhando para o chão.

– Eu não pensei que fosse muito prudente anunciar o meu término para você de imediato. — ele declarou, empenhando-se para soar muito composto e seguro de si, para alguém que não podia falar duas palavras sem precisar tomar fôlego e que não era, de forma alguma, capaz de ajustar seu corpo em uma posição fixa ou se decidir quanto ao lugar em que permaneceria. – Foi sinceramente cansativo ter as minhas opiniões descartadas na nossa última conversa, então eu não quis permitir que houvessem aberturas para você sugerir que eu estava agindo por impulso e que eu reataria o meu casamento em cima da hora. Hoje é a data em que eu deveria me casar e cá estou eu. Será que você pode me ouvir agora?

Bom… Provavelmente, eu não estava apto a fazer nada além disso. O meu cérebro estava sofrendo uma overdose de informações. Eu ainda estava preso na parte “Eu terminei o meu noivado com o Vash”.

– Er…Hm. — eu fiquei escaneando o chão do meu apartamento com os olhos, passando a língua nos meus dentes inferiores e sentindo que as linhas do meu rosto estavam tão indecisas quanto a posição do Roderich na minha cozinha.

Uma parte minha acreditava que, a qualquer instante, o meu celular tocaria “More than a feeling”, eu acordaria na minha cama e os meus planos de tomar álcool apenas à noite estariam arruinados. Cara, eu precisaria de tanto álcool quando eu acordasse. Eu sentia que estava em um sonho e tinha certeza que estava acordado. Eu nunca me simpatizei tanto com os personagens de “Inception”.

– Ótimo. — por alguma razão, ele considerou os meus sons inseguros como uma deixa para falar, e com um tom mais orgulhoso, solene e crítico, o qual soava bem mais familiar para mim, ele iniciou seu discurso – Gilbert Beilschmidt, você não se encaixa nos meus parâmetros racionais de comodismo. Você é implicante, não hesita em brigar comigo quando eu cometo erros, o seu estilo não é remotamente elegante, as nossas personalidades são completamente distintas e o seu perfil não é minimamente compatível com o que eu esperaria de um parceiro ideal.

Ok. Agora aquela cena estava se tornando mais real e confusa.

Essas seriam as palavras que eu esperaria ouvir do aristocrata. Em compensação, elas eram tão incoerentes com tudo que eu havia escutado, naqueles últimos minutos, que não mostravam metade do sentido que elas geralmente teriam.

Tipo, como assim?! O que diabos estava acontecendo ali?! Foi alarme falso?! B-Bom, fazia bem mais sentido que aquilo fosse um alarme falso, mas, por um instante, eu pensei que ele…! Urgh!

Se você vai me ofender, então me ofenda! Não fique falando de um jeito que confunda as pessoas! Inconstância, seu nome é Roderich Eldestein!

– Espere um pouco. E-Eu pensei que você estava dizendo que estava…? – eu pus uma mão na minha testa, desorientado, e reparei que ela estava franzida.

– Eu provavelmente adquiri esses sentimentos tolos por você em algum ponto da organização do meu primeiro casamento. — ele respirou fundo. Com essa única sentença, ele me dragou novamente para um universo confuso e incompreensível. “Sentimentos tolos”… Aquilo aparentava ser uma confirmação de que ele… Não, não podia ser! Mas… o que mais seria?! Eu não estava entendendo NADA! Eu nem sabia como me sentir em relação ao que estava escutando! Eu estava muito absorto no meu choque e atordoamento, para avaliar quais seriam as outras emoções que as palavras do Roderich deveriam despontar em mim. – Eu não posso adivinhar o porquê. Na superfície, nós não poderíamos ser mais antagônicos. Todavia, após pensar longamente sobre o tema, eu descobri que nós não somos tão incompatíveis quanto parecemos.

Eu gostaria de descrever os meus pensamentos naquela hora como um fluxo coerente de ideias. Eu juro. Mas realmente não dá. É impossível mostrar um encadeamento lógico dos processos que ocorriam na minha mente. O meu cérebro estava em pane.

Se vocês se contentarem com pedaços aleatórios de pensamentos como “Será que eu estou sonhando?”, “Vamos lá! Ele não pode ter desmanchado o casamento dele com o Vash! Isso só pode ser uma mentira péssima!”, “Ei! Os meus sentimentos também se iniciaram no primeiro casamento dele!”, “Ele não devia ter cancelado o casamento dele com o Vash! Que sacana da parte dele!”, “Eu deveria mandá-lo para fora daqui?”, “O que teria acontecido se eu dissesse para o porteiro que ele não podia subir?”, “Eu devo levá-lo a sério?”, “Droga, eu quero tanto, tanto beijá-lo que estou prestes a socar uma parede para me distrair com a dor e dar um ar mais intimidante à cara idiota que eu devo estar fazendo.”, “Eu não posso chegar perto dele. Eu não posso chegar perto dele NEM A PAU.”, é tudo o que posso oferecer.

– Nós podemos ter opiniões divergentes, mas temos gostos parecidos. Quando eu estou com você… Eu me sinto confortável. — ele agitou o rosto para os lados com um sorriso minúsculo, mas muito longe de ser insignificante. – Eu me sinto livre. E por mais constrangedor que seja admitir, eu me sinto absurdamente feliz. Você sempre esteve ciente dos meus piores lados e eu sempre estive ciente dos seus. Talvez seja por esse motivo que nós temos tantas discussões e implicamos tanto um com o outro. Não é estranho então que nós possamos conviver perfeitamente bem com esses defeitos e conflitos?

Cara, nada era mais estranho para mim do que aqueles últimos quinze minutos.

Aquilo não podia ser real. Devia ser real, mas não podia ser real. Que explicação eu não estava enxergando? Porque aquilo… Aquilo não podia ser real.

Infelizmente, era tarde demais para que o meu coração compreendesse isso, pois ele já havia passado a se animar sem motivo e a prestar atenção nas palavras do Rod.

Naquele instante, era como se o meu cérebro estivesse montando um cubo de Rubik. As palavras do Rod faziam algum sentido ao mesmo tempo em que elas não faziam sentido algum. É complicado, eu sei! Caramba, como eu sei! Mas essa é a mais pura verdade.

Eu podia entender a sensação que o Roderich havia descrito. Perfeitamente.

Afinal, era o que eu sentia em relação a ele, o que eu ansiava que ele sentisse por mim e o que eu tinha certeza de que nunca aconteceria.

– Huh… — eu apliquei um esforço para falar alguma coisa, mas a minha língua não estava sendo muito cooperativa. A minha boca estava entreaberta e o meu lábio inferior estava subindo e descendo, repetidamente, em várias tentativas falhas de articulação

Não era mais uma questão de não pensar em uma pergunta ou resposta. Eu não estava conseguindo decidir o que falar primeiro!

– Quando eu organizava meus casamentos com você, eu sentia que o tempo nunca era suficiente para me contentar. — ele olhou para o teto, reunindo a ponta dos seus dedos e movendo o seu corpo para frente e para trás. A sua expressão retornou ao seu estado natural de neutralidade, porém era notório que ele estava se empenhando para que fosse assim. – Ele passava tão rápido. Havia tanto que eu gostaria de dizer, tanto que eu gostaria de conhecer em relação a você, tanto que eu gostaria de experienciar ao seu lado. Graças a você, seu grande idiota, eu passei a ficar insatisfeito com todos os meus casamentos. Eu passei a sentir a falta de um elemento que eu nunca havia encontrado antes. Porque quando eu olhava para a pessoa com quem eu estava casado, eu simplesmente não podia suportar a ideia de permanecer a vida inteira com ela, quando eu sabia que ninguém fazia o tempo passar do mesmo modo como ele passava quando nós estávamos juntos. Meses nunca foram suficientes e eu sinto que anos não seriam suficientes para que eu deixe de ansiar a sua companhia.

A minha mente estava implodindo.

– Er…

Felizmente, o Roderich prosseguiu e não esperou por uma resposta melhor do que essa. Eu não estava em condições de fornecê-la.

– A princípio, os meus sentimentos não tinham a intensidade atual. — ele alegou, fechando o rosto com um aborrecido orgulho, como se estivesse se defendendo, mas o rubor em seu rosto tirava qualquer efeito intimidante daquela expressão. – Eles evoluíram com o tempo e tornaram-se mais difíceis de se administrar. Eu busquei manipulá-los a meu favor, é claro. Eu sou um indivíduo perfeitamente racional. O problema é que nenhuma das minhas fugas adiantou. Eu procurei me convencer de que queria a sua amizade e falhei. Eu procurei me convencer de que eu queria somente dormir com você e falhei. Por fim, quando eu percebi que estava destruindo as minhas chances de obter o que eu realmente quero com você, eu me assustei e realizei que as minhas ações não estavam sendo tão racionais quanto eu supunha. — ele reconheceu desgostoso, franzindo as sobrancelhas e abaixando os cantos da boca.

Quanto mais o Roderich se explicava, mais sincero e perigoso ele me parecia. Eu queria tanto, tanto que ele estivesse falando a verdade.... Eu estava tão, tão apavorado com a possível aproximação de um desmentir de tudo que ele havia dito.

Ele soava… plausível. Era isso que estava destruindo a minha cabeça. Se o jovem mestre se jogasse nos braços, no instante em que eu abrisse a porta, e me beijasse com tanta força que nos levasse a cair no chão, eu daria menos crédito à sinceridade dos sentimentos dele do que eu estava dando agora, com todo aquele discurso moderado, organizado e transmitido como se fosse uma previsão do tempo.

Sim, eu estava começando a acreditar nele. Eu sentia essa convicção ganhar forma dentro de mim e, caramba, como isso me aterrorizava.

Notar essa esperança em desenvolvimento era como olhar para um curativo que você vai ter que arrancar.

Ainda assim, eu sentia que as falas do Roderich estavam causando mais exclamações do que interrogações dentro de mim, e não estava mais sendo capaz de refutá-las por completo.

– Não há nada de racional em um conjunto de ações que só causa dor e prejuízos para várias partes. — ele avaliou, deixando uma sombra pesarosa afetar momentaneamente sua expressão. Não era apenas na nossa relação que ele estava pensando ao dizer isso. Nós dois abaixamos a cabeça, compartilhando em silêncio nosso desconforto, más lembranças e melancolia. No entanto, adquirindo um pouco de ânimo, com uma curva alegre nos cantos da boca e tornando os seus olhos mais gentis e macios do que eu jamais havia me deparado, ele completou – O que eu deveria ter feito desde o início me parece óbvio agora. Afinal, se eliminarmos o impossível, o improvável, por mais improvável que seja, deve ser verdade, correto? É impossível que o meu comportamento anterior tenha sido o correto. Sendo assim, eu não posso fugir da aparentemente improvável conclusão que a minha satisfação se dará quando eu puder reconhecer meus sentimentos por você abertamente. Eu não quero mais que você seja o meu cerimonialista, Gilbert Beilschmidt. Há muito tempo eu não quero e eu lamento só conseguir admitir agora.

… E esse foi o exato momento no qual o meu coração, que estava em uma cama elástica há vários minutos, pareceu ter se atirado em queda livre de um avião. Todo o meu corpo entrou em um estado de tensão absoluta.

– Eu vim ao seu apartamento porque devo saber se é tarde demais para essa admissão. — ele finalmente me olhou direto nos olhos. Eu fui completamente absorvido pelo que encontrei dentro deles. Era uma mistura de determinação, esperança e medo que brilhava neles. – É possível que seja. A minha personalidade não é tão amável a ponto de ser apta a sustentar por tanto tempo o afeto de uma pessoa. Para ser franco, até aquela noite, eu tive constantes dificuldades em acreditar que você poderia ter sentimentos dessa natureza por mim. Era o meu dilema constante. Às vezes, eu cogitava que sim, mas eu também via indícios de que eu estava apenas me iludindo e… Foi muito complicado. Houve muitos momentos em que refleti sobre esse tema, tocando Erik Satie no meu piano. O meu comportamento não é tão frio quanto você presume. Se eu possuísse mais do que vagas suspeitas do que você sentia por mim, antes daquela noite… Bom, eu não posso assegurar que o corresponderia, devido ao meu conjunto anterior de princípios, no que concerne relacionamentos amorosos, contudo eu nunca o forçaria a uma tarefa dolorosa como a que infligi a você. Eu não o contratei repetitivamente por pensar que você me concederia um tratamento especial. Eu o contratei porque, na época, essa me pareceu uma medida perfeitamente razoável para encontrá-lo de novo. Honestamente, após todos esses eventos turbulentos, eu vejo dificuldades em acreditar que os seus sentimentos por mim, ainda tenham a mesma profundidade que os meus, e posso aceitar se for esse o caso, mas eu precisava realizar uma tentativa.

“Dificuldades em acreditar.”

Dificuldades em acreditar.

Eu pisquei os meus olhos, rastreando minunciosamente por um único indício de ironia no semblante do jovem, porque… Não, sério. Ele estava me dizendo que ele nunca esteve certo do que EU sentia por ele? E estava me dizendo que realmente não sabia o que EU sentia por ele AGORA? Os óculos dele não eram de grau, mas o Rod, definitivamente, deveria corrigi-los! Era óbvio que ele era completamente cego!

Ele ainda guardava dúvidas??? Aquilo era uma piada?!

Depois de todo esse tempo, todos esses problemas e todos esses desencontros, o Rod vinha me informar que ELE possuía dúvidas em relação à intensidade e natureza dos MEUS sentimentos?!

Céus, o Roderich era mesmo uma porta de mogno puro!

Essa completa falta de noção do jovem salvou o nosso relacionamento.

Ela me recordou de que, apesar de toda a sua aura monárquica, o Rod era mais lerdo do que uma tartaruga andando em slow-motion. Graças a ela, eu tive um súbito esclarecimento quanto às motivações do jovem mestre, pois o Roderich-das-minhas-memórias e o Roderich-que-estava-se-declarando-para-mim passaram a se encaixar como as duas partes tapadas que formavam um único indivíduo.

Agora sim, eu podia entender que, durante todo esse tempo, eu estive conferindo créditos demais às habilidades de manipulação do Roderich e poucos créditos aos seus verdadeiros sentimentos.

Ele não esteve me usando. Ele esteve me contratando e pagando caro por isso(nos dois sentidos da expressão), pois ele era tão, tão lerdo que pensava que necessitava desse recurso para se manter perto de mim. Ele era tão lerdo que achava que os meus sentimentos podiam desaparecer facilmente em uma semana, então ele se encaminhou até o meu apartamento para realizar uma primeira e última tentativa de que nós ficássemos juntos, pois essa foi a primeira vez em que ele adquiriu um pouco de confiança no meu interesse por ele.

Com aquela retórica defensiva, planejada e expressa em um tom sem emoção, ele estava transmitindo uma série de coisas que não teriam nenhum benefício prático para ele. O senhor Pragmatismo estava confessando emoções e sentimentos. Não era nada lógico, prático ou conveniente para ele. Ainda assim, ele estava ali.

Então, com o susto rápido, intenso e inevitável de uma pessoa que pisa um degrau em falso, eu fui acometido pela realização de que eu havia acabado de receber uma declaração de amor do Roderich Eldestein.

A minha preocupação não deveria ser questionar a veracidade dos sentimentos dele, mas como eu deveria responder a eles.

Uma declaração de amor. Roderich Eldestein.

Uma declaração de um cara que seis anos atrás havia me afirmado que não considerava o amor como um elemento imprescindível em um relacionamento. Uma declaração de um cara que quis se casar com alguém porque ele era rico e idiota, com uma garota, só porque ela era sua amiga, e com um terceiro indivíduo porque eles tinham naturezas similares. Uma declaração de alguém que relutava em me agradecer por um simples favor.

Para o Roderich, alguém cujos maiores elogios eram comentários não-críticos, estar expressando os seus sentimentos com um rico conjunto de palavras e da forma mais direta possível, eles não poderiam ser menos sinceros ou reais do que os meus.

Ele gostava de mim. Ele gostava seriamente de mim. Ele estava apaixonado por mim.

Wow… Wow!

Aquilo não era uma piada! Não era um mal-entendido! Não era um sonho!

O grande lesado que era o Rod havia posto um fim no seu noivado e aguardado uma semana para me visitar, pois ele estava com medo de que os meus sentimentos fossem facilmente dissolvidos e sentiu que devia recorrer a uma tentativa brusca de recuperá-los. Mesmo que não houvesse nenhuma garantia de retribuição da minha parte. Ele abdicou a algo que estava prestes a acontecer por algo que poderia nunca se concretizar. Ele estava preparado para ser rejeitado e veio mesmo assim.

Caramba, nós realmente andamos em círculos naqueles seis anos.

Em conclusão, o Rod subestimou os meus sentimentos e eu subestimei os dele. Foi isso que provocou o nosso conflito.

Eu me irritei com o Roderich porque pensei que ele só estava se mantendo ao meu lado, por uma questão de comodismo, e ele se irritou comigo porque ele acreditava que eu o considerava apenas um cliente. Em nossa fuga dos nossos próprios sentimentos, nós pressupomos coisas um sobre o outro ao mesmo tempo em que buscamos disfarçar parte da natureza dos nossos sentimentos. Pois é, não era a melhor das combinações. Eventualmente, ela resultou no nosso acúmulo de frustrações e mal-entendidos, e, por fim, no nosso subsequente grande confronto. Pelo que eu estava observando, ele decorreu de algumas sérias falhas de comunicação.

Eu ainda acho que a culpa maior foi do Rod, maaaas…

Agora, eu entendia que aquele jovem mestre não havia permanecido ao meu lado e permitido que eu entrasse na sua rotina para me usar como um estepe emocional de uma forma fria e calculista. Ele simplesmente não foi capaz de fugir de mim ou evitar o surgimento do nosso enlace cheio de emoções, por mais inconvenientes que elas fossem para ele. Assim como eu.

A diferença é que agora eu compreendia a veracidade e intensidade dos sentimentos dele, enquanto ele não possuía a menor noção sobre os meus.

Vamos lá. Eu podia não ter organizado um discurso estoicista que justificassem os meus sentimentos com oximoros, mas era absurdo que eu estivesse escutando – e isso, após seis anos receando que ele descobrisse como eu realmente me sentia – a pessoa por quem eu estava indisfarçavelmente apaixonado afirmando que ainda não tinha segurança quanto aos meus sentimentos. Digo, tenha dó, Rod! Os meus fornecedores sabem dos meus sentimentos e você não sabe?! Era até um pouco revoltante…!

Nah, eu não pude ficar irritado quando olhei para o rosto dele.

Ele estava tão nervoso e inseguro. Era como se ele estivesse pronto para a rejeição certa. Ao vê-lo assim, eu só podia sentir um afeto profundo por ele… Oh, Rod. Você é mesmo especial das melhores e piores formas possíveis.

Concluída a confissão do jovem mestre, era a minha vez de retribuí-la. Ele declarara com todas as letras, argumentos e, inclusive, com uma linha do tempo, o que ele sentia, e eu… Agora que eu pensava nisso, o que eu falei foi basicamente um “Case-se com o Vash e pare de me importunar!”. Não era a melhor das declarações de amor, huh? Eu podia fazer melhor.

Em fatos, eu tinha que fazer melhor para que aquele lerdo aristocrata colocasse de vez na cabeça dele, que eu estava a bilhões de anos-luz de ser tão indiferente quanto ele pensava.

Vamos, Gilbert. Esse é o momento de exibir a sua admirável coragem. Apenas fale logo para ele!

Com a minha cabeça abaixada por completo e a mão por trás do pescoço, eu comentei na voz mais casual que foi possível para mim:

– Roderich Eldestein, você é um idiota em alguns aspectos.

– Eu não…!

– Eu te amo, sabia?

– Ah.

Bom, isso não foi nenhum pouco constrangedor. Super-sexy, Gilbert.

Para me atribuir os merecidos créditos, eu acho que a minha mensagem comunicou o que devia, uma vez que, após recebê-la, o jovem mestre corou no seu usual tom discreto e passou a me olhar como se estivesse vagamente perdido.

– A-Ah. Hm.

– Pronto. Aí está. Eu só queria esclarecer esse ponto. — eu cruzei meus braços e continuei encarando o chão, enchendo as minhas bochechas com ar. – Eu fiquei indignado com você, é óbvio. Traição não é legal, mas você se corrigiu no mesmo dia e tal, e isso mostra o seu caráter. As pessoas podem cometer besteiras em uma situação ou outra. Eu fiquei com raiva de você. Mas eu ainda… — “sou desesperadamente apaixonado por você.” – Hãn…Er… Você sabe.

– Oh, céus. — ele suspirou fundo, levando uma mão ao peito – Ainda bem.

Presenciar uma reação tão sincera de alívio, gerada pela minha declaração, foi um evento que causou um remexer involuntário em uma corda do meu peito.

Mas calma aí. Nós não podíamos ir entrando no reino das nuvens cor-de-rosa, flores e borboletas. Na prática, havia uma questão crucial que ainda precisava ser feita. E a incumbência de lançá-la sobrou para mim.

– Então… — eu pus as mãos nos bolsos da minha calça e ergui meus olhos em encontro aos dele. – O que nós fazemos agora?

Eis a questão.

Nós ficamos em silêncio, encarando o rosto um do outro.

Esse seria o momento perfeito para inserir o som de grilos. Nenhum de nós tinha ideia do que falar.

O Roderich se declarara para mim – no mundo real, em tempo real, na realidade, concretamente. — e eu me declarei em retorno para ele.

Após seis anos de fuga do assunto, finalmente, nós adquirimos consciência dos sentimentos um do outro. Nós ainda estávamos justificadamente perplexos, mas não havia mais segredo sobre esse tema.

E agora? Qual deveria ser o nosso próximo passo?

Será que nós deveríamos correr para os braços um do outro, ficar girando no ar, soltando risos felizes de alívio, e concluir tudo com um grande beijo? Cara, nem a pau. Uma resposta assim não condizia com as nossas personalidades. Nós não estávamos no encerramento de uma comédia romântica barata.

Não se enganem. Eu estava realmente feliz naquele momento. Absurdamente feliz. Eu estava realizando um esforço físico para não deixar que os traços do meu rosto perdessem o controle e me envergonhassem com alguma expressão abobalhada.

Como eu explico…? Hm…

Sabem, eu e o Rod negamos nossos sentimentos por seis anos. E sim, aquilo fazia uma enorme diferença para nós.

Nós nunca havíamos conversado explicitamente sobre eles. Além disso, internamente, nós sempre buscamos apagá-los. Não é como se nós não soubéssemos da existência deles porque ninguém é estúpido a esse ponto. Todavia, eu os empurrei para baixo de várias prioridades e ocupações para ignorá-los, e segundo o depoimento do Rod, ele optou por valer-se da sua racionalidade para se persuadir de que eles possuíam outros significados. Então seria bizarro se nós ficássemos mega-confortáveis com aquela situação e começássemos a nos agarrar na minha cozinha. Digo, há uma semana, eu era o cerimonialista dele! Há uma semana, eu estava me empenhando para convencê-lo a se casar com outro cara, usando a minha autoridade profissional, e sugerindo qual seria valsa ideal para a festa deles.

Os nossos sentimentos não eram novos. A exposição deles, por sua vez, era uma novidade absurdamente recente.

Se fôssemos colocar em uma escala, digamos que os meus sentimentos pelo Roderich e os que ele nutria por mim se iniciaram no período paleolítico, e que a nossa declaração mútua estava localizada na data de invenção dos bluetooths.

Seria absurdo esperar que a nossa relação desse um salto dramático como aquele osso que vira uma espaçonave naquele filme estranhíssimo sobre um monólito preto.

Obviamente, era preciso que nós adotássemos uma medida em relação aos últimos acontecimentos… O problema era identificar que medida seria essa. Como o trajeto do nosso relacionamento não poderia ser classificado como “normal”, nós não tínhamos muitas referências ou direcionamentos em relação ao percurso que deveríamos seguir.

Para a minha surpresa, foi o Roderich que quebrou o silêncio e fez uma primeira proposta.

– N-Nós vamos a uma danceteria que toque os sucessos de “Flashdance” e tomar cuba libre? – ele perguntou tímido, pondo uma mão em um dos seus braços e aplicando mais peso em uma das suas pernas, em uma postura que exprimia, de forma involuntária, o seu elevado desconforto com esse cenário mental.

Eu não estava preparado para essa e uma onda de risos veio tão violentamente ao meu corpo que eu acabei me inclinando e tendo que me envolver meus braços em torno do meu tórax para me sustentar.

– Pffff! Sério, jovem mestre?! – eu estava rindo tanto que estava prestes a chorar. – Você está ao menos tentando?!

– Eu estou tentando! – ele protestou com o rosto discretamente vermelho.

Eu estava rindo porque ele era adorável, mas eu estava ciente de que, sim, ele estava tentando.

O Roderich encerrara há pouco tempo o seu noivado, sendo muito improvável que ele não estivesse fragilizado pelas circunstâncias. Ele podia estar apaixonado por mim – ele estava apaixonado por mim! Wow! Digo..WOW! – porém isso significava que ele não gostasse do Vash. Ele foram noivos e amigos de infância. Não era possível que ele estivesse tão indiferente ao término dos dois. Sem contar que seria um desrespeito ao Guilhotina se nós iniciássemos um namoro, despreocupadamente, como se nós estivéssemos juntos há seis anos ou como se o noivado deles não houvesse se desfeito de forma tão repentina.

Certamente, eles necessitavam de um tempo para discutirem e resolverem algumas coisas entre si.

Mesmo que seis anos fossem muito tempo, nós precisávamos ir devagar. Nós podíamos ir devagar. A nossa convivência sempre foi tão acelerada, intensa e perigosa. Seria bom poder, enfim, conhecer o Rod longe de dilemas sentimentais e problemas de trabalho. Poder conversar sobre qualquer assunto com ele, no ritmo que nós desejássemos e com os nossos sentimentos abertos um para o outro. Por hora, aquilo era mais do que suficiente para mim.

– Vamos fazer o seguinte. — eu propus com um sorriso e um meneio de mão apaziguador. – Nada de restaurante de luxo e nada de danceterias. Que tal nós irmos a um café que está localizado a poucos quarteirões daqui e ficarmos conversando pelo resto da manhã sobre qualquer coisa que não envolva noivados, casamentos ou similares?

Ele deu um grande suspiro de alívio e os seus ombros nitidamente relaxaram com a perspectiva de nós realizarmos planos exatamente contrários ao que ele havia sugerido.

– Eu não me oponho a essa proposta. — ele respondeu com um dos cantos da sua boca se inclinando docemente, no que seria uma das suas versões de um sorriso.

– Ótimo. — eu ri brevemente, contagiado pelo alívio palpável dele e cativado por aquela expressão.

Ah! Eu quase me esqueci de dizer! Um deslize quase arruinou esse momento.

Para levar o Roderich para a porta do meu apartamento, eu apanhei o seu pulso… U-hum, assim como eu fiz, duas semanas atrás. Foi apenas um reflexo. Todavia, quando eu encostei nele, eu senti a tensão causada por esse movimento e realizei no mesmo segundo do que se tratava aquilo.

Por um segundo, foi como se eu houvesse, acidentalmente, acionado um botão vermelho e ouvisse as sirenes alertando sobre o ativamento de uma bomba atômica prestes a destruir o nosso planeta. “DROGA! Como você acabou com tudo tão rápido, Gilbert?! Faz menos de cinco minutos que nós começamos a sair!” foram os primeiros pensamentos que me ocorreram, antes que eu começasse a refletir melhor e me perguntasse… Aquelas memórias era terríveis assim?

Digo, o que aconteceria se a minha briga com o Roderich não houvesse alcançado aquelas proporções? Ele provavelmente persistiria em se casar com pessoas que ele não amava, machucando o coração de todas as partes envolvidas, e eu permaneceria trabalhando para ele, pois eu me torno 23% menos incrível, 10% mais idiota e 13% mais masoquista nas minhas interações com o Rod.

Pois é. No fim, as terras em que acontecem atividades vulcânicas são as mais férteis.

Pensando nisso, eu ri mais uma vez e conferi uma suavidade enorme, ao contato da ponta dos meus dedos na pele dele, deslizando a minha palma aos poucos até que nós estivéssemos de mãos dadas. É engraçado como um gesto pode ser feito de tantas formas diferentes.

Eu reconheço que esse foi um momento surpreendentemente constrangedor. Considerando-se a minha usual despreocupação em tocá-lo e o fato de que, em outra ocasião, ele solicitara abertamente que eu dormisse com ele, ficar de mãos dadas não deveria ser nada excepcional e, no entanto, cá estávamos nós. Nervosos como dois meninos de onze anos jogando verdade-ou-desafio.

Eu me senti tão adolescente. Não era a primeira vez em que eu segurava a mão dele e definitivamente não seria a última, contudo era a primeira vez em que esse contato possuía um significado especial e eu tive a necessidade de ser cauteloso para não estragar o momento, apressando-o demais.

Nós olhamos para as nossas mãos reunidas, olhamos para o rosto um do outro e olhamos para a porta.

… Nós chegamos ao silencioso consenso de deixar os nossos olhos na porta mesmo. Porque nós estávamos igualmente embaraçados por nos comportamos como dois adolescentes, quando éramos homens de trinta e poucos anos. Vamos lá! Aquilo era insuportavelmente vergonhoso e piegas.

Droga, eu estava tão feliz.

Com um pouco de ansiedade e esperança, nós atravessamos a porta do meu apartamento.

Sabem, eu não sou um romântico e presenciei casamentos demais para memorizar os detalhes sobre cada um deles, mas eu posso assegurar que me lembro com nitidez e detalhes do instante em que eu olhei para o lado, quando nós estávamos andando na calçada, e pude perceber no rosto do Rod e sentir no meu, que aquele era um daqueles tais momentos que nos conduzem à descoberta natural e espontânea de que “Quer saber? Eu poderia passar o resto da minha vida com essa pessoa”. Ah, então era essa a sensação.... Ela não era “melodramática” ou “despicavelmente açucarada”, como o Rod tanto receava, contudo eu devo admitir que ela tinha um quê de especial. Não era um sentimento violento e arrebatador. Ele era simples e precioso. Como eu desejava que fosse a nossa rotina a partir daquela data.

Mas eu só pensaria em mais um casamento para o Roderich daqui a uma década. No mínimo. Ainda que eu fosse o noivo dessa vez. Desculpa, Rod. Eu aguardei seis anos. Você pode esperar dez.

((Mais tarde, a loja de panquecas e o meu fotógrafo me ligaram enfurecidos porque não havia ninguém em casa quando a minha comida e o meu pretendente chegaram. Como o ser maligno que ele era, o aristocrata ficou apenas me observando, bebendo calmamente seu café, com um sorriso muito discreto escapando pelas bordas dos lábios, enquanto eu gritava pelo meu celular que compromissos mais importantes haviam aparecido e que eu não me importava REMOTAMENTE se não tentassem nunca mais me arranjar para alguém.))

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Notas finais
Olá, damas e cavalheiros! O trabalho de um cerimonialista é ajudar os noivos a organizarem seu casamento. Dependendo do seu orçamento, contrato e tempo, ele pode assumir uma grande e variada quantidade de tarefas. Além de planejar o evento ao lado dos noivos, decidindo sobre a decoração, pratos e outros detalhes que compõem a cerimônia, ele também pode ajudar nos ensaios de entrada na igreja e até continuar trabalhando na festa, conferindo se tudo está dentro do conformes, guardando presentes e chamando pessoas para tirarem fotos. O tempo que um cerimonialista precisa para organizar com calma um evento de porte médio seria de, pelo menos, um ano. Como o casamento do Roderich era de porte grande e foi organizado em menos tempo, ele foi bem mais corrido e exigiu muito mais encontros do que esse trabalho geralmente exige. A maior parte dos cerimonialistas são mulheres entre trinta e quarenta anos. Normalmente, são as noivas que tomam as decisões ao seu lado. Um cerimonialista deve possuir conhecimentos sobre regras de etiqueta, decoração, controle de orçamento, contatos úteis e etc. São eles que recomendam fotógrafos, encomendam flores e resolvem outros problemas do gênero. Essa fic foi muito difícil de escrever por diferentes razões. Ela teve muita linguagem corporal, sentimentos implícitos, a mescla de formalidade e coloquialidade do texto do Gilbert e outros elementos complicados de se utilizar. Eu realmente me esforcei ao máximo e espero que ela tenha conseguido entretê-los! Por favor, deixem um review! Seria um incentivo muito importante, depois de todo o meu o trabalho!^_^ Bai, bai!:3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!