Entre Brindes.

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Notas iniciais
Eu fiz uma mega-revisão no meu texto após postá-lo na coletânea, então ele finalmente alcançou um formato que eu considero satisfatório e acredito que vocês perceberão que muitos problemas técnicos foram resolvidos.Talvez ainda haja um outro problema nele, mas eu realmente já investi tudo que podia nesse texto e quero deixá-lo assim. Alguns comentários positivos seriam muito legais, pois esse texto foi extremamente trabalhoso e eu tenho um afeto especial por ele, considerando-se que ele era um daqueles projetos de escrita que eu pensei que jamais seria capaz de concretizar.Eu realmente recomendo aos que leram a coletânea a lerem essa nova versão, pois ela realmente teve melhoras significativas em muitos aspectos. A estória em si não foi alterada, mas problemas com vírgulas e outras coisas do gênero foram, em sua maioria, solucionados. Boa leitura a todos! Eu espero que vocês leiam, apreciem e comentem essa nova fic! PS: Eu tive que dividi-lo em partes, pois o Nyah! tem limites em relação ao comprimento de fics.

– Entre Brindes -

"Eu não sou um romântico, senhor Beilschmidt. Um casamento é um arranjo social benéfico para duas partes. Ele precisa ser conveniente e confortável, não melodramático e despicavelmente açucarado. O amor não é um elemento imprescindível em um relacionamento, não concorda?" — eu posso ser acusado de ser exagerado, mas garanto que me lembro com detalhes nítidos do momento em que o jovem mestre me fez essa confissão repentina. Foi no nosso primeiro mês de organização do evento, eram cinco da tarde e nós estávamos sozinhos no que seria, na manhã seguinte, o salão de festa do casamento de outro cliente meu. O meu último trabalho antes de me dedicar exclusivamente ao aristocrata pelos próximos meses. Eu estava fazendo a minha parte e dando uma ajeitada nas rosas brancas que haviam sido recentemente entregues em seus respectivos jarros, e ele, como o usual, estava me vigiando em uma cadeira à distância, por nenhum motivo em particular. Nós estávamos em silêncio há algum tempo e aquela pergunta veio do nada.

Bom, não foi a primeira vez em que eu ouvi aquilo. Aquele papo historicamente incorreto de “Essa romantização do casamento é um pensamento tão antiquado!” acompanhado por uma contraditória preocupação exagerada com a escolha de um vestido que o noivo aprovasse ou com a possibilidade de que a banda não pudesse tocar a “música deles”, havia aparecido algumas vezes, e era sempre curioso de se ouvir, embora nada marcante. Eu interagia com noivas e noivos demais para ficar decorando os problemas conjugais de cada um deles.

No entanto, aquela declaração do aristocrata ficou praticamente gravada em HD na minha memória. Ela foi um tanto inesperada, eu admito, apesar de não ter sido tão impactante quanto ele desejava. Em geral, as pessoas que afirmavam “Um casamento não precisa de amor!” eram homens que haviam tido uma vida sexual agitada em tempos passados e queriam preservar um pouco da “honra” deles, comunicando indiretamente que "Não! Eu não me tornei um desses caras com quem eu costumava implicar no passado! Eu estou me casando porque é mais prático para mim, não porque eu virei um tonto sentimental! Eu juro!". Heh! Era tão hilário! Também havia quem falasse aquilo, pois o seu noivo ou noiva eram tão insuportavelmente chatos que seria humilhante admitir que haviam se apaixonado por aquilo. Eles sentiam a involuntária necessidade de se justificarem a humanidade e, em determinados casos, eu concordava que eles realmente deviam fazer isso.

Roderich Eldestein, meu pomposo cliente, não se encaixava bem em nenhum desses dois perfis. Ele estava se casando com um indivíduo radiante chamado Antonio e, cara, eu juro que o sujeito era tão legal que ele entregaria a casa dele para você, caso você pedisse com um “por favor”. O aristocrata não tinha que se justificar a ninguém, explicando as suas razões para se casar com o Antonio, porque, bem, quase todos os membros da minha equipe estavam querendo se casar com ele. O que dizer? Assim como o incrível eu, o senhor Carriedo era um daqueles caras fadados a serem irresistíveis. Ah, é um dom e uma maldição. Continuando a minha linha de raciocínio, pois é, ele não precisava se explicar, assim como eu não preciso comentar quão hilário seria pensar no jovem mestre como um conquistador barato. O Roderich acordando na cama de desconhecidos e se gabando de quantos ele havia apanhado em uma festa? Pffff! Só de imaginar, eu tenho que me controlar para não chorar de rir!

Com todas essas considerações, eu fiquei um tanto surpreso com aquela declaração, verdade, porém não tão chocado quanto o jovem mestre apreciaria. Sei lá, eu presumo que ele estivesse aguardando que eu soltasse um escandalizado "Oh! Como você pode proferir uma infâmia dessas, Eldestein?! Você está prestes a se casar!". Ele pensava que estava protagonizando uma grande cena e tal. Pena para ele que aquilo não fosse uma ópera do Puccini. Quando ele me fez aquele discurso-mais-repetitivo-do-que-ele-supunha, eu apenas perguntei, achando a situação engraçada:

– E o seu noivo está informado disso? – eu ergui uma sobrancelha com um sorriso implicante se formando em uma das bordas do meu rosto. “Arranjo social”. Ai, ai. Aquele jovem mestre despejava, no mínimo, quarenta pérolas por hora. Ele não podia abrir a boca sem me fazer rir. – Vocês já discutiram as cláusulas do contrato? Assinaram um tratado? Conversaram com as autoridades competentes?

Em resposta, ele apertou os olhos, encarando-me como se quisesse identificar um tipo de inseto.

– O senhor não está reagindo da maneira certa. — ele colocou, fazendo um bico meio ofendido.

Vê? Provavelmente, ele queria causar uma grande cena e ficou frustrado com o fato de que não era tão fácil impressionar o incrível eu. Para a decepção dele, eu sequer me movi da minha posição. Eu permaneci ajoelhado diante do jarro de flores que eu estava arrumando, com o único acréscimo de uma nota-extra de implicância em minha expressão e de uma ligeira inclinação do meu rosto para o lado dele.

– Bom, Roderich, o que diabos eu tenho a ver com isso? – eu dei de ombros, continuando a sorrir ao mesmo tempo em que agitava meu rosto para os lados e mantinha minhas mãos trabalhando. – Eu sou um cerimonialista, não uma fada do amor! Você me vê suspirando sonhadoramente enquanto organizo as coisas do seu casamento? – o meu sorriso aumentou em alguns graus para a esquerda e o meu olhar destilou todo o meu senso de ridículo quanto àquela hipótese. – É lógico que não. Sabe por quê? Porque, pessoalmente, eu não tenho nada a ver com amor e casamentos e não dou a mínima para o que os meus clientes pensam sobre o assunto.

Durante todo o meu discurso triunfal, como se desejasse revidar a minha falta de surpresa anterior, o jovem mestre permaneceu impassível. Oh, sim. Essa indiferença forçada só podia ser uma espécie de vingança juvenil, pois receber a revelação de que a pessoa que está realizando os preparativos do seu casamento não é um sentimental ou um grande admirador do amor e suas variantes, não é lá um evento muito comum. Digo, eu nunca usei lágrimas de colírio e fingi ter emoções que, na realidade, eu considerava cômicas, mas não era como se eu pudesse mostrar esse meu lado cético aos meus clientes, com frequência. Para ser franco, eu nunca estive certo de qual foi minha motivação para revelar tanto ao aristocrata. Nós simplesmente exercíamos esse efeito um sobre o outro. Você sabe, o efeito de apagar qualquer necessidade de nos impressionarmos mutuamente. A partir disso, espontaneamente, ocorriam eventos como esse.

Devido ao meu conhecimento de que o Rod não dava a mínima para o que eu pensaria dele, e estava consciente de que eu não dava a mínima para o que ele jogasse em cima de mim, o que concluí foi que ele terminaria moderadamente irritado e reclamaria sobre “O meu senso de humor rude e imaturo!”, subindo seus óculos.

Curiosamente, filme não rodou bem assim. Como eu mencionei, em vez de fazer a sua característica expressão de “Beilschmidt, seu grande tolo!”, ele deixou o seu semblante mais neutro do que o normal em todo o percorrer da minha fala; e isso é dizer muito, pois a cara dele já era anormalmente neutra. Para completar, no lugar de partir para uma ofensiva, ele ficou quieto por segundos a mais do que o necessário.

Eu nem imagino o que se passou na mente do jovem mestre naquele instante. Eu só posso afirmar que, quando ele finalmente se expressou, as suas palavras foram mais inacreditáveis do que eu havia calculado:

– A sua falta de sensibilidade poética é mortificante. — foi o comentário dele, com um desaprovador abaixar dos cantos da boca. Podem acreditar! Ele estava reclamando da minha falta de sensibilidade poética! Pffff!

Caramba, Rod!

– Diz o cara que acabou de chamar o seu casamento de “arranjo social” fora de uma aula de antropologia! – eu exclamei, arregalando meus olhos com uma mescla de admiração e diversão quanto ao descaramento formidável dele. Depois, abaixando meus olhos e meu nível de espanto, eu voltei a me explicar – De qualquer modo, a organização de um casamento depende de conhecimentos de estética, orçamento e contatos. Não envolve a capacidade de chorar vendo “Um amor para recordar”. Eu não tenho nenhuma relação com os seus sentimentos, desde que eles não estraguem as flores e o buffet. Ah! Especialmente, aquela maldita estátua de gelo! Deu um trabalho imenso para arranjá-la!

Ele aparentou se satisfazer com essa resposta, uma vez que, a partir desse ponto, ele começou a me cobrar que eu trabalhasse mais rápido e encerrou nosso prévio assunto. Por mim, estava ótimo.

Sério, eu não tinha nada a ver com as emoções e pensamentos do Rod.

Mas o Roderich nunca aprendeu isso. Por essa razão, nós chegamos aonde chegamos.

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Eu havia tido essa conversa com o Roderich no primeiro casamento dele. Em seis anos, eu organizaria um total de três casamentos para ele.

Inacreditável, não? Quando disse que não estava se casando por amor, ele não estava blefando. Em compensação, o seu método de se juntar a alguém por pura conveniência, pelo visto, estava precisando de sérias revisões.

O primeiro casamento dele foi com o Antonio Carriedo, um noivo legal. Segundo ele, a sua razão para se casar com o Carriedo — apesar do contraste gritante entre a personalidade dos dois e da relação deles ser mais amistosa do que romântica — foi porque o Antonio era rico, idiota e poderia propiciar uma vida confortável a ele … Sim, sim, vocês acreditam que o Rod quase jogou uma prova de doces em mim quando eu falei que aquele era o mesmo raciocínio de uma moça solteira dos anos cinquenta? Totalmente injusto.

Eu e o Rod tivemos uma quantidade moderada de contatos, naquele primeiro ano. Ele me contratou quando faltavam seis meses para o casamento, e tudo foi resolvido de maneira bastante acelerada. Todavia, houve tempo para que eu me encontrasse com ele, ocasionalmente, e conhecesse um pouco daquela personalidade aristocrática. Eu descobri, por exemplo, que ele era um verdadeiro especialista em sobremesas e sabia como preparar algumas que poderiam seriamente servir como meu pagamento(e essa era uma informação que eu nunca, nunca poderia permitir que chegasse nele), que ele ostentava toda aquela aura de sofisticação, porém era mais desorganizado do que o quarto de uma criança de seis anos, que ele era um compositor de trilhas sonoras para filmes intimistas, e que ele gostava de decorações tradicionais. Dentre outras pequenas coisas

Então, transcorridos seis meses, eu o deixei nas mãos do seu noivo, encerrando o nosso convívio com uma festa tão fantástica quanto seria esperado de algo produzido pela minha incrível pessoa. Eu confesso, no entanto, que estava um pouco… Eu não sei. Eu não consegui me divertir naquela festa. Eu tive poucos encontros com o aristocrata e, devido ao péssimo prazo que recebi, nós passamos a maior parte do tempo correndo e gritando um com o outro… Nós não éramos exatamente a melhor imagem da afinidade entre um noivo e um cerimonialista. Há! Para ser franco, eu acho que nós estivemos mais perto de sermos a pior imagem de afinidade entre um noivo e um cerimonialista. Mesmo assim, uma parte minha lamentou que aquele trabalho houvesse terminado. Era uma figura e tanto, aquele jovem mestre. Estar com ele era sempre uma experiência cômica e estranhamente fascinante.

Eu concluí que a nossa relação se encerraria aí. Cerimonialistas e noivos não costumam se tornar melhores amigos. Negócios são negócios.

Dois anos depois, quem aparece no meu escritório, enquanto eu estava sentado na mesa lidando com orçamentos? O Rod. Eu fiquei honestamente confuso e acabei brincando:

– Oh, aristocrata! Você veio solicitar meus serviços para o casamento do seu filho adotivo? – eu estendi minha mão em um gesto de deboche e forneci um dos meus meio-sorrisos mais sórdidos como um presente de boas-vindas. – Como o tempo passou rápido! Eu me recordo do seu casamento como se ele tivesse acontecido há dois anos!

Quando eu vi o aristocrata cruzar os braços sobre o peito com força, como quem carrega uma mala pesada, e transformar aquela expressão normalmente indiferente em uma sutilmente aborrecida, tão típica dele, aqueles dois anos pareceram, de repente, não ter sido algo além de impressão momentânea. Tecnicamente, quando duas pessoas se reencontram, após uma longa separação, deve ocorrer um estranhamento inicial. E esse não foi o nosso caso. Quando eu vi o jovem mestre, eu me senti transportado ao passado, como se todos aqueles dias não exercessem influência sobre nós, como se fôssemos imunes ao fluxo do tempo.

Provavelmente com idênticos sentimentos, ele suspirou e deu uma resposta que destoava de qualquer atmosfera comovente de reencontro:

– Francamente, eu falho em compreender como você ainda tem clientes se é assim que você os recebe. — ele proclamou com a sua habitual apatia-de-uma-estranha-forma-vagamente-recriminadora.

Ah! Eu senti falta daquele pseudonobre orgulhoso.

– Eu tenho clientes porque sou o melhor e eles sabem disso. — eu comecei a girar em minha cadeira e movi meus ombros e as minhas duas mãos ligeiramente para cima em um gesto que pretendia demonstrar o meu imenso descaso por uma pergunta com uma resposta tão simples. – Eu não tenho culpa se você não compreende o meu avançado senso de humor, jovem mestre! Que triste para você! – eu fechei os olhos e sorri com falsa complacência. – Muito triste mesmo! Eu chorarei por você, esta noite! – depois de rir fartamente do meu sarcasmo inteligente e de rir mais ainda do azedume que ele gerou no aristocrata, eu enxuguei meus olhos e finalmente adquiri disposição para ir aos negócios. – Falando sério, quem será o meu cliente?

Eu sou o seu cliente, seu tolo. — ele comentou impaciente, transmitindo uma mensagem tão evidente de “eu-não-posso-acreditar-que-você-ainda-não-havia-percebido”, na sua expressão de esgotamento com a minha existência, que não exigia o mínimo acréscimo de outra linguagem corporal.

E talvez houvesse legitimidade em seus motivos para ficar impaciente comigo, considerando-se que, apesar de ele ter sido mais explícito do que os últimos filmes da Kate Winsley, isso não impediu a minha mente de encontrar um grande “PARE!” e frear abruptamente.

Espera. Espera. Espera.

Eu sou um cerimonialista. Eu trabalho com festas de casamento. E o Rod está querendo me contratar.

O Roderich é casado, não é? Caramba, Gilbert, é óbvio que ele é. Você organizou a célebre e magnânima festa de casamento dele.

Ou será que ele foooi casado?

Os meus olhos correram para a mão esquerda dele e, adiantando o que eu faria, ele a abriu, fazendo um aceno com movimentos iguais aos de um rei limpando a mão que foi beijada por um plebeu. Não havia uma aliança naquela mão. Entretanto, havia uma aliança nova na outra.

– Hã? – eu soltei esse som expressivamente confuso, olhando para o jovem mestre, como se ele tivesse acabado de anunciar que pretendia gravar um vídeo dançando "Like a Virgin". Fazia dois anos que ele se casara com um tipo que parecia perfeito… No entanto, cá estava ele. Com outra aliança e, o que era mais estranho, na minha sala de novo. Nessa altura, eu estava entendendo o que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo, não estava entendendo nada.

As pálpebras do Roderich desceram um degrau. Com essa simples mudança, subitamente, as suas feições ofendidas se transformaram em algo mais presunçoso e bilhões de vezes mais irritante.

– Eu me divorciei do Antonio. Nós não estamos mais casados. Eu estou me casando com outra pessoa que não é o…

– Eu saquei, eu saquei! Você pode parar com a atitude cínica! – eu o interrompi impaciente, batendo a palma da minha mão contra a minha testa. – Urgh. Um noivo radiante como sempre, não é, Rod? – eu questionei, esforçando-me para ignorar o quanto ele estava emanando um ar vitorioso revoltante sem precisar fazer mais do que acrescentar, candidamente, uma camada de orgulho à sua expressão. Como costumam dizer, um dia é da caça e o outro é de jovens mestres que adquirem senso de humor nos piores momentos. Ou algo assim. – Por que você se divorciou do Antonio? – inevitavelmente, eu fui direto ao ponto – Alguém mais rico e atraente apareceu? Caramba! Apresente-me esse cara!

– Não se atreva a dar essa sugestão. — ele me repreendeu, fechando o rosto. – E tire esse sorriso estúpido. Ainda que tentasse, você não se interessaria por essa pessoa. Eu estou com uma mulher dessa vez. — ele explicou secamente, e caso não tenha ficado óbvio, o jovem mestre sabia que garotas não eram e nunca foram a minha praia. Diferente dele, que não se importava com o gênero da pessoa com quem ele se relacionava, só com o benefício prático que ela traria aos seus propósitos individualistas. Então ele estava com uma mulher, huh? Com sua compostura renovada e meu interesse abrandado, ele continuou a se justificar – Quanto ao meu divórcio, eu meramente concluí que o meu marido não me oferecia o que eu procurava. Dinheiro não é uma questão tão relevante, eu descobri. — nessa parte, eu estava meio "Wow! Esse é mesmo o jovem mestre com quem eu me encontrei há dois anos?!", quando ele acrescentou um… — Pelo menos, não quando você já tem dinheiro. — …e me aliviou consideravelmente. Phew! Esse era o materialista acomodado que eu conhecia!

– Então você se juntou ao time dos corações e querubins com flechas, aristocrata? – eu indaguei de forma um tanto mordaz. Nah. Na verdade, eu não estava indagando, e sim, implicando diretamente com ele. Eu não comprava aquela de jeito nenhum. Esse pouco tempo de reencontro fora suficiente para me informar que ele não havia mudado a esse ponto.

Os lábios e sobrancelhas dele se curvaram com mais indignação do que eu poderia prever. Com mais indignação do que ele previa também. Pelo que observei, aquela reação nos provocou idêntica surpresa.

Provavelmente, ele reparou no quanto os meus olhos se abriram, pois, em questão de segundos, ele executou um giro de 180 graus em sua atitude, como se estivesse corrigindo um pequeno lapso.

– Não, essa não é a minha motivação para me casar com a senhorita Elizaveta. — ele replicou com os olhos momentaneamente fechados, exibindo uma serenidade graciosa, a qual era bastante estranha, vindo de alguém que tinha me encarado ainda há pouco, como o primeiro Nosferatus do cinema sendo derrotado pela luz do sol, porque eu mencionei a ideia de ele ter se tornado um romântico. O que diabos há com essa mudança instantânea de espírito, aristocrata? Você passou por uma transformação nos últimos três segundos e evoluiu de “Rod-não-suporta-piadas-mon” para “Rod-suporta-piadas-até-certo-ponto-mon”? Sério, que diabos…? – Eu não estou apaixonado por ela.

Esse último comentário provavelmente me entreteve muito mais do que deveria.

– Oh, interessante. — eu pus uma mão em meu queixo e cruzei minhas pernas. – Qual é o seu motivo agora?

Novamente, a resposta dele foi proferida de uma maneira plácida e desafetada:

– Ela é uma grande amiga. Eu deduzi que se for necessário compartilhar sua vida com uma pessoa, ela deve ser alguém por quem você possua alguma forma especial de afeição. — o jovem mestre argumentou, e então, possivelmente por querer reforçar seu ponto e evitar possíveis deboches meus(Há! Como se ele pudesse escapar!), ele acrescentou – Sensatez não significa sentimentalismo.

Wow. Aquela era uma estória e tanto.

Para ser honesto, quando o jovem mestre me informou que não estava apaixonado pela sua noiva, a primeira sensação que me ocorreu foi um vago prazer perverso. Eu identifiquei ali a inconsistência com a qual eu havia me deparado há dois anos, então adquiri a diversão maligna daqueles que conhecem o final de um filme e, quando voltam a assisti-lo, riem da ignorância dos protagonistas quanto ao seu futuro.

Eu não havia contado com a mudança nos métodos dele.

Ele não estava mais seguindo a linha “esposa-dos-anos-cinquenta”. Agora, ele queria imitar uma comédia romântica dos anos noventa e experienciar a clássica relação “eu-nunca-havia-reparado-que-o-meu-melhor-amigo-era-o-meu-grande-amor”. Até que ponto ele estava comprometido naquela relação? Ela era tão somente uma variação do seu plano anterior ou guardava um potencial para se tornar algo maior?

– Espera. Deixa eu confirmar… — eu pressionei a minha testa, compenetrado. – Você pensa que poderá se apaixonar por ela, tendo em conta que vocês são amigos?

– Não.

Cara, ele mal piscou.

– Ainda prezando pelo fator conveniência, huh… — eu concluí com um sorriso suave e acidentalmente enigmático, dando um relance para o outro lado.

– Você tem algo a comentar sobre isso?

Diferente da outra vez, eu senti, por um segundo, alguma coisa começando a subir pela minha garganta quando ele realizou essa pergunta. Ela foi engolida com tanta velocidade que não posso precisar com exatidão o que ela seria. Eu só posso garantir que não fui tão instantâneo, quanto na última vez em que recebi uma questão similar a essa.

De qualquer forma, eu apresentei a minha resposta mais lógica e racional:

– Não é da minha conta. — eu agitei a minha mão em um gesto de dispersão. – Desde que você não se case com alguém que te esfaqueou, eu não opinarei sobre as suas escolhas amorosas. Não se superestime tanto, Rod. Os meus palpites são tão incríveis que as pessoas precisam pagar para recebê-los. Você não pode pensar que irá ganhá-los sem um ou dois sacrifícios e promessas de devoção eterna.

– Você não mudou absolutamente nada. — ele bufou, mas eu noticiei que não havia hostilidade alguma naquelas palavras.

– Bom, eu já alcancei a minha forma ideal. — eu ri com um dar de ombros. – Para quê mudar?

– Por que eu não esperei outra resposta? – ele revirou os olhos e descruzou os braços, aproximando-se de mim, resignado.

– Simples. — eu respondi com menos implicância do que nostalgia. – Porque você também não mudou nada, jovem mestre.

E eu juro que enxerguei a sombra de um sorriso atravessando aquele semblante estoico enquanto o jovem mestre se inclinava para apanhar as revistas de casamento espalhadas pela minha mesa.

O Roderich me procurou com sete meses de antecedência. Ele não era o sujeito mais generoso do universo, tratando-se de prazos, e a experiência passada, na qual eu quase morri de exaustão e estresse, ensinou a ele que grandes eventos devem ser organizados com mais antecedência. Assim, ele me concedeu um mês a mais.

Nossa, jovem mestre. Um mês a mais! Agora, todas as minhas inconveniências foram dissipadas! Eu estou tão confortável que posso considerar um plano de contatar os fornecedores apenas aos finais de semana e permitir que semanas passem, antes de irmos escolher as roupas e os pratos da sua festa. Um mês! Se eu dormisse o dia inteiro, ainda sobraria uma eternidade antes do seu casamento!

NÃO.

Um mês não era nada. Ele era mesquinho até com o tempo. Sinceramente, era uma sorte enorme que ele estivesse comigo. Eu era uma das poucas pessoas com capacidade de lidar com o ritmo e com os hábitos excêntricos dele. Humpf. Deve ter sido por isso que ele me procurou de novo para organizar a cerimônia dele.

Nesse segundo casamento, eu presumi inicialmente que ficaria mais tempo com a noiva do que com o Rod, e a minha sensação quanto a essa mudança era meio confusa. Como eu posso defini-la sem ter que usar metáforas estúpidas e emotivas…Hm… Eu estava frustrado, porém aliviado? Sim, essa é uma boa maneira de descrever o que estava acontecendo comigo. Como eu mencionei, a experiência de organizar o primeiro casamento do Rod foi fantástica. Do mesmo modo como ondas gigantes e assustadoras parecem fantásticas para alguns surfistas, mas, enfim… Eu me diverti, porém aquilo tinha acabado. Eu já havia preparado um casamento para o Rod. Se eu deveria planejar outro, era melhor que o jovem mestre não se misturasse de novo ao projeto. Eu tinha a impressão ou premonição de seria beeeem desconfortável, voltar experienciar a organização da festa ao seu lado. A noiva dele traria novos ares e era somente disso que alguém super-eficiente como eu precisava para trabalhar. Provavelmente, ela não seria a mesma coisa que o Rod, pois ninguém poderia ser como o Rod – e eu digo isso como um elogio e como uma ofensa – contudo ela traria uma perspectiva nova ao evento. Novos ares, novas perspectivas e uma nova companhia. Seria melhor assim.

Há, há! Talvez eu até me esquecesse de que aquele era um casamento do aristocrata!

Os meus planos geniais, no entanto, foram atrapalhados por forças externas. Forças como a inesperada determinação do Rod em ser a noiva. Ele assumiu as rédeas da organização do casamento. Um bom número de pessoas da minha equipe só conheceu a cara da noiva no dia da festa, tamanha foi a sua dedicação e intrusão.

Sorte deles.

A noiva dele era uma mulher chamada Elizaveta. Ela era bastante, caham, “zelosa”, tratando-se do Rod. Bah, para quê eufemismos aqui? Ela era insana! Deixe-me contar… Na soma de tudo, ela praticamente não esteve envolvida nos preparativos do evento. No entanto, durante os ensaios da cerimônia, as únicas datas em que nós nos encontrávamos, a linguagem corporal dela transmitia a clara mensagem de que se eu arruinasse o grande dia do Rod(u-hum, eu estava começando a me perguntar se deveria levar o aristocrata para a prova do vestido e a Lizzy para o alfaiate), ela me serviria como prato principal na festa deles. Todo ensaio de entrada na igreja era uma agonia… N-Não que eu me sentisse intimidado por ela! Lógico que não! E-Eu só estava me sentindo nervoso porque..er… porque eu me importava muito com a satisfação dos meus clientes! C-Como se o incrível eu se amedrontasse com uma noiva que corria em saltos altos o suficiente para perfurar o meu crânio! Há, há! Que piada!

Ahn… Vamos mudar de assunto, sim?!

Certo, apesar de Elizaveta Herdevary ser como um leão domesticado, ela era uma grande garota. Eu posso compreender a existência de um lado protetor pelas pessoas que nós amamos. Se alguém pensasse em fazer algo com o meu irmão mais novo, eu iria aniquilá-lo…! Ou melhor, eu iria chutar os restos dele, depois que o Lud o aniquilasse! Eu ensinei o garoto a se cuidar!

Como falei, eu entendo o lado dela.

A Lizzy era uma mulher decidida, bonita, engraçada, encantada pelo Rod, a ponto de ser cega aos defeitos dele, e uma leal amiga do aristocrata. Qual foi a minha conclusão? Dessa vez, era um compromisso permanente. Eu estava organizando um casamento que realmente teria significado para o jovem mestre.

E não foi difícil visualizar como seria o seu casamento ideal, tendo em conta que nós convivemos muito, muito, muito mais, nesse segundo evento.

Naqueles sete meses, tudo estava tão corrido que não era incomum precisar marcar encontros constantes com o Rod, no meio da semana, para discutir o controle do orçamento ou perguntar se ele não poderia considerar uma alternativa e esquecer daquela estúpida estátua de gelo que ele havia usado no outro casamento… e assim por diante. Nós ligávamos o dia inteiro um para o outro. Além dos assuntos obrigatoriamente pertinentes ao meu trabalho que me forçavam a contatá-lo com frequência, parecia que o Rod tinha a necessidade de me ligar para falar de cada flash de inspiração que lhe ocorria quanto ao próprio casamento, e eu tinha meus próprios lampejos de estupidez quando ouvia a voz dele. Afinal, eu não era capaz de parar de atendê-lo ou adquirir coragem para desligar. Que ciclo vicioso.

"O que é, Rod? Eu estou falando com o chef do buffet…O quê?! Você decidiu que quer usar lanternas japonesas no seu casamento? Sem chances, jovem mestre. Nós alteramos o tema original de ‘Inglaterra Vitoriana’ para ‘Estilo Renascentista’, mas eu não vou dar espaço para você explorar os quatro cantos do mundo no seu casamento. É uma cerimônia, não A Volta ao Mundo em Oitenta Dias!", "Jovem mestre, são duas e meia da manhã e você me ligou para falar que você quer tomates com mussarela de búfala nos aperitivos? Vamos lá! Tenha um pouco de bom senso! Você realmente pensou que eu deixaria de inseri-los no cardápio? Eles eram, tipo, 70% do seu prato, no seu último casamento. Sim, sim. Será o mesmo que chef que irá fazê-los. Eu tenho uma equipe definida.", "Rod, eu estou no meio de um encontro…Pff! Não, não! Eu estou brincando! O que há com esse silêncio tenso, jovem mestre? Esquece, esquece! Qual foi a sua nova ideia? ‘Acrobatas’??? Não, não, está perfeito! Eu vou contratá-los imediatamente! O quê? Você está dizendo alguma coisa? Parece que estou ouvindo você dizer ‘Eu acabei de realizar quão ridícula essa ideia soou. Por favor, ignore o que eu disse!' mas não pode ser isso, certo? Eu estou ligando agora mesmo para os acrobatas! Tchau!".

Eu detinha minha base de conhecimentos do casamento anterior dele para me ajudar, contudo minha impressão é que teria feito pouca diferença se eu não a possuísse. Eu pude aprender muito mais sobre o Rod, nesse segundo evento.

Eu descobri, por exemplo, que ele ficava insuportavelmente ranzinza e ligeiramente parecido com um zumbi quando não tomava uma xícara de café puro de manhã. Era simultaneamente cômico e perigoso, encontrá-lo desse jeito. Eu também aprendi que as composições que ele tocava no piano, refletiam muito o estado psicológico dele. Em dias de bom humor, Debussy. Em dias de irritação, Chopin. Em dias menos comuns, nos quais ele entrava em um estado pensativo e grave, aparentando imergir em uma questão bastante séria e insolúvel, Erik Satie. Era a forma dele de liberar a carga emocional que existia por trás daquele semblante perfeitamente estoico. Uns atiram copos na parede… Ele tocava Chopin como se o piano tivesse o afrontado publicamente. Outra coisa que aprendi foi que ele possuía uma relação ruim com os pais dele. Argh. O típico drama da cobrança excessiva em filhos talentosos. O Rod ficava tenso apenas em mencioná-los. Por estar ciente disso, eu preferi evitar falar nos convites dos pais dele e administrar essa parte sozinho. Eu saquei que tanto fazia para o Rod se eles viessem ou não. Eu só precisava colocá-los em uma mesa afastada e avisar ao fotógrafo para limitar a quantidade de “fotos em família”.

Eu percebi que o Roderich ficava sonolento em certos horários e que eu conseguia interpretar a variação discreta das expressões dele, caso observasse detalhes. Eu percebi várias coisas antes de realizar que eu estava percebendo coisas demais.

É normal que um cerimonialista conheça bem o seu cliente. O problema é que ele deve saber sobre preferências de flores e comidas, sobre membros da família a serem convidados, sobre prioridades de investimento… Não se o cliente dele usa sempre a mesma lista de compras ou se o cliente fecha as mãos com força quando está nervoso ou se ele cora em um tom muito discreto ou se ele se perde com facilidade e põe a culpa em engarrafamentos inexistentes ou se ele sorri acidentalmente e sem perceber quando escuta uma composição dele tocando em algum lugar ou se ele gosta de usar perfumes amadeirados, ou se ele … Ok! Eu acho que dá para captar o meu ponto!

A partir de um certo momento, um alerta vermelho começou a ressoar na minha mente. Aquilo… Aquilo estava ficando perigoso. As coisas estavam fugindo do meu controle e escapando da zona segura do profissionalismo. E a minha zona de conforto era praticamente continental, eu devo constar.

O mais estranho e pior de tudo? Aquilo estava ficando perigoso para mim, não para o Rod. Como se o aristocrata se importasse com o que estava acontecendo! O problema era meu.

Não era minha intenção deixar que tudo ficasse mais complicado com o tempo, logo eu tomei uma atitude nobre e, imediatamente, tentei limitar minhas interações com o aristocrata. Se não me engano, as minhas dignas e diplomáticas palavras foram.... "Jovem mestre, sinceramente, eu penso que você deveria pegar as suas tralhas que estão na minha casa, eu devo pegar as minhas tralhas que estão na sua casa, e nós deveríamos nos encontrar menos. De preferência, com a sua noiva assustadora ao seu lado. Você não acha que essa situação está um tanto esquisita? Bom, cara, ela é super-bizarra e eu quero que você se afaste de mim para que eu possa me concentrar no seu casamento. O meu conselho é que você faça o mesmo. Você fica conversando comigo, no telefone, até as duas da manhã em plena sexta-feira. Tipo, quando é que você transa com a Lizzy? Ela pode ficar com um humor bem melhor se vocês dormirem juntos com mais frequência, sabe!".

Foi uma decisão louvável a minha, correto? Ele deveria parabenizar a minha sensibilidade e curvar-se diante dos meus termos incontestáveis! Todavia, como comprovava aquela segunda requisição de uma estátua de gelo para usar no meio do outono, o Rod não seria o Rod se ele aceitasse soluções simples.

O aristocrata fechou as mãos, suspirou, olhou dentro dos meus olhos e falou:

– Eu não tenho a menor ideia ao que você se refere. Por favor, não use desculpas vulgares para deixar de fazer o seu trabalho.

Para dar um efeito dramático, ele se levantou e saiu batendo a porta.

Não se pode dizer que eu não tentei.

Em um ponto o Roderich estava certo: eu tinha que parar de deixar “desculpas vulgares” interferirem no meu trabalho. Independente do quanto a minha relação com o Roderich fosse estranha e estivesse me tornando a cada dia mais alerta, ele estava prestes a se casar e o meu objetivo-mor deveria ser preparar um casamento perfeito para ele. Esse era o meu trabalho e se há algo no qual eu sou especialmente fantástico, seria no meu trabalho. Eu sou a Beyoncé da organização de casamentos! Alguns se aproximam do meu nível! Ninguém é melhor do que eu!

Se essa era a minha facilidade, era nisso que eu deveria me concentrar. Eu mostraria para o Roderich, um casamento tão glorioso que ele choraria safiras, diante de tamanha sofisticação, e esse seria o fechamento com chave de ouro do nosso relacionamento. Quaisquer conhecimentos que eu ganhei ou poderia ganhar quanto ao Rod não modificariam esse futuro e, quando aceitei isso, tornou-se mais fácil traçar planos e ignorar os fatos secundários, dentro do plano de organização do evento.

Grude-se em mim o quanto quiser, aristocrata. Eu estarei me concentrando em preparar um casamento espetacular para você, pois, diferente de certos jovens mestres, eu reconheço a diferença entre trabalho e parasitismo. Eu vou parar de pensar tanto no nosso relacionamento. Fique com ele e faça o que preferir.

Como o previsto, a segunda cerimônia do Rod foi absolutamente estupenda. O Roderich não chorou safiras ou iniciou um discurso emocionado sobre a sua gratidão infindável pelo melhor cerimonialista de todos os tempos, mas eu estou certo de que foi apenas por timidez, não por falta do reconhecimento de que eu era brilhante.

A festa estava ótima! Há, há! Eu sei disso pelo que observei dos convidados, pois não tive a menor chance de aproveitá-la. Eu não estava com um bom humor naquela noite. Eu estava cansado até as profundezas mais fundas da minha alma e com uma paciência curta. Para piorar, eu me vi forçado a continuar trabalhando durante a festa e a ficar gradativamente mais enjoado com a minha própria obra-prima.

Eu olhava para as flores espalhadas em cantos estratégicos, para as faixas de tecido que convenci o jovem mestre a comprar, para as mesas repletas de parentes e amigos conversando, e não conseguia ver o futuro dele com a Lizzy.... Tudo o que eu conseguia enxergar, nos detalhes daquele salão, eram os episódios da nossa organização do evento, e era tão, tão estranho perceber que eles estavam no processo de se converter em “memórias”.

Bom, o meu conforto era que tudo estava resolvido. O Roderich estava bem e eu ficaria bem. Mesmo um jovem mestre que se empenhava tanto para ser menos romântico do que realmente era, merecia uma noite como essa, estando ao lado de uma pessoa que o estimava inesgotavelmente.

Eu encerrei o meu trabalho e ele alcançou o nível de qualidade esperado de um cerimonialista tão incrível. Finalmente eu teria condições de passar para projetos futuros e seguir em frente.

Ou foi o que eu pensei até o dia em que o Rod se encaminhou de novo ao meu escritório.

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Como diz o ditado, um é pouco, dois é bom e três…Três é palhaçada!

Após todo o meu esforço para marcar a eternidade do casamento do Rod, com uma obra que fosse igualmente digna da eternidade, ele se separou de novo?! Pior ainda, ele ia casar de novo?! E me contratar?! Para alguém que se afirmava tão sensível artisticamente, ele era uma porta de mogno puro em alguns aspectos!

– Rod, você está praticando algum ritual sinistro de magia das trevas que exige um casamento a cada dois anos e a minha presença em todos eles? – eu questionei, não tão bem-humorado quanto a minha fala sugeria. Bastava olhar para a minha figura para notar o que eu digo. O meu rosto estava sério, as minhas pernas estavam jogadas sobre a mesa do meu escritório, e os meus braços, cruzados atrás da minha cabeça, em uma postura que expressava todo o meu desleixo com qualquer necessidade de cortesias.

Em síntese, eu estava farto do Roderich.

– Eu encararei a sua piada indelicada como uma mensagem de boas-vindas. — ele respondeu, inteiramente destituído de aborrecimento, alteração ou empatia em relação aos meus sentimentos, aproximando-se para se sentar na frente da minha mesa, como se fosse o movimento mais previsível do mundo. – Olá, Gilbert.

Então era desse jeito?! Ele pensava que podia ir sentando e partindo para os negócios?! Ele não ia me dar nenhum esclarecimento?! Nenhuma explicação?!

– Não vá se sentando assim! – eu estendi o braço para detê-lo, corrigindo minha posição na cadeira em um pulo. – Espere um pouco! Eu tenho questões mal-resolvidas a tratar…!

– Isso é óbvio. — ele escarneceu, levando rapidamente a minha impaciência a atingir seu ponto de ebulição.

– Há, há! Hilário, jovem mestre! – uma risada forçada e agressiva saiu da minha boca. – Sabe o que mais é hilário? Você estar na minha sala de novo! – eu bati o meu punho contra a mesa, cheio demais para ter que lidar com o sarcasmo do aristocrata. Os meus olhos investiram com força contra os dele. – Pela terceira vez em seis anos! Você tem noção do quanto da minha genialidade eu investi na sua cerimônia?! Eu não consigo acreditar que você a descartou assim!

– Pelo que eu saiba, eu me casei com a senhorita Elizaveta, não com a minha festa em si! – ele rebateu firmemente.

Por um segundo, a raiva tomou a minha cabeça e eu comecei a gritar sem ter a menor ideia do que eu estava prestes a dizer:

– Sim, MAS EU…!

Eu o quê? Qual era a minha razão para estar irritado àquele ponto com o Rod? A despeito de todo o meu desgaste e de todos os esforços envolvidos na organização dos últimos casamentos dele, eu não possuía nenhum motivo bom o bastante para justificar a minha raiva. No máximo, um mal-estar ou um desgosto incômodo. Não aquela raiva ardente e volátil que precisei conter à força.

– Bah! Que se dane. — eu me rendi a contragosto, jogando uma das minhas mãos por cima dos meus ombros. – Eu posso ao menos receber explicações decentes?

– Humpf. Desde que você seja educado, eu retribuirei o comportamento.

– Nesse caso, nós dois estamos ferrados. — eu admiti, pondo uma mão sobre os meus olhos e respirando fundo. – Olha, Rod, por que você desistiu da Lizzy? Aquela garota idolatrava você! Cara, eu não consigo te entender!

Diferente do seu primeiro divórcio, pelo menos, ele teve a decência de refletir um pouco na sua resposta. Ela foi igualmente surpreendente, no entanto.

– Eu cheguei à conclusão de que ser idolatrado por alguém, não é confortável ou benéfico para nenhum dos lados. — foram as suas palavras, e ele manteve uma mão em seu queixo e os olhos direcionados ao teto ao lançá-las, como se estivesse intrigado com essa descoberta.

Em um ritmo lento, eu desci minha cabeça, no instante em que ele terminou de falar. Absorto em pensamentos sombrios e pesados que estavam praticamente a afundando na mesa.

Roderich Eldestein… Ele mudara em certos aspectos e permanecera igual em outros. O aristocrata continuava em sua busca altamente seletiva pelo parceiro ideal e, para piorar, as suas exigências estavam se tornando mais e mais rigorosas com o tempo.

Eu estava francamente assustado com o caminho que ele estava seguindo. Quantos casamentos ele me faria organizar? Quantas vezes eu teria que participar daquele processo desagastante? Mais importante, por que eu ainda me importava em entrar em cena, quando eu conhecia tão bem o final daquela trama? Eu não era forçado a aceitar a requisição do Roderich e estava cogitando seriamente em dispensá-la.

– Sei… — eu murmurei, encarando o reflexo turvo dele na madeira da minha mesa perfeitamente polida. – E quem é a pessoa com quem você está agora?

– Um velho amigo de infância, com quem eu me reencontrei no ano passado. Ele se chama Vash.

– Wow. Vocês foram rápidos, hein? – eu ri secamente, erguendo uma sobrancelha. – Qual é o benefício em questão?

– Nós somos muito similares e creio que as nossas naturezas semelhantes produzirão uma convivência harmônica.

– Então, mais uma vez, você não está apaixonado pela pessoa com quem você vai se casar. — eu suspirei fundo, mantendo os meus olhos no reflexo, e senti um sorriso cansado se formar em meu rosto. Como eu previa, a trama estava se repetindo.

– Essa constatação desnecessariamente simples teve um propósito crítico? – ele indagou em uma voz límpida e cuidadosamente neutra.

Ela tinha? Eu não posso confirmar. Certamente, havia uma sensação ácida nela, como se eu estivesse provando uma mistura líquida de ressentimento e amargura ao lançá-la. Todavia, eu atribuí esse abatimento aos desperdícios constantes do meu trabalho duro, graças aos divórcios repetitivos do jovem mestre.

Eu falei o que tinha que falar:

– Não. Os seus relacionamentos não são problema meu.

– Oh.

Curioso quanto ao significado desse “Oh”, eu ergui meus olhos por um breve instante, e pude noticiar que os ombros do jovem mestre se encolheram de repente e que um lampejo indecifrável correu pelas suas íris centradas no chão. Notando essa alteração nele, o meu primeiro reflexo foi o de conferir como estavam as suas mãos .... algo que não foi possível verificar, pois elas estavam escondidas dentro dos bolsos do seu casaco. Sendo essas informações visuais as minhas únicas pistas, eu inferi que ele deveria estar se sentindo aliviado com a minha indiferença.

Por mais estranho que fosse presenciar uma reação de alívio tão fraca e peculiar, como diria o velho Connan Doyle: se eliminarmos o impossível, o improvável – por mais improvável que seja – deve ser a verdade.

– Daqui a quanto tempo, você pretende realizar a cerimônia? – eu perguntei, tamborilando os dedos na superfície da mesa e voltando a observá-la distraidamente. – Dependendo do prazo, eu posso encaminhá-lo a um amigo meu e…

– Você não organizará o meu casamento? – os olhos dele subiram e, sutilmente, tornaram-se mais abertos, expressando desconcerto.

Oh, jovem mestre.

– Eu fui o cerimonialista de dois casamentos seus, Roderich. — eu repliquei com franqueza, apoiando os meus cotovelos na mesa e pendendo a minha cabeça para baixo, quase encostando na madeira. – Talvez seja melhor que você encontre outra pessoa.

– Se eu quisesse outra pessoa, por que eu estaria aqui? – ele questionou impaciente.

Bom, essa era a pergunta de dez milhões de dólares. Por que o Roderich estava ali? Quem poderia saber? Talvez nem o próprio Rod.

– Eu não faço ideia do porquê de você estar aqui, aristocrata, então se você puder me contar, seria ótimo. — eu admiti com um grunhido exausto, levantando meus olhos na direção dele, mas não erguendo a minha cabeça.

– É muito simples, seu tolo. — ele respirou fundo e cerrou suas pálpebras, com marcas de ansiedade aparecendo em sua testa, provocando a impressão de que o que ele estava prestes a revelar era tudo menos simples. Não para ele. – Eu posso não ter ficado feliz com os meus casamentos anteriores… — ele precisou de outra pausa para respirar. Eu pude sentir a minha própria respiração mudando de ritmo com todo aquele suspense. -… contudo eu sempre apreciei verdadeiramente as festas deles.

Hãn?

Hãn? Hãn? Hãn?

– …Eu toquei em um buquê de flores venenosas e estou no meio de uma alucinação ou você me fez um elogio? – eu perguntei incrédulo, esquivando meu corpo para trás como um personagem de HQ finalmente percebendo o disfarce de um inimigo. “Quem é você e o que você fez com o Roderich?!” poderia ser a minha linha clichê, caso nós estivéssemos nesse tipo de cenário.

Permita-me explicar: o aristocrata NUNCA me elogiava diretamente. O seu elogio era a não-crítica. Algo como um “Esse café não está ruim.” significando "Esse é o melhor café que eu experimentei. As minhas papilas gustativas estão em jubilo e nunca mais vivenciarão um instante glorioso como esse." e um “Você não fez um mau trabalho.” significando “Você realizou um trabalho tão fantástico que irei contratá-lo nos meus próximos dez mil casamentos.”.

– Ocasionalmente, você os merece. — ele reconheceu, visivelmente a contragosto, esforçando-se para que seus olhos escapassem dos meus. – Embora eu prefira não lançá-los para não alimentar esse seu ego gigantesco.

Pling! Por mais incompreensível que pareça, essas poucas linhas proferidas pelo jovem mestre conseguiram inverter drasticamente o meu humor. Com a velocidade dos átomos em um acelerador de partículas, eu passei de um estado de amargura e ressentimento para um sentimento glorioso e ligeiramente sádico de vitória. Ohhh… Então o aristocrata admitia que eu era formidável e que ele precisava se conter para não me elogiar a todo segundo? Era bom ter a confirmação desse fato óbvio!

– Não se preocupe, jovem mestre. — eu ri com descaso e coloquei minhas mãos para cima novamente. – Não é necessário alimentá-lo! Ele praticamente realiza fotossíntese!

– Gilbert, eu quero que você organize esse casamento comigo. — ele pressionou de novo.

Urgh. Nós tínhamos que voltar àquela discussão?

– Rod, eu já gastei muita energia nesses seus últimos casamentos e eu tenho outr…

Eu estava com outro projeto em mente. Um casamento entre um Berwarld e um Tino, que tinha o potencial de ser bastante descontraído e legal de se arquitetar, pois eles gostavam de cachorrinhos, de saunas e de música punk. Você não pode errar em escolher a companhia de pessoas com gostos como esses.

Seria o cúmulo do ridículo se eu desistisse de pegar esse projeto para organizar mais um casamento para o Rod. “Projeto novo e descontraído com pessoas bem-humoradas e tranquilas” versus “Uma repetição de incômodos eventos passados + organização de um casamento monumental e complicado para um cliente que ficará nas suas costas pelos próximos meses”. A escolha era fácil.

Eu teria a comunicado de imediato para o Roderich se ele não houvesse me interrompido para lançar a mais aniquiladoras das bombas em cima de mim.

– …Eu preciso de você. — ele confessou em voz baixa. Com uma sinceridade tão pungente e dotada de vulnerabilidade, que era difícil observá-la em sua face diretamente, assim como é difícil olhar para o sol.

Eu respirei fundo, lembrando de cada momento e de cada motivo que justificavam minha recusa. Eu tinha que persistir. Eu tinha que persistir. Aquele projeto não valia a pena. Eu estava certo de que ele não valia a pena. Tenha dó! Alguém precisaria ser um idiota para aceitar se submeter àquilo de novo e…!

– Embora seja terrivelmente humilhante admitir, essa é a verdade. — ele complementou, encarando o chão e contraindo suas feições em uma tentativa totalmente falha de disfarçar o rubor espalhado por seu rosto.

Sim, ele estava completamente vermelho. Roderich Eldestein. Vermelho. Um evento mais raro do que a passagem do cometa Halley.

Droga.

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Seis meses e duas semanas depois, o chef da minha equipe de eventos ainda estava pasmo com a minha decisão de ter aceitado aquele trabalho. Ele não era o primeiro na fila. Todos na minha equipe estavam pasmos. A minha família estava pasma. Alguns dos meus fornecedores estavam pasmos. Devo admitir: eu também estava pasmo, embora parte do meu espanto se devesse mais à quantidade de pessoas com idênticos sentimentos quanto ao meu envolvimento no projeto, do que ao meu contrato em si.

Diferentes manifestações de piedade e confusão – que eram totalmente desnecessárias! – vieram de todas as fontes possíveis e foram igualmente irritantes. Por que todo mundo se importava tanto com quem eu trabalhava ou deixava de trabalhar? Eu duvido que alguém diga “Você não precisa se forçar a fazer isso…” quando o Tim Burton decide realizar mais uma parceria com o John Depp.

O comum era que eu meramente descartasse ou desprezasse a piedade alheia quanto a esse tópico. E era como eu estava predisposto a agir, na ocasião em que eu e o Francis marcamos de conversar pelo computador para trocarmos notícias sobre as nossas vidas pessoais. Todavia, a expressão dele quando nós começamos a conversar pelo Skype, naquela noite, estava tão preocupada que eu quase senti alguma pena de mim:

– Você está visivelmente cansado, Gilbert. — ele comentou e não havia uma sombra de dúvida nas suas palavras.

De que adiantaria negar? O Fantasma da Ópera não se escondia no subsolo à toa. Às vezes, é impossível que não notem aquilo que está na nossa cara.

– Eu estou acabado. — eu confessei, deitando a minha cabeça na mesa e percebendo os meus olhos se fecharem contra a minha vontade. Como eu estava exausto naquela hora. Naquele dia. Naquele ano.

– Céus! Para você estar reconhecendo isso, o caso deve ser sério! – ele exclamou, em agudo, de uma maneira tão alarmada que chegava a parecer teatral

– Mais sério do que o prazo de entrega dos nossos fornecedores. — eu confirmei com um grunhido, não estando capaz de erguer bem a minha cabeça ou subir muito minhas pálpebras. – Eu estou completamente ferrado, Francis.

– Se você quiser se desgastar menos, você sempre tem a opção de reduzir o tempo que o Roderich passa com você. — a imagem na tela do meu computador sugeriu, e a falsa inocência naquela fala estava sendo tão emanada quanto a luz do meu monitor.

– Há. Um cerimonialista reclamando do tempo que está passando com um cliente? Não costuma ser o oposto? – eu subi uma sobrancelha. Se ele queria falsa inocência, falsa inocência ele teria.

– Oras, Gilbert, nós dois podemos ver que as visitas constantes dele não estão relacionadas com o seu trabalho. — ele apontou com um jeito meio severo e meio preocupado que me lembrou o da minha mãe. Ultimamente, com mais frequência do que deveriam, as pessoas a meu redor estavam tendendo a agir dessa forma. – O que foi da última vez? Ele veio para mostrar um artigo sobre as cores das roupas das madrinhas na internet, mas ficou na sua sala, por duas horas e meia, conversando sobre a última turnê dele? Ele convidou você a ir a um restaurante, para mostrar um prato a ser inserido no buffet, e vocês só voltaram à noite? Ele ligou para você e iniciou uma…?

– Eu sei, eu sei! Ele arranja desculpas para nós conversarmos. — eu revirei os olhos, impaciente, abaixando os cantos da boca. – Não é como se não fosse óbvio para mim. Não subestime uma inteligência elevada como a minha.

– Você está ciente disso e continua acatando os pedidos dele. — ele pronunciou cada palavra lentamente.

– Fazer o quê? – eu bufei, inclinando o nariz para cima. – Tecnicamente, ele sempre possui razões profissionais para entrar em contato comigo. Se eu tentasse escapar, definitivamente, ele viria com aquela velha conversa de "Oh! Você é tão pouco profissional, apesar de ser tão evidentemente incrível.". Nada feito. É melhor engolir a companhia do Rod do que as desculpas dele.

– Ao menos, você irá cobrá-lo pelas horas-extras, não é, Gilbert?

Eu fiquei calado.

– Gilbert!

– O que é?! – nesse momento, eu fui carregado por uma onda de raiva, que me deu forças para subir meu corpo e abrir os meus braços em ofensiva como um galo-de-briga. Eu estava muito esgotado para ficar discutindo, mas acima de tudo eu estava cheio de ouvir tantos palpites sobre o meu relacionamento com o Roderich, e fui capaz de extrair energias da minha ira acumulada para retorquir a exclamação escandalizada do Francis. – Eu não posso cobrar o jovem mestre por querer passar mais tempo comigo! Eu não sou uma dama de companhia, Bonnefoy! Eu não posso exigir um pagamento adicional por ficar conversando com ele!

– Então você se encontra com ele, diariamente, porque está a trabalho, porém não irá cobrá-lo porque o tempo que vocês passam juntos não conta como trabalho, huh? – ele apontou a minha contradição com os olhos comprimidos.

Se a intenção dele era me confrontar com aquilo, ele precisaria seriamente de outras armas. Há! Eu conhecia aquela contradição melhor do que ninguém. Ela era minha companheira diária, afinal.

– Eu falei que estava completamente ferrado. — eu repeti com a minha voz grave e carregada.

– Você deveria ter me escutado quando eu o aconselhei a não aceitar o trabalho de novo. — ele suspirou, fechando os olhos com um ar de “eu-avisei-não-avisei?”. – Lembra dos três meses que se seguiram ao segundo casamento dele e como você ficou…?

Eu explodi mais uma vez.

– Droga, Francis! Ele é um cliente! Um cliente que é praticamente a personificação do dinheiro! Se ele quer ter dez mil casamentos e quer me contratar em todos eles, melhor para a gente, não é?! Além disso…! – as minhas palavras seguintes viriam com fúria se não houvessem ficado presas na minha garganta. Eu inspirei fundo, diminuindo a temperatura das minhas emoções aos poucos. Quando eu consegui retornar aos meus argumentos, eles não continham mais a intensidade agressiva de antes, e sim, uma sinceridade pesada e espessa. – Além disso… — eu complementei em uma voz suave, pousando os meus olhos no teclado. – Eu não posso recusá-lo.

– Por quê?

– Eu não posso. — eu gemi lamuriosamente, apoiando o meu rosto nas mãos.

– Oh, Gilbert.

Ah, não. Eu não podia suportar aquela cara de pena.

– Caramba, Francis. Dê um tempo nesse interrogatório. — eu resmunguei, pondo uma mão sobre os meus olhos por sentir que até a luz do monitor era violenta demais para mim. – Você é o detetive particular do noivo dele ou algo assim?

– Gilbert, Gilbert… Será que você não está em uma posição muito delicada para organizar o casamento do senhor Eldestein?

– É óbvio que não. — eu assegurei com confiança, mudando inteiramente de postura. – Eu sou um profissional, Francis. Um grande profissional e um dos melhores do ramo. O casamento do aristocrata será um evento épico e inesquecível. O meu único receio é que ele abafe um tanto as Olimpíadas de tão épico que será, pois ele fará…!

– Eu não duvido da sua capacidade de criar um casamento glorioso, meu caro. Na verdade, os meus receios se relacionam ao que se seguirá a ele. — ele me deu um relance repleto de entrelinhas.

– Nós checaremos. — eu cruzei os meus braços e dei de ombros. – Agora é tarde para uma mudança de planos. Faltam aproximadamente duas semanas para o casamento dele e os preparativos estão quase concluídos. Mesmo se eu tencionasse, não daria mais para largar esse projeto. Eu até vou me encontrar amanhã com os noivos em algum restaurante aristocrático para comemorar o término dos preparativos principais. O fim está próximo. — eu concluí, soltando uma grande leva de ar pela boca e, acidentalmente, conferindo um tom apocalíptico para a minha última frase.

– Você, o Roderich e o Vash dividindo uma mesa? Hm… Eu não sei se devo incentivá-lo a não ir ou ficar assistindo a essa cena nos camarotes.

– Cale a boca, Francis. — eu consegui rir dessa e brincar com ele – Cuide da sua parte e providencie o melhor banquete de todos os tempos. Cozinhe como se eu estivesse pagando o triplo do seu salário.

– Se você persiste em ser tão teimoso, não serei eu a dissuadi-lo. Todavia, para que você durma logo, eu pretendo concluir a nossa conversa por aqui. Geralmente, eu não confio muito na eficácia de um sono de beleza, mas é tristemente evidente que você precisa de um. Sem ofensas, meu caro. Boa noite, Gilbert. — ele riu suavemente, balançando a cabeça. – Tome cuidado.

– Boa noite, Francis. Cara, você tem as piores formas de se despedir possíveis! – eu sorri, fechando o meu notebook em seguida.

“Tomar cuidado”. Que conselho.

Desde o primeiro casamento do Rod, eu estava sempre tomando cuidado.

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Como o esperado, o restaurante para o qual o Rod nos levou na noite seguinte, encaixava-se nos clichês do restaurante de alta classe. Ele era um ambiente sofisticado e silencioso, repleto de pessoas vestidas de modo formal, observando-se em mútuo desprezo analítico, e com porções nas quais só era possível sentir o início do sabor.

E como o Roderich deveria ter esperado, não houve nenhuma vontade da minha parte em me empenhar para combinar com essa atmosfera suntuosa.

– Você não poderia ter selecionado trajes melhores?

Eu estava usando um moletom, uma calça jeans e tênis. Sejamos francos. Era mais do que suficiente para que eu fosse mais atraente do que qualquer um por ali.

– Vamos lá, jovem mestre! Você sabe que eu preciso ficar lidando com normas de etiqueta diariamente. — eu protestei com total razão. Caramba, eu tinha que usar ternos todos os dias. Eu não podia tirar uma folga? Qual era a minha culpa se o jovem mestre possuía noções bizarras do que seria um programa descontraído? – Essa é uma comemoração! Sem contar que eu não necessito de todos esses adereços formais para ficar estonteante. — eu terminei com um sorriso de ponta-a-ponta.

– O ponto não é ficar estonteante, e sim, apropriado. — ele rebateu. As suas íris lilases foram frias e firmes.

– Dê um tempo, Rod. — eu revirei os olhos, sem o menor saco para lidar de um jeito mais cavalheiresco ou profissional com aquelas reclamações. – Por que você insiste nessas saídas tão formais? Será que nós nunca podemos ir, sei lá, para uma danceteria que toque os sucessos dos anos oitenta e tomar cuba libre enquanto dançamos os sucessos de “Flashdance”?

– É assustadora a quantia de detalhes que você pôs nesse aterrorizante cenário hipotético. — ele comentou gelidamente. – Ademais, eu creio que a palavra “danceteria” caiu em desuso.

Oh, céus. O jovem mestre me atualizando??? Que épico!

– Pfff! Obrigado, senhor Modernidade! – eu fui invadido por uma vontade tão grande de rir, que precisei cobrir minha boca para não liberar risadas que ecoariam pelo salão inteiro. – Ainda bem que eu posso contar com você para conhecer todas as novas tendências!

– Como sempre, o seu senso de humor é absolutamente…!

Se ele diria “formidável” ou “super-hiper-mega-formidável”, eu não sei. O noivo dele nos interrompeu primeiro, batendo em uma taça com sua colher para sopas.

– Não permita que um mero detalhe o perturbe, Roderich. — ele reclamou muito sério. – Nós gastamos muito dinheiro nesse jantar para desperdiçá-lo com brigas infantis.

Esse era o Vash. Um indivíduo que apresentava uma série de similaridades com o Roderich e, por conta disso, assumiu o posto de noivo dele. Ele era tão mesquinho com dinheiro quanto o Rod, tão sério quanto o Rod, e tinha tanta dificuldade em lidar com romantismos quanto o Rod. Eu vou ceder, eles eram meio parecidos. Entretanto, os seus traços em comum não os tornavam simétricos.

O jovem mestre era como um sorvete de menta coberto por uma camada de chocolate. Ultrapassada a sua superfície, havia um lado macio nele. Esse lado não era tão doce ou comum, contudo podia ser saboroso para os paladares certos. O Vash, por sua vez, era como um sorvete crocante. As suas partes duras e macias eram praticamente indissociáveis e as pessoas o escolhiam mais por sua consistência do que pelo seu sabor.

Bom, um noivo é um noivo, merecendo, portanto, mais atenção do que um cerimonialista. Sendo assim, depois que o Roderich recebeu o alerta dele, os dois iniciaram uma conversa unilateral, essencialmente constituída por um monólogo-do-Vash-com-acenos-de-cabeça-do-Rod sobre as armas de fogo que o senhor Zwingli colecionava e, como decorrência disso, eles me ignoraram por um bom tempo. Eu não liguei e fui mexer no meu celular, resolvido a não me importar com o tratamento que me dessem. A minha posição ali era a de um cerimonialista e, como um cerimonialista, eu estava sendo tratado.

Não havia nada demais nisso e, não querendo entrar em uma conversa tediosa para a qual eu não havia sido convidado, eu decidi usar o wi-fi do restaurante para trocar mensagens com o Lud.

Eu gostava de conferir como estava o meu irmão de vez em quando. Nós éramos muito, muito próximos! Ele precisou se casar para escapar (sob protestos) das minhas asas protetoras! Eu também gostava muito da Feli, a esposa dele. Se dependesse de mim, nós três moraríamos juntos! Todavia, com um bebê a caminho, eles estavam precisando do seu próprio espaço e eu respeitava a necessidade deles.

A minha troca de mensagens com o Lud foi uma maneira efetiva de passar o tempo. Eu estava rindo das estórias domésticas que ele estava compartilhando sobre o casamento dele e sobre a gravidez da Feliciana, e me satisfazendo com minha distração inocente, mal imaginando com que eu estava prestes a me deparar…

– Quem você está contatando? – perguntou o Roderich e essa interrogação foi tão abrupta e cortante quanto o golpe de uma lâmina.

Eu subi os meus olhos da tela do meu celular e me espantei com quão aberto e palpável estava o desagrado dele. Ele estava me fitando como se eu houvesse proferido o mais enojante dos insultos.

Cara, eu estava confuso. Como a minha troca de mensagens com alguém poderia ter incomodado tanto o Rod?

– O meu irmão mais novo? – eu respondi hesitante, sem saber o que diabos ele estava esperando ouvir como resposta. Os traços da minha face estavam contraídos em estranhamento total, porque, caramba, o que havia com o aristocrata?

Inexplicavelmente, apesar de não se satisfazer inteiramente com essa resposta, ela conseguiu contentá-lo em certo nível.

– Humpf. Quando você tem companhia, é muito deselegante trocar mensagens com outra pessoa. — ele murmurou, com vestígios de ofensa em sua expressão solene.

HÃ?! Espera, espera! Aquilo era sério?!

Ele estava reclamando porque eu me distraí com outra pessoa enquanto estava sendo ignorado? O que diabos ele queria de mim? Que eu ficasse o tempo todo em um silêncio de admiração e de respeito apreciativo, assistindo ao diálogo dos dois? Brinca com a minha cara.

Aquela crítica foi tão desnecessária e injusta que o próprio Vash ficou mortificado.

– Ele não estava inserido na conversa, Roderich. — ele buscou apaziguá-lo no mesmo tom hesitante e confuso que o meu.

– Desculpe-me, Rod! – eu exclamei, com os braços abertos, defendendo-me por conta própria. – Eu não quis interromper a sua romântica conversa de casal sobre as armas inventadas durante a Revolução Francesa!

Por duas vezes, o Rod abriu a boca como se estivesse com vontade de replicar o meu comentário. Ele tornou a fechá-la nesses dois instantes. Era notório que ele não estava apto a elaborar uma explicação razoável para as suas ações. Há! Que choque!

Ele podia não ter argumentos e eu podia não ter uma compreensão plena das vontades dele, contudo nós não necessitávamos desses recursos ou de expressões verbais para discutirmos, quando éramos tão familiarizados um com o outro. Por meio de uma comunicação visual, deu-se uma pequena conversa silenciosa entre nós que se constituiu, basicamente, em um “Que diabos, Rod?!” e um “Eu não desejo conversar sobre isso, mas estou chateado com você.”, complementado por um “Por quê?!” meu e um “Eu fingirei que você não existe e que nada aconteceu, pois eu sou um GRANDE COVARDE IDIOTA QUE SE IRRITA SEM MOTIVO ALGUM.” dele.

– Certo, basta disso. Eu tentarei dar o rumo certo a este evento. — a voz do Vash nos surpreendeu no meio da nossa conversa silenciosa e a solenidade dela anunciou que ele estava prestes a dar um looongo discurso.

Só me faltava essa.

Eu estava hesitante sobre qual seria o tal rumo certo porque não era segredo que o Vash não gostava de mim. Rumo certo, huh? O rumo certo seria me expulsar da mesa? Terminar o jantar? Eu nem me importava mais.

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– Senhor Beilschmidt, quando o Roderich me informou que você seria o nosso cerimonialista, eu fui inteiramente contra. — pois é, ele não colocou baunilha nas palavras. – Perdoe-me a franqueza. Eu imaginava que a nossa cerimonialista seria uma mulher madura, o que não é remotamente compatível com o seu perfil, e você foi o responsável por dois casamentos dele que terminaram em divórcio. Esse não me pareceu um bom sinal.

Eu não poderia ter ficado mais satisfeito com a escolha de ataque dele.

– Huh? – eu dei um sorriso mordaz e estendi uma das minhas mãos. – Não deveria ser um ótimo sinal para você, considerando-se que você só vai poder se casar com o Rod, por conta dos dois divórcios dele?

Para o meu imenso deleite, ele arregalou os olhos e enrubesceu, assim como eu calculara que ele faria.

Vash, Vash, Vash. Tantas armas na sua coleção e nenhuma arma na sua língua.

– Sim, mas…! Bem…! – ele tossiu e buscou se corrigir, adotando uma expressão mais determinada. Heh, clássico! – De todo modo, eu também não compreendi por qual razão em particular o Roderich desejava contratá-lo, quando você exibe os piores hábitos e petulância que já encontrei em um empregado. Certamente, não foi por razões pessoais, tendo em conta que, evidentemente, vocês não se dão muito bem.

No segundo em que ele terminou sua frase, os meus olhos e os do Roderich se encontraram como se houvessem combinado. Nós dois tínhamos a mesma pergunta e obtivemos a mesma confirmação. “Não se dar bem” era uma descrição vaga e relativamente injusta para o nosso relacionamento. No fundo, ambos possuíamos conhecimento disso, embora não fosse algo expresso em voz alta.

– Senhor Beilschmidt?

Eu pisquei, saindo do meu transe e realizando de repente que eu estava conversando com o Vash nos segundos anteriores.

– Sim, sim. Eu compreendo. — eu me consertei, retornando ao trajeto original. – Você me odeia, apesar do meu irrefutável talento e carisma. Provavelmente, devido a um árduo e contínuo esforço do seu superergo. — eu despejei casualmente e despreocupado. Sinceramente, tanto fazia o que ele pensava de mim. Ele estimava e respeitava o Roderich, e era só isso que me importava. Eu não era o noivo do Vash. Benzadeus. – Um brinde ao fato de que você me odeia, mas não pode ficar sem mim? – eu ergui uma taça.

– Não, escute! – ele me interpelou e a tonalidade de vermelho do seu pescoço subiu vários degraus em um pulo. – Eu…Urgh! É horrível admitir, mas eu prometi a mim mesmo que diria a você que…! Eu… Eu…!

– Rod, eu acho que o seu noivo está prestes a se declarar para mim. — eu falei de lado, dando uma cotovelada brincalhona no quadril direito do Roderich, e recebendo um tapa fraco no meu braço como resposta.

– Cale a boca! Não faça com que eu me arrependa do que vou falar! – o Vash exclamou. Ele precisou respirar rapidamente para finalmente anunciar com dificuldade – Eu… Eu admito que contratá-lo, senhor Beilschmidt, foi uma boa decisão.

– Oh?

– V-Você....Você realizou um trabalho impressionante. — ele pôs uma mão sobre a sua boca, esforçando-se perceptivelmente para ocultar seu constrangimento. – O nosso casamento provavelmente será o mais bonito que eu irei presenciar.

Ah! Escutar aquilo foi maravilhoso de tantas formas. Primeiro, pela sensação de jubilo proporcionada pela minha vitória, uma vez que eu havia acabado de fazer com que um cara que me desaprovava de forma bem aberta, admitisse que o meu trabalho havia sido mais espetacular do que a criação do universo(ou algo assim). Também devido ao sentimento de agradável prazer do reconhecimento porque, caramba, como eu investi tempo e esforço nos preparativos daquele casamento. No entanto, a verdade é que o sentimento que se sobrepôs a esses foi uma sincera felicidade e afeição pelos dois idiotas que estavam jantando comigo. Era gratificante obter a certeza de que eles estavam prestes a vivenciar o seu casamento dos sonhos. Não posso esconder que eu também não senti certa dor… Como uma nostalgia por algo que nem terminou, eu não sei. Todavia, eu estava habituado a ela e a diluí com facilidade nas minhas outras emoções.

O meu modo de expressar esse conjunto variado de sentimentos foi colocar as palmas das minhas mãos no topo da cabeça dos dois, bagunçando o cabelo deles mesmo sob os resmungos mal-humorados que se seguiram ao meu gesto. Como se eu fosse parar de implicar com aqueles bobos ranzinzas!

Eu estava rindo fartamente do aborrecimento deles, envolvido em uma atmosfera mais leve e alegre. Entretanto, quando o nosso prato principal, escolhido pelo Vash, foi recebido em nossa mesa, ele ocasionou em uma alteração drástica do clima local e no arregalar simultâneo dos meus olhos e os do Roderich.

O prato principal era um peixe de tamanho médio. Pior ainda, era uma daquelas porções em que o peixe era servido completo com cabeça, cauda e todo o resto.

Um instinto de proteção veio com toda força em cima de mim.

– Droga! O que é isso?! – eu tentei a afastar o peixe da mesa. – Garçom, você pode levar esse prato para longe daqui?!

– O que você pensa que está fazendo?! – o Vash começou a gritar.

– O que você está fazendo?! – eu berrei de volta em um volume mais alto. – O Roderich tem medo de peixes!

U-hum. O Roderich tinha medo de peixes. Quando planejei o primeiro casamento dele, eu estranhei a sua recusa em olhar as opções de peixes para o jantar e terminei recebendo uma explicação no segundo. Peixes o horrorizavam. Vivos ou não. Ele não podia impedir. O coração dele batia mais rápido e o seu estômago se embrulhava, caso ele se deparasse com um. Para ele, peixes eram tão repulsivos quanto sapos e aranhas são para algumas pessoas. Não se explica e não se questiona fobias. Nós ajudamos as pessoas que as possuem a evitarem aquilo que as assusta. Ponto final. Que se ferre todo aquele papo de “Você deve confrontar seus medos!”. Ninguém precisa se forçar a vivenciar uma experiência terrível, por conta da impaciência e incompreensão de certos imbecis.

Para a minha profunda irritação, a reação do Vash, ao me escutar, foi um riso de desdém.

– Essa foi a estória mais estúpida que eu escutei em anos. — ele deu um bufar esnobe.

Essa foi a primeira vez em todo o histórico da organização do casamento do Roderich em que eu tive vontade de socar a cara do Vash.

– É sério! – eu insisti. – Ele se sente angustiado com os olhos deles e…!

– Ele está brincando, não está? – ele se voltou para o aristocrata, acreditando que toda aquela cena era uma piada estranha ou algo do tipo. – Roderich, você não pode ter um medo tão ridículo. São apenas peixes…

– Wow! Não me diga! É mesmo?? – eu arregalei os meus olhos em falso espanto, como se ele houvesse feito a maior das revelações, carregando a minha voz com cinismo puro e corrosivo. — “Peixes são apenas peixes”… Nossa! – eu abri meus braços espalhafatosamente. Naquela altura, a minha irritação estava indisfarçável. – A fobia do Rod acabou de se vaporizar! Se alguém ao menos houvesse contado isso para ele antes!

– Eu não gosto da sua atitude irônica, senhor Beilschmidt. — ele reclamou, voltando um olhar severo para mim.

– Bem, eu não gosto de presenciar o medo de uma pessoa sendo ridicularizado, imbecil. — eu devolvi o encarar dele. – O Roderich é o seu noivo. Você deveria ser o primeiro a defendê-lo.

Após esse último comentário, houve um momento de silêncio entre nós, sendo que, nesse meio-tempo, os nossos olhos permaneceram brigando. Fixos um no outro em um confronto intenso e elétrico. Por uma questão de honra, eu resolvi que não seria o primeiro a desviá-los por nada desse mundo!

… Ou era o que eu pretendia, mas “aquilo” aconteceu.

– Gilbert, por favor…- o jovem mestre segurou a manga do meu moletom pelo braço.

Instantaneamente, a minha postura agressiva foi desmanchada pela voz fraca e relutante do Rod.

Urgh. O que havia de errado comigo? O Rod estava em estado de choque e cá estava eu, desperdiçando energias gritando com o noivo dele. Grande ajuda.

– O quê? – eu perguntei, voltando o meu corpo e toda a minha atenção para o lado dele.

– Esqueça. — ele solicitou, cobrindo sua face notoriamente pálida com uma mão. Como eu detestava vê-lo assim. – Nós podemos pedir outro prato e fingir que nada ocorreu?

– Conforme queira, jovem mestre. — eu concordei de imediato. – Ei. Eles servem ganso aqui?

Por algum motivo provavelmente ridículo, o Vash deu um "Há!" cáustico e irônico.

– A julgar pela sua atitude, eu devo concluir que o seu ato de altruísmo conferiu um direito de escolha do prato principal? – ele questionou.

Sério? Não, sério? Eu estava no mundo real??? Aquilo estava mesmo acontecendo?

– Não, eu me lembrei que a carne preferida dele é ganso e quis perguntar! – eu respondi com as sobrancelhas arqueadas e um tom assombrado.

Qual era o problema daquelas pessoas?! Eles achavam que cada movimento meu era uma provocação pessoal? Tenham dó!

O Vash deve ter realizado quão ridículo ele soou, porque ele começou a parecer um pouco envergonhado, depois da minha resposta.

– Oh! Hm… — ele cobriu sua boca com uma mão e forçou uma tosse seca. – Eu suponho que seja sua obrigação saber disso, tendo organizado tantos cardápios para os casamentos dele.

– U-hum, eu sou um cerimonialista fantástico assim. — eu não quis levar aquele tópico adiante. – Será que você pode pedir o ganso e uma sobremesa de chocolate que venha primeiro?

– Sobremesa de chocolate?

– Ele se acalma mais facilmente quando come chocolate. Anote isso, senhor Guilhotina. Essa é uma das regras fundamentais no manual de sobrevivência “Convivendo com um aristocrata”.

Não é à toa que o meu apartamento está tão armazenado de chocolates quanto a casa do Coelho da Páscoa”, eu poderia ter mencionado se não fossem as minhas habilidades sociais formidáveis.

– Pare de exagerar tanto. — o Vash descartou, insistindo em seu ceticismo absurdo. – Ele não me parece nervoso.

– Você está brincando comigo, certo? – eu franzi as minhas sobrancelhas. Nessa rodada, eu fui o incrédulo. – Olhe para a cara dele!

Houve então, uma pausa silenciosa de alguns segundos, na qual nós ficamos observando o Roderich, como dois cientistas dividindo um microscópio para acompanhar os movimentos de uma célula. O jovem mestre estava pálido, com os punhos apertados, um olhar um pouco mais baixo do que o usual, o lábio inferior ligeiramente trêmulo… Todos esses eram sinais gritantes de que ele não se sentia bem e eu detestava com todas as minhas forças quando ele estava daquele jeito. A sua aparência indefesa e um pouco patética me enchia do instinto de pôr um braço em torno dos ombros dele para ampará-lo, e foi necessário um esforço enorme para que eu me contivesse.

– O que tem a cara dele? Ele aparenta estar com o mesmo humor de sempre. — o Vash concluiu, dando de ombros.

Eu realizei que não havia a menor condição de que nós discutíssemos sobre o tema. Seria como querer discutir sobre a teoria das supercordas com um garoto aprendendo a tabuada.

– Urgh!! Esquece, esquece! Nós não temos tempo para dar uma aula sobre linguagem corporal a você. — eu gemi em frustração, agitando a minha cabeça ferozmente para os lados. Pelo visto, não dava para contar com o noivo do Roderich para nos ajudar, então eu tive que assumir de vez as rédeas da situação. – Rod, como você está? Você quer a sua sobremesa logo? – eu perguntei, mudando, em 180 graus, a minha atitude de uma pessoa para a outra.

– Eu… não recusaria uma sobremesa. — ele respondeu, mordendo o interior da bochecha, como uma criança orgulhosa sendo forçada a pedir desculpa.

Eu senti um sorriso idiota crescer pelos cantos da minha boca. Oh, Rod. Como aquele aristocrata podia ser bobo com aquele seu jeito defensivo.

– Muito bem, bom garoto. — eu dei tapinhas leves no topo da cabeça dele, fitando o jovem mestre com uma ternura morna que eu não tinha como evitar naquele contexto. – Existe mais um pedido seu?

– Havia um vinho que eu pretendia experimentar… — ele respondeu, franzindo o rosto em desconforto, apenas no inicio de se recompor.

– Verdade. — o Vash lembrou de repente. – Eu me recordo de que você mencionou o assunto no carro.

– Oh. Aquele vinho espanhol de sessenta anos? – eu me recordei também. – Eu me lembro do nome dele, mas não sei a pronúncia. Você pode me arranjar um papel?

– Er… Era um vinho branco? – o Vash perguntou ao Roderich, como se eu nem estivesse ali.

Cara, eu havia acabado de falar que sabia qual era o vinho. Ele queria transformar aquilo em uma disputa?

– Bzzz! Errado. É um vinho tinto. — eu corrigi com menos humor, anotando o nome da bebida em um guardanapo.

– Recentemente, eu noticiei que você sempre vinho quando nós vamos a restaurantes. — eu fui ignorado mais uma vez.– É a sua bebida favorita?

– Bzzz! A bebida favorita dele é café quente misturado com chocolate. — eu corrigi novamente, mostrando o guardanapo ao garçom e aproveitando sua aproximação para indicar no cardápio os pratos que nós selecionamos. – Ele também possui uma predileção secreta e inesperada por Nesquick de morango… Não pergunte. Ele nunca vai admitir.

Finalmente, o Vash reconheceu a minha presença. O chato é que ele adquiriu ares ofendidos e totalmente desnecessários ao fazê-lo.

– Obrigado por suas contribuições, senhor Beilschmidt. — ele declarou, severo, no que foi o agradecimento mais ingrato que recebi ao longo dos anos. – Nós deixaremos claro quando quisermos que você manifeste a sua opinião. — ele terminou, ríspido e direto.

Essa era a minha deixa para sair do suposto “momento de casal”, o que fora a minha meta, no começo do jantar. Como foi comentado aqui, eu tinha intenções iniciais de agir com magnânima dignidade e não cobrar mais atenção do que eu deveria receber em minha posição profissional. Entretanto, eu não gostei de ser descaradamente expulso da conversa e concluí que uma retaliação era necessária. Ah, então era assim? Aquele casal idiota teria o que merecia. Eu transformaria o V de Vash em V de Vingança!

Há, há! Eu dispunha de alguns meios para causar um desconforto na mesa e os usaria sem limitações!

O desejo do Vash era que eu não me integrasse a conversa e o do Rod era que eu prestasse atenção a ela.

Ok, ok. Se era a vontade deles…

Pelos vários minutos seguintes eu não busquei participar ativamente da conversa dos dois. Nesse tempo, o vinho, um pedaço de uma sobremesa de chocolate e três porções de ganso chegaram à nossa mesa. Eu fiquei calado, comendo o meu jantar e determinando o meu prato como centro da minha área visual.

Eu só realizei pequenas intervenções ocasionais no diálogo deles.

– Um dia desses, eu me encontrei com uma parente sua no supermercado. — o Vash comentou, iniciando um diálogo sobre tópicos pessoais. — Qual é mesmo o nome daquela sua prima que possui uma irmã gêmea com uma personalidade mais animada?

– Madeleine. — eu respondi, concentrando-me em mastigar meu ganso com mais força do que era necessário.

– … Por falar em parentes, eu estava comentando com a Lily que foi uma sorte conseguir que as madrinhas usassem vestidos da sua cor preferida. Violeta, certo?

– Anil. — eu corrigi.

Ocorreram cerca de quatro cenas desse tipo, antes que o Vash resolvesse que era hora de me cortar de novo.

– Você certamente aprendeu muito sobre o Roderich nesse período em que você ofereceu seus serviços. — ele comentou em tom sarcástico. – O que um cerimonialista precisa saber sobre o seu cliente? A sua música preferida? O signo? Tipo sanguíneo? Estação preferida? Musical mais assistido?

Eu poderia ter retrucado com uma observação implicante ou com uma menção orgulhosa a minha memória exemplar. Em vez disso, o que saiu da minha boca foi:

– O segundo concerto para piano do Rachmaninov. Escorpião. AB positivo. Outono. Fantasma da Ópera.

E por alguma razão, aquela resposta sincera e sem adornos foi muito mais impactante do que qualquer provocação que eu pudesse elaborar.

Quando eu me calei, notei o profundo silêncio que se seguiu a minha fala.

Essa não.

Eu havia passado da linha. Em termos metafóricos, eu não estou falando de um deslize desastrado que nos leva a acidentalmente ultrapassar alguns centímetros da linha. Eu estou falando do deslize de um piloto de fórmula 01 que atravessa a linha em um carro de corrida sem freios.

Droga. Droga. Tudo porque eu me esqueci, por um momento, do meu lema para aquela noite. Implicâncias e provocações à parte, eu era o cerimonialista do Roderich. O cerimonialista! Um profissional contratado.

Quando um cerimonialista entra em uma competição de quem possui mais conhecimentos sobre um dos cônjuges com o seu parceiro, é natural que se conclua que há algo de errado por ali. Principalmente se esse cerimonialista ganha a competição.

Era provável que eu houvesse transmitido uma mensagem inapropriada e não sei qual de nós três ficou em piores lençóis. Não era culpa do Rod que eu houvesse memorizado uma infinidade de informações sobre ele, e eu não agi de forma correta ao expor meus conhecimentos para o noivo dele, como se estivesse o desafiando. Essa atitude minha poderia causar impressões inteiramente erradas. Todos nós tínhamos motivos diversos para ficarmos transtornados com o que acontecera.

Mas a minha maior e imediata preocupação foi com o Rod.

Quando ergui meus olhos, o jovem mestre estava encarando a mesa fixamente.

Fixamente. Como se estivesse se concentrando para enxergar através dela. Havia uma determinação tão vívida na direção do seu olhar… Era como se ele estivesse observando o único objeto do mundo. Quem sabe ele desejasse que aquele fosse o único objeto do mundo. Eu não duvidaria. Havia algo de estranho com o Rod.

Um brilho peculiar e ansioso em torno das suas pupilas dilatadas. Um discreto tremor percorrendo a extensão do seu corpo. Eu posso garantir uma coisa a vocês… Naqueles seis anos, eu havia noticiado e memorizado dezenas de variações nas expressões do jovem, porém eu nunca vira aquela. Eu não tinha a menor noção do que estava acontecendo na mente dele e isso me assustava. Fosse o que fosse, aquilo não podia ser bom. A respiração dele estava acelerada e os seus ombros estavam tensos. Sem contar que ele estava se esquivando com insistência de me encarar diretamente. Eu quis e falhei tantas vezes em me comunicar silenciosamente com ele, que já estava prestes a colocar a minha mão no queixo dele e voltá-lo para mim, em uma tentativa brusca de compreender o que ele estava guardando dentro dos seus olhos.

Eu estava apavorado porque, vamos ser honestos, eu tive muitas brigas com o Rod, mas nunca uma briga séria! Aquele era o semblante irritado dele quando ele estava bravo de verdade? Quão chateado ele estava? Quão ferrado eu estava? Droga. Droga. Droga.

– Ei, Rod. — eu tentei chamar a atenção dele, apanhando o seu braço. Para o meu choque, ele praticamente saltou da cadeira quando eu encostei nele. Não posso negar que foi um senhor tapa na cara ver quão rapidamente ele se desvencilhou de mim. Eu não faço ideia se consegui disfarçar o flash de dor e confusão que acertou o meu rosto.

Bom, pouca diferença teria feito se eu houvesse o camuflado. Mesmo levantado, o Roderich continuou a me evitar e o seu perfil estava voltado para o outro lado.

– Eu vou me retirar para o toilet. — ele anunciou apressado, com uma agitação contida e perturbadora em seus modos. – Com licença.

Eu e o Vash fomos abandonados, naquela mesa, como dois náufragos solitários em um bote salva-vidas.

Nós ficamos ali, remexendo os nossos talheres em desconforto e silêncio, pois o que falar em um momento desses?

Urgh… Na verdade, havia algo a se dizer. Era difícil reconhecer, mas não dava para negar que eu era o culpado pelo desastre naquele jantar. A minha vingança se concretizara e eu não estava nada feliz com as consequências dela. Eu precisava consertar o meu estrago.

– Escuta, Vash. — eu me voltei para o lado dele, transmitindo, pela primeira vez em meses de serviço, muita seriedade e profissionalismo. – Você fez uma admissão difícil e eu sou muito nobre para deixar de retribuí-la, então eu vou confessar… — eu inspirei e expirei, inspirei e expirei. Como aquilo era incômodo para mim. Urgh… — E-Eu estava irritado por estar sobrando nessa mesa, contudo não quero que você pense que eu estou buscando ofender você ou sugerir coisas estúpidas. A minha memória infalível é uma das minhas múltiplas qualidades. — eu argumentei, buscando reduzir o dano causado por mim. – Eu decorei informações sobre o Rod, como eu decoraria sobre qualquer um dos meus clientes. É o meu trabalho, sabe. Para um cerimonialista, isso não é uma proeza ou uma novidade. Nós investimos um bom tempo em tentar acatar os gostos de um noivo, portanto nós sempre terminamos conhecendo um pouco mais sobre eles do que o necessário. Imagine no caso do Roderich, alguém que eu tive que agradar três vezes! Realmente não houve nada demais no que eu falei. Eu só estava querendo importunar vocês.

Pronto, eu havia feito a minha parte, então, seguindo-se a minha explicação, eu comecei a aguardar pelo ataque do Vash. Ele era um especialista em ser cético e um profissional na arte de se ofender. Eu não previ, de forma alguma, a serenidade que ele demonstrou no lugar das minhas estipulações. Ele não veio para cima de mim, com acusações ou interrogatórios. Ele ficou em um brando silêncio reflexivo e ponderou bem na sua escolha de palavras.

– Eu compreendo. Eu não estou bravo com você. — ele respirou fundo, com os olhos fechados, e se a sua nova expressão não era a descrição da alegria e da amistosidade, ela era bem menos defensiva e hostil do que eu estava habituado. – Eu reclamei da sua petulância quando poderia receber uma acusação idêntica. Realizar que eu conheço tão pouco da pessoa com quem estou prestes casar… É assustador.

De repente, o meu peito preencheu-se de empatia pelo indivíduo à minha frente.

– Nah, você fará um bom trabalho. — eu sorri vagamente, olhando para o fundo do meu prato. – O jovem mestre não é fácil de se decifrar. Eu fui contratado três vezes para concretizar as vontades dele e ainda poderia criar uma wikipedia com as minhas dúvidas. — eu ri brevemente, agitando minha cabeça. – Vocês se reencontraram há pouco tempo. É normal que você tenha muitos detalhes novos a aprender sobre ele. Se você preservar a sua curiosidade e fascínio, estou certo de que você irá compreendê-lo gradativamente.

O Vash possuía seus defeitos. Ele era atrapalhado e um pouco insensível em relação aos sentimentos alheios. Ele era ranzinza, a coleção de armas dele era o tópico mais chato do mundo e ele tratava a sua irmã de quinze anos como se ela tivesse nove. Mas ele estava verdadeiramente apaixonado pelo jovem mestre.

Ele era apenas um noivo desorientado tentando se mapear na complexidade aristocrática de Roderich Eldestein. Eu conseguia me solidarizar com a situação do pobre coitado.

– Obrigado. — ele deu o início de um sorriso. – A sua provocação estúpida abriu os meus olhos.

– Disponha! Eu estou aqui para isso! – eu respondi radiante, sentindo uma melhora considerável no meu humor. – Além de algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul, provocações estúpidas e revelações são itens fundamentais na organização de um casamento!

Eu mal havia terminado minha última linha, quando o jovem mestre voltou à mesa, com um semblante grave e se possível, mais abatido do que antes. Ele estava péssimo. Pálido, exausto, com pouco humor e muito ressentimento.

Notando o seu estado, eu desejei mostrar o mais rápido possível como tudo estava resolvido, para tranquilizá-lo e devolvê-lo aos seus usuais moldes estoicos. Eu nunca gostei de ver o Roderich chateado.

Especialmente, quando o seu nível de chateação parecia estar envenenando nossa comida lentamente.

– Bom, agora que eu e o Vash liberamos nossa tensão sexual, vamos discutir sobre questões mais profissionais. — eu declarei, esticando minhas mãos para flexionar os meus braços em um único movimento, soltando as últimas tensões no meu corpo.

Essa foi a minha maneira de informar “Ei, ei! Eu controlei a situação, Rod! Você pode relaxar! Você pensa que eu faria uma piada sexual com um cara que tem uma coleção de armas de fogo se nós estivéssemos minimamente intrigados? Pois é! Não subestime a minha sensatez absoluta e suprema, jovem mestre! Está tudo resolvido. Vamos aproveitar a noite e superar esse incidente!”, o que era o meu plano para o resto do jantar.

– Eu já aluguei um salão de festas para o ensaio da valsa de vocês e providenciei um pen-drive com mais de cem opções de música. — eu prossegui, muito satisfeito comigo mesmo e confiante de que se o jovem mestre não ficasse animado(o que era super-mega-provável e nada alarmante, pois ele raramente estaria assim em qualquer cenário que não envolvesse um piano), ao menos, ele retornaria ao seu nível de mau-humor padrão dentro de instantes. – Amanhã, vocês iniciam os ensaios para a dança dos noivos.

– Espere um pouco. — o Vash franziu a testa, com estranhamento. – Não está um pouco em cima da hora para a escolha da música?

Há! Eu havia previsto que eles teriam essa apreensão, mas eu estava guardando um trunfo na manga! Um trunfo??? Eu estou sendo modesto! Eu tinha um super-trunfo, um ás e um xeque-mate na manga!

– Esse é o melhor momento possível para os ensaios. — eu garanti com um entusiasmo flamejante que me levou a erguer os meus braços, meu queixo e os cantos da minha boca, com os gestos de um mágico prestes a impressionar o seu público. – Tcha-ran! Eu estou ciente de que a escolha da valsa é a sua parte preferida em toda a organização, aristocrata, então eu programei o nosso cronograma para deixá-los mais à vontade no período dos ensaios. Tudo bem, tudo bem! Você pode chorar de emoção! Não se contenha, jovem mestre! O encerramento da maior parte do trabalho de vocês é a principal razão de estarmos comemorando aqui. O resto é comigo. Vocês só precisam vestir seus ternos, subir no altar, não esquecer seus votos e dar uns amassos na frente do juiz de paz. Cuidado para não confundirem a ordem!

Na minha mente, eu estava ouvindo o som de bilhares de aplausos e aguardando os sons de admiração eterna do Guilhotina e do Rod como um simples, mas significativo plano de fundo.

– Você deve ser o pior e o melhor cerimonialista do mundo. — o Vash reconheceu com um sorriso tão pequeno que passaria despercebido a um observador com menos experiência.

– Obrigado, Artilharia! Eu ignorarei o início confuso e, provavelmente dito em um delírio febril, da sua frase! – eu respondi animado, voltando-me em seguida para o jovem mestre, expectativamente. – E quanto a você, Rod? Alguma palavra de gratidão eterna ao incrível eu?

Aquela surpresa era dirigida ao Roderich! É óbvio que eu estava mais ansioso quanto à resposta dele!

Ele me retribuiria com uma admissão tímida de que eu era o cerimonialista mais incrível do universo? Com um emburrado juramento de colocar o meu nome no seu primeiro filho adotivo? Com um silêncio perplexo de profunda reverência? O que ele ia responder? O que ele ia responder? Eu estava tão empolgado. Eu tinha certeza de que as suas próximas palavras e ações fariam com que meu esforço para arranjar tudo aquilo valesse à pena! Eu adorava observar quão engraçado ficava o jovem mestre quando ele estava mais feliz do que tinha coragem de admitir. Eu queria ver a cara dele ao me agradecer! Por mais que fosse constrangedor para ele, o Rod definitivamente reconheceria que…!

– Eu preciso agradecê-lo por fazer o seu trabalho? – ele indagou neutro e impassível.

… Essa não era forma como eu estava esperando que ele reagisse à minha surpresa. Ele mal se deu ao trabalho de erguer seus olhos da mesa para falar comigo. O aristocrata não era o sinônimo da alegria ou da gratidão. Eu não estava presumindo que ele fosse dar pulos de alegria e dançar em cima da mesa ao ouvir as minhas novidades – por mais épica que seja essa imagem. Entretanto, aquela resposta era simplesmente fria. Eu pus bastante empenho para conseguir organizar o nosso calendário daquela forma e a reação dele não exibia o menor registro de consideração pelos meus esforços. Para ser mais exato, ele estava tão irascível, naquela hora, que causava a impressão de que teria sido melhor que eu não houvesse organizado nada para ele.

– Eu vou substituir a sua interrogação por um ponto de exclamação arrebatado, jovem mestre. — eu retorqui com sarcasmo e péssimo humor, fechando a cara. Eu me inclinei para frente dele e despejei minhas últimas palavras de forma lenta e agressiva, como se estivesse prestes a cuspi-las na cara dele.- Disponha. Sempre.

– Roderich, não há necessidade de tão ser severo com ele… — murmurou, hesitantemente, o Artilharia, receoso demais quanto àquela recém-revelada porção glacial do seu noivo para ser mais firme em sua defesa.

Que irônico.

O Vash era a pessoa com um dos menores graus de intimidade comigo e quem mais costumava me desaprovar, mas foi ele que me defendeu da hostilidade profunda, silenciosa e irredutível do aristocrata.

Por razões não compartilhadas abertamente conosco, após a saída do Roderich para ir ao banheiro, ele se tornou cada vez mais taciturno e obscuro. A única coisa que eu poderia deduzir era que ele estava chateado comigo por colocá-lo em uma posição delicada em relação ao seu futuro marido. Todavia, era um pouco complicado entender a força da ofensa dele e era especialmente difícil assimilar o que estava o mantendo mal-humorado, quando o próprio Guilhotina já tinha feito as pazes comigo. Sério, eu não estava compreendendo nada. Ele estava apenas sendo rancoroso ou havia um ponto ali que eu estava perdendo?

De todo modo, ele não me dirigiu uma palavra e não tornou a me olhar diretamente pelo resto do jantar. Bem-feito para mim.

____________________________________________

Notas finais
Continua...