Notas iniciais
Olá amores, tudo bem? Demorei dessa vez né? Minha nova rotina me consumiu, muita responsabilidade e treinamento, aprender um novo trabalho não é nada fácil. Adaptar-me foi pior ainda. Para somar: queriam me mudar para uma área que não tem nada a ver comigo e me separar de minha chefe com quem tenho uma amizade muito forte, seria um martírio. Gosto de minha equipe e do meu trabalho, fiquei muito mal com isso. Argumentei que se estou fazendo um bom trabalho mereço ficar no local em que estou vendo meu esforço valer à pena, e não recomeçar do zero. Além de não querer seguir na área que queriam me colocar... Foram dias difíceis, fiquei triste mas por sorte tudo acabou bem. Meu esforço foi reconhecido, pois tenho trabalhado muito, recebi gratos elogios e as coisas parecem ter voltado ao normal. E como estou bem novamente, vim postar ERD porque não esqueço de vocês um dia sequer. Para compensar a demora estou trazendo capítulo duplo! Aproveitem o clima de amorzinho dos casais, comentem muito, que logo postarei a parte dois. Ela será bem pesada e não sei qual será a reação de vocês, mas espero que gostem! Ah sim: Muito obrigada Lunista Crowler, sua diva, por ter recomendado essa fic! Beijo no seu coração! Tive um treco na mesa do almoço e chamei atenção de todo mundo, nem ligoooooo! Fiquei muito feliz, obrigada! AVISO: esse capítulo contém cenas de violência sexual. Expresso desde já meu repúdio a esse tipo de atitude. A cena faz parte de um contexto da história, facilmente identificável, que resulta de uma escolha do personagem. Corações prontos? Boa leitura!

Abriu um imenso sorriso e não resistiu àqueles braços abertos que o recepcionaram. Apertou Sasori junto ao peito, sentindo-se criança ao ter os cabelos beijados.

– Como estão meus queridos? — Sasori piscou, segurando o rosto do loiro, passando os dedos pelas marquinhas de raposo.

– Nós três estamos bem! — Naruto ria, travesso, deixando o outro confuso. Fitou os dois irmãos Uchiha que conversavam um tantinho mais afastados.

– Quer dizer você, Sasuke e o bebê? — pareceu entender — Fico feliz com isso.

– Não mesmo — o sorrisão aumentou — Contando com Sasuke somos quatro!

O tempo que levou para piscar foi o mesmo que o fez processar a informação.

– Você está...? — não precisou aguardar confirmação ante ao riso sapeca do loiro e encheu bem o peito para exclamar em alto e bom som — Gêmeos!!! São mesmo gêmeos, Naruto?

– Um menino e uma menina!

– Um casal!!! — virou-se ao esposo que os fitava intrigado — Itachi, Naruto terá gêmeos!!! E são um casal! — a euforia dele era tão contagiante que apertou o loirinho contra si, rindo satisfeito.

Itachi volveu o olhar incrédulo ao irmão.

– Isso é sério?

– É fácil entender pelo tamanho daquela barriga — riu de lado.

– Então eu estava mesmo certo.

Sasuke não respondeu porque Sasori parecia tão feliz como se ele próprio se descobrisse pai de gêmeos. Isso o deixou aliviado, afinal ainda lembrava o estado lastimável em que ele se encontrava quando perdeu o bebê, depois do acidente de Itachi. A Aiko que viria de Naruto não substituía sua criança perdida, mas amenizava a perda certamente.

Sentiu algo se aproximar do rosto e por instinto virou para ver de que se tratava, bem a tempo de receber o costumeiro e irritante peteleco em sua testa. Itachi ria satisfeito.

– Meus parabéns, Sasuke — a mão que lhe dera o peteleco deslizou pela bochecha, afastando delicadamente a franja longa — Tenho certeza de que será um ótimo pai.

Sasuke ficou sério. Sua mão subiu à que estava em seu rosto, cobrindo-a.

– Itachi?

– Hm?

–... Sei que você será também — baixou o rosto, muito envergonhado -... Sei disso... Porque cuidou de mim e, bem... Se eu posso ser um bom pai agora, é porque você me ensinou como.

Obviamente que Itachi estava surpreso com isso, o que o deixou imóvel por alguns segundos, apenas fitando o irmão mais novo que estava corado como nunca, sem encará-lo diretamente.

Sorriu em seguida. Conhecia Sasuke muito bem, por ter sido quem o criou desde bebê. Era o jeito dele de dizer que não se preocupasse, pois logo seria pai novamente. Era maneira que encontrou para dizer que sentia muito pela perda de Aiko.

E Itachi percebeu todas as entrelinhas imediatamente.

–... Obrigado — puxou o menor que não teve tempo para pensar e quando deu por si, estava debruçado sobre o irmão em um abraço. Fechou os olhos, aspirando o cheiro costumeiro dele, trespassando os braços e o abraçando de volta. A sensação de paz era absoluta, como se no interior daquele abraço nada pudesse atingi-lo nunca.

Um tanto distante, Naruto suspirou aliviado ao ver os dois.

Ainda se lembrava do semblante desolador de Sasuke no dia em que o levou pela primeira vez ao hospital em que Itachi estava internado. Podia lembrar como os olhos do namorado pareciam desfocados e perdidos por não saber se o irmão despertaria algum dia. Naquele momento entendeu que Itachi era o pilar de sustentação de Sasuke.

E exatamente por isso estava feliz em ver que estavam juntos de novo, o modo como Sasuke se comportava perto dele era completamente diferente do homem sério e decidido que conhecia.

–-

Naquela noite, o silêncio usual foi quebrado por um ruído do lado de fora. Preocupado, Itachi seguiu a passos lentos em direção ao jardim. Para sua surpresa Sasori estava ali, acocorado, remexendo no jardim, as mãos sujas de terra. Estranhou o fato, porque o esposo normalmente cuidava do jardim com muito cuidado.

–... O que está fazendo?

Ele se virou, com uma expressão serena no rosto.

– Encerrando algo importante — concluiu. Itachi pôde perceber a terra revirada ao redor da rosa favorita do ruivo, esta replantada em um vaso.

– Essa não é...?

Ele assentiu que sim.

– E o que pretende fazer?

– Vou levá-la em um lugar seguro.

– Tem certeza? Eu sei o que essa rosa significa para você.

– Minha Aiko não vai voltar — admitiu tristemente — Mas saber que a Aiko de Naruto terá um irmãozinho me faz relaxar. Ela não estará sozinha não é? — sorriu sincero, e em seguida voltou a colocar terra no vaso em que plantou a grande rosa vermelha, cujo botão ainda estava fechado -... Se pretendo ser um bom pai algum dia preciso me desligar do passado, superar o que aconteceu e começar de novo. Vou amar minha Aiko para sempre, mas preciso deixá-la ir.

O Uchiha entendeu.

– Quer que a plantemos em algum lugar em especial?

– Vou plantá-la no jardim da universidade, junto às demais. Um jardim imenso cheio de roseiras é muito melhor que deixá-la sozinha aqui não é?

– De fato — sorriu e passou a mão pelos cabelos de fogo — Você vai ficar bem?

Ele fez que sim com um movimento rápido de cabeça.

– Vou sim.

– Então vou entrar. Me avise se precisar de algo — Decidiu deixá-lo sozinho, voltando ao interior de casa. Pouco antes de entrar ele vira o rosto e diz travesso — Se teremos outro filho eu gostaria que fosse menino dessa vez.

Um arrepio passou pelo corpo do ruivo.

Era melhor começar a montar um enxoval azul porque se Itachi havia dito, não tinha dúvidas de que seria exatamente assim.

– Um menino, hein? Isso seria bom...

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Não conseguiu brigar com ele, não quando sorria feito um idiota.

Naruto estava deitado na estreita cama de solteiro de seu antigo quarto que usava na casa dos pais antes de decidir morar sozinho. Acabou se alojando nele durante o tempo que restava para que o apartamento ao lado, comprado por Sasuke, ficasse pronto.

Passava as mãos na barriga redonda, sorrindo bobamente enquanto a alisava. Desde que soube que teria gêmeos parecia muito mais feliz que antes. E talvez por causa disso Sasuke não conseguisse brigar com ele para ir dormir de uma vez.

Estava assentado ao lado da cama do loiro, sobre um colchão colocado no chão limpo, forrado com uma colcha macia. Se alguém lhe dissesse há algum tempo atrás que chegaria ao ponto de dormir no chão, apenas para ficar com quem gosta, desacreditaria. Era algo impensável a alguém tão rico. Mas, pensando bem, qual o problema? Era agradável. Suspirou, tirando a camiseta e ficando só de cueca.

E pensar que foi impossível dizer "não" ante à euforia dos pais de Naruto ao se descobrirem avôs de gêmeos, que acabou cedendo e aceitando o convite de dormir na casa deles. Ficou desconcertado, mas não conseguiu evitar aqueles benditos olhos pidões.

Droga de Uzumakis! Agora sabia de onde Naruto herdara a incrível habilidade de persuadi-lo a fazer tudo que queria. O casal estava tão eufórico, abraçando-o sem cerimônia alguma, que não conseguiu negar.

– Sasuke...? — tirou o moreno de seus pensamentos, fazendo-o olhar para si. Era uma vista e tanto observar o Uchiha sentado entre as cobertas, apenas de cueca, o lindo dorso exposto.

– Hm?

– Você acha que estou ficando gordo?

Arqueou uma sobrancelha.

– Que conversa estranha é essa?

– É sério. Se você não notou ainda eu estou ficando... Rechonchudo!

– Isso porque está grávido. O que esperava?

– É que não ando me sentindo muito atraente. Fiquei pensando se você não vai se cansar de mim.

– Que besteira — largou-se no colchão, as mãos detrás da cabeça, uma das pernas dobradas — Não acho que esteja menos atraente, Naruto.

– É que eu andei lendo algumas coisas... Tem gente que não consegue voltar ao peso normal depois de dar à luz... E imagina se esse for o meu caso e eu ficar bem gordo ou barrigudo! Você é tão bonito, pode ser que não me queira mais.

– Então talvez eu te troque por um garoto mais novo e sarado se é o que você quer.

Levou uma travesseirada no rosto em resposta.

– Droga Sasuke! Eu estou falando sério!

O Uchiha tirou o travesseiro do rosto, a carranca pior do que nunca.

– Como pode ser a sério essa bobagem?

– Olhe pra mim! Estou virando uma bola! — baixou os grandes olhos azuis, a boca envergada de tristeza — Nem me reconheço mais no espelho!

– Isso porque tem duas crianças crescendo dentro de você, Naruto. É natural que elas precisem de espaço.

– Mas não quero que você deixe de gostar de mim por causa disso.

Oh céus, os benditos hormônios que o faziam dramatizar tudo!

Sasuke suspirou, endireitando-se no colchão. Da altura em que estava precisava olhar para cima para fitar o céu nublado dos olhos dele.

– Eu não vou deixar de gostar de você, ainda mais por estar grávido.

– Eu ouvi histórias de caras que ficaram com asco dos namorados grávidos e os abandonaram. Não quero que o mesmo aconteça com a gente.

– E não vai — pacientemente aproximou-se, apoiando a cabeça no joelho dele — Não vai acontecer conosco.

O loiro observou a cabeça deitada em seu joelho. Não resistiu à tentação de passar as mãos pelos sedosos e macios fios negros, penteando-o com os dedos.

– Acha mesmo que não vai acontecer com a gente?

Sasuke entreabriu os olhos, porque os havia fechado com aquele dedilhar preguiçoso que o enchia de sono.

– De minha parte não, pode ficar sossegado — passava distraidamente a mão pela batata da perna do loiro, sentindo-a mais rechonchuda que o normal — As coisas estão bem entre nós. Nosso apartamento estará pronto no fim de semana e vamos nos mudar.

– Acho que quando as crianças crescerem não teremos muito espaço de sobra. Talvez tenhamos que procurar uma casa maior.

– Não será problema.

– Quando elas estiverem no colegial talvez eu esteja velho e cansado. E quem sabe careca!

O moreno não aguentou e soltou um riso abafado, imaginando a careca lustrosa do loiro velho e enrugado.

– Não ri que pode acontecer o mesmo com você!

– E se eu ficar careca vai deixar de gostar de mim?

– Claro que não!

– Então pare de fazer drama — ergueu o rosto e apoiou o queixo no joelho ossudo, sorrindo matreiro.

Naruto torceu o bico.

–... Eu só não quero que me ache feio.

– Acho que você está lindo assim — piscou, estupidamente fofo — Vou sentir saudades quando a gravidez terminar.

O loiro corou, mas sentiu-se muito grato.

Batidas soaram à porta e Sasuke deitou-se rapidamente, cobrindo-se com o edredom.

A cabeça ruiva de Kushina surgiu pela fresta da porta.

– Sasuke meu bem, fique à vontade! Desculpe por não termos uma cama confortável para você.

– Assim está ótimo, mas me sinto sem jeito de dormir aqui. Estou sendo um incômodo.

– De modo algum, querido! Naruto precisa de companhia, e os bebês também! E passaremos a noite fora, então precisamos que cuide bem dele — riu maliciosa e em seguida virou-se ao filho, com cara de ordem — Durma cedo! E trate de comer bem amanhã de manhã. Precisa cuidar de você e dos bebês.

Ele resmungou em resposta.

– Eu sei disso...

– Tem comida feita, nada de comer miojo!

– Aff, eu sei me cuidar! — rolou os orbes, largando-se na cama — Vá de uma vez, mãe!

A ruiva ainda passou um sermão de cerca de dez minutos sobre o loiro ter de ser responsável por conta das crianças que esperava e teria continuado se Minato não tivesse vindo e a arrastado para fora, rumo ao tal jantar de negócios que haviam agendado, para prospectar um novo e importante cliente.

A última luz da casa se apagou, fazendo o quarto mergulhar num profundo e agradável silêncio. Cada um ficou deitado em seu leito, em companhia de seus próprios pensamentos.

–... Sasuke?

– Hm?

– Posso ficar aí?

– Não prefere a cama? Mesmo que esteja confortável aqui não quero que durma no chão.

– Não me importo — riu sapeca, chutando as cobertas e descendo da cama, os pés afundando no colchão. Tateou no escuro o corpo do namorado, empurrando-o de leve. O colchão era bem maior que o de sua cama apertada, cabia os dois perfeitamente. Sasuke ergueu o braço, deixando que ele deitasse a cabeça loira em seu peito, a mão descansando na curvatura da barriga.

Fecharam os olhos, as pernas enroscadas. Um barulhinho gostoso de chuva aumentava aos poucos, os pingos cada vez mais fortes batendo na janela, o vento ressabiando. Não demorou muito até que Naruto percebesse o braço em volta de si afrouxar, e a respiração de Sasuke se tornar profunda, típica de quando caía em sono pesado, vencido pelo cansaço. Beijou seu peito de leve, se aconchegando melhor e pouco tempo depois caiu num sono tão pesado quanto o dele.

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Era bastante desconfortável e nenhum dos dois dizia nada.

Gaara pigarreou, para tentar iniciar uma conversa.

Desde que havia sido flagrado por Naruto em uma cena "comprometedora" com Menma, na casa de Tsunade, eles ainda não haviam se encontrado.

E talvez por tal motivo estivessem tão desconfortáveis.

–... Então... Você está esperando gêmeos — tentou iniciar um assunto qualquer, porque era óbvio o motivo de estarem constrangidos um com o outro.

– Hein? Ah sim, estou! — recuperou o sorriso, porque os gêmeos o enchiam de alegria — Um casal de uma vez só! Devo ser muito sortudo!

Assistiu o sorriso sincero dele, imaginando o que queria dizer com "ser muito sortudo". Se recebesse a notícia de que teria gêmeos provavelmente enfartaria.

Por isso diziam que cada pessoa via as coisas de maneira diferente.

– Então, seu relacionamento com Sasuke parece estar indo bem.

– Ah sim. Ele é mal humorado, perfeccionista e muito irritante, mas eu realmente o amo — admitiu, com o imenso sorriso de raposo, que desarmava qualquer um.

– Deve ser realmente agradável, estar com uma pessoa de quem gosta muito — acabou dizendo sem perceber e o loirinho entendeu de imediato.

– Ahn senhor Sabaaku... Há algo que gostaria muito de saber, mas não encontro um jeito de não ser indelicado e...

– O que viu aquele dia não foi mero acaso. Seu primo e eu... Estamos mesmo saindo — admitiu, volvendo o rosto para baixo por conta da vergonha, desacreditado que estava mesmo contando isso à Naruto. O Uzumaki por sua vez piscou algumas vezes, olhando em várias direções, sem saber o que responder.

Ah, que desconfortável!!! Como poderia falar sobre relacionamentos com o chefe introvertido que nada fazia além de gritar com ele o tempo todo???

– Sei que deve ter se perguntado o que havia entre nós desde que nos viu aquele dia.

– Ah... Na verdade não... Eu só... Torci muito pelo Menma. Ele é idiota e sem noção, mas parece gostar de verdade do senhor... — apertava as mãos sobre os joelhos -... Estou feliz que estejam juntos.

Um novo silêncio esmagador, sem se encararem.

–... Creio que a papelada já esteja pronta e poderá pegá-la com Ino no RH — desviou do assunto, porque não seria capaz de prosseguir.

– Ah sim, obrigado! — ficou aliviado por encerrar aquela conversa tão estranha. Levantou-se e antes que deixasse a sala virou brevemente — Espero que dê certo dessa vez, senhor Sabaaku. O senhor parecia muito sozinho — sorriu sincero, antes de deixar a sala.

O ruivo pareceu surpreso demais para argumentar.

–... Muito sozinho, hein? — largou-se na cadeira, murmurando para si mesmo.

Talvez fosse exatamente assim que se sentiu por um longo tempo...

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A vontade de terminar depressa e ir logo para casa se esvaiu porque, obviamente, o povo todo do trabalho quis conversar e saber mais sobre sua gravidez, fazendo do horário do almoço uma grande festa. O refeitório estava cheio e o barulho era imenso.

– Eu ainda não entendo essas coisas de homem grávido — Kiba não se decidia se mastigava ou conversava.

– Isso porque você é um idiota — Menma retrucou de volta.

– Quieto Naruto-Negro, estou falando com o verdadeiro Naruto!

O "verdadeiro Naruto" pareceu impaciente.

– E o que tem para entender?

– Que nem todo homem fica grávido, oras!

– Porque eu sou compatível, Kiba! O que queria que acontecesse?

– Quer dizer que se usasse camisinha você não engravidaria?

Naruto ficou extremamente vermelho e quem estava na mesa desatou a rir da pergunta inocente e inconveniente.

– Droga, Kiba!

– Ué, que foi? Eu não perguntei por mal — deu de ombros — Mas e aí? Como é estar grávido?

– "Como"? Ah, bem eu estou feliz. Sasuke também parece radiante.

Ino suspirou.

– Ele não perde tempo em serviço não é? Fez logo dois filhos de uma vez.

Mais risadas, e mais vergonha ao pobre loirinho.

– Vamos, deixem o Naru em paz. Ele é tímido! — Menma bagunçava-lhe os cabelos — É tão bonitinho esse jeito de casal apaixonado deles.

– E você, Menma? Não está apaixonado também? — a loira arqueou a sobrancelha, deixando-o sem graça.

– Talvez — deu uma piscadela.

– É homem também?

– Óbvio, Kiba. Eu sou gay, lembra?

– Ah é... E sempre soube que gostava de garotos? — indagou como se fosse uma coisa muito natural e ninguém ligou, porque ele era assim mesmo.

– Soube quando beijei o primeiro garoto da minha vida, que por sinal foi o Naruto — riu feito raposo e o loirinho engasgou com a comida.

– MENMA!!!!

– Que foi? É a verdade.

– Mas a gente era criança, droga!

– Não muda o fato que descobri que preferia ficar com garotos quando beijei você — sorriu sacana.

– Essa é boa! Então você gostava do Naruto??? — Kiba se interessou pela fofoca.

– Oh não, só o achava bonito. E a gente fazia de tudo junto então comecei a pensar que queria beijá-lo. Mas depois disso ele não quis mais tomar banho comigo e...

Levou um safanão na cabeça de um loiro indignado, foi a vez de Kiba resmungar.

– Não atrapalha, Naruto. Agora que a história está ficando boa.

– Vai se ferrar!!! E você Menma para de desenterrar meu passado ou vou fazer o mesmo com o seu!

Diante disso ele ergueu as mãos em sinal de rendição.

– Tá bom, parei. Nada de irritar vocês três — piscou se referindo ao loirinho e seus dois bebês — Olha só pra mim, sou tio de gêmeos! Onde estão meus dois lindinhos? — alisava o barrigão do loiro — Vou encher vocês de doces quando seu pai disser que não.

Naruto suspirou com isso. A seu lado, a pequena Hyuuga timidamente toca o tecido da camiseta, para sentir de leve a barriga saltada.

Se o loiro descobriu algo ao ficar grávido era que pessoas não resistiam à barriga de gravidez. Já se acostumara ao fato de que sempre teria alguém para passar a mão nela.

–... Você está mesmo esperando dois bebês, Naruto? — indagou baixinho.

– Estou! — sorriu tão amplamente que poderia iluminar uma cidade inteira — Um casal! Daisuke e Aiko! E antes que me pergunte, Kiba: vão nascer de cesárea, ok?

O rapaz riu junto.

– E eu ia perguntar mesmo.

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Respirou fundo e engoliu bem forte. Sabia que se controlar era sua única opção. A vontade de fugir era grande, mas se manteve firme o quanto conseguiu.

Por mais que tivesse especulado em sua mente, vivenciar os fatos à flor da pele era completamente diferente. Não conseguiu prever que ficaria tão nervosa, tão aflita. E isso a fez se arrepender, mesmo que só um pouco, da escolha que fizera. Teve vontade de desistir de seu plano, de dizer que não queria mais prosseguir naquilo, de voltar para a segurança de seu lar. Já nem sabia dizer se a vingança valia o alto preço a ser pago.

Sakura encolheu-se na cadeira, os ombros tensos, as mãos se entrelaçando sem parar.

Quem era o tal homem que lhe seria apresentado? O que podia esperar dele, e o que esperaria dela?

Como seriam suas vidas dali para frente?

Evitava olhar em direção ao sofá, pois sabia que o patriarca dos Uchiha a observava minuciosamente. Ao lado dele estava um advogado tão impassível que mais parecia uma estátua parte da decoração. O silêncio reinava absoluto na imensa biblioteca da mansão Uchiha, o que contribuía para aumentar o nervosismo da garota.

Ao ouvir os passos que se aproximavam Sakura retesa o corpo, percebendo que seu caminho não tinha mais volta, que deveria seguir em frente se desejasse se vingar, se quisesse destruí-los.

Ergueu o rosto e endireitou-se no sofá de veludo vermelho, agitando os cabelos para trás do corpo. Não importava quem fosse o escolhido, mesmo se fosse um homem velho, de aparência repugnante, nada disso era importante. Eram apenas detalhes se, com isso, obtivesse sua vingança sobre Naruto e Sasuke! Aqueles dois malditos que brincaram sem piedade com sua felicidade, que roubaram seu momento mais precioso! Faria com que pagassem por tudo, certamente!

A porta da biblioteca se abriu e Sakura prendeu o ar por um instante, nervosa como estivera poucas vezes antes em toda a vida.

O estranho adentrou o recinto e por um momento ela achou que fosse algum tipo de brincadeira. Desviou o olhar incrédula ao patriarca que sorria cínico, até mesmo debochado, apoiando o rosto em uma das mãos. O homem deteve-se diante dela e um calafrio percorreu seu corpo. Os olhos fixaram nas íris muito negras, como a de qualquer Uchiha.

Nem acreditava na sorte que tinha!

Aquele homem era bem bonito. Claro, nem se comparava à beleza surreal de Madara e seus netos, mas mesmo assim estava longe de ser uma pessoa comum. Não era muito alto, e a barriga era um tanto saliente na camisa. Os cabelos não eram tão sedosos e negros como dos demais, puxavam ao castanho escuro, fruto da mistura de genes. Compridos e presos em um rabo de cavalo baixo. Suas feições lembravam a descendência Uchiha. Era bonito, mesmo com todos os defeitos.

Dadas as circunstâncias, casar-se com um homem daqueles era como ganhar um prêmio de loteria!

O homem não sorria, e seus olhos escuros estavam repletos de frieza enquanto a analisava de alto a baixo. Remexeu as mãos no bolso, esboçando uma arrogância típica.

– Então você é Sakura Haruno...?

Ela assentiu e estendeu a mão pequena para cumprimentar seu futuro marido que nem se incomodou em ignorá-la, virando-se ao patriarca.

– Fui bem claro quando disse que não aceitaria qualquer mulher, quanto mais uma com cabelo cor de chiclete.

O sorriso no rosto da garota desapareceu, substituído por uma carranca desagradada pela ofensa.

Madara riu pelo nariz.

– É pegar ou largar. Todos saem beneficiados neste negócio. Você terá mais direitos na hierarquia, se aceitar sustentá-la é claro. Há algo importante que quero desta mulher.

– Acho que estou investindo muito e tendo pouco retorno — torceu os lábios, pouco convencido. Ainda olhou de soslaio o corpo magrelo com curvas pouco acentuadas.

– Acha "pouco retorno" ter acesso à benefícios que somente um Uchiha de quarta geração tem, em troca de se casar com ela?

– Estamos falando de dividir minha casa e meus bens!

– Fique à vontade, mas se recusar continuará na parte mais baixa da hierarquia Uchiha para sempre. Em seu lugar qualquer um pensaria muito bem antes de mandá-la embora.

– É magra demais!

– Isso é problema seu. Se te desagrada, posso simplesmente fazer a mesma proposta a outro Uchiha. Não será difícil encontrar um que a aceite.

–... Tsk...

Sakura baixou o rosto e encrespou os lábios.

Era nojento... Eles a tratavam como um pedaço de carne sem o menor valor.

Mas não importava, nada mais importava. Aceitaria ser tratada como lixo se com isso pudesse se vingar.

Madara riu ante a reação da garota. Não era tão segura de si quanto havia dito.

–... Conforme me pediu senhorita Haruno — iniciou uma conversa sarcástica — Hikaku é um homem de negócios com muitas posses e que está à procura de uma jovem para formar uma família, visto que é divorciado e não teve filhos.

A rosada torceu o lábio em uma expressão enojada. A boa impressão que tivera do homem ruiu em segundos. Ele agora fitava sem a menor reserva o decote em sua blusa, analisando o volume.

– É a melhor escolha que tem para mim?

– Em sua posição acho que não pode me exigir nada. Se não aceitar, não farei a menor questão.

Mentalmente Sakura praguejou tão alto que as sobrancelhas se juntaram de ira. Respirou bem fundo antes de prosseguir.

Era provavelmente a coisa mais difícil que já fizera em toda a vida.

–... Onde eu assino? — quis terminar depressa aquela situação toda, porque se pensasse muito era capaz de desistir. Casar-se com Hikaku não seria nada fácil, podia sentir apenas pelos poucos minutos de conversa que tivera.

– Vamos devagar — Madara fez sinal ao advogado e este estendeu um documento à ela — Antes quero que assine um contrato comigo.

– Um contrato? — inquiriu, cautelosa.

– É assim que funciona no mundo dos negócios — desdenhou brevemente do intelecto dela — É uma medida de precaução.

– E posso saber de quê?

– Bem, temos um acordo ainda não formalizado. Eu permito que se case com Hikaku e adentre o clã Uchiha, desde que possa me apresentar provas contundentes da traição de Sasuke.

– Já lhe disse que tenho fotos, vídeos, mensagens de texto, o que mais precisar. Não entendo onde o contrato entra nessa história.

– É apenas uma prevenção de que não vai se separar dele até que o tempo estipulado por mim se cumpra. E que não fará nenhuma estupidez como a de tentar se casar com um Uchiha de nível superior, algo que poria em risco a soberania do sangue puro — deu de ombros — Mera burocracia. E devo frisar que Sasuke está terminantemente proibido à você, mesmo que ele não expresse vontade alguma de tê-la por perto.

A raiva que a garota sentiu a fez estufar bem o peito ossudo.

Não a admirava que aquele homem que a humilhava sem fazer questão alguma fosse patriarca dos Uchiha! Era óbvio que a arrogância era parte daquele maldito clã!

– Meu desejo é separar Sasuke de Naruto. Seria muito mais provável eu querer reatar com meu ex noivo do que me envolver com Sasuke!

– Quanto à Naruto a senhorita pode fazer o que quiser. Ele é apenas um empecilho que desejo eliminar o quanto antes. Já Sasuke é peça fundamental em meu tabuleiro — passava as longas unhas pelo entalhe de madeira do sofá..

– Então basta que eu lhe dê o que quer e posso assinar essa droga de contrato, não é? — cansada daquele jogo ela vasculha sua bolsa pequena. Os olhos bem treinados do Uchiha se divertiam imaginando quão barato poderia ter custado aquele pedaço de plástico que ela chamava de couro. Sakura então joga pela mesa de centro uma imensa quantidade de fotos recém reveladas. Em todas elas era possível ver Sasuke ao lado de pessoas diferentes. Beijos, abraços, sorrisos maliciosos, bebida, farra, festas... O teor das fotografias era inquestionável.

Não bastasse isso, colocou sobre a mesa cd's etiquetados com conversas gravadas pelo celular, áudios coletados durante o tempo em que trabalhou com Sasuke. Vídeos rápidos gravados na surdina pelo celular.

–... Sua obsessão por meu neto é no mínimo curiosa. Achou mesmo que algum dia conseguiria ficar com alguém como ele?

– E por que não? Sasuke ficava com qualquer um — ao perceber o olhar dele sentiu ainda mais raiva. Ele não precisava dizer nada para que a rosada entendesse o quanto ele a menosprezava.

– Suas malditas provas estão aí. O que mais você quer?

– Desde que esteja ciente das regras e assine o contrato, podemos terminar essa conversa imediatamente.

Sakura devolveu o olhar arrogante, pegando a caneta com um gesto brusco, mas a mão tremia e suava.

–...E o que acontece se eu, por acaso, desobedecer o que está descrito nesse contrato?

– Acho que até mesmo a senhorita é capaz de imaginar o que a espera se decidir me trair.

Definitivamente ela sabia, e isso a fez engolir em seco.

Estava se metendo em algo muito perigoso, provavelmente sem volta.

Mas não desistiria. Sasuke devia sofrer pela humilhação que a expusera. E Naruto precisava sentir a dor de ser abandonado, exatamente como ela havia sentido.

E ainda sentia.

Convicta disso coloca mais firmeza entre os dedos e assina o documento, passando-o à Hikaku ao seu lado que assinou sem fazer mais questionamentos. Vários documentos referentes ao casamento em cartório, à mudança de nomes, sobre direitos de posses e patrimônio.

Enquanto assinava cada um daqueles papéis a jovem não conseguia evitar pensar tristemente na preparação de seu casamento com Naruto, na felicidade que a invadiu ao procurar o melhor local para a cerimônia, experimentar seu vestido de noiva, planejar a imensa festa repleta de convidados... Ainda podia lembrar da emoção de caminhar ouvindo a marcha nupcial, sendo o centro de todos os olhares. A ideia de um grande casamento, como o de um conto de fadas povoava sua mente desde menina. Sempre sonhou com tal dia, ansiava sentir o frio na barriga ao fitar seu noivo no fim do tapete vermelho, esperando para selarem votos e juras de amor.

Virou-se de esguelha e tudo que recebeu de seu novo marido foi um muxoxo impaciente para que assinasse de uma vez. A ideia majestosa e romântica sobre seu casamento se desfez em questão de segundos.

Nada disso era necessário agora, era apenas uma fachada, um termo burocrático. Não se tratava de um casamento de verdade, e sim de um mero contrato.

Engoliu em seco ao se lembrar de Sasuke, e das circunstâncias que o levaram à casar-se com Karin de forma muito semelhante. Descartou o pensamento de imediato, não era hora para sentimentalismos, e sim de focar em seu objetivo maior.

Aproximar-se de seus alvos para destruí-los lentamente.

–-

O caminho todo foi um completo silêncio, o que lhe deu tempo de observar o relógio um tanto caro no pulso de seu novo marido, bem como a camisa de boa qualidade.

O radio permanecia desligado, o motor silencioso do carro contribuía para a quietude esmagadora. Hikaku a ignorou quando tentou puxar assunto, sem sentir o menor remorso por isso.

"Que tédio de homem!" — pensou desgostosa. Ele não era feio, não poderia ao menos ser um pouco mais... Atraente? Eram casados agora, nada impedia que passassem alguns momentos agradáveis a dois.

Sorriu matreira. Teria tempo de conquistá-lo. Bem sabia do que aquele tipo de homem gostava, era questão de tempo até lançá-lo a seus pés.

Não demorou muito até que parassem na garagem da casa de Hikaku, localizada nos limites do bairro Uchiha, já próximo de áreas menos nobres, mas nem por isso menos significativas.

Ela gostou do que viu. A casa era grande, de pintura nova, escada suntuosa. Adoraria descer os degraus daquela casa em um vestido novo, sapatos caros, enquanto seu motorista a aguardava na garagem.

Seu reinado de glória estava apenas começando!

Subiu as escadas à frente, empolgada, sem se importar com a saia justa e minúscula que provavelmente exibia mais que o necessário ao homem que subia detrás dela. Ao empurrar a porta da sala virou-se ao esposo, com um radiante sorriso no rosto.

Mas não durou muito ante à feição estranha que ele exibia.

Hikaku a observava de cima à baixo, sem cerimônias, analisando cada pequeno detalhe do corpo muito magro da jovem de cabelos rosados. Era um olhar tão estranho, tão inquietante, que sentiu-se desnuda, devorada.

Disfarçou e intentou seguir aos demais cômodos para conhecer melhor a casa. Porém foi segurada com força em demasia pela cintura fina, puxada até que colasse o peito no do homem diante de si. Ele ainda a encarava com aquela face fria e enigmática.

Sakura estremeceu e fez força para empurrá-lo, sem sucesso.

– Me solta — pediu irritada, tentando afastá-lo dela, ainda mais quando as mãos dele começaram a subir por seu corpo.

– Posso saber de que está fugindo?

– Não pode me tocar quando bem entender! Eu tenho vontade própria!

Devagar, Hikaku desceu a manga da blusa que ela vestia, revelando o ombro mirrado.

–... Posso fazer o que eu quiser com você — os olhos faiscaram e ele sorriu cruel — Eu a comprei, esqueceu? Você é obrigada a me obedecer porque me pertence.

Diante disso os olhos dela se abriram de surpresa.

– Não mesmo! Agora acho bom me soltar ou então...

– O quê? Vai tentar me impedir? Eu sabia que você não estava prestando muita atenção ao que lia, por isso assinou tudo tão depressa.

Sakura fez uma expressão confusa, o que o fez rir mais ainda.

– Nosso contrato é bem claro no que diz questão às posses. Tudo que possuo passa a ser seu , mas como você não possui nada de valor que possa me interessar, o preço pago é com seu próprio corpo.

Sakura piscou várias vezes, ainda sem acreditar.

Maldito seja Madara!

– Eu não vi cláusula alguma que dissesse tal besteira! — tentou em vão defender-se — Agora me solta!

– Você assinou os documentos de livre e espontânea vontade. Ninguém te obrigou a absolutamente nada. Acho justo consumar o que acordamos há pouco.

Ela não quis ouvir, nem cogitar tal hipótese. Fez força para se livrar, mas isso aumentava o sorriso no rosto de seu dominador.

Ele gostava de vê-la relutar, se divertia assistindo-a tentar fugir. Quanto mais resistia, mais o excitava. O desespero que aos poucos surgia tingindo o pálido rosto dela, a seu ver, era o que a deixava ainda mais bonita.

Sentiu nojo dele enquanto a tocava sem pedir, e raiva de si mesma pela maneira como desnudava seu corpo com grosseria, como usava de força para subjugá-la abrindo sem pudor algum a blusa fina que vestia, deixando à mostra a renda rosada do sutiã.

Naquele momento sentiu algo desagradável, algo que fugia do controle e a fazia esquecer de todo o resto.

Sentiu medo dele. Muito.

"Pare com isso!!!" ressoava em sua cabeça, mas sua voz desapareceu, morta na garganta. Tremeu, a ponto de engasgar, de não saber o que fazer.

Não o queria! De forma alguma!

Teve vontade de vomitar quando o sentiu apertar a carne dos seios entre as mãos, quando passou a língua pelo pescoço, ou o modo que enfiava a mão por dentro de sua saia. Soluçou e o arranhou para se afastar. Para sua total surpresa recebeu um murro na face esquerda, forte o bastante para perder o equilíbrio e cair sentada, zonza.

Ergueu o olhar indefeso ao homem frio que a olhava como se valesse pouco mais que alguns centavos. Seu estômago girou.

Por apenas um segundo, e sem que quisesse entender por quê, lembrou-se de uma cena familiar.

Hikaku a olhava como ela mesma olhara Naruto, no dia em que ele agonizava em uma poça de sangue, lhe pedindo por socorro. Sabia que naquele exato momento estava esboçando à Hikaku uma feição idêntica à do antigo noivo.

Como se suplicasse por socorro!

E isso a incomodou mais do que podia suportar. Colocou-se no lugar exato de Naruto naquele instante.

–... Acho melhor ficar quietinha, porque terei problemas se alguém ouvir alguma coisa.

A raiva, a dor e a vergonha que seguiram a fizeram esquecer de qualquer outra coisa, incluso o motivo que a motivou a seguir um plano tão descabido.

Era um preço estupidamente alto a se pagar. A vingança ficou em segundo plano quando pensou por longos e infindáveis minutos que adoraria desaparecer, para que aquele toque desprezível cessasse, para que não chegasse a tal ponto.

Porque nem mesmo a sensação de vitória e trunfo sobre Sasuke e Naruto valiam o preço de ser violentada por ele. Naquele breve instante, Sakura chorou amargamente pela escolha que havia feito.

E isso apenas fez seu ódio crescer ainda mais.

–-

– Seja paciente, ele ainda está bastante confuso — Sasori advertiu Deidara enquanto adentravam os portões de sua casa. Fazia tempos que não entrava ali.

– Relaxa, eu sei que ele passou por muita coisa, mas isso vai mudar quando a gente tiver uma longa conversa. Você vai ver.

Sasori sorriu aliviado.

– Me tranquilizo que você esteja lidando bem com essa situação. Achei que quando soubesse que Itachi não se lembra de você fosse surtar.

O loiro deteve-se no meio do jardim e fitou o mais baixo com o horror estampado na face.

– O ITACHI NÃO SE LEMBRA DE MIM??? Mas como pode isso? Eu sou inesquecível!!!

– Menos Deidara, por favor.

– Vou quebrá-lo de porrada até ele se lembrar — avançou a passadas duras pelo jardim em direção ao assoalho. Sasori bufou impaciente e o seguiu, antes que fizesse alguma besteira.

– Ô Itachi! Se estiver pelado acho bom colocar uma roupa porque não quero ver nada do que está aí! — advertiu, entrando pela casa sem a menor cerimônia. Vasculhou os cômodos até que encontrou o Uchiha assentado no sofá da sala, lendo um livro. Os olhos negros se ergueram à ele, para então piscar.

Itachi ficou parado no mesmo lugar, fitando curioso o jovem parado à sua frente.

Deidara por sua vez fez uma carranca enorme e seguiu até o sofá, sentando ao lado de Itachi, cruzando os braços.

– Só pra você saber: estou feliz que esteja bem, Ita, mas isso não é desculpa para se esquecer de mim!

Itachi piscou algumas vezes, fechando o livro.

– Mas eu me lembro de você, Deidara — riu. A expressão embasbacada do loiro era deveras divertida.

– Mas... Mas a anta do Sasori me disse que você não se lembrava de mim!

– Olha como fala comigo! — o ruivo retrucou, indignado.

– Calado, Danna!

Itachi não ligou para a discussão boba, lembrava deles assim desde sempre.

Bastou postar os olhos nele e soube quem era no mesmo instante. E foi exatamente por conta do loiro escandaloso diante dele que conhecera Sasori, conseguia recordar perfeitamente do dia em que o vira pela primeira vez.

–-

Olhou o relógio de pulso pela milésima vez desde que saiu de casa e a reação era cada vez pior.

Estava atrasado. Muito mesmo!

Sasori corria desesperado pelas ruas movimentadas em pleno horário de pico, esbarrando em algumas pessoas pelo caminho, pedindo licença. Era tão baixo que desaparecia na multidão que faltava pisoteá-lo.

Como pode esquecer o horário? Faltava menos de meia hora para o início de sua primeira aula como professor, era um dos dias mais importantes de sua vida!

Bem, na realidade era sua primeira data feliz em muito tempo, já que sua vida andava um caos completo. Fazia pouco tempo que seus pais haviam morrido em um trágico acidente de carro, deixando-o sozinho no mundo. Não tinha família naquele país, nenhum parente estava presente no terrível momento do sepultamento. Precisou arcar com toda a responsabilidade sozinho, sem forças sequer para se manter de pé.

Foi terrível.

Nem teve oportunidade de dizer adeus a eles. Eram pais tão amorosos e atenciosos, não conseguia entender tamanha injustiça, eles não mereciam.

E, como se não bastasse, havia terminado há pouco um longo relacionamento que tivera com Pain. O amargor de ser traído ainda o corroia lentamente. Sasori jamais esqueceria o olhar dele ao ser pego com outro, na cama que dividiram tantas vezes.

Nunca o perdoaria, mesmo que o amasse muito. Preferia enterrar o que sentia no profundo da alma, num lugar inacessível. Jamais dera motivos para ser traído, pelo contrário! Sempre foi um namorado exemplar. Cuidou de Pain, o respeitou, entregou-se por completo a ele. Não via motivos para tamanha falta de caráter!

Expirou bem forte, tentando esquecer a bagunça que se tornara sua vida. Agitou a cabeça, correndo afoito pela cidade, preocupando-se apenas em chegar no horário, antes que a universidade fechasse os portões.

Tão afobado estava, tão cheio de perturbações em sua mente nem percebeu o modo como as pessoas paravam na calçada e que somente ele avançava pela guia em direção à rua, olhando para os próprios pés, sem perceber o sinal prestes a se fechar ou ouvir as vozes afobadas que advertiam que se detivesse e voltasse, antes que algo de grave lhe acontecesse.

Quando se deu conta do que sucedia sentiu um frio súbito na espinha, o som alto da buzina, a luz do farol, o veículo em movimento. Somente teve tempo de cerrar os olhos bem forte, aguardando o doloroso impacto, o pânico invadindo todo o corpo, deixando-o imóvel e inerte.

Mas, antes que sentisse a batida seu corpo foi puxado para trás, com tanta força que tropeçou, tudo girando diante de seus olhos, o vento rápido em seu rosto e cabelos quando o veículo passava a milímetros de distância. Foi acolhido por braços ao redor de seu corpo, amortecido pela queda e ouviu um gemido em resposta. Quando tocou o solo viu o céu nublado, algumas pessoas que os olhavam com descaso, murmurando algo sobre imprudência e total falta de atenção.

Sasori não se importou porque ainda estava anestesiado pelo susto. Piscou algumas vezes, percebendo que o corpo debaixo do seu se remexia devagar, voltando ao normal.

Só então percebeu onde estava e o que estava fazendo. Sentiu tanta vergonha que quis morrer, ainda mais ao fitar as mãos ossudas e grandes que o seguravam na altura da barriga.

Eram sem dúvidas as mãos de um homem.

–...M...Me desculpe! — agitou-se no colo dele, já esquecendo que estavam em público. Meio sem jeito vira o corpo para encarar de frente seu salvador.

E frase alguma se formou naquele instante, nada mais fez sentido. Soube que fez uma expressão muito idiota porque percebeu-o se espantar levemente. Esqueceu de tudo, incluso que estava deitado no peito dele, caído na calçada no meio da multidão.

Engoliu, porque até então estava de boca aberta.

O homem debaixo de si o fitava intrigado, com seus lindos e puxados olhos negros, contornados por cílios longos e volumosos. Os lábios pouco rosados, carnudos, estavam entreabertos de pura surpresa. O nariz era fino e arrebitado, a pele muito macia, mas tão pálida que dava impressão dele estar doente. Cabelos negros muito brilhantes desciam em uma franja longa e bagunçada, amarrados detrás do pescoço. Vestia um longo casaco e havia um cachecol vermelho enrolado no pescoço.

Era muito bonito, muito mesmo!

Este piscou para umedecer os olhos secos pelo susto, e para olhar direito a pessoa sobre si, um rapaz completamente incomum. A começar pelo fato de ser tão baixo que cabia em seus braços perfeitamente. O rosto redondo, boca pequena, cabelos muito rebeldes em tom vermelho intenso.

E o mais intrigante, o que não fazia com que conseguisse desviar o olhar: aquelas íris em tom rubro como sangue, como fogo líquido. Nunca vira nada parecido antes.

O farol mudou de verde a vermelho e as pessoas que presenciaram a cena de segundos atrás seguiram seu caminho, perdendo interesse nos dois que ainda se mantinham abraçados no chão, aparentemente alheios à tudo em redor.

–... Você está bem? — a voz muito grave ressoou no ar, trespassando o corpo pequeno de Sasori. Ele assentiu que sim com mais força do que deveria, apoiando as mãos no chão, ao lado do corpo dele, para então se levantar.

– Sim, estou. Me desculpe mesmo! — mal conseguia olhá-lo nos olhos, que vergonha! Ao invés de ficar admirando-o devia ter se levantado logo que teve chance!

– Está tudo bem — ele riu, sentando-se e amarrando devidamente os fios de cabelo que escapavam do elástico. Em seguida se levantou e agitou o pó de suas roupas.

– Eu não queria... Sinto muito por isso — estava muito desconcertado. Ajeitou como pôde os cabelos, irritado com aqueles fios cheios de frizz que não assentavam nunca! Queria parecer bem, ao menos naquele momento.

– Não tem problema, estou feliz que esteja bem. Aonde ia com tanta pressa?

Sasori piscou algumas vezes e em seguida arregalou os olhos de pavor.

A universidade!

– Minha aula!!! — exasperou-se, ajeitando as roupas e apanhando a mochila caída no chão, vendo se nenhum pertence seu caíra durante a queda. Fitou desgostoso o semáforo verde, sem menção de mudar de cor para que pudesse atravessar e correr.

– Está indo para a universidade que fica perto daqui? — o jovem moreno piscou algumas vezes, sem entender.

– Sim! Eu tenho aula e estou muito atrasado!

– Pode tentar avisar seu professor que vai chegar um pouco mais tarde. Não creio que haja problema...

– O professor sou eu!!! — respondeu esbaforido. Olhou para os lados e atentou-se à escadaria que levava a uma passarela, o caminho mais rápido se quisesse atravessar a longa avenida e chegar à tempo para a primeira aula.

Sem hesitar sai correndo, deixando o outro atônito para trás.

– Obrigado! — exclama enquanto corre, quase esbarrando em outra pessoa ao olhar para trás, arrancando risos do moreno com isso.

Itachi permaneceu parado enquanto o via se afastar.

Aquele rapaz era bastante peculiar. Talvez achasse isso por estar acostumado a lidar com pessoas metódicas, e um tantinho frívolas. Ver alguém tão cheio de vida e espontaneidade era divertido.

Um pequeno arrependimento tomou seu peito.

Deveria ao menos ter perguntado o nome dele.

Sasori corria até que a garganta ardesse, quase sem fôlego. Só então um estalo cruzou sua mente e assustou-se, virando-se para trás no alto da passarela. Vasculhou com os olhos entre a multidão, mas não encontrou ninguém.

Havia esquecido de perguntar o nome daquele rapaz... Era possível que não o encontrasse novamente, e nem tivera tempo de agradecer devidamente.

Uma leve tristeza tomou conta dele por conta disso.

–-

Dias, semanas se passaram desde então. E Sasori nunca mais tornou a vê-lo. Em seu íntimo sentia-se triste e desanimado.

Aquele pequeno encontro deixou uma impressão tão forte nele que mesmo depois de passados os dias ainda desejava reencontrá-lo. Talvez a vontade de agradecer fosse muito grande, afinal havia salvado sua vida.

Ou talvez não fosse exatamente esse tipo de sentimento que tivesse.

Segurava no apoio de ferro do trem em movimento, chacoalhando devagar de um lado para outro. Fitava seus pés enquanto a mente viajava para longe.

Mesmo que tentasse distrair sua mente não conseguia pensar em outra coisa que não aquele homem, e o procurara todos os dias entre a multidão, sem sucesso.

Lamentava estar tão atrasado aquele dia. Não tivera tempo de pensar direito, quem sabe pedir o número de celular ou ao menos saber o nome do estranho que povoava seus pensamentos. Era triste admitir, mas provavelmente jamais o veria de novo.

A ideia parecia um tanto triste. Poucas vezes na vida alguém mexeu tanto assim consigo, a ponto de trocar poucas palavras e já se sentir tão impactado. Era um rosto de certa forma familiar, será que já o havia visto antes?

Uma freada nos trilhos o fez escorar de leve na pessoa ao seu lado. Esta o cutucou.

– Está escutando o que estou dizendo, Danna? — o homem loiro a seu lado resmungou, mau humorado. Isso o fez despertar.

– Estou Deidara.

– Está coisa nenhuma!

Resmungou qualquer coisa e virou o olhar enquanto o amigo de infância tagarelava sem parar. Deidara podia falar por horas sem cansar nunca, mesmo depois de longo período em aulas. Sasori ao contrário só queria ficar em paz, na quietude de seus pensamentos, então fingia escutar o que ele dizia. Olhava distraidamente as pessoas assentadas, observando detalhes triviais como as roupas que vestiam, os livros que liam... Demorou-se admirando uma pessoa em especial, que parecia um tanto familiar...

Pasmou.

Seu coração disparou quando percebeu de quem se tratava. Retesou o corpo todo.

Ficou tão nervoso que era difícil controlar a emoção. Focou bem nele, para ter certeza de que não estava sonhando.

Impossível haver outra pessoa que lhe causava uma impressão tão forte. Era ele! Não tinha dúvidas quanto à isso!

Um sorriso tímido tomou os lábios do ruivo, era gostoso sentir o coração batendo feliz apenas por revê-lo, isso o encheu de paz, e nervosismo porque se deu conta de que o misterioso rapaz poderia descer a qualquer momento do trem em alguma estação próxima, e isso o faria nunca mais vê-lo outra vez...

Só de pensar ficou tão triste que seu coração apertou, dolorido.

Devia ir até lá? Talvez puxar algum tipo de conversa... Quem sabe pudesse agradecer pelo que lhe fizera...

Que bobagem, provavelmente ele nem se lembrava mais.

Mordeu o lábio inferior, tão nervoso que poderia desfalecer ali mesmo. Se fosse qualquer outra pessoa não se importaria, mas em se tratando dele queria fazer as coisas direito. Se o deixasse ir embora de novo com toda certeza sofreria, mas não possuía coragem o suficiente de ir falar com ele. Era um homem tão imponente, e não havia quem não olhasse para ele. Uma beleza simples e perfeita.

Deidara fez bico, sem entender a gama de reações estranhas do menor que estava tão vermelho que o rosto se fundia aos cabelos enquanto olhava nervosamente um ponto fixo ao fundo do trem. Volveu o olhar nessa direção, procurando com os olhos o que ele fitava tão intensamente.

Entendeu tudo no mesmo instante.
Havia um rapaz moreno sentado em um dos bancos mais afastados. Lia tranquilamente um livro sobre finanças, o que fez Deidara franzir a testa de desagrado. Odiava exatas! Era decididamente de humanas.
Volveu então o olhar à Sasori, percebendo o amigo esboçar uma tola expressão apaixonada, chegando a suspirar de leve, as faces vermelhas, os olhos desfocados e sonhadores.
Um sorriso travesso trespassou os lábios do loiro.
–... Ei Sasori, por acaso é aquele o cara de quem você tanto fala?
Ele assentiu, sem desviar o olhar. O sorriso de Deidara só aumentou.

– É bem bonito, hein? Isso que eu chamo de saber escolher bem um partido!

Sasori virou-se irritadiço, mas estava tão vermelho que era fofo de se ver.

– Só porque o acho bonito não significa que haverá alguma coisa entre nós.

– E por que não? Ele não tem aliança, logo não vejo por que não tentar.

– Consegue ver a mão dele à essa distância?!

– Mas é claro! O primeiro passo é descobrirmos se está disponível, não é? Por que não vai lá falar com ele?

– Oh claro, e dizer o quê? "Oi, sou o cara que quase morreu na sua frente esses dias e não consigo te esquecer então não quer sair comigo"? — desdenhou.

– Parece bom pra mim — respondeu sincero. Sasori suspirou com isso.

– É o que se espera de você.

O loiro não entendeu a provocação, porque era lerdo demais para isso.

– De qualquer forma devia se apressar, parece que ele vai descer na próxima estação — fez sinal, apontando em direção ao rapaz. Sasori imediatamente volveu o olhar e pareceu aflito e desesperado quando percebeu que o rapaz fechava o livro e se levantava do assento.

Ele desceria na próxima estação! Nunca mais o veria, nem teria a chance de agradecer devidamente!

Não sabia o que fazer. Queria muito falar com ele, se aproximar , impedir que partisse de novo. Essa poderia ser a última vez que se viam.

Seus olhos embaçaram de raiva de si mesmo. Não tinha coragem, seus pés nem se moviam do lugar!

O loiro assistia em silêncio o sofrimento do amigo idiota, certo de que era mesmo cabeça dura.

– Você complica muito as coisas, Danna. E acaba sofrendo depois. Deveria apenas ir até ele e...

Não pôde terminar, porque uma expressão de torpor o acometeu. Envergou o corpo, gemendo de dor e segurando blusa em cima do peito, no lado esquerdo, rangendo os dentes. Acabou por chamar atenção de quem estava por perto.
Sasori se assustou e imediatamente o acudiu.
– Deidara, o que você tem?
– Acho que tô tendo alguma coisa! — envergou mais o corpo, quase caindo ao chão.

Há está altura as pessoas no vagão prestavam atenção aos dois, murmurando afoitas, mas como de costume uma grande leva de gente curiosa, ninguém para ajudar. Sasori tentava em vão segurar o amigo, muito maior que ele mesmo.

– Deidara! — assustou-se com o modo como ele parecia sofrer e segurava a blusa do lado esquerdo do peito, sobre o coração. Teve medo de que fosse alguma coisa realmente séria. Ergueu os olhos procurando por ajuda em meio à multidão.

E então seu olhar encontrou com o do rapaz moreno em meio à multidão. Itachi os observava, parado próximo à porta. Quando o trem se deteve na estação ele deu espaço para as pessoas que desciam, desistindo de fazer o mesmo. Sasori ficou imensamente aliviado ao vê-lo se aproximar e segurar Deidara pelos ombros, livrando o pequeno ruivo de um peso muito maior que ele mesmo. Sentou o loiro em um banco próximo que foi gentilmente cedido por uma garota que se compadeceu (na verdade que não resistiu aos três homens charmosos diante dela). O loiro apoiava a cabeça entre as mãos.

Itachi baixou-se um pouco.

– Acha que consegue aguentar até a próxima estação?

Ele fez que sim, fracamente.

Foi a vez de Sasori se abaixar um pouco, sendo tão pequeno já estava um tanto próximo do loiro. Fitava-o preocupado, o que não passou despercebido aos olhos atentos de Itachi.

– Deidara... — fitava-o preocupado, péssimo por não consegui fazer algo para melhorar a condição do amigo estúpido e idiota. Olhou de esguelha e percebeu o olhar do moreno sobre si. Virou o rosto constrangido.

Era uma péssima condição para se reencontrarem. Em outras circunstâncias ficaria muito feliz por poder vê-lo de novo, por poder falar com ele, mas do modo como as coisas seguiam não sabia o que pensar, ou o que fazer. Tinha a total atenção dele, e nada inteligente lhe vinha à cabeça para dizer!

A estação seguinte não era tão longe, cerca de quatro minutos de silêncio constrangedor, uma eternidade para Sasori.

Quando enfim o trem parou na estação Itachi trespassou o braço do loiro ao redor de seu ombro, ajudando-o a sair e sentando-o em um dos bancos da estação.

– Quer um pouco de água?

– Não, acho que já to bem — murmurou, passando a mão pelo rosto. Respirava fundo, cansado.

Sasori não se convenceu muito disso. Deidara podia ser irritante mas ainda era como um irmão para ele. A única pessoa que lhe restara no mundo.

– Você está bem mesmo? Podemos ir ao médico se quiser.

– Já te falei que to legal, Danna.

Sabia que era um rapaz teimoso, que escondia o que sentia para não preocupar os outros, mas o percebia aos poucos tornar a respirar devidamente e isso o tranquilizou um pouco. Passado o susto, lembrou-se que Itachi ainda estava parado ao seu lado. Encarou-o, muito envergonhado, uma tremedeira súbita acometendo seu corpo.

–... Ahn... Obrigado.
– Não precisa me agradecer, mas seria bom levá-lo mesmo ao médico.
– Já disse que to bem — o loiro se abanava com uma das mãos.
– Para onde estavam indo?- Itachi quis saber.
– Para minha casa... — a voz quase não saía, estava tão nervoso! Era tão bom falar com ele, ter sua atenção, ouvir aquela voz maravilhosa.

– E aonde fica isso?

Apontou a direção, explicando debilmente o caminho mais próximo, uma vez que nem estavam tão longe assim. Itachi então tira um smartphone grande e caro do bolso, o livro que lia outrora apoiado debaixo do braço. Digita rapidamente uma mensagem, sob o olhar curioso do ruivinho.

– Chamei um táxi para vocês. Não deve demorar mais que alguns minutos para chegar aqui.

Sasori arregalou os olhos.

– Oh não precisa! Por favor, eu morreria de vergonha!
– Não tem problema. Não será bom para ele entrar em um trem abafado novamente, é melhor que voltem logo para casa.
Diante disso o ruivo não teve como negar.
– ... Você não tem obrigação alguma de nos ajudar. Eu mesmo poderia levá-lo.
Em resposta a isso o Uchiha sorriu de lado, provocativo.
– Nem pensar... Já sei que quando está com pressa faz coisas impensadas.
Sasori corou como um tomate, mordendo o lábio inferior com força.
Então ele se lembrava do que aconteceu naquele dia, quando quase foi atingido por um carro. Achava que houvesse esquecido.
–... Obrigado — entrelaçava as mãos, apertando os dedos um no outro — Eu queria te dizer isso por todos esses dias... Você sabe, por ter me salvado.
– Já lhe disse que não precisa me agradecer. Eu nem ao menos sei seu nome.
– Sasori...

O sorriso aumentou, lindo e destruidor. Um sorriso para fazer qualquer um desabar.
–... Sasori, hein? — piscou devagar — Sou Itachi, é um prazer.
Estendeu a mão grande e Sasori engoliu forte antes de apertá-la entre a sua, sentindo o quanto a palma era fria. Um arrepio gostoso cruzou seu corpo.
–... O prazer é todo meu.
– E esse rapaz? Acaso é seu namorado?

– Oh não!!! — negou rapidamente — Deidara é meu amigo de infância!
Um leve espasmo passou pelos olhos negros, quase imperceptível.
– É mesmo...? Achei que estivessem juntos.
O ruivo negou com a cabeça, rindo de volta.

– É mais difícil aguentá-lo do que você imagina, Itachi.

– Ei, eu to ouvindo isso Danna! — Deidara retrucou, enquanto trançava os longos cabelos para se livrar um pouco do calor causado pelo trem lotado e abafado.

Não demorou até que o táxi solicitado chegasse, talvez o tempo parecesse passar mais depressa por estarem em uma conversa fluída e despreocupada. O Akasuna não pôde deixar de notar a aparência impecável do moreno, o terno de boa qualidade, os sapatos de couro legítimo.

Mas por que um homem daqueles andaria de trem? Para evitar o trânsito? Talvez, não era tão incomum assim executivos fugirem das ruas congestionadas e recorrerem aos trens, mesmo que fossem cheios, pois lhes garantia uma volta rápida para casa.

Um pensamento desagradável surgiu em sua mente.

Um homem daqueles jamais iria querer algo com ele. Talvez fosse mais simples desistir de vez, ainda que tudo em Itachi o atraísse, ou que estivesse se afeiçoando a ele mais do que deveria.

Mesmo que a simples ideia de ir embora e não poder mais vê-lo o destruísse.

Este lhe sorriu, abrindo a porta do táxi para que entrassem.
– Nos vemos de novo amanhã?

Sasori pareceu confuso com a pergunta, ao que o outro prontamente respondeu.

– Você sempre pega o trem nesse horário não é? Já o vi muitas vezes.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios do ruivo. Ele ajeitou o cabelo nervosamente detrás da orelha.
– É sim...
– Então até amanhã. Cuide bem dele, e se cuide também — aguardou o ruivo se acomodar ao lado de Deidara e fechou a porta do taxi. Entregou uma nota de dinheiro ao taxista e nem esperou pelo troco, caminhando elegantemente em seu caminho. Sasori suspirou uma vez mais enquanto o observava se afastar. Expirou bem forte para se livrar da tensão conforme o veículo se deslocava pela avenida, em direção à sua casa.

Nem acreditava que teve uma conversa tão longa com ele! Era tão gentil, bonito e educado...

Recostou a cabeça no banco, sorrindo bobamente ao próprio reflexo no vidro. Percebeu quando Deidara se moveu e sentiu-se culpado por esquecer o amigo que não estava passando bem.

– Desculpe, eu nem perguntei se você está melhor.

Deidara então se vira ao ruivo com um sorriso imenso e travesso nos lábios.
– Caramba!!! Ele nem pegou o troco, deve ser bem rico! — empolgou-se.

Sasori piscou diversas vezes, cético ao perceber o que havia acontecido.
– DEIDARA!!! Você não estava passado mal?
– Hn, até parece... — girou os olhos nas órbitas — Se eu não fizesse nada você ficaria parado só olhando pra ele, sem coragem nem de se aproximar! E provavelmente nunca mais se veriam de novo.

– Não acredito que fez isso, seu imbecil! Eu fiquei preocupado de verdade!

– Isso porque sou um ótimo ator. E graças à minha genialidade ele veio conversar com você — deu uma piscadela desavergonhada — Considere como um presente! Um dia ainda vai me agradecer por isso.

Teve vontade de trucidar aquele completo imbecil, mas conhecendo-o bem era algo que Deidara normalmente faria. E mesmo que detestasse admitir estava grato pela atitude inconsequente. Acabou rindo.

– Você é um péssimo cupido! Não tinha maneira melhor de chamar atenção dele?

– O importante é que funcionou — largou-se no banco, as pernas bem abertas — E aquele trem tava mesmo um inferno, isso aqui é bem melhor!

– Pois me sinto culpado por fazê-lo pagar um taxi para nós.

– Relaxa, pelo visto não faz falta com a roupa cara que ele vestia. Qual o nome dele? Eu não consegui ouvir no meio daquele falatório.

– Itachi...

O loiro virou-se abruptamente, tanto que a franja loira deslizou, deixando os surpresos olhos de cores diferentes à mostra.

– Nem vem!

– É sério — suspirou — Sou mesmo um idiota, não? Quando ouvi o nome dele entendi na hora de onde o conhecia.

– Estamos falando "daquele" Itachi? Itachi Uchiha, o herdeiro da Uchiha Co? É uma empresa imensa de tecnologia da informação, Sasori!

– Não acredito que haja outro. Além disso ele tem a feição de um Uchiha — suspirou, fitando o teto do veículo — Ao menos pude falar de novo com ele, e agradecer pelo que me fez.

– Isso é muito incrível!!! Imagina a linda história de amor que os espera!

– Seu otimismo me comove, Deidara — repreendeu-o com o olhar — Nós não teremos uma história de amor, percebe? Eu não tenho a menor chance, não com um homem como aquele.

– Mas ele parecia visivelmente interessado, e sei que você também percebeu isso! Nem vem me falar que não notou o jeito como ele te olhava!

– Não quer dizer que eu tenha chances.

– E foi ele mesmo que disse que vocês podiam se ver de novo.

– Creio que por educação. Ele é um rapaz influente, rico e importante, Deidara. O que iria querer com alguém como eu?

– Bom, eu não sei se alguém também consegue fingir aquele brilho nos olhos. Ele pode ser tudo isso aí que você falou e ainda assim se interessar por você. Caso não tenha percebido ainda você é bem bonito, mesmo sendo um idiota.

Normalmente Sasori teria reagido e brigado com ele, mas estava tomado por uma sensação estranha, uma esperança descabida que gritava no peito, ignorando por completo a razão que dizia terminantemente para não se envolver com Itachi.

Já ouviu falar dos Uchiha, os viu em revistas e pela internet, algumas vezes chegou a vê-los na tv. Era um povo frio e muito arrogante. Admirava-lhe que Itachi parecesse tão encantador tendo vindo de tal família.

Seria muita inocência acreditar que aquela família arrogante o aceitaria de bom grado, que permitiria sua aproximação de Itachi.

Mas, estava tão atraído por ele... Tanto que assumir o risco não parecia uma ideia tão absurda assim.

–-

Como o prometido, no dia seguinte, Itachi já estava de pé no trem quando Sasori embarcou. Ao vê-lo abre um imenso sorriso, se aproximando devagar. Conversaram por pouco tempo, até a estação em que o ruivo desceria, para a universidade.

– Naquele dia você me disse que era professor, não é? — volveu o olhar para baixo, ficando de certa forma próximo ao rosto do ruivo que parou de respirar um momento.

Mas que droga, ele era tão bonito...

Demorou algum tempo até que despertasse, e isso fez o moreno rir.

– Ah, sou sim! — baixou o rosto, envergonhado.

– E leciona o quê?

– Literatura.

– Você parece jovem demais para ser professor.

– Me formei recentemente — observava com desgosto a estação já próxima, o trem parando.

Queria conversar mais...

– A que horas sua aula encerra?

– Às dez e meia, mas normalmente saio às onze da noite. Por que pergunta?

– Nada de mais. Tenha uma boa aula, Sasori — sorriu.

O ruivo não entendeu mas acenou brevemente, seguindo para fora do trem em direção às escadarias.

Durante a aula naquele dia, parecia absorto e feliz. Era difícil se concentrar. Mal podia esperar que amanhã chegasse logo, para poder encontrá-lo de novo...

O sorriso do Uchiha era tão encantador que passou o expediente todo forçando-se a tirá-lo da cabeça. Nem percebeu o tempo passar até que o sinal tocou, assustando-o. Via seus alunos deixando a sala e decidiu fazer o mesmo, juntando os pertences apressadamente na mochila, colocando-a nas costas e seguindo seu caminho para fora da universidade.

Caminhava entre alguns alunos, desagradado que fosse mais baixo que a maioria deles, até mesmo que muitas garotas. Queria ir logo para casa e tomar um bom banho para afastar o cansaço, e os pensamentos que não o deixaram em paz durante todo o dia.

Passou pelos portões principais, ouvindo um murmurinho de conversas de alguns jovens que apontavam sem parar, empolgados. Quando virou o olhar para ver de que se tratava quase teve um treco de tanto susto.

Itachi estava recostado no muro, os braços cruzados. Ao vê-lo abre um grande sorriso, se aproximando do ruivo, fingindo não notar os muitos olhares fascinados sobre si.

– Boa noite — sem pedir permissão tira a pesada mochila das costas do ruivo, carregando-a.

– O que faz aqui???

– Tivemos pouco tempo para conversar hoje, então vim buscar você.

Sasori sentiu-se flutuar ao ouvir isso, mas em seguida baixou o rosto, acompanhando os passos dele.

–... Acho que sua família não vai gostar quando souber que está andando com alguém como eu.

Foi a vez de Itachi se surpreender.

– Então já sabe quem eu sou.

– Difícil não perceber — ironizou — Só me pergunto o que um Uchiha faz andando em um trem lotado. Você poderia simplesmente pegar um taxi ou andar de carro.

Itachi enfiou as mãos nos bolsos, a mochila do ruivo balançando em suas costas.

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– Não gosto de depender de meu avô. Prefiro fazer as coisas do meu jeito. E além disso não há nada de ruim em andar de trem, afinal foi em um deles que conheci você.

Se queria matar o ruivo de vergonha estava tendo êxito! Sasori sentia que o peito poderia explodir!

– Seu amigo está melhor?

– Ah... Sim, está — desviou o olhar, incomodado de mentir, afinal tudo não passou de um grande golpe de Deidara.

– Fico feliz, você parecia muito preocupado.

– É porque Deidara é meu melhor amigo, e não tenho mais ninguém além dele — deixou as palavras escaparem sem nem perceber — Não tenho família, nem muitos conhecidos por aqui. Se o perdesse eu ficaria completamente perdido.

O moreno o encarava.

– E quanto a seus pais?

Ele mordeu bem forte e respirou mais devagar.

–... Faleceram, recentemente.

– Sinto muito.

– Não tem problema, não é como se eu não tivesse ciência disso todos os dias.Tenho estado sozinho há tanto tempo que de certa forma acabei me acostumando — encarava as ruas vazias, o vento gelado batendo no rosto, balançando os cabelos vermelhos — Se me perguntar por qual propósito vivo depois que perdi meus pais eu nem saberia responder. Nem sei se ainda sou capaz de viver para mim mesmo.

Itachi não soube dizer porque a visão do rapaz melancólico lhe pareceu tão bonita, só se deixou levar quando segurou-lhe o braço, impedindo-o de prosseguir em seu trajeto.

– Foi por isso que não se importou em avançar pela avenida com o farol fechado naquele dia? Por não se apegar à própria vida?

Ele não o encarou de volta.

– Não tenho grandes motivos para me manter vivo. Não faz diferença alguma para mim.

– Você certamente faria falta à muitas pessoas.

– Não consigo pensar em muitas agora — riu tristemente — Talvez Deidara, mas ele superaria em algum tempo, do mesmo modo que venho tentando superar a perda de meus pais. Penso que viver é um fardo muito pesado para carregar, e não sei se estou disposto a isso.

O Uchiha pareceu tocado com as palavras dele.

Já repetira palavras iguais diversas vezes, e ultimamente estava se tornando cada vez mais comum. Sua vida era um peso, despertar todas as manhãs uma obrigação, em que não havia o menor prazer. Nem mesmo seu irmão mais novo, Sasuke, estava por perto. O estavam doutrinando para a sucessão e isso os privava de se ver. Sem Sasuke a vida de Itachi se tornava bagunçada e vazia.

E não bastasse isso o pressionavam diariamente a se casar com uma jovem de quem não gostava. Izumi, uma Uchiha doce e bonita, mas por quem nutria somente uma forte amizade. jamais seria capaz de se envolver com ela, quem dirá de se casar com ela.

Mas, ao contrário, fitar os olhos vermelhos daquele estranho o fazia pensar em si próprio. Eram tão parecidos, tão desapegados da própria vida, tão cheios de cicatrizes e sofrimento. Sem nem perceber seus atos Itachi puxou o corpo magro para junto de si, a mão sobre os cabelos de fogo, a outra na cintura.

Sasori ficou imóvel, envergonhado e surpreso dentro do abraço. Teve vergonha do próprio coração que batia desesperado no peito, sabendo que naquele abraço tão apertado ele facilmente o sentiria.

–...Itachi!

– Vai ficar tudo bem — disse-lhe com a voz macia, dedilhando seus cabelos gentilmente.

Sasori acabou ficando inerte dentro do abraço, porque era morno e acolhedor.

– Percebei no dia em que te vi pela primeira vez. Seus olhos pareciam tristes, como se carregasse uma dor maior do que pode carregar, e acabei por me identificar com você. Somos mais parecidos do que pensa.

–... E um Uchiha teria uma dor tão grande assim? É difícil de acreditar.

Ele não respondeu, antes apertou mais o corpo pequeno de Sasori. Este se sentiu tão acolhido, tão acalorado que não pôde controlar as lágrimas que desciam no peito do homem que o abraçava. Ele não lhe disse mais nada, ou fez coisa alguma. Apenas esperou que Sasori chorasse o quanto queria, abraçado às suas costas, esvaziando toda a dor que as recentes perdas haviam causado em seu coração. A de seus pais, e o fim do relacionamento com Pain. Chorou até não restar uma única lágrima dentro dele.

E depois disso seus cabelos foram acariciados, o rosto seco com um lenço e ele o levou de volta para casa, respeitando seu silêncio. Quando o deixou em casa apenas tocou seu rosto, afastando os fios vermelhos que caíam sobre os belos olhos vermelhos.

Era tão parecido consigo mesmo...

– Se não puder viver por você próprio não há problema. Viva por mim.

– Como é? — achou ter ouvido errado.

– Até que seja capaz novamente de viver por você mesmo, até que se recupere de sua própria dor, viva por mim Sasori. Porque eu lamentaria perdê-lo, e sofreria se não estivesse mais aqui. Pode fazer isso por mim?

Ele ainda estava quente, surpreso e nervoso, mas assentiu rapidamente. Seria incapaz de negar-lhe qualquer coisa que fosse.
Itachi apenas sorriu e assentiu, murmurando um "até amanhã", com aquela linda voz.

Sasori fechou os portões do casarão em que vivia, caminhando pelo jardim imenso. Acendeu as luzes e fitou a imensidão daquela casa, que somente servia para lembrá-lo do quanto estava sozinho.

Deslizou até o chão, passando as mãos pelo rosto.

Estava ferrado, realmente. E tinha plena consciência disso. Bateu de leve a cabeça na porta, tentando acalmar seu corpo que estava agitado e eriçado.

Porque sabia estar sentindo algo muito forte por Itachi.

–-

Nos dias que se seguiram Itachi e Sasori se tornaram mais próximos, conversavam mais. Era quase um rito o baixinho sair da universidade tarde da noite e encontrar o Uchiha recostado junto ao portão, esperando-o para levá-lo para casa. Caminhavam juntos por cerca de dez minutos ou menos. Um tempo tão curto, mas que era muito aguardado pelo ruivo. Saber que poderia vê-lo todos os dias o motivava, o enchia de alegria.

Porque era óbvio que estava completamente apaixonado por Itachi.

Em uma noite em especial fazia muito frio. Sasori olhou desolado pela janela de sua sala de aula. Era próximo do horário de saída, mas óbvio que ele não o esperaria, não com um tempo daqueles.

Isso fez seu coração se partir em mil pedaços. Era sexta feira, então teria de esperar até segunda se quisesse vê-lo de novo. Era quase uma eternidade!

Saiu desanimado do prédio, erguendo um pouco a gola do casaco. O frio aumentou muito nas últimas horas, e não trouxera uma roupa mais quente. Esfregava as mãos uma na outra enquanto saía pelo portão principal.

E perdeu o fôlego ao vê-lo parado debaixo da cobertura, maravilhoso no casaco escuro, calçando botas negras. Ao vê-lo, Itachi abriu um daqueles maravilhosos sorrisos e se aproximou, elegante, os passos tão suaves que praticamente flutuava pelo chão. O coração de Sasori disparou sem controle dentro do peito, de euforia e satisfação enquanto ele se aproximava.

– Trouxe um cachecol. Hoje o frio está terrível — disse com aquela voz gentil, levemente rouca. Enrolou o longo cachecol vermelho ao redor do pescoço de Sasori, a cor fundindo com os cabelos. Ele reconheceu aquela peça no mesmo instante.

Era o mesmo que Itachi vestia no dia em que se conheceram.

Acariciou de leve a lã quente, um calor gostoso passando ao corpo. Ergueu timidamente os olhos ao Uchiha, perdendo-se naquelas íris negras.
–... Por que não foi pra casa?

– Porque teria de esperar até segunda para te ver de novo — respondeu simplesmente.

Os orbes rubros piscaram de emoção.

O que um homem maravilhoso daqueles havia visto em alguém tão sem graça como ele? Era óbvio que Itachi era um homem influente, importante.

Talvez estivesse apenas brincando consigo?

–... Não deveria dizer essas coisas tão levianamente.

– Estou falando sério. Eu queria te ver.

O menor fingiu coçar o nariz, apenas para desviar o olhar.

– É mesmo? E posso saber para quê?

–Realmente não conseguiu perceber ainda?

– Você não está respondendo minha pergunta.

– Tem razão. Creio que esta é a forma mais simples de te fazer entender.

Sasori volveu um olhar confuso a ele, mas foi surpreendido quando o percebeu se aproximar, a fumaça branca de suas respirações subindo ao ar ao passo que aquele rosto lindo chegava mais perto, o nariz tocando o seu, os cabelos agitados pelo vento roçando seu rosto. Nem se deu conta de quando os lábios gelados imprensaram os seus, porque estava entorpecido demais. Uma sensação quase sufocante explodiu dentro dele. Os olhos abertos e pasmos se maravilhavam com os olhos fechados dele e com o modo como sua boca se movia, entreabrindo devagar, o levando a fazer o mesmo. Segurou em suas costas, fechando os olhos por fim, se deixando levar e permitindo que a língua dele tocasse a sua.

Sonhou com aquele beijo por tanto tempo!

Esqueceu-se do frio, e de qualquer outra coisa. Somente se concentrava no sabor maravilhoso dos lábios dele. Quando se afastaram teve a certeza que estava esboçando uma expressão completamente indefesa e vulnerável, porque era exatamente assim que se sentia.

– Itachi...

– Gosto de você — disparou, sem reservas, com aquele olhar que levaria qualquer um à loucura.

–... Você é um Uchiha... E eu não sei praticamente nada sobre você.

– Isso não é problema. Responderei todas as perguntas que ainda tiver amanhã, se aceitar jantar comigo.

– Não sei se consigo gostar de outra pessoa de novo...

– E não vai se permitir tentar?

Ele se calou, volvendo o olhar para baixo. Itachi riu com isso.

– Dê-nos algum tempo. Vai perceber que eu não insistiria se não o quisesse de verdade.

– Eu só não consigo imaginar o que um homem como você viu em alguém como eu.

Foi surpreendido por um irritante peteleco no meio da testa e tocou o lugar, meio confuso.

– A pergunta é recíproca. Pergunto-me o que alguém como você quer com um Uchiha privado de liberdade como eu — segurou-lhe a mão e seguiu puxando-o enquanto conversava calmamente. A noite fria deixava as ruas ermas e sem vida. Sasori não conseguia processar nada depois de tanta informação.

Envolver-se com um Uchiha... Céus, estava preparado para namorar alguém assim? E sua família, seria possível que aceitasse a relação dos dois?

Fitou as costas largas sem saber direito o que pensar. Não se sentia pronto para enfrentar uma família tão tradicional. E temia perder Itachi por conta disso.

–-

Era o fim das lembranças de Itachi. Depois disso, mesmo que tentasse se lembrar, nada vinha à sua mente até o momento em que pedira Sasori em casamento, ou de quando descobriu que seria pai. As memórias se embolavam, completamente sem sentido, desconexas entre si. Demorou o olhar no atual esposo que discutia com um Deidara sorridente. Era impossível não pensar que eles não haviam mudado tanto assim desde que se conheceram.

E pensar que um dia se casaria com aquele jovem ruivo que tanto o cativou, a quem felizmente salvara a vida.

Não se importou com a falta parcial de memória. Lembrar-se de como conheceu Sasori e de que ainda se sentia daquela forma, mesmo tanto depois, lhe bastava. Esperaria calmamente até que fosse capaz de recuperar todas as memórias perdidas. Por hora, tinha tudo que precisava bem ali.

–-

Estava feliz que estivessem bem de novo porque sentia o amigo muito sozinho durante o tempo em que Itachi esteve hospitalizado.Eles eram um daqueles casais perfeitos de comercial romântico, foi o que sentiu quando deixou o casarão.

Mesmo não querendo, Deidara sentiu um tantinho de inveja. Desejava muito viver um grande amor como o deles. Seria muito feliz se pudesse encontrar alguém que gostasse dele tanto assim.

Caminhava de volta para casa, as mãos enfiadas nos bolsos largos do jeans um tanto surrado. Fones imensos de ouvido chiavam com o som alto de rock que tocava. Os cabelos balançavam ao vento e acabou baixando um pouco o rosto, para que outras pessoas não pudessem ver seus olhos de bizarras cores diferentes. Odiava seus olhos, estava pensando seriamente em usar lentes de contato apenas para disfarçar a heterocromia.

Com aqueles olhos estranhos seria difícil viver um amor grandioso, que abalasse suas estruturas e que o fizesse olhar a pessoa amada como Sasori e Itachi se entreolhavam. Era impossível!

Passou de leve a mão pelo olho esquerdo.

Estava convicto de que esse era o motivo de ninguém achá-lo atraente. Estava sozinho já há tanto tempo, e nem ao menos entendia por quê. Sempre foi boa companhia, ou ao menos achava isso. Se importava de verdade com a pessoa a seu lado, fazia de tudo para deixá-la feliz.

Talvez o problema fosse ele ser um daqueles românticos exagerados? Do tipo que manda entregar flores no local de trabalho, que posta na internet vídeos de declaração de amor, que liga de noite para dizer que estava com saudades?

Resmungou, entristecido.

Era só uma forma de expressar que estava feliz por ter alguém especial... Era do tipo de pessoa que não sabia viver sozinho.

Caminhava batendo os sapatos no asfalto molhado, fitando os casais que andavam juntinhos.

Casais idiotas...

Decidiu fazer o trajeto até sua casa a pé naquela noite, para ajudá-lo a pensar um pouco e esfriar a cabeça. Nem estava com muito pique de ficar em casa, talvez saíssem um pouco. Havia dias como aquele em que realmente se sentia mal por estar sozinho.

Passou diante de um estabelecimento que já vira muitas vezes antes, as luzes piscantes batendo em seu rosto. Olhou casualmente o sex shop na calçada, cuja placa com os dizeres "aberto" piscava em vermelho. Um sentimento tedioso se formou nele.

Até cogitou entrar, mas o faria para quê? Não tinha ninguém para usar aquelas coisas...

Percebeu então que seu pensamento era um tanto descabido. A primeira pessoa a quem deveria agradar ou divertir era ele mesmo, certo? Pensando nisso ele solta um risinho e baixa os fones de ouvido para que descansassem no pescoço, subindo as escadas em direção à porta pequena.

O interior era exatamente o que esperava, como já havia visto muitas vezes. Uma variedade imensa de fantasias eróticas vestiam os manequins espalhados pela loja. As paredes em cores chamativas, cheias de pôsteres de cenas de sexo. Um jazz instigante tocava. Em um canto as prateleiras estavam cobertas de cima a baixo com vibradores e masturbadores. Havia uma sessão só de lingerie, outra só de loções e cosméticos. Mais à frente, outra destinada à dvd's e revistas pornográficas.

Casualmente o loiro pega um cesto, caminhando sem pressa e olhando tudo com atenção em meio à outros clientes.

Deteve os olhos quase em choque a uma inusitada calcinha cor de rosa, cheia de rendinhas delicadas, laços minúsculos e pequenos brilhantes.

Não que já não houvesse visto algo semelhante antes, afinal já havia ficado com muitas mulheres, mas ele havia lido certo? Aquilo realmente era para um homem???

Desceu o olhar pelas demais peças e percebeu que na embalagem havia fotos. Ficou intrigado admirando os corpos sem curvas dos modelos que vestiam aquelas peças. Corou de leve, sem poder negar que ficavam um tanto atraentes naquelas roupas...

Sem resistir colocou uma delas no cesto. Se o problema de estar sozinho era que parecia uma garota, com seus longos cabelos, então podia ceder à curiosidade de se ver vestido em uma lingerie cheia de rendinhas como aquela! Aproveitou para escolher uma cinta liga que combinava perfeitamente e gargalhou sozinho ao se ver pegando uma caixa de sapatos de salto alto pretos tamanho 42.

Acabou se empolgando com isso, rindo travesso enquanto passeava pelo corredor. Havia uma imensa variedade de géis e cremes excitantes. Riu consigo mesmo ao pegar nas mãos um imenso vibrador, tão largo que devia doer até na imaginação.

Bem, não havia problema em comprar um novo não é? Parecia divertido, cheio de ventosas, com uma inusitada ponta giratória. fazia tempo que não usava um, e imaginava que aquele movimento giratório da ponta devia ser bom...

Adicionou o item ao cesto. No setor de preservativo pegou um de cada sabor, incluso o que prometia uma sensação gelada como mentol. Escolheu um gel lubrificante com cheiro de morango que prometia aumentar a libido do parceiro, um par de algemas cor de rosa e quase teve um acesso de risos ao colocar no cesto um sutiã para homens que combinava perfeitamente com a lingerie que escolheu.

Acabou se divertindo tanto que esqueceu brevemente a frustração por não arranjar namorado ou namorada. Aquelas coisas lhe garantiriam ao menos uma boa noite de riso, ainda que duvidasse que conseguiria usar sequer uma delas. Por fim comprou um imenso chocolate em formato de órgão masculino, recheado com leite condensado que derramava conforme o mordia.

O homem que atendia no caixa tratava tudo com a maior tranquilidade, sem se afetar ou parecer desagradável e Deidara anotou mentalmente que, assim que conseguisse alguém, faria compras em casal ali. Era deveras divertido.

Saiu da loja já se sentindo um tanto melhor, no mínimo animado pela compra inusitada. A sacola preta escondia perfeitamente o conteúdo de suas compras. Seguia pela rua, ouvindo um som mais baixo e relaxado, em direção à sua casa. Naquela noite nada poderia estragar seu bom humor.

Ao menos foi o que pensou, mas mudou de ideia bruscamente no instante seguinte ao aguardar para atravessar a rua, sem perceber a poça imensa que se formava na guia. Inocentemente aguardava para atravessar quando um veículo passou, as rodas fazendo a água voar grosseiramente e lhe dando um asqueroso banho que o lavou da cabeça aos pés.

Aquele definitivamente não era um bom dia...

Xingou o quando os pulmões aguentaram, irritado com a água suja e mal cheirosa que cobria seu corpo e seu maravilhoso cabelo! Alguém tinha noção de quanto tempo demorava para hidratar e secar todo aquele cabelo???

Para sua surpresa o carro se deteve um pouco à frente, talvez fosse mal sinal. O motorista podia ter se ofendido com o modo como o xingara e pensando nisso, Deidara corre sem se deter nem mesmo ao ouvir que alguém o chamava, correndo em sua direção.

Quando sua mão foi segurada o sangue ferveu-lhe nas veias e ele se virou furioso, pronto a dar um soco na face no estranho. Para sua surpresa o homem desvia e segura seus pulsos.

– Desculpe — ofegante, o homem pede em tom totalmente sincero.

Deidara ainda levou alguns minutos para entender.

Conhecia aquele sujeito, mas de onde mesmo...? O rosto parecia um tanto familiar.

– Eu realmente não vi que havia água na guia, sinto muito — parecia desconsertado, muito calmo — Deixe-me te compensar de algum modo.

Era um conhecido que morava na redondeza, estava certo disso. A julgar pelo modo como ele parecia envergonhado e aborrecido suas palavras eram verdadeiras. Isso fez o loiro se soltar.

– Ta tranquilo, só preciso de um banho.

– Pode vir até minha casa, Deidara. Eu realmente sinto muito.

O loiro piscou algumas vezes.

– Como sabe meu nome?

– Não se lembra de mim?

– Err... — ficou sem jeito de admitir — Sei que nos conhecemos, mas não consigo lembrar de onde. Foi mal.

– Bem, isso não importa. Venha comigo, preciso me retratar pelo que fiz.

– Nem, relaxa. Eu estou perto de casa.

O outro não parecia muito convencido, mas assentiu.

– Ah, você deixou cair isso quando começou a correr — o homem sorriu inocente e Deidara petrificou ao reconhecer a sacola preta nas mãos dele.

O universo só podia estar de brincadeira...

Para total horror do loiro, e antes que tivesse tempo de impedir o maldito imbecil acaba olhando sem querer o interior da sacola.

A cor fugiu do rosto do homem completamente. Ele parecia querer dizer algo para não soar indelicado, mas coisa alguma saiu de seus lábios ao fitar a lingerie masculina que jazia sobre a caixa em que ilustrava um imenso vibrador cheio de ventosas.

"Ta de sacanagem comigo! Me diz que isso e é um pesadelo e por favor alguém me acorde!!!" — Deidara pôs a mão na testa, completamente envergonhado.

– Ah... Isso não é meu... É só que...

Rapidamente o homem fecha a sacola e a entrega, tentando parecer que não se afetou em nada, mas obviamente desconcertado.

–... Então, nos vemos alguma hora dessas — disse somente, dando meia volta e seguindo em seu caminho. O loiro estava tão envergonhado que nem conseguiu responder, apenas assentindo.

Mas que merda!

Batia a mão na própria testa diversas vezes enquanto voltava para casa. Ao abrir a porta da sala larga a sacola infeliz contra o chão, resmungando enquanto arrancava a camisa. Abria o cinto e baixava as calças para tomar um banho e se livrar da água de esgoto que aquele homem estúpido de olhos roxos e cabelos vermelhos lhe dera.

E então parou o que fazia, um arrepio subindo pela espinha. Riu desacreditado, odiando a droga de falta de sorte que tinha.

Achou que a vida estava de sacanagem com ele. Só podia!

Claro que se lembrava daquele homem, apenas demorou a reconhecê-lo porque não o via há algum tempo, mas era impossível esquecer aqueles olhos roxos espiralados. Era Nagato, irmão mais velho de Pain, e a pessoa que rejeitou Deidara quando este se confessou a ele quando tinha doze anos de idade.

Porque na época, aos 14 anos, Nagato afirmou que os olhos com cores diferentes de Deidara eram a coisa mais bizarra que já havia visto. E isso provocou tamanho trauma no loiro que nunca mais pôde gostar de seus olhos de cores diferentes.

Dentre todas as pessoas do mundo tinha que se encontrar justo com ele?

Notas finais
Pobre Deidara kkkkkk A parte dois já está em correção. Vou postá-la bem rapidinho, mas quero comentários ok? Preparem o coração, de verdade. Muita coisa ainda vai acontecer. Bj da Malki!